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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ele é linda, ou seria ela é lindo?



Estreou na Netflix há poucos dias o documentário “Laerte-se”, que tem como personagem principal a cartunista Laerte Coutinho.

Ela  há quase dez anos deu um esticada na corda do significado de liberdade individual e questões de gênero, após decidir pelo crossdressing (vestir-se como mulher). Ganhando, de quebra, ainda mais admiração e respeito por parte de alguns e, óbvio que também muito bullying e demonstrações de intolerância, incompreensão e ódio.

Afinal, não é todo mundo que entende o que significa para um profissional já bastante respeitado no mercado, com cerca de 40 anos de carreira como cartunista, criador de personagens como Piratas do Tietê, Palhaços Mudos e Fagundes, pai de três filhos, algumas ex-mulheres, resolve, mudar seu guardarroupa, trocando as calças masculinas por saias e as cuecas por calcinhas. Claro que esse tipo de mudança, de escolha e transformação não acontece de repente. O personagem Hugo, criado por ele, que o diga: foi trocando as vestimentas e assumindo sua transgeneridade nas tirinhas, uns passos antes que seu criador na vida real.

Eu sempre pensei em Laerte e na sua doçura de enfiar uma britadeira simbólica nos padrões convencionais como um sujeito político. Político no sentido mais puro: aquele fenômeno que nos conduz a uma posição, a uma escolha e à defesa disso.

Laerte é gay, bissexual, transgênero? Namora uma lésbica, quer colocar peitos de silicone mas jamais pensou em cortar o pinto fora. Laerte é uma mulher? Eu não sei se ela está muito preocupada em preencher todas as lacunas para esses questionamentos.

Ela é uma provocação ambulante, mesmo que não pretenda fazer isso o tempo inteiro. Aos 23 minutos do documentário de uma hora e quarenta, que durou três anos para ser feito, eu e meu companheiro damos uma pausa para falar sobre nossos limites e nossas necessidades silenciosas de ultrapassar esses limites. Eu confesso que gostaria de tatuar todo o rosto e raspar o cabelo. E que me falta coragem, óbvio. E ele, que gostaria de usar saia e experimentar essa liberdade do “ventinho” no meio das pernas. Laerte é também essa representação de nossas pausas.

Laerte-se é dirigido por outras duas mulheres, Ligya Barbosa da Silva e Eliane Brum. Essa última aparece na frente da tela, fazendo o modelo de entrevista, dos mais encantadores que eu conheço: que é quando mal se ouve a voz do entrevistador e pouco se vê da sua imagem. Afinal, o verbo é fazer notícia e não ser notícia. Levou três anos para ser produzido. E eu penso que é um filme que traz um pouco da intimidade da Laerte mulher que não está preocupada em ser mulher, e sim em trabalhar-se no processo de sentir-se mulher.

E isso nós também fazemos o tempo inteiro. Em cima dos nossos muros ou por trás deles, estamos num constante processo de escolhas, aprendizados e sentimentos com relação a quem somos, o que queremos e aonde chegaremos com isso.

Não bastava ser genial nos cartuns, um cronista do seu tempo através dos desenhos, uma referência nacional nessa área. Ele precisava ir-se além. E é por isso que ele é linda ou ela é lindo. Essa terminologia, confesso, que me confunde um pouco ainda e faz parte sim das minhas limitações. Porque ela nos dá a marreta para que possamos quebrar nossos muros. Se será apenas uma pequena fresta ou a queda do muro de Berlim, isso aí já é outra história.

fiz modificações no título aqui no bicho, mas já havia publicado no Substantivo Plural com outro título que você pode ver aqui

"Você não presta", clipe da Mallu Magalhães


Dá uma olhadinha nesse clipe


https://www.youtube.com/watch?v=hrh6zd5c0OY

agora, beleza... você assistiu e, sinceramente, você acha que ele sexualiza demais os negros ou têm uma letra que os inferioriza? eu, particularmente, achei o clipe bonito e a cantora não tem cancha para ser agressiva ou ofensiva contra qualquer que seja o movimento, sobretudo o racial. mas alguns movimentos se sentiram ofendidos e tal. e a moça, respeitosa e dona de um domínio elegante e profissional, imediatamente fez questão de se desculpar. veja aí o que ela escreveu:




Fico muito triste em saber que o clipe da música “Você não presta” possa ter ofendido alguém. É muito decepcionante para mim que isso tenha acontecido. Gostaria de pedir desculpas a essas pessoas. Meu trabalho e minha mensagem têm sempre finalidade e ideais construtivos, nunca, de maneira nenhuma, destrutivos ou agressivos.

A arte é um território muito aberto e passível de diferentes interpretações e, por mais que tentemos expressar com precisão uma ideia, acontece de alguns significados, às vezes, fugirem do nosso controle.

Sei que o racismo ainda é, infelizmente, um problema estrutural e muito presente. Eu também o vejo, o rejeito e o combato.

Li cada uma das críticas, dos posts e comentários, e o debate me fez refletir muito sobre o tema. Entendo as interpretações que derivaram do clipe, mas gostaria de deixar claro minhas reais intenções.

A ideia era ter um clipe com excelentes dançarinos que despertassem nas pessoas a vontade de dançar, de se expressar. Foram convidados pela produtora e pelo diretor os bailarinos Bruno Cadinha, Aires d´Alva, Filipa Amaro, Xenos Palma, Stella Carvalho e Manuela Cabitango. Com a última, inclusive, tive a alegria de fazer aulas para me preparar para o vídeo.

É realmente uma tristeza enorme ter decepcionado algumas pessoas, mas ao mesmo tempo agradeço a todos por terem se expressado. E reitero o meu pedido de desculpa. É uma oportunidade de aprender.

Espero que, após este esclarecimento, seja aliviado deste espaço de conversa qualquer sentimento de ofensa ou injustiça, ficando os fundamentos nos quais tanto acredito: a dança, a arte e o convite à música.

MALLU"

terça-feira, 16 de maio de 2017

Direito de ser





Minha avó aboiava dentro de casa. Isso mesmo. Era uma espécie de evocação de suas memórias. Uma forma de estar próxima do seu pai, irmãos e agregados que aboiavam para conduzir o gado pra dentro ou fora do curral, nos tempos em que ele vivia lá pelos lados da Fazenda Surrão, no semiárido da Paraíba. Minha avó se foi há 21 anos. E eu, que não tive a sorte de enxergar com seus olhos a infância no mato, guardo nas minhas memórias aquela voz afinada e um vibrato constante de um canto preenchido pela verdade infantil das vogais.

Há uma fase em que a direção dos gestos e pensamentos se aceleram em direção ao tempo ainda não vivido. Alguns dão o nome de ansiedade. Eu dou o nome de juventude. O mundo, para essas pessoas, e o que há no mundo está a um toque das mãos e a míseros três passos. No entanto, a cada real movimento dado, se instala um enorme vazio daquilo ainda não apreendido, vivido, mergulhado. É uma fase boa, pelas não ressacas, admito. De resto, prefiro essa sensação de que estou aqui e agora.

E se a poeira dos meus sapatos um dia virão do deserto do Saara não tem a menor influência sobre mim ou sobre minha decisão de tomar chá de hortelã perto da hora de dormir. Gosto desse horário porque é quando o chá se torna mais importante que a fantasia do que está por vir.

Assisti há pouco um vídeo da cantora Marina em que ela fala da passagem do tempo em sua vida e das coisas malucas que estão ocorrendo no mundo inteiro. Do surgimento de gente reacionária e da esperança de que para cada uma dessas aberrações, surge também alguém, ou vários movimentos LGBT, de mulheres, transgêneros e de negros. E que são extremamente importantes, porque abrem espaço para que as pessoas não só reclamem, mas reivindiquem, se coloquem no mundo. Ela acredita que para cada surgimento de tipos como bolsonaros e malafaias, “compensa” de um outro lado, porque surgem pessoas desses movimentos. Quase como uma resposta, uma reação. Ela não cita, mas eu o faço: pessoas como Laerte, Liniker, Gregório Duvivier e Lola Aronovich me fazem compreender o recado da Marina.


Mas, o que ela fala sobre a passagem do tempo é que é bacana de ouvir e eu replico: “Quando eu fiz 50 foi libertador; quando vi que eu já tinha me construído e já tinha direito de ser tudo o que eu quisesse, sem dar tanta satisfação. Mas, sem arrogância. Aos 60 eu sinto que comecei a envelhecer, mas eu tô gostando. Jamais voltaria atrás no tempo. Eu tinha que ser exemplo pra tudo, eu não tenho que fazer isso. Acho que o importante é ter curiosidade e gostar da vida”. E eu percebi a interseção entre duas mulheres tão diferentes e distantes. A cantora famosa e a avó aboiadora. Eis aí um recado que me representa e que eu divido com você, meu leitor.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Do alto do penhasco dá para sentir o coração batendo



A adolescência é uma fase estranha e difícil. Nos enlutamos do corpo de criança, ganhamos um turbilhão de dúvidas e sensações físicas que não sabemos muito bem como lidar e a vida se torna uma via de mão dupla, entre a ideia de invencibilidade e uma imensa incapacidade de suportá-la. Somos capazes de tomar um porre de vinho de garrafão numa noite e fazer uma prova no dia seguinte. E, no entanto, os ossos podem se desintegrar se alguém critica nosso jeito de se vestir. Há, inclusive, quem leve esse sentido de vida para o resto da existência. Ficando num limbo entre a fase imberbe e o peso da maturidade.

Os conflitos da vida de um adolescente são o mote para o filme It’s kind of a funny story (2011), dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck. A tradução literal em português seria “Tipo uma história engraçada”. Mas, infelizmente, os gênios do marketing resolveram intitular o filme no Brasil de “Se enlouquecer não se apaixone”. Talvez fazendo um trocadilho inoportuno com a comédia chata “Se beber não case”. Já que em ambas as películas o talentoso - e estranho -  ator Zach Galifianakis, faz parte do elenco.  Nesse, ele interpreta o amigo Bobby, que coleciona idas e vindas à ala psiquiátrica de um hospital, devido a uma estranha obsessão: querer morrer.

O filme trata do suicídio de uma maneira absolutamente leve e longe dos tabus que costumam acorrentar esse tema. O jovem Craig (Keir Gilchrist) tem pensado em se matar de maneira constante. Acha que está apaixonado pela namorada do melhor amigo e parece não suportar as pressões dos 16 anos e das decisões que seria obrigado a tomar nessa idade, como a escolha da profissão após o ensino médio.

O roteiro permite uma fluidez sem muito "mimimi" e clichês. Numa das cenas, o rapaz descreve como os pensamentos o estão sufocando, a ponto de achar que não vai conseguir segurar a onda e vê como única opção se jogar da ponte. O texto é muito respeitoso com os conflitos internos, aos quais todos os seres humanos estão propensos a passar.

A mesma transparência com que ele lida com o problema diante da maravilhosa psiquiatra, interpretada por Viola Davis, o faz ir por conta própria a uma clínica para pedir ajuda.

Lá, ele encontra diversos tipos de pacientes psiquiátricos, inclusive a adolescente Noelle (Emma Roberts) com quem vai descobrir que viver pode até não ser um conto de fadas ou um comercial perfeito da terra do Tio Sam, mas pode valer a pena se for uma aventura a dois.

Os personagens da ala psiquiátrica são caracterizados com os mais diversos problemas de saúde mental. Mas o bacana é que nenhum deles caricatura a doença mental, nem coloca no pódio a “loucura” apoteótica ou gente descabelada e babando.

O que é muito pertinente. Porque como diz um amigo meu, existem muitos doidinhos mansos por aí. Muito mais equilibrados do que os que se acreditam “normais” e estão patinando num mar de narcisismo, a destilar neuroses mal resolvidas em cima dos outros, ou então diluindo suas frustrações e angústias em doses constantes de álcool e outras substâncias, sem falar na dependência de pílulas para dormir, para levantar, para pensar, para ficar feliz, para levantar... a moral.

Li algumas críticas colocando como ponto alto a interpretação do ator adolescente, quando ele canta a canção Under Pressure, do David Bowie. É legal mesmo. Mas, eu não entendo muito de música então vou ficar por aqui nessa cena.

https://www.youtube.com/watch?v=F8qFALUcWnE

Mas, na verdade, para mim, o que me impressionou nessa história – que não é nada engraçada, mas também não é melodramática – é que às vezes podemos nos colocar diante do penhasco, com impulsos de “voar” para “longe”. E, ao invés de nos seduzirmos com infinito da paisagem – deveras  inalcançável e impossível – olharmos para dentro. Nos encararmos com coragem e respeito. Permitindo que a fantasia flerte com a realidade, sem que uma ou outra precise ganhar a batalha.



domingo, 23 de abril de 2017

Ditadura política





Eu estava diante de pessoas bacanas. Dessas que quando a gente sai de perto delas, levamos conosco um cheiro de decência, misturada à gratidão. Eram pessoas legais, de mesa posta e coração generoso. Dos dois tipos de bolo, porque na casa havia dois aniversariantes, ao pão assado e o café, nem forte nem fraco, bolo de rolo, brigadeiro feito com a ajuda da caçula de nove anos, tudo tinha sabor de acolhimento. No entanto, em alguns momentos, nos entreolhávamos quase que perplexos, incrédulos. O senhor de grandes olhos azuis, que só usa branco e completava 74 anos, quebrou o silêncio e traduziu o que nos afligia, falando do porvir com certa melancolia. "O futuro do Brasil é sombrio", disse.

Em outros tempos talvez eu procurasse imediatamente por uma saída mental que refutasse aquela sentença. Afinal, ser jovem é sobretudo achar que o futuro é longe e demora a chegar. Só que depois dos 40, o futuro está sempre ao alcance do toque. E ficamos mais sensíveis aos espinhos que por ventura nos espetam os dedos.

Há qualquer coisa de comovente nos dias. Quando as trevas do passado voltam a roubar a luz que nos apontava para um mundo melhor. Pode até ser que não fosse o mundo todo. Mas o mundo de dona Maria e seu João, com feijão e mistura à mesa, todos os dias. E o neto entrando na faculdade, com sapatos novos e uma cabeça aberta para o futuro fértil das descobertas. E não como agora, sob a ameaça de sentar no deserto das mordaças daqueles sacripantas, ladrões do direito de pensar e questionar - como se já não fosse o suficiente nos roubar em recursos e em privilégios políticos. Essa gente tosca e protocolar, donas das emendas que drenam até mesmo os suores do povo brasileiro.

Há uma alegria triste nos olhos da menina que faz biquinho e tenta parecer a Gisele, não percebem? Há algo de triste no tilintar das caixas registradoras, quando o homem descobre que deixou mais da metade de sua vida sentado diante dela, enquanto ela permaneceu absolutamente indiferente ao toque dos seus dedos.

Há qualquer coisa de muito indecente nesse barulho egoico das câmeras digitais, dos instantes “eternizados” por quinze segundos, que ganham mais importância nos cliques do que na vida real. Não se pode negar, há alguma coisa de muito comovente na ignorância que nos tolhe a imaginação e a poesia.

E eu também gostaria muito de discordar quando aquele mesmo senhor falou que vivemos tempos de ingratidão. Eu acrescentaria falta de educação também. Os novos vizinhos não nos cumprimentam no jardim. Os adolescentes não reconhecem a força do trabalho dos pais. E os pais. Bom esses, eu espero que um dia cheguem aos 70 anos e que olhem para o futuro com menos melancolia.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Tempo de sofrer


Ilustração de quadro de Brugel


Fui à Ribeira dia desses. Em uma das ruas perpendiculares da Duque de Caxias, havia estacionado um carro do Itep. Dentro dele alguns homens que pareciam capturados, sendo vigiados por policiais. Na verdade, estacionado é eufemismo porque o carro, sob a condição do uso (e abuso) estatal estava parado no meio da rua. Mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Um dos detidos estava visivelmente abatido. Como se tivesse levado uma grande surra, ele oscilava para um lado e outro, prestes a desabar. A cena chamou roubou a atenção de muitos outros, causando um certo frenesi.

"É pra ser assim mesmo! Tem que dar com força. Quando esses caras assaltam uma pessoa, eles não têm pena de ninguém. Tem mais é que botar pra *@#$%$#", esbravejava um ambulante.

Eu não acho que mais violência dessangre a violência nossa de todos os dias. Eu não acredito que tratar com a mesma moeda o agressor vai torná-lo uma pessoa melhor ou um pacifista. Essa ideia de punição, de olho por olho, dente por dente, legitima uma opressão que só tem crescido no nosso país nas últimas décadas. É um tipo de fascismo substantivo que incendeia os ânimos de alguns homens de bem. 

A diferença é que agora, em evidente crise, o estado de exceção, a violência periférica, a falta de estrutura e de direitos não atingem somente as classes menos favorecidas - historicamente o alvo dessa violência. O estado de exceção chegou na classe média. Aumentaram os crimes, os assassinatos em padarias e farmácias, execuções nas esquinas de importantes avenidas da cidade em bairros nobres. Somos todos alvos, ou pelo menos 97,3% de nós. Porque sim, existe uma pequena casta blindada, apenasmente observadora e donatária de tantos privilégios que são capazes de ficar mais ricas e "prósperas" nessa crise que tem drenado até mesmo nossas esperanças.

Aliás, os últimos dias não têm sido fáceis. Vivemos num tempo de sofrer constante no quesito crueldade política, social, econômica, conjuntural, midiática e patriarcal. Estamos sempre diante de aberrações. O deputado energúmeno que eu me recuso a falar o nome, disse em um discurso no Rio que teve uma filha porque “fraquejou” na hora do sexo; um sujeito no BBB que só foi expulso após alavancar por meses a audiências com sua atitude abusiva contra a namorada; o homem do aviãozinho de dinheiro das noites de domingo achacando e humilhando a funcionária Sheherazade (que costuma achacar e humilhar em seu telejornal quem pensa diferente dela); estudantes de medicina fazendo fotos com as calças arriadas e simulando vaginas com as mãos. Enfim, frente a esse estado de coisas, resta-nos ficar mais atentos a o que dizemos, pensamos e fazemos. Sermos também mais compreensivos e solidários uns com os outros. Talvez um mundo mais justo ainda possa surgir.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ai que preguiça que eu tenho dessa tal felicidade ...

https://www.youtube.com/watch?v=R0gAO-YM5qA&feature=youtu.be

A felicidade é ou não é uma quimera?