terça-feira, 17 de novembro de 2009

A cor do dia

melhor construir gestos que cultivar palavras vazias.

minha avó parava o vento com os quadris e fazia ele dar meia-volta. e eu pensava que era só o balanço da rede e cantiga de ninar. deixa que não, era sabedoria.

quando o vento voltava, geralmente trazia recado do jasmineiro do vizinho: anunciando o cair da tarde, a despedida dos passarinhos e a madorna do córrego que, ao meio-dia, tinha mania de fotografar as nuvens e de exibi-las no chão do leito. e eu pensava que era só luz. deixa que não, era magia.

todas essas coisas só porque hoje eu vi um beija-flor beijando uma plantinha lilás, trepadeira e bailarina, tendo como palco um muro todo despedaçado no meio da rua, ali perto da Junta Comercial. e eu pensando que o dia seria de comezinho a chato. deixa que não, o dia me presenteou com um passarinho beijando a flor que eu ganhei da rua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vagamundo

Para experimentar o alívio da dor lancinante na fronte e por trás da nuca são necessários a aspirina e o descanso. Assim como entender que para que os acordes despertem os mais doces sentimentos ouvidos adentro, seria necessário antes o exercício das cordas paradas, o piano fechado, os olhos miúdos pela paz do silêncio. Por isso, até hoje, silencio quando um bem-te-vi gorjeia pedindo passagem para um bom dia de verão.

Mesmo que esse dia seja mais um entre tantos outros nessa travessia pelo deserto.

(E os teus olhos que me falam de paraíso apenas incidem o inferno dos meus, deitados à espera do pesadelo. Esse emblema da garganta seca e da pele murcha pelo cansaço da chuva que nunca chega, e que nunca mancha essa terra de índios dizimados)

Para que a curiosidade se descortine em descoberta, a dúvida chegou primeiro. Antes das nuvens desenharem respostas no céu, o vasto e ininterrupto azul se recusa a dar explicações. A ciência não salva o homem da imagem no espelho.

(A imensidão traz coragem de seguir adiante ou revela o abandono).


Só é um lugar dentro da alma.

Moram nestes versos decaídos certas estrofes que me pertencem e que jamais me libertarão dessa coisa que alguns dão nomes.

(Angústia. Solidão. Desânimo. Melancolia. Cansaço. Pedaços. Sede. Abismo)

Sou a ausência de nomes. Me valho da leitura dessa terra seca para redescobrir o pesadelo dos índios. Durmo o sono despedaçado dos abismos da noite. Tenho curiosidade pelo que já passou. Sou artífice de uma ciência que não tem espelho. (Só dúvidas). Não sou eu mesma nem os olhos do outro.

Nômade na minha própria casa. Esse deserto que me atravessa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Confissões

Aos 19 anos qualquer embarcação miúda é segura. Minha avó, nos mais de 70, já não aceitava qualquer coisa. Desejara um navio, de preferência com muita gente no cais a se despedir dela na hora da partida. E assim se foi. Ontem foi o dia dos mortos. Dentro de mim jazem alguns deles. Antes eram cadáveres. Mas já os icei à condição de almas e agora aprendo com eles sobre a inexorável caminhada. Talvez ainda me restem algumas braçadas nesse mar ora silente ora ruidoso. Que tem me transformado num corsário avesso à patifaria humana.

Nada como um dia atrás do outro

Era chegada a hora.
Antes, passara uns dias mantendo o diário atualizado. Nau em calmaria.
Agora a tempestade chegou junto com o calor. E o silêncio toma sua forma mais sublime e chama a boca para uma dança que não tem música para acabar.
Falando em hora, sem tempo para colecionar clichês alheios e misericórdias vazias nos semáforos.

No mesmo dia um gato morto. Os olhos, pelo estarrecimento de olhar direto na cara da morte, enegreceram, guardando toda a sabedoria do mundo. Um casal deitado na calçada, interditando o meio-fio. Mais que o gato, é fato, que morrera esticado bem no meio da calçada. Eles não. Eram um pouco calçada e um pouco asfalto. Ambos de camisa preta numa infeliz coincidência (ou seria mimetismo de amor?). A cidade não entende aquele sono. Sorry, os burgueses ocupados demais com seus cartões de crédito. Aquela cena me enterneceu. Tenho inclinações para conjunções urbanas. O que está ao meu redor também sou eu. Não sei somente assistir. Queria acorda-los ou, quem sabe, experimentar do mesmo sono que torna absurdos e inconvenientes a explosão de luz solar, o barulho dos motores, o bailado monotemático dos semáforos, um ou outro pensamento que escapa goela afora dos que passam. Gentilmente, ele emprestava a mão esquerda como travesseiro para a cabeça embriagada de sol da mulher. Percebam, não era a extensão do braço que dava apoio à quietude mortal da moça. Era a palma da mão que fazia fronteira com os ladrilhos e, assim, separava seu rosto já surrado das marcas da rua. Aquilo caíra-me como um canto, como quando ouço The Canals of our City, foi como abrir o mapa do mundo e achar o caminho de volta para casa. (Decerto, que deve existir um pouco disso nas mãos de outras pessoas?). Sorry, não estou aqui para trazer respostas. Tenho inclinações para as hesitações das mais diversas espécies.

Mas era a rua. Nove da manhã. E era chegada a hora. E sabia exatamente por onde começar. Mas isso não gera frutos literários. Isso é tão prosaico quanto acordar cedo, escovar dentes, enfiar pão com manteiga na boca da xícara de café e amolecer alguns segundos antes para deglutir o gosto de sempre das manhãs.

A vida prosaica é mesmo um esquecimento. O que não dá para perdoar, melhor esquecer, não é mesmo?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Duas estações


Criança brincando na rua. Pássaro fazendo ultrapassagem de fio de alta-tensão. Um formiga desgarrada da turma e, sei lá, talvez até um pé de vento hoje, me farão chorar. Não é só tristeza. É ensaio de melancolia. Treino passos para não despencar do céu. O meio-fio nunca me exigiu equilíbrio. Pelo contrário, quando era pequena adorava quando trocava as pernas, os passos tropeçavam na ânsia de alcançar mais alguns metros nos caminhos de paralelepípedo, antes de ir ao chão. Esse inexorável companheiro de caminhada.
Minhas pálpebras fazem um balé para dentro. Se encontram com as memórias, com as alegrias da infância e os jarros vazios das roseiras que eu ainda não plantei. E fico assim meio sem jeito. Quando me dou conta, as vidraças do olhar estão embaçadas pela teimosia das lágrimas.

Hoje, definitivamente, acordei e vi que era um dia para chorar.

Insisto, treino o olhar, puxo a atenção para uma outra coisa que não seja por dentro, em vão. O porão do silêncio fica acolhedor. Prescindo de explicações. Tampouco as tenho para dar. Hoje não me sinto generosa de palavras. As veias estão fininhas de tanto se espremer, para deixar a alma passar.

É outono nos meus cabelos.

Meu endereço único endereço que posso ter hoje: a distração. Se alguém chegar junto e quiser me distrair já está meio caminho andado para me seduzir. Se não tiver medo dessa tristeza toda que nunca experimentou cocaína poderá até chorar junto. Basta estar desatento e franco, como as crianças.

Ardo. Não finjo. Choro. Não disfarço. Brinco com o meu cansaço como quem se entrega às férias do final de ano. Mas nem é verão ainda.
É outono. E as árvores choram as folhas que fugiram para o chão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Silêncio Espera Solidão




Esse lugar

onde o poema

dorme

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Particularidades

Para Moacy, Carito, Tácito, Nivaldete, Marcinha e Nonato.

No fim do dia sobram-me alguns suspiros. As migalhas das buzinas, os gritos das máquinas e os ruídos da pequena revolução cotidiana ficam para trás. Vão para um canto qualquer de página.

No fim do dia transpiro pensamentos e absorvo lembranças. Deixo que Borges me conte as ilíadas que eu não estava lá e Akhmátova me ensine a vibrar as cortinas vermelhas do amor que ela desaprendeu. E assim, o súbito descontentamento é substituído pela sensação de que a derrota do dia grava dignidade nos atos, que só os dias diluídos nos anos serão capazes de revelar.

O tempo é bom para desaprender; abrir ciclos; redescobrir substâncias; despertar o arrepio da fala: sussurro. O tempo é bom para modificar o olhar. Quando a gente consegue desabotoar a noite, com todas aquelas estrelas, que não passam de botões na enorme lona parda que esconde a aurora.

Essa noite eu sonhei com uma mulher que queimava na fogueira e eu a consegui salvar. Sobrevivemos. Ela nunca saberá mas, foi indo em sua direção que fui ao encontro de mim mesma. Era tempo de recolher. As amarguras; as discrepâncias; o ranço da raiva e a vacina anti-rábica ficaram no meio do caminho.

Bonita é a vida. Talvez porque não só vida, nela também habita a morte. Bonita e honesta. Nada escapa, nada está imune à irrepreensível pureza da morte. Essa verdade que nos sonda e que nos expia da culpa que vai desbotando a medida em que nos revestimos da poeira, desse incerto deserto que é o futuro.

Sim, e honestos também são os bigodes do meu gato. Fazem-me cócegas ao amanhecer. Para no instante seguinte, trocarem-me pelo amor que dorme ao lado, num triscar de dedos por debaixo do lençol. (Mesmo que este amor durma do outro lado da cidade). Roça a língua crespa na superfície dos meus sonhos. Desdenha minha vigília e a instância dos meus desejos. Imploro carinho. Ele goza da independência dos inocentes.

Sim, é boa a vida. Boa e inocente, quando desaprendemos todos os dias.