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domingo, 2 de julho de 2017

Mais trabalho, menos mimimi




Quando eu olho para alguém que me diz que é "produtor de conteúdo" para internet eu penso logo em axiomas tipo, o céu é azul; para morrer, basta estar vivo, etc. Afinal, produzimos conteúdos o tempo inteiro não é? Dentro e fora da internet (principalmente). Eu sou jornalista, escritora, estudante de psicanálise, artesã, tenho um blog há dez anos e isso vai muito além de produzir conteúdo para internet, apenas. A internet é massa em muitos aspectos. Tem gente bacana compartilhando conhecimentos, saberes, tentando realmente oferecer algo consistente, disposta a trocas, ao invés de simplesmente usar a plataforma como um pódio de exibicionismo e de futilidades.

Mas faz sucesso nela uma casta de não profissionais. Tipo, a pessoa faz um curso que não gosta, que não tem talento, como arquitetura ou zootecnia e vira blogueiro de moda, por exemplo. Passa o tempo todo comendo batata e ovo, contrata um personal, faz sempre as mesmas poses nas fotos: com um bico; olhando a paisagem com cara de pastel ou então procurando uma moeda no chão e jura de pé junto que aprova aquela roupa. Mas só a está vestindo porque alguém pagou para ela vestir. Às vezes uma foto chega a custar R$ 2 mil reais) e acaba por contribuir para tirar o trabalho de modelos, editores de moda e até mesmo estilistas. É o tipo de trabalho que me dá uma grande vergonha alheia. Porque eu sei que tem gente que rala pra caramba e não chega a ganhar isso em um mês inteiro de trabalho. E vergonha também de quem se deixa influenciar por esses tipos. Quer imitar alguém no vestir? Imita as artistas da novela. Ao menos lá elas estão trabalhando de verdade né?

E sabe por que essas pessoas fazem sucesso? Porque elas vendem ilusões. Elas vendem a ideia de que são felizes, perfeitas, que acordam maquiadas e lindas. E não é bem assim, né? Para ninguém. Muitas vezes, elas só conseguem levantar da cama, se tomarem uma boa dose de uísque.

O que quero dizer é que eu acho uma pena, uma grande pena ver gente tão equivocadamente fissurada em "produzir conteúdo", sonhando em fazer parte de "startups", achando que um dia será o novo Mark Elliot Zuckerberg, o criador do facebook. Raros são aqueles que chegam onde ele chegou. Muitas vezes, passando como um trator por cima de outras ideias. E, como são raros, vivemos num limbo entre pessoas que têm ideias, sonham em ficar ricas em um mês, não vão e, portanto, ficam muito frustradas, se sentindo fracassadas.

E eu pergunto: e a construção de uma carreira? Leva quanto tempo? As startups criaram uma falsa expectativa nas pessoas. Especialmente nos jovens que têm lido cada vez menos, que absorvem um milhão de informações, mas não conseguem filtrar 5% do que leram ou assistiram. Menos ilusão e preguiça. Mais conteúdo e produção, por favor

sábado, 17 de junho de 2017

A MULHER QUE QUEBROU TABUS


Primeira prefeita eleita de Natal, primeira governadora do Estado, casada com um oligarca da política local, quando se separou,  muitos falavam em sua ruína política. Mas não foi. Se casou mais outras duas vezes. Ao contrário da maioria dos políticos, a vida pessoal que fugia das convenções nunca atrapalhou sua vida política. Há quem a veja como mais uma figura política repetidora dos mesmos padrões de poder e corrupção. Julgamentos à parte, dona Wilma de Faria foi uma mulher memorável. Uma pessoa que vistoriava as obras do seu Governo com cuidado e atenção, que tinha uma voz mansa e um, indubitavelmente, uma mente estratégica em se tratando de política. Fiz essa entrevista com ela em janeiro de 2014, e foi publicada na edição de fevereiro daquele ano na Revista BZZ, da jornalista Eliana Lima. Republico-a agora no meu espaço pessoal, para relembrar daquela conversa franca com ela. Saí admirando ainda mais a "guerreira", sepultada ontem em Natal.


Quando ainda estava no ensino médio, ela abriu mão do sonho de dedicar-se aos estudos, tornar-se médica e só se casar depois dos 25 anos. Casou-se aos 17, virgem, com um homem que tinha o dobro de sua idade. Aos 18 anos, nasceu o primeiro filho, vieram mais três, “um atrás do outro”, como relembra. Só sentou nos bancos da Faculdade, para fazer licenciatura no curso de Letras, depois que os filhos nasceram e, mesmo assim, enfrentando uma certa resistência do então marido. Até aí, a ex-governadora do Estado, atual vice-prefeita de Natal, Wilma de Faria, 68, não foge à regra dos casamentos convencionais e do que é exigido como papel feminino para boa parte das mulheres de famílias tradicionais do Estado, oriundas do interior. Ela é mossoroense e foi criada no Seridó. Entretanto, seguir as regras convencionais, dedicar-se somente à vida doméstica e aos filhos ou manter um casamento só pela aparência estava longe de encerrar a trajetória de sua vida. Pode-se considerar que Wilma de Faria é uma mulher que, com voz mansa, porém firme, tomou as rédeas de suas decisões, sejam elas no campo público ou privado.Tornando-se uma das maiores lideranças políticas do sexo feminino no Rio Grande do Norte, cujas escolhas tomadas no âmbito doméstico e pessoal nunca afetaram sua vida pública. Alguém duvida? Das dez eleições que até hoje disputou, perdeu três e ganhou sete. Foi a primeira mulher eleita deputada federal, a primeira a governar a capital potiguar, em seguida elegeu seu sucessor (Aldo Tinôco); e também foi a primeira mulher a governar o Estado, conseguindo, inclusive, ser reeleita; em 2010 perdeu a disputa por uma cadeira no Senado Federal e, quando todos pensavam que ela pudesse estar aniquilada politicamente, se reinventou, e foi eleita a vice-prefeita de Natal, sem perder de vista e sem deixar de ser uma das principais citadas nas rodas e pesquisas como uma possível candidata nas próximas eleições, inclusive para chapa majoritária.

Depois de 27 anos casada com o primeiro marido Lavoisier Maia - um médico e tradicional político do Estado, que foi governador, senador, deputado federal e se despediu da política em 2011, quando acabou seu mandato de deputado estadual - ela decidiu dar um ponto final na união que, segundo ela, já não tinha mais sinais da paixão inicial. “Quando nos casamos, eu já o conhecia por volta de uns dois anos antes, porque ele frequentava a casa de uma amiga em comum. Aí me apaixonei e de repente parei de estudar para casar. Foi uma coisa de adolescente. Houve assim, uma interrupção do sonho (de estudar Medicina) do ponto de vista profissional”, revela, deixando claro, em vários momentos da entrevista que não estava acostumada a falar de sua vida pessoal e, portanto, não escondia um certo constrangimento e cuidado com terceiros.

Em 1976 Wilma de Faria passou no primeiro concurso de professor colaborador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para lecionar Didática no Departamento de Educação. A veia política foi se revelando primeiro nos bastidores. “Eu sempre fui da militância política, participava dos eventos, das discussões, ajudava nos planos, mas nunca pensei que poderia estar à frente. Eu estava no jogo para apoiar as pessoas que estavam ao meu redor”. Em 1985, cinco anos antes de se separar de Lavoisier, quando era secretária do Trabalho e Assistência Social, no governo de José Agripino, seu nome apareceu com alguns pontos na pesquisa com indicativos de nomes para a disputa da Prefeitura de Natal. Cedeu à pressão, já que havia uma vacância, porque o preferido na época de José Agripino, o recém falecido João Faustino não queria disputar aquelas eleições. “Eu aceitei”. Mas impôs uma condição: “Eu não queria somente subir em palanques, queria fazer uma campanha eleitoral diferente. Então eu disse, vou caminhar nas ruas, entrar na casa das pessoas e conversar com o povo para poder fazer um plano de governo que atenda às necessidades do população”, relembra. E nascia ali, segundo ela, uma nova forma de fazer política. “Revolucionamos a ponto de nossos adversários terem de fazer o mesmo que fazíamos”. Não ganhou as eleições. Entretanto, no ano seguinte, sua estratégia do tête-à-tête com o povo deu sinais de sucesso. Foi eleita a primeira deputada federal do Rio Grande do Norte com uma votação histórica, sendo a mais votada em números absolutos em todo o Nordeste e, em números proporcionais, a mais votada de todo o Brasil. Perdendo somente para Lula, candidato ao mesmo cargo em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Nesse ínterim, a vida com o primeiro marido já não estava mais viável. Quando, em 1990, se separou, achou por bem retirar do seu nome o tradicional “Maia” de Lavoisier e passar a ser chamada pelo nome de solteira, “Faria”. “As pessoas diziam que eu iria me acabar tirando aquele nome. Mas eu achava que como eu tinha começado a minha vida pública com uma ligação de uma família que estava no poder, eu tinha que tirar o Maia, eu queria continuar o caminho político com meu próprio nome”.

Wilma de Faria reconhece que entrar para a vida política sendo mulher, confere algumas vezes, pechas nada agradáveis. Pessoas, que ela diz que sempre eram ligadas a grupos políticos nunca do povo, a taxavam disso ou daquilo, usando expressões chulas ou preconceituosas, no entanto, sempre por trás e nunca a encarando de frente. Enfrentou também discriminação de gênero. “Vivi várias etapas. No início quando só tinham duas, três, dez mulheres prefeitas entre cinco mil prefeitos, nós éramos sempre homenageadas. E isso também é uma forma de discriminação. Depois, passamos a ser questionadas em termos de capacidade. E é aí que a gente tem de manter a firmeza. Não se pode ser líder se não tiver ideias e não souber como defendê-las”.

Não existe fórmula perfeita ou jeito ideal de ser mulher na política, mas Wilma transita entre momentos de precisar ter pulso de ferro e de bater na mesa para defender suas ideias, a recuar e reconhecer, com humildade, quando deve ouvir. “Por exemplo: na minha vida política, se chegar uma pessoa e me pedir algo que eu não tenho condições de oferecer a ela, as pessoas ficam exasperadas, às vezes um ou outro assessor fica sem saber o que fazer. Eu trato diferente, eu aceito o confronto. Acalmo minha voz, faço com que ela acalme também a voz, para acharmos uma saída, sem desespero. Então às vezes eu sou um pouco psicóloga também”, e diz isso sorrindo. Transparente nos sentimentos e emoções, Wilma fica na dúvida se essa visível percepção de estar ou não bem é uma boa característica. “Eu sou muito transparente. Não sei fingir muito. Às vezes a gente tenta ser alegre, tem que demonstrar alegria. Os homens são mais blindados, as mulheres têm muito o que aprender. Mas é muito bom a gente ser quem a gente é. É ruim ficar triste, mas se não houvesse tristeza, não poderia saber como é bom buscar a alegria e a felicidade”, filosofa.

Ela só teve governanta na época em que era governadora do Estado, e porque era obrigatório. Portanto, ela mesma quem se encarrega de administrar a casa, de saber se as contas estão sendo pagas e que tipo de supermercado será feito. Com a ajuda do marido, é claro. “Meu marido ajuda, define a comida, as coisas da cozinha. Ele já se encaixou nessa parte aí sim (de ser um ‘novo homem’). Mas o machismo ainda impera em todos os homens. O mundo ainda é muito machista”, deixa escapar.

Não tem muito espaço para isso na sua vida atual, mas se tiver que ir para a cozinha, além de alguns pratos mais elaborados, ela diz que sabe fazer um bom bife acebolado com arroz. “Minha vida pública me impede de ser uma pessoa normal, de fazer uma compra na rua, que observa bem antes de comprar e pode até desistir da compra, como fazem todos os homens e mulheres. Eu não consigo fazer. Porque as pessoas me veem de uma forma diferente”. Mesmo com algumas dificuldades por ter se tornado uma espécie de “celebridade” política, Wilma diz que não abre mão de sair de casa, caminhar na rua e de ir fazer compras. Mas a liberdade já está comprometida faz tempo. Uma simples entrada numa parte mais popular de um shopping pode virar um tumulto. É tanto que às vezes recorre ao marido, e às filhas, para fazer as compras e os presentes.

Considera-se vaidosa, mas sem exageros. Usa cremes receitados pela dermatologista. Sempre que tem tempo faz ginástica e quando não tem tempo, ao menos faz caminhadas. “Não costumo repousar durante o dia. Trabalho direto, então, não durmo menos de sete horas. No mínimo, quando a agenda está cheia, seis horas por dia”, diz. A assessora acrescenta que ela gosta de estar sempre bem arrumada, mas não dá muita bola para marcas. “Não ligo para marcas A, B ou C. Às vezes você encontra roupas em lojas de departamento e que caem muito bem, então compro”.
Na vida particular, Wilma está no terceiro casamento. Na verdade, ela não chegou a casar com o advogado José Maurício, eles estão há nove anos juntos, numa “união estável”. Pouco mais do que o tempo que passou com o segundo marido, o advogado e procurador aposentado do Estado, Hérbat Spencer, de quem Wilma fala muito pouco, mas deixa claro que depois da separação ela procurou preservar o apreço e respeito. Sobre a experiência de viver a dois e de já estar encarando a terceira tentativa, ao ser indagada se vale à pena acreditar no amor ela responde: “Eu acho que vale para todos, homens ou mulheres. E acho que também na hora que não dá mais, tem que finalizar. Melhor do que ter um desgaste até na amizade. Porque a amizade tem de estar junto do amor. Se você deixa de amar, tem de separar para não deixar acabar a parte mais importante, que é a amizade. E não é só pelos filhos, tem de ser também por aquele tempo que você passou junto com a pessoa”, formula e conclui: “Eu cumpri bem (o papel) com meus maridos. Acho que toda mulher deve ir à luta para buscar a sua independência, seja a financeira, seja a emocional. Ter coragem de dizer não, sobretudo aos machistas”.

Discreta, Wilma de Faria não transparece se importar muito sobre o que pensam de sua vida privada. Principalmente quando se trata da população, que ela acredita que o povo sente algo tão forte e genuíno por ela, que vai além das questões pessoais. Quando provocada sobre qual teria sido a maior quebra de tabu de sua vida, ela relembra de sua trajetória política; das vezes em que enfrentou adversários que ela costuma chamar de “poderosos”. E a senhora não é também uma poderosa? E ela responde: “Me considero uma liderança política. Quando falo dos poderosos, falo do poder econômico, da comunicação, e também a forma de ver o mundo, achar que é possível manipular. Eu não acho que é possível manipular todo mundo, você tem que debater e dialogar”, encerrando a conversa, não sem antes responder a um rápido ping-pong, no qual ela ouvia uma expressão e falava o que lhe vinha à cabeça:


Um prazer: passear na praia, beijar um filho ou um neto;
Um arrependimento: vários... daqui a pouco eu falo;
Uma viagem: tive várias inesquecíveis. Mas no Rio de Janeiro sempre tem recantos agradáveis e que me marcaram.
Um sonho: de ver o Rio Grande do Norte crescer, se desenvolver. Como política, sofro muito de ver na capital ainda tantas áreas pobres, sobretudo nas margens do Potengi.
Um pecado: (pensa muito). O pecado da gula é muito ruim porque prejudica a mente e o corpo. Os sete pecados capitais.
Um vinho – tenho tomado vinhos chilenos
Um arrependimento (voltando ao tema): não vi praticamente meus netos crescerem. Me arrependo de não ter podido cuidar, no sentido de mimar os netos, como avó.


Observação: Nessa publicação, mantive o texto original, sem a edição da Revista BZZ.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ele é linda, ou seria ela é lindo?



Estreou na Netflix há poucos dias o documentário “Laerte-se”, que tem como personagem principal a cartunista Laerte Coutinho.

Ela  há quase dez anos deu um esticada na corda do significado de liberdade individual e questões de gênero, após decidir pelo crossdressing (vestir-se como mulher). Ganhando, de quebra, ainda mais admiração e respeito por parte de alguns e, óbvio que também muito bullying e demonstrações de intolerância, incompreensão e ódio.

Afinal, não é todo mundo que entende o que significa para um profissional já bastante respeitado no mercado, com cerca de 40 anos de carreira como cartunista, criador de personagens como Piratas do Tietê, Palhaços Mudos e Fagundes, pai de três filhos, algumas ex-mulheres, resolve, mudar seu guardarroupa, trocando as calças masculinas por saias e as cuecas por calcinhas. Claro que esse tipo de mudança, de escolha e transformação não acontece de repente. O personagem Hugo, criado por ele, que o diga: foi trocando as vestimentas e assumindo sua transgeneridade nas tirinhas, uns passos antes que seu criador na vida real.

Eu sempre pensei em Laerte e na sua doçura de enfiar uma britadeira simbólica nos padrões convencionais como um sujeito político. Político no sentido mais puro: aquele fenômeno que nos conduz a uma posição, a uma escolha e à defesa disso.

Laerte é gay, bissexual, transgênero? Namora uma lésbica, quer colocar peitos de silicone mas jamais pensou em cortar o pinto fora. Laerte é uma mulher? Eu não sei se ela está muito preocupada em preencher todas as lacunas para esses questionamentos.

Ela é uma provocação ambulante, mesmo que não pretenda fazer isso o tempo inteiro. Aos 23 minutos do documentário de uma hora e quarenta, que durou três anos para ser feito, eu e meu companheiro damos uma pausa para falar sobre nossos limites e nossas necessidades silenciosas de ultrapassar esses limites. Eu confesso que gostaria de tatuar todo o rosto e raspar o cabelo. E que me falta coragem, óbvio. E ele, que gostaria de usar saia e experimentar essa liberdade do “ventinho” no meio das pernas. Laerte é também essa representação de nossas pausas.

Laerte-se é dirigido por outras duas mulheres, Ligya Barbosa da Silva e Eliane Brum. Essa última aparece na frente da tela, fazendo o modelo de entrevista, dos mais encantadores que eu conheço: que é quando mal se ouve a voz do entrevistador e pouco se vê da sua imagem. Afinal, o verbo é fazer notícia e não ser notícia. Levou três anos para ser produzido. E eu penso que é um filme que traz um pouco da intimidade da Laerte mulher que não está preocupada em ser mulher, e sim em trabalhar-se no processo de sentir-se mulher.

E isso nós também fazemos o tempo inteiro. Em cima dos nossos muros ou por trás deles, estamos num constante processo de escolhas, aprendizados e sentimentos com relação a quem somos, o que queremos e aonde chegaremos com isso.

Não bastava ser genial nos cartuns, um cronista do seu tempo através dos desenhos, uma referência nacional nessa área. Ele precisava ir-se além. E é por isso que ele é linda ou ela é lindo. Essa terminologia, confesso, que me confunde um pouco ainda e faz parte sim das minhas limitações. Porque ela nos dá a marreta para que possamos quebrar nossos muros. Se será apenas uma pequena fresta ou a queda do muro de Berlim, isso aí já é outra história.

fiz modificações no título aqui no bicho, mas já havia publicado no Substantivo Plural com outro título que você pode ver aqui

"Você não presta", clipe da Mallu Magalhães


Dá uma olhadinha nesse clipe


https://www.youtube.com/watch?v=hrh6zd5c0OY

agora, beleza... você assistiu e, sinceramente, você acha que ele sexualiza demais os negros ou têm uma letra que os inferioriza? eu, particularmente, achei o clipe bonito e a cantora não tem cancha para ser agressiva ou ofensiva contra qualquer que seja o movimento, sobretudo o racial. mas alguns movimentos se sentiram ofendidos e tal. e a moça, respeitosa e dona de um domínio elegante e profissional, imediatamente fez questão de se desculpar. veja aí o que ela escreveu:




Fico muito triste em saber que o clipe da música “Você não presta” possa ter ofendido alguém. É muito decepcionante para mim que isso tenha acontecido. Gostaria de pedir desculpas a essas pessoas. Meu trabalho e minha mensagem têm sempre finalidade e ideais construtivos, nunca, de maneira nenhuma, destrutivos ou agressivos.

A arte é um território muito aberto e passível de diferentes interpretações e, por mais que tentemos expressar com precisão uma ideia, acontece de alguns significados, às vezes, fugirem do nosso controle.

Sei que o racismo ainda é, infelizmente, um problema estrutural e muito presente. Eu também o vejo, o rejeito e o combato.

Li cada uma das críticas, dos posts e comentários, e o debate me fez refletir muito sobre o tema. Entendo as interpretações que derivaram do clipe, mas gostaria de deixar claro minhas reais intenções.

A ideia era ter um clipe com excelentes dançarinos que despertassem nas pessoas a vontade de dançar, de se expressar. Foram convidados pela produtora e pelo diretor os bailarinos Bruno Cadinha, Aires d´Alva, Filipa Amaro, Xenos Palma, Stella Carvalho e Manuela Cabitango. Com a última, inclusive, tive a alegria de fazer aulas para me preparar para o vídeo.

É realmente uma tristeza enorme ter decepcionado algumas pessoas, mas ao mesmo tempo agradeço a todos por terem se expressado. E reitero o meu pedido de desculpa. É uma oportunidade de aprender.

Espero que, após este esclarecimento, seja aliviado deste espaço de conversa qualquer sentimento de ofensa ou injustiça, ficando os fundamentos nos quais tanto acredito: a dança, a arte e o convite à música.

MALLU"

terça-feira, 16 de maio de 2017

Direito de ser





Minha avó aboiava dentro de casa. Isso mesmo. Era uma espécie de evocação de suas memórias. Uma forma de estar próxima do seu pai, irmãos e agregados que aboiavam para conduzir o gado pra dentro ou fora do curral, nos tempos em que ele vivia lá pelos lados da Fazenda Surrão, no semiárido da Paraíba. Minha avó se foi há 21 anos. E eu, que não tive a sorte de enxergar com seus olhos a infância no mato, guardo nas minhas memórias aquela voz afinada e um vibrato constante de um canto preenchido pela verdade infantil das vogais.

Há uma fase em que a direção dos gestos e pensamentos se aceleram em direção ao tempo ainda não vivido. Alguns dão o nome de ansiedade. Eu dou o nome de juventude. O mundo, para essas pessoas, e o que há no mundo está a um toque das mãos e a míseros três passos. No entanto, a cada real movimento dado, se instala um enorme vazio daquilo ainda não apreendido, vivido, mergulhado. É uma fase boa, pelas não ressacas, admito. De resto, prefiro essa sensação de que estou aqui e agora.

E se a poeira dos meus sapatos um dia virão do deserto do Saara não tem a menor influência sobre mim ou sobre minha decisão de tomar chá de hortelã perto da hora de dormir. Gosto desse horário porque é quando o chá se torna mais importante que a fantasia do que está por vir.

Assisti há pouco um vídeo da cantora Marina em que ela fala da passagem do tempo em sua vida e das coisas malucas que estão ocorrendo no mundo inteiro. Do surgimento de gente reacionária e da esperança de que para cada uma dessas aberrações, surge também alguém, ou vários movimentos LGBT, de mulheres, transgêneros e de negros. E que são extremamente importantes, porque abrem espaço para que as pessoas não só reclamem, mas reivindiquem, se coloquem no mundo. Ela acredita que para cada surgimento de tipos como bolsonaros e malafaias, “compensa” de um outro lado, porque surgem pessoas desses movimentos. Quase como uma resposta, uma reação. Ela não cita, mas eu o faço: pessoas como Laerte, Liniker, Gregório Duvivier e Lola Aronovich me fazem compreender o recado da Marina.


Mas, o que ela fala sobre a passagem do tempo é que é bacana de ouvir e eu replico: “Quando eu fiz 50 foi libertador; quando vi que eu já tinha me construído e já tinha direito de ser tudo o que eu quisesse, sem dar tanta satisfação. Mas, sem arrogância. Aos 60 eu sinto que comecei a envelhecer, mas eu tô gostando. Jamais voltaria atrás no tempo. Eu tinha que ser exemplo pra tudo, eu não tenho que fazer isso. Acho que o importante é ter curiosidade e gostar da vida”. E eu percebi a interseção entre duas mulheres tão diferentes e distantes. A cantora famosa e a avó aboiadora. Eis aí um recado que me representa e que eu divido com você, meu leitor.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Do alto do penhasco dá para sentir o coração batendo



A adolescência é uma fase estranha e difícil. Nos enlutamos do corpo de criança, ganhamos um turbilhão de dúvidas e sensações físicas que não sabemos muito bem como lidar e a vida se torna uma via de mão dupla, entre a ideia de invencibilidade e uma imensa incapacidade de suportá-la. Somos capazes de tomar um porre de vinho de garrafão numa noite e fazer uma prova no dia seguinte. E, no entanto, os ossos podem se desintegrar se alguém critica nosso jeito de se vestir. Há, inclusive, quem leve esse sentido de vida para o resto da existência. Ficando num limbo entre a fase imberbe e o peso da maturidade.

Os conflitos da vida de um adolescente são o mote para o filme It’s kind of a funny story (2011), dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck. A tradução literal em português seria “Tipo uma história engraçada”. Mas, infelizmente, os gênios do marketing resolveram intitular o filme no Brasil de “Se enlouquecer não se apaixone”. Talvez fazendo um trocadilho inoportuno com a comédia chata “Se beber não case”. Já que em ambas as películas o talentoso - e estranho -  ator Zach Galifianakis, faz parte do elenco.  Nesse, ele interpreta o amigo Bobby, que coleciona idas e vindas à ala psiquiátrica de um hospital, devido a uma estranha obsessão: querer morrer.

O filme trata do suicídio de uma maneira absolutamente leve e longe dos tabus que costumam acorrentar esse tema. O jovem Craig (Keir Gilchrist) tem pensado em se matar de maneira constante. Acha que está apaixonado pela namorada do melhor amigo e parece não suportar as pressões dos 16 anos e das decisões que seria obrigado a tomar nessa idade, como a escolha da profissão após o ensino médio.

O roteiro permite uma fluidez sem muito "mimimi" e clichês. Numa das cenas, o rapaz descreve como os pensamentos o estão sufocando, a ponto de achar que não vai conseguir segurar a onda e vê como única opção se jogar da ponte. O texto é muito respeitoso com os conflitos internos, aos quais todos os seres humanos estão propensos a passar.

A mesma transparência com que ele lida com o problema diante da maravilhosa psiquiatra, interpretada por Viola Davis, o faz ir por conta própria a uma clínica para pedir ajuda.

Lá, ele encontra diversos tipos de pacientes psiquiátricos, inclusive a adolescente Noelle (Emma Roberts) com quem vai descobrir que viver pode até não ser um conto de fadas ou um comercial perfeito da terra do Tio Sam, mas pode valer a pena se for uma aventura a dois.

Os personagens da ala psiquiátrica são caracterizados com os mais diversos problemas de saúde mental. Mas o bacana é que nenhum deles caricatura a doença mental, nem coloca no pódio a “loucura” apoteótica ou gente descabelada e babando.

O que é muito pertinente. Porque como diz um amigo meu, existem muitos doidinhos mansos por aí. Muito mais equilibrados do que os que se acreditam “normais” e estão patinando num mar de narcisismo, a destilar neuroses mal resolvidas em cima dos outros, ou então diluindo suas frustrações e angústias em doses constantes de álcool e outras substâncias, sem falar na dependência de pílulas para dormir, para levantar, para pensar, para ficar feliz, para levantar... a moral.

Li algumas críticas colocando como ponto alto a interpretação do ator adolescente, quando ele canta a canção Under Pressure, do David Bowie. É legal mesmo. Mas, eu não entendo muito de música então vou ficar por aqui nessa cena.

https://www.youtube.com/watch?v=F8qFALUcWnE

Mas, na verdade, para mim, o que me impressionou nessa história – que não é nada engraçada, mas também não é melodramática – é que às vezes podemos nos colocar diante do penhasco, com impulsos de “voar” para “longe”. E, ao invés de nos seduzirmos com infinito da paisagem – deveras  inalcançável e impossível – olharmos para dentro. Nos encararmos com coragem e respeito. Permitindo que a fantasia flerte com a realidade, sem que uma ou outra precise ganhar a batalha.



domingo, 23 de abril de 2017

Ditadura política





Eu estava diante de pessoas bacanas. Dessas que quando a gente sai de perto delas, levamos conosco um cheiro de decência, misturada à gratidão. Eram pessoas legais, de mesa posta e coração generoso. Dos dois tipos de bolo, porque na casa havia dois aniversariantes, ao pão assado e o café, nem forte nem fraco, bolo de rolo, brigadeiro feito com a ajuda da caçula de nove anos, tudo tinha sabor de acolhimento. No entanto, em alguns momentos, nos entreolhávamos quase que perplexos, incrédulos. O senhor de grandes olhos azuis, que só usa branco e completava 74 anos, quebrou o silêncio e traduziu o que nos afligia, falando do porvir com certa melancolia. "O futuro do Brasil é sombrio", disse.

Em outros tempos talvez eu procurasse imediatamente por uma saída mental que refutasse aquela sentença. Afinal, ser jovem é sobretudo achar que o futuro é longe e demora a chegar. Só que depois dos 40, o futuro está sempre ao alcance do toque. E ficamos mais sensíveis aos espinhos que por ventura nos espetam os dedos.

Há qualquer coisa de comovente nos dias. Quando as trevas do passado voltam a roubar a luz que nos apontava para um mundo melhor. Pode até ser que não fosse o mundo todo. Mas o mundo de dona Maria e seu João, com feijão e mistura à mesa, todos os dias. E o neto entrando na faculdade, com sapatos novos e uma cabeça aberta para o futuro fértil das descobertas. E não como agora, sob a ameaça de sentar no deserto das mordaças daqueles sacripantas, ladrões do direito de pensar e questionar - como se já não fosse o suficiente nos roubar em recursos e em privilégios políticos. Essa gente tosca e protocolar, donas das emendas que drenam até mesmo os suores do povo brasileiro.

Há uma alegria triste nos olhos da menina que faz biquinho e tenta parecer a Gisele, não percebem? Há algo de triste no tilintar das caixas registradoras, quando o homem descobre que deixou mais da metade de sua vida sentado diante dela, enquanto ela permaneceu absolutamente indiferente ao toque dos seus dedos.

Há qualquer coisa de muito indecente nesse barulho egoico das câmeras digitais, dos instantes “eternizados” por quinze segundos, que ganham mais importância nos cliques do que na vida real. Não se pode negar, há alguma coisa de muito comovente na ignorância que nos tolhe a imaginação e a poesia.

E eu também gostaria muito de discordar quando aquele mesmo senhor falou que vivemos tempos de ingratidão. Eu acrescentaria falta de educação também. Os novos vizinhos não nos cumprimentam no jardim. Os adolescentes não reconhecem a força do trabalho dos pais. E os pais. Bom esses, eu espero que um dia cheguem aos 70 anos e que olhem para o futuro com menos melancolia.