




* Texto publicado ontem no Novo Jornal
Esse é mais um espaço que crio para falar sobre quase tudo, ou seja, para falar sobre quase nada. Além de falar dessas coisas que me afetam o tempo inteiro, como o peso das formigas, o barulho das lesmas e a força das borboletas.





Música pra mim é assim: algo que é mais fácil sentir do que falar. Carito bem o sabe. Devo-lhe até perder de vista muitos crepúsculos, algumas palavras alvissareiras sobre Estirado no Estirâncio ou Sol sem sombra de dúvidas, Edição Especial do Mada 2008, d’Os Poetas Elétricos. Disco que deveria ser apresentado aos caras do Beirute e ao artista solitário que compõe o Bon Iver, para que eles soubessem que por aqui, debaixo desse sol tropical, há música para ouvidos, olhos e pele, muito além daquela produzida pela espuma das ondas se desmanchando na areia.
Sempre que mergulho nessa caminhada sensitiva pela música, descubro hora ou outra a presença do Fellini, que se aproxima e se aconchega por cima de algum papel ou canto de livro. Geralmente, em posição de esfinge, boceja e inclina a orelha pros lados, demonstrando interesse. Intriga-me a curiosidade felina. Invejo a leveza dos seus gestos. Dele, só me assemelho nessa reverência pelo silêncio que guardam os gatos e os homens inteligentes.
Esse estado de sossego que me desliza por brechas invisíveis; revelando-me a poesia que há nos cantos de qualquer parede e qualquer memória; a beleza dançarina das notas que se nascem no pulmão e explodem nos metais; no namoro sonoro entre os dedos e as cordas e que prescinde de luz. Basta o olhar de dentro. E na canção que ainda vai nascer da inspiração de alguém que espera e encontra no silêncio.
Texto repetido *