domingo, 16 de junho de 2013
Blossom Dearie - Manhattan
vídeo líndo, música idem, nessa tarde encharcada de domingo e saudades...
segunda-feira, 10 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Sobre a falta que você me faz
Há dias em que as frestas parecem mais abertas que as janelas. Como se pudéssemos sentir com mais ênfase a força e o ímpeto do vento quando ele passa pelas fendas. Tem coisas que não precisam ser ditas. Tem coisas que só se manifestam genuinamente no silêncio. Essas coisas de que falo são matéria de sentimentos. Coisas impalpáveis, diáfanas, profundas, coisas que fazem crescer, que desenham a linha invisível do nosso ser e que às vezes doem.
Muitas e muitas vezes eu invejei a ignorância. Esse estado de espírito que, quando primal, isenta a responsabilidade de doer. Essa coisa incômoda de às vezes ter tanta consciência dentro de si e fora de si que se torna quase insuportável a existência. Viver. Verbo transitivo.
Tenho pensado muito em você. E tenho me reservado ao silêncio porque, se eu falasse alguma coisa para você, sobre o que eu sinto ou a falta que você me faz, certamente você viria com aquele olhar brilhante e taxativo e me daria aquela pecha insistente de que eu estou sendo melodramática. E eu não quero, nem preciso dos seus estereótipos, esses entremeios que lhes dão a rota de fuga perfeita para você não falar de coisas profundas, ou ouvir coisas profundas. Aliás, eu sentia orgulho de você - e de mim mesma - quando você falava de coisas profundas comigo porque eu sabia que você não costuma fazer isso com todo mundo. Você é dado ao prazer estampado nos fotogramas das redes sociais e reservado a falar de amor, de dor e do que realmente importa, porque você não quer incomodar ninguém com aquilo que nem sempre você consegue dar nome ou explicar os efeitos. Eu entendi essa parte faz tempo. E, diferente como sou, com todos meus melodramas e reclamações e disparos incertos sobre a vida e os caminhos percorridos, talvez não te desse muito tempo para falar. Talvez, também, num ímpeto meio maternal eu quisesse te dar alguma receita pronta ou uma fórmula mágica para não doer, para não sofrer, para enxergar a vida com a clareza de um velho que você ainda não é.
Mas, sinceramente, nesse momento eu não sei exatamente o que fazer com esse vento que escapa das frestas. Ora parece que é você escapando, ora parece que sou eu mesma e em qualquer das hipóteses dói. Não vou negar meu desapontamento, minha decepção e, sobretudo e mil vezes mais, a falta que eu sinto de você. Mas eu não sei o que fazer porque eu nem quero reclamar! Quando eu fico um tempo assim, contemplativa, é inevitável que venham lembranças que alimentam minha saudade e meu amor por você. E isso parece tão limpo e claro e isento de explicações ou pedidos de desculpas que me basta. Acho que é isso. No momento, tudo o que já vivemos e passamos juntos me bastam. E o porvir é incerto, então para que adiantar?
terça-feira, 14 de maio de 2013
Antes da chuva *
O tempo anda meio esquisito. Quase todos os dias, em algum
pedaço do céu, a gente percebe que a reunião de nuvens e seu tom acinzentando prenunciam
que vai chover. Mas não chove. É verdade que o calor diminuiu um pouco, principalmente
nos ambientes fechados. Mas, ainda não é o suficiente. Vejo no olhar das pessoas
a secura por água. A cobrança às nuvens para que elas se decidam e descarreguem
de uma vez por todas essa água que a gente sente tanta falta. Sem água que cai
do céu, ficamos sem a esperança renovada de que chova também no sertão, nem tem
o cheiro de naftalina dos casacos tirados do fundo do armário. Acho que até os
jornais sentem falta. Sem chuva, não há aquelas velhas matérias requentadas
sobre os alagamentos.
Até os buracos nas ruas estão se sentindo vazios e sedentos.
Se a memória não me engana, a última vez em que vivenciei um grande pé d´água
na cidade foi em 2007 (ou seria 2008?). Início do ano. Todo mundo ficou estarrecido
porque foi uma chuva atípica e grandiosa. Choveu milímetros previstos para o
trimestre inteiro em apenas algumas horas. Andava pelas ruas de Petrópolis, em
direção ao Centro e por diversas vezes pensei que a água iria me carregar. A
Avenida Rio Branco estava vazia de carros e ônibus. A enxurrada tinha causado
um problema nos semáforos e os ônibus se acumularam no Alecrim. Caos total.
Voltar para casa parecia ser a coisa mais sensata a se fazer. Só consegui isso
umas três horas depois porque a cidade estava parada.
Agora, por mais maluco que isso pareça, sinto falta daquela
enxurrada. Daquela abundância de água represada nas ruas, porque o lixo não
dava passagem para os bueiros.
Penso que os dias chuvosos nos obrigam a querer colorir mais
a vida. A quentura do café é mais apreciada. A pele agradece o contato com a
textura das roupas. As sombrinhas voltam das férias não só para abrigar-nos da
chuva, mas, para acalentar nossas esperanças de que os rios serão abastecidos,
logo não vai faltar água; que a roseira que a gente esqueceu de regar vai
conseguir se recuperar e em breve nascerão botões; e que, mesmo que a casa fique um pouco mais
úmida e as roupas peguem mofo, um dia, quando o sol voltar a brilhar, seremos
ainda mais gratos pela sua exuberância e suficiência.
Ás vezes a gente também fica assim por dentro. Prepara as nuvens,
mas não derrama uma gota d´água. Ou seja, não deságua, não lava o que tem de
sair e, portanto, não se renova. A ausência da chuva desperdiça o tempo
primordial para que fiquemos parados e possamos ser mais contemplativos com o
barulho da chuva e o cheiro da terra cedendo suas veias, para dar destino às
águas, e à gente.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Mulheres sem rosto*
Há algum um tempo eu ouvi de uma mulher bem sucedida profissionalmente, daqueles tipos que identificamos como pessoas fortes e decididas, independentes financeiramente do marido, donas de seu próprio nariz e coisa e tal, que seu maior sonho seria abdicar de tudo e ficar exclusivamente cuidando da filha, que na época já devia estar com uns três anos e prestes a frequentar uma dessas escolinhas para crianças de classe média. Confesso que aquela declaração me chocou. Não é que eu esteja negando que exista todo um laço primal de afeto que envolve uma mãe e um filho, bem como a necessidade, muito mais cultural que natural, de dar o máximo de atenção e proteção aos rebentos. E isso não parece ser inerente somente às mães de filhos pequenos. Até hoje, quase uma quarentona, percebo minha mãe com esses movimentos em torno de mim. Mas me assusta um pouco a ideia de anulação da própria identidade, das conquistas profissionais e financeiras, da liberdade de ser um indivíduo único, em função de uma outra pessoa que, no decurso natural da vida, deverá buscar esse mesmo sentido de liberdade, de realização e de identidade individual.
O facebook está cheio de exemplos do que digo. Como é, sem dúvida, um espaço virtual para a “espetacularização” da vida – um compacto dos sempre melhores segundos do dia – passando pelas frases enfadonhas de autoajuda, aos pratos cuidadosamente preparados e fotografados e, se fixando na exibição das grandes realizações do cotidiano que têm, legitimamente, nos filhos os melhores exemplos. (Filho é sim uma grande realização. Estou longe de contrariar essa lógica). Mas, o ruim desse comportamento é que quase sempre, coitados, eles são exibidos como um troféu nessa grande rede. E, pior ainda, as mães passam a não ter mais rosto. Elas são (somente) os filhos. Eu imagino como esse fardo não poderá ser pesado no futuro. Sem sonhos, sem realizações pessoais – além da maternidade – essas mulheres tendem a se tornar possessivas, cobradoras e dependentes emocionais dos seus filhos.
Minha mãe, a mãe da minha mãe e outras mães que eu conheço, que não alcançaram essa geração de perfis virtuais, nem nutriram esse desejo de parar a vida para viver em função “de”, também foram grandes mães, cuidadosas, comprometidas, preocupadas e protetoras. E elas preservaram um rosto e uma identidade própria. Com a minha mãe nunca senti que estivesse o tempo inteiro no centro das atenções, e isso me foi muito saudável. A ideia de uma geração inteira de pequenos ditadores, que podem fazer tudo o que querem, cujos pais – ou as mães - vivem em função de fazer-lhes a vontade e evitar a todo custo suas frustrações, também é algo que me assusta profundamente.
* Publicado dia 6 no Novo Jornal
terça-feira, 16 de abril de 2013
As melhores coisas da vida
Será que na tentativa de ser mais amplo, dá para estreitar mais as paredes das coisas que realmente importam? Eu penso que sim. Nunca vi um amigo meu radiante por mais de duas semanas porque comprou um carro novo. Mas vi aquele mesmo não cabendo em si porque a afilhada disse subitamente: "padinho, eu li amo", enquanto ele descia as escadas, depois de já ter se despedido dela. E, mesmo quando ela tiver 18 anos, ele vai se lembrar desse momento, como um dos mais valiosos.
Graham Hill, criador do Life Edited, já teve muito espaço físico e muitas coisas palpá-veis. Mas nunca era o suficiente. Talvez ele até nem precisasse tanto de tudo. Vive num apartamento de 40 metros quadrados, tem seis camisetas e 10 tigelas para servir comida. Deixou para trás um grande amor com Olga. Mas, não antes de viver muitas histórias com ela em cidades como Bangkok, Buenos Aires e Toronto, com a bagagem vazia de utensílios e repleta de utilidades para além dos objetos e com a seta voltada para a vida. E, no artigo Living With Less. A Lot Less (“Vivendo com menos. Muito menos”, tradução livre minha), disse: "Intuitivamente, sabemos que as melhores coisas da vida não são as coisas, e que as relações, experiências e trabalho significativo são as bases de uma vida feliz".
Replico essa história aqui porque encontro ressonância nela em minhas próprias convicções das coisas que realmente importam. Tem dias que abro o guarda-roupa e penso: nem tenho tantos braços, nem tantas pernas, nem tanto corpo assim para dar conta de vestir todas essas peças. E essa certeza me dá uma noção muito nítida de finitude e do que realmente eu quero deixar para trás. E não são roupas. Mas, antes que o fim chegue, tem o meio, os lados, o caminho ora estreito, ora largo. E eu quero a liberdade como meta. Eu quero a liberdade como seta indicativa para as melhores coisas da vida. Eu posso não ter toda a coragem do Hill, mas eu tenho vontade. E, quando eu me lembro que as melhores coisas da vida em sua grande maioria não têm preço, ou os preços são meros coadjuvantes. Eu sinto que estou no meu caminho.
Eu quero cada vez mais em mim a indigência das ambições mesquinhas. Dessas que se manifestam na competição sem prumo no mercado de trabalho; na força dos argumentos restritivos que encarceram as pessoas nos conceitos de certo e errado. Eu quero comprar menos coisas com códigos de barra e apostar mais em sonhos. Eu quero não querer. E, se por acaso o coração hiperventilar, que não seja por dinheiro; status ou veleidades. Que seja simplesmente por emoção. Nascida do amor, da admiração, do desconhecido, da descoberta; até mesmo do medo.
Artigo publicado originalmente hoje no Novo Jornal
Assinar:
Postagens (Atom)





