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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quando não é sorte




Contraditoriamente, o "salve-se quem puder" tão comum nas grandes cidades, tem matado muita gente. Todos os dias ouvimos, lemos ou assistimos histórias de violência. E por trás dessa violência, tem muito silêncio, alheamento e bolhas de enclausuramento. Ora, se existem aqueles que fingem dormir no assento preferencial de idosos, para não ceder-lhes o lugar, imagine quando o circo pega fogo. A tendência é ninguém interferir, fingir que não está vendo.

O fenômeno da violência geralmente, recai sobre pobres, negros, adolescentes, mulheres, gays. Não é menos grave quando ocorre com outras classificações sociais, lógico. Mas nessas citadas é bem mais gritante. E mais evidente ainda a diferença de tratamento quando a violência atinge a irmã de um juiz ou o filho de um empresário. Milagrosamente, os casos são resolvidos mais rápido.

Vou tomar como exemplo, o caso do vendedor ambulante, Luiz Carlos Ruas, mais conhecido como “Índio”, que no final do ano passado morreu espancado por dois trogloditas, por tentar defender travestis perseguidos por eles, num metrô em São Paulo. Para continuar vivo, Ruas deveria ter ficado calado, quieto e indiferente à dor alheia.

Ao contrário, ele fez o que qualquer pessoa na face da terra aconselharia não fazer: se importar com o outro; ir de encontro à violência, tentando usar o argumento da solidariedade. Colocar-se no meio da brutalidade e da estupidez. Apontar para um outro caminho que não seja o ataque ou a fuga.

Lembro que quando fui assaltada em Petrópolis, o moço que pastorava os carros viu; os motoristas que dirigiam seus carros pela via movimentada, viram; o porteiro do prédio viu. Ninguém se meteu. Diante da violência nua e crua, acionamos aquela voz que diz: "alguém vai surgir e vai resolver esse problema". Mas, se esse alguém por acaso for o Estado e a Polícia, só nos resta contar com a sorte.

Porque o Estado - e falo do brasileiro em geral, já que cito um exemplo de São Paulo e um daqui de nossa cidade - já assinou seu atestado de incompetência faz tempo. Os espaços públicos pertencem a todo mundo e não pertencem a ninguém. Logo, se os espaços púbicos não têm dono, nem o Estado consegue ocupá-los com o mínimo de segurança, então só nos resta a solidão no meio das gentes.

E, se não passarmos incólumes ao outro, corremos o risco de olhar para dentro do olho da violência e torcer para não morrermos na calçada movimentada de pedestres.

Salvar-se na sorte não é salvamento, é penitência. É só adiar o azar, sabendo que a qualquer momento ele pode voltar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Escrever

Reprodução internet


Sobre o verbo que titula esse post, eu diria que faz parte da minha vida como faz parte o sol para tudo o que há. A primeira vez que escrevi eu nem conhecia as letras então eu desenhava. Eu contava histórias na ponta dos lápis de cor e penso que isso já era uma forma de escrever o que eu vejo no mundo. E o que eu vejo no mundo nem sempre é o que o mundo vê. É tão somente, eu acho, uma forma de ver o mundo que não é melhor ou disforme. É só outra forma.

Eu tenho vergonha de dizer coisas do tipo, estou escrevendo um livro de contos. Na verdade eu tenho vergonha de não estar escrevendo o livro de contos como eu gostaria. De sempre arrumar uma desculpa para começar aquele conto ou terminar aquele outro já iniciado. Eu tenho vergonha porque, sobretudo, eu tenho muitos livros para ler e em todos esses muito livros para ler existem mil razões para só me manter leitora ou para desfiar outras linhas e tramas das palavras que já foram ditas. Mas isso é bem difícil, porque eu acho que tudo já foi muito bem dito ou está muito mal dito para ser dito de novo, e não que tenha de ser dito de novo de maneira melhor ou disforme. Só dito de novo, de um outro jeito.

É que às vezes a vida atrapalha. Tal como os pensamentos que não se acalmam ou se organizam, e não dão trégua para o silêncio necessário antes da dança da escrita. Tenho preocupações de sobrevivência que me tiram o sono e me tiram o sossego. E eu não nasci Arthur Rimbaud que conseguiu fugir para a África do Sul depois de levar um tiro do amor.

Eu me sinto num jogo de não começar a escrever meus contos, para fazer meu primeiro livro de contos e para continuar pisando nas linhas das calçadas, colocando vírgulas, pontos e parágrafos nos meus pensamentos, porque é assim que um escritor caminha. É assim que ele vê a vida. Mas às vezes a concentração chega antes ou depois da transpiração. 

Isso tudo parece uma grande desculpa, e eu já vou me desculpando. Fato é que não estou inventando a roda da procrastinação. E todo escritor um dia desprendeu minutos, horas, dias, anos fazendo coisinhas inúteis, pequenas emergências, arquivos abertos ou perdidos, anotações nunca encontradas, lápis sem ponta, caneta sem tinta, barulho do vizinho, o gato que desapareceu, como amontoados de coisas que vão se acumulando entre o ser e o fazer.

Antes, eu achava que para ser escritor era preciso ter vários livros e fazer lançamentos e tomar doses de uísque e paquerar com algum desocupado vestido de blazer. Agora eu sei que para ser escritor não é preciso quase nada. Ou são necessárias coisas diferentes e singulares a quem estiver disposto a segurar esse fardo. Mas, para ser isso que vos falo, por primeiro, é preciso admitir-se no vazio, no limbo, no silêncio, na incompetência de não sair da dor ou de não extrair dela a constância das palavras.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O nome





O nome é o traço mais marcante na vida de uma pessoa. Pode ser o nome mais comum. No entanto, ele é único. É o que reveste a existência nua de cada um de nós.

Inventaram de botar um “y” no meu nome. Pois, partindo dessa premissa, se a pessoa me escreve o nome com “i”, eu já fico 50% desinteressada sob qualquer aspecto dela.

Pior é que isso já aconteceu com um chefe que tive, com um namorado a quem eu tinha muito apreço e agora, recentemente, com uma moça muito gentil e talentosa – que é amiga virtual – e que não se importa com a grafia correta do meu nome. É meu nome pô. É o único que tenho. Até porque nem é composto. Não quer escrever meu nome com “y”, então me invente um apelido.

Eu acho que jamais conseguiria trabalhar feliz num telemarketing. Por várias razões. Mas a principal delas seria pelo fato de que é raro as pessoas do outro lado da linha se lembrarem do nome da pessoa que está ali querendo vender um novo pacote de telefonia.

Faço um esforço brutal para me lembrar do nome. Embora nem sempre consiga: “boa tarde, senhora, meu nome é “Pridsdurals” e a senhora gostaria de estar fazendo conosco o novo pacote plus delta azul blá blá blá?”. E eu, que não entendi da primeira vez qual o nome criatura, prendo a respiração de vergonha. Afinal, acho que mesmo que seja para dispensar um serviço -  que você não pediu, que você não está a fim, que você nem sabia que existia – de uma pessoa que é só um nome inaudível – mas que tem metas, que precisa conseguir convencer outros desconhecidos, cujo nome é só mais um em tantos de uma lista catalogada por um robô, é preciso ter um pouco de educação e candura.

Então, para me redimir eu digo: “Desculpe, eu não entendi seu nome”. E a pessoa repete. E eu, com toda delicadeza, digo que não tenho interesse. Invento uma desculpa ou digo a mais absoluta verdade, mas com doçura. E ela entende.

Meus gatos entendem seus nomes. Claro que eles estão sempre acompanhados de “bora”, “vamos”, “não”, “aqui”, ou junto com o barulhinho tilintante da ração batendo na louça de suas vasilhas de comer. De modo que eu tenho cá minhas dúvidas se eles sabem que seus nomes são Fellini, Dolores, Nicco, Morgan e Zoeh, ou se eles se identificam mais com “bora”, “vamos”, “ei!”. 

Porém, garanto que eles reagem individualmente aos nomes escolhidos. Se chamo Fellini, é ele quem mexe as orelhas. Se grito o nome da Zoeh é ela quem se esconde debaixo da cama. Sem contar com os inúmeros apelidinhos que eles ganham ao longo de sua existência. Enfim, o nome é como se sussurrássemos algo que conecta a vida a e alma.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Um novo tempo



A música do Ivan Lins cai bem nessa última crônica do ano. Ela diz assim: "Um novo tempo, apesar dos castigos". Ninguém duvida que estamos passando por situações gravíssimas mundo afora. Aqui ou acolá. Em Natal ou em Aleppo, não está fácil de compreender, nem de sorrir, ou até mesmo de sentir esperança. Mas é final de ano, deixemos ao menos acesa essa luz que aquece nossos sonhos.

Em "Cadernos do Cárcere", o filósofo Antonio Gramsci diz: "O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros". Será que estamos vivendo a escuridão desse fim de mundo? Não recomendo a leitura desse texto aos que pensam que o capitalismo tal qual como se apresenta é bom, e que medidas como a PEC do Fim do Mundo são necessárias para o "crescimento". Não percam seu tempo.

"Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta". Não concordo e tremo inteira por dentro quando vejo ou imagino um sujeito comprar um produto por 19,99 e revendê-lo por 199,90 usando o argumento de que nesse novo preço estão embutidos "impostos", "encargos trabalhistas", etc. Esse modelo não se sustenta mais. As pessoas não são bobas. É urgente que o pertencimento do mundo precisa ser mais igualitário.

"No novo tempo, apesar dos castigos/ De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga". O "produtivismo" desse sistema predatório, ligado à poluição global, ao trabalho escravo, ao aumento dos monopólios, às benesses para banqueiros e grandes empresários não representam mais o monstro forte e imbatível. Pelo contrário, o monstro está cansado, fraco, o neoliberalismo se esgota. O mundo não é regido somente por sistemas econômicos. Não é somente o capitalismo que está agonizando. "De todos os pecados, de todos enganos/ estamos marcados/ Pra sobreviver". A mesma sociedade que se engana é uma humanidade que sofre.

A tentativa da direita e da extrema direita de impor um pensamento hegemônico cultural, social e econômico não é de agora. Vivemos isso há pelo menos uns 40 anos. “No novo tempo, apesar dos castigos/ Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas”. Mas a gente resiste. Nossas revoluções internas não sucumbem tão fácil às fantasias do mundo da propaganda. Os soldados voltam mutilados das guerras. E as mulheres seguem enfrentando suas correntes, em busca de um pensamento livre, de um ventre livre e por igualdade de gênero.

São tempos de ações e de conjugações verbais como: resistir, acreditar, insistir, rever, transformar. O predatório capitalismo definha. É o fim do mundo para essa barbárie. Em tempos escuros, o que mais nos vêm à tona é a certeza e a necessidade de luz. Mulheres, homens, gays, negros, índios, crianças, jovens, idosos, estudantes, trabalhadores, pessoas. Somos muito mais fortes do que eles querem que acreditemos. Eles têm poder, nós temos o tempo!

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

já vai tarde, 2016!



Eu sei que a gente ainda não acabou o ano, mas eu preciso fazer minha retrospectiva pessoal. E dizer que 2016 já vai mais do que tarde. Aliás, 2016 começou a dar com os burros n´água lá pelos idos de abril.  De lá para cá foi só ladeira abaixo.

E que já não é mais tão pessoal assim, uma vez que eu estou aqui dividindo com vocês, eu não vou falar somente de coisas pessoais. Aliás, eu acredito que tudo é pessoal. Não dá para dissociar uma opinião ou atitude do nosso corpo e mente e dizer "não é pessoal" e daí se transformar numa gaveta ou numa berinjela e deixar de ser uma pessoa toda vez que falar o que se pensa. Então, evitarei intimidades do tipo dizer que tenho intolerância a lactose, e o que acontece quando eu como comidas impróprias para um intolerante à lactose.

E por que que eu acho que 2016 já vai tarde? Seguem alguns singelos exemplos: Donald Trump venceu as eleições nos Estados Unidos; e acredito que nessa muita gente vai concordar comigo. Pessoas caçando Pokémon pelas ruas. Sem comentários. E, esse não é um mal de 2016, grupos de WhatsApp. Afora os intermináveis "bom dia" que a gente tem que ler, agora tem também as correntes. Eu já quebrei tantas delas me sinto uma assessora direta da Princesa Isabel.

Coisas nada a ver do ano: o excesso de homem de barba grande e de coque tipo samurai, todos pensando que são o cara da Trivago (e não são); mulheres vestindo caudas de sereia (como assim? Uma síndrome tardia de Ariel?) e a Janaína Paschoal babando a “hashtag-alôca-simbólica-mãe-do-golpe-pelo-bem-das-criancinhas”. Momento bem feito do ano: o salafrário do “Malafa” revoltadinho com a condução coercitiva.

Frases do ano: “primeiramente Fora Temer”, “o choro é livre”, “primeiro a gente tira a Dilma, depois tira o resto”, “Vai morar em Cuba”. Momento mais musical do ano, o Bob Dylan ganhar o Nobel de Literatura. Momento mais poético do ano, o Nobel de Literatura ser para um compositor musical. Momento mais a cara do Temer do ano, o ministro da Educação do Governo golpista receber projeto do Alexandre Frota para melhorar a gestão.

Momento do ano em que percebi que os capitalistas empresários estão lucrando (e muito) com a crise: o quilo do feijão ultrapassar os oitos reais nas prateleiras dos supermercados.

Medos em 2016 que permanecerão em 2017: desemprego, crise, recessão, o Congresso Nacional, a rede Globo, os neo-pentecostais fazendo e aprovando leis, a bancada da bala e dos bois aprovando o uso de metralhadoras nas vaquejadas. Frase fofa do ano: "Tchau, querida”. Arrependimento do ano: muito pessoal, não vou falar. Mas acho realmente uma pena que o meteoro não tenha passado em 2016.


Publicado no Novo Jornal, na versão impressa; e no portal Substantivo Plural

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Pouca fé






Falo com um cara por telefone e lhe envio um e-mail e, do nada, ele surge como uma sugestão de amizade na minha página no Facebook. Um amigo comenta que viveu algo parecido. Entro numa página e vejo um anúncio de uma outra coisa que pesquisei dias, meses atrás. 

Claro que o leitor sabe que em se tratando de internet, isso não é coincidência e sim o poder dos algorítimos. As palavras que digitamos, as pessoas que visitamos ou curtimos, os e-mails que enviamos, e até mesmo nossos desejos são mapeados e codificados através desses algorítimos. Somos direcionados àqueles que escrevem, sentem e pensam parecido com a gente. Os algorítimos nos colocam em bolhas.

Quer um exemplo? Quando eu acordei no dia 9 de novembro e fui avisada de que Trump seria o novo presidente dos EUA, um estarrecimento se apossou de mim. Achava que era improvável isso, porque TODOS os textos e notícias e pessoas que habitavam a telinha do meu computador, se riam daquele ridículo.

Sempre fui declaradamente contrária ao golpe do PMDB "et caterva" e da retirada nefasta e criminosa da presidenta eleita. Embora eu visse uma massificação do pensamento contrário ao meu, me custava acreditar, já que, de novo, a bolha me mostrava pessoas contrárias ao golpe. Num dia que resolvi sair um pouco da bolha e escarafunchei algumas páginas pessoais e sites, as barbaridades que li e assisti me deram um choque de realidade. A quantidade de gente que odeia, que é fascista, que quer a volta de militares e donas de um analfabetismo político de dar dó, é muito grande.

Mas não é só no mundo virtual que isso existe não. Quem dera. Por esses dias meu companheiro sofreu um acidente de carro envolvendo três veículos. Um saldo de um ferimento nas costas, um braço provisoriamente enfaixado e um carro destruído. Dá para superar os danos materiais? Sempre dá. Mas, o ocorrido deixou marcas em nossas crenças na humanidade. Todos os envolvidos na colisão, inclusive a responsável, agiram de forma civilizada e cordata. 

Porém, enquanto tivemos de esperar por três horas para a Secretaria de Mobilidade da Prefeitura chegar e lavrar o boletim de ocorrência, fomos vítimas da crueldade e do fascismo. Motoristas passavam e vaiavam. Outros batiam palma sarcasticamente. Outras passavam bem devagar, tornando o trânsito ainda mais caótico. Outros soltavam piadas. Nenhum gesto de solidariedade no trânsito. O que me faz pensar que o problema dos algorítimos virtuais e das bolhas em que estamos nos entranhando nos tira, além da visão panorâmica das coisas, a condição de nos colocarmos no lugar do outro. 

Qualquer pessoa está sujeita a tombar, a cometer erros e sofrer acidentes de trânsito. Mas, quantas sabem disso e são capazes de refletir e sair de suas bolhas? Não sei. No momento, ando com pouca fé, dentro e fora de minhas bolhas.



 Texto publicado ontem no Novo Jornal e no Substantivo Plural

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Tabuada dos Nove





Quando eu era pequena, uma das coisas mais difíceis do mundo era decorar a tabuada dos nove. Eu também ficava muito confusa sobre quem era o pai ou o filho, quando se tratava de Deus e Jesus. 

Bom, só bem depois foi que eu vim perceber que era a tabuada mais fácil do mundo. Bastava decorar a penúltima fila das tabuadas de 2 a 8, que estávamos ali, diante de toda a tabuada dos nove. Uma espécie de resumo das tabuadas anteriores.

Sempre que me deparo com situações difíceis na vida adulta eu me lembro dessa besteira. E penso que uma hora ou outra, independente da complexidade, os problemas se resolverão.

Meses atrás, quando eu assistia na TV aquele homem branco e feio, esbravejando palavras de ordem e recuperação dos Estados Unidos, revestido de um populismo falso e sem apresentar de fato soluções concretas e minimamente razoáveis para seu país, tendo expostas suas declarações misóginas e suspeitas de abuso sexual eu pensava: Não. Os norte-americanos não são malucos de eleger um sujeito como esse. Não acredito que isso seja possível.

Mas foi. E o que isso tem a ver com meus problemas? Tem muito a ver quando eu percebo que o mesmo discurso de ódio está aqui! Quando eu vejo que tudo e qualquer sentimento, pensamento ou reação que pareça ameaçar os privilégios dos brancos - ricos e ainda "donos" simbólicos das capitanias hereditárias no Brasil - são rechaçadas com discursos de ódio. 

O mesmo discurso que quer aniquilar com o multiculturalismo, com a vozes plurais das religiões, com as melhorias ou efetivação de direito das minorias, o discurso que quer acabar com a filosofia, a arte, a sociologia e o pensamento crítico nas escolas; o direito de ir e vir (e de ser e de amar) dos homossexuais, a militarização violenta da "ordem", o direito à pluralidade de informações.

Então, eu vejo um representante desses do ódio a tudo que não é espelho, do ódio ao negro, ao homossexual, ao pobre, ao pensamento de esquerda, sendo eleito nos EUA, e vejo que aqui no meu país, gente com esse mesmo pensamento comemora e aponta um sujeito ainda mais perigoso que o Trump como possível candidato das eleições presidenciais em 2018. Eu não vou dizer o nome dele aqui, porque me recuso mesmo. Mas ele é pior que o Trump, porque em seu currículo nefasto ele ainda carrega nas palavras e gestos o fundamentalismo religioso.

Vivemos tempos de uma tabuada muito difícil. Se Deus é pai e Jesus é filho, mas o filho é Deus ao mesmo tempo, isso não me parece mais um problema. O que me aflige é que sejamos filhos de uma nação que mais odeia, do que pensa; uma nação que não consegue vislumbrar que direito não é só aquele adquirido para si. Não existe amor numa nação misógina, homofóbica, racista, fascista, reacionária  e que não consegue enxergar os outros números, as outras cores, e as outras aritméticas da vida.