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domingo, 12 de março de 2017

Sobre o Grito que há no Silêncio




"Moonlight: Sob a luz do luar" é um filme que trata da infância, de bullying, preconceito, mãe solteira e drogada (meio clichê, é vero), homossexualidade, descobertas, amor, solidariedade, etc., e eu poderia desfilar ainda mais um rosário de substantivos e adjetivos para continuar descrevendo o que é o trabalho escrito e dirigido por Barry Jenkins e que brilhou no Oscar de 2017, levando a estatueta do melhor filme.

Mas não é só isso. Moonlight é um filme sobre silêncios. Sobre ser gente, sobre sofrer em saber ou não saber o que se é. É um filme que tem atuações fragmentadas que compõem um personagem que vai da infância até a vida adulta com atuações que mantém muita coerência entre todas as fases.

Logo nos primeros takes do filme, em que o personagem central, o menino Chiron (apelidado do "Little" por ser realmente franzino e tímido) é acossado por garotos maiores e se tranca num apartamento vazio é, simplesmente, de partir o coração. E ele não diz uma única palavra para que compreendamos o que ele está passando. Mas sabemos o que é, porque todo mundo já se sentiu angustiado, acuado, encrencado na vida.

Ambientado numa Miami que mergulhava no mundo das drogas e das pedras nos anos 1990 (1980? não tenho certeza), Moonlight tem atuações primorosas, como a do ganhador do Oscar de ator coadjuvante, Mahershala Ali, que faz Juan, um cubano que chegou nos EUA ainda criança e que é chefe do tráfico. Um persongem que faz as vezes de figura paterna para um menino calado, que visivelmente sofre em silêncio e fala mais com os olhos angulosos e tristes do que com a boca.

É um filme com e sobre homens. O universo feminino apenas orbita por entre a trama densa e carregada de questionamentos, sem exibir qualquer movimento panfletário. É sim um recorte social sobre aqueles que vivem à margem, seja porque nasceu na periferia, porque o marido abandonou cedo com um filho pequeno, porque se é homossexual ou porque a escolha de viver no mundo do crime é, invariavelmente, uma escolha nefasta.

O filme é intenso em alguns momentos, sem ser piegas. Sem explicar demais. A câmera muitas vezes parece nervosa, sob a ótica de um olhar que tateia a atmosfera dos ambientes e das pessoas, como se fosse o olhar de alguém, a observar a cena.


Moonlight tem violência, tristeza e diálogos profundos. Sem carregar nas tintas, sem perder de vista a sutileza do que podemos sentir ao assistir um filme e tirar nossas próprias conclusões, rebuscando nossos sentimentos, encontrando ressonâncias em nossas próprias vidas, mesmo que não haja uma relação direta com o que se passa na película. Porque apesar de estarmos diante de uma grande tela, de estarmos diante de grandes atuações, o fio condutor de Moonlight é o silêncio que nos permite respirar, suspirar e sentir a vida.


Mural



Foto extraída daqui



na falta do que dizer, a gente se abraça com o silêncio. e deixa os outros sentidos mais aguçados. meus olhos veem coisas que querem dividir com vocês. por isso está inaugurada uma nova sessão no Bicho. na falta do que dizer, eu busco palavras, desenhos e experimentos. meus e, principalmente, alheios. esse é da artista regina parra. lá no site dela tem muita coisa bacana.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Só se for por timidez



Sempre gostei de insetinhos, borboletas, soldadinhos, joaninhas e lagartixas (que não são insetinhos, eu sei). Quando os aladinhos passam pelo meu jardim, sinto como se fosse um bom presságio. E, mesmo que não ocorra nada de diferente, pra mim só a presença deles já me parece um bom presságio. Não precisa ser uma loteria ganha na quarta-feira, vai. Hoje tive a sorte de receber dois visitantes em casa: um imbuá na cozinha e agora (esse da foto) um insetinho verde que super contrastou com a caixa onde ficam os livrinhos sobre cinema, que eu ganhei de uma amiga.

Antes, ele tinha passado pelos livros do Borges. Mas, como se pressentisse minha vibe paparazzi, voou ligeiro para mais acima das prateleiras. Eu gostaria que ele encontrasse o caminho dele e voltasse para o jardim. Lugar mais adequado para um insetinho verde morar. Ele pode fazer o puxadinho que quiser no meu jardim. Chamar amigos e tal. Só não vale comer as rosas do deserto.


Assim como também gostaria de encontrar o meu. É que eu ando meio perdida ultimamente. Acho que o mundo tem muitas pontes do bom senso quebradas, as pessoas estão se distanciando umas das outras e às vezes até de si mesmas, navegando seus barquinhos de papel, furados, solitárias. E ao invés de buscar uma margem segura e sensata, se dirigem para o precipício da queda d´água.

A esperança ou o desespero são construídos em pequenos, ínfimos, instantes. Difícil não sorrir ou não se enternecer com sorriso de criança. Assim como difícil não costurar o canto da boca com silêncios profundos quando você solicita alguém e essa pessoa mente pra você. Algumas são até educadas. "Vou ver sim". "Ficarei atento". "Claro! Vai dar tudo certo". E você sente que no próximo instante a ponte entre a fala e o gesto será quebrada. Como se você ficasse de braços abertos para um abraço vazio. Um beijo que estalou seco no ar, sem as almofadas da bochecha para amortecê-lo. 


O mundo já está cheio de exércitos. Tem pessoas armadas de ódio; tem exércitos de pessoas tristes. Exércitos de gente maledicente que não consegue sorrir sem passar promissória. A gente precisa aumentar o exército das pessoas que acreditam na humanidade. Pessoas que entendam que a dor não passa só com aspirina ou com cocaína. Pessoas que gostam de pisar em folhas secas, que leem poe-mas em voz alta, ou algo do tipo. 

Montarmos um exército de gente que ao invés de super-valorizar carrões importados, que se enterneçam com a presença das Xananas nos cantei-ros. Pessoas que no lugar de fazer discursos, façam gentilezas a estranhos na rua. Gente que não desvie o olhar. Mas se o fizer, que seja apenas por timidez.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Tédio nosso de cada dia




Nossos gatos nos acordam todos os dias praticamente no mesmo horário. Sabemos o porquê: reivindicam com seus bigodes o primeiro passeio matinal. Depois, cada um deles volta e come ração. Em seguida, tiram uma soneca de umas três horas. Acordam. Comem. Tomam água. 

Por volta das 16h, novo apelo para o segundo passeio. Voltam. Comem. Bebem. Dormem. Quase tudo corre igualmente idêntico no transcorrer dos dias. Dos anos. O primogênito já tem mais de uma década da mesma rotina diária. Se fossem eles pessoas, certamente, já teriam gritado ao mundo que vivem no mais genuíno e profundo tédio. Essa coisa pela qual não estamos treinados a suportar. Mas eles são gatos.

Não estamos treinados mas, invariavelmente, somos compelidos ao tédio na grande maioria do tempo. Afinal, nem todo dia é dia santo ou quatro dias de carnaval em Olinda. 

A repetição é absolutamente inerente à condição humana. E, acredite, caro leitor, morre-se menos de tédio do que de frustração em não querer admiti-lo. Criatividade, originalidade e a apotheósis não dão em árvore, nem são tão fáceis de se manifestar. Tal qual um bom orgasmo, ninguém suportaria uma existência apoteótica em inventividade e criatividade. São necessárias a calmaria e a repetição para que nossa vida seja compreensível.

A ideia de "Livin´ La Vida Loca" só na música do Ricky Martin. Até a arte, que seria uma espécie de oposto do tédio, da mesmice, da repetição, tem cada vez mais perdido espaço para o abismo da falta de criatividade. 



Não tome isso como se eu tivesse um trunfo na manga, caro leitor, mas, por exemplo, eu não assisto ao BBB. O programa mais chato, vazio e repetitivo da história da televisão brasileira há mais de uma década de exibição. Seria uma afronta às minhas agonias, fastios, apatias e molezas pessoais, se as substituísse pela dos outros. E, pior, vindas de um programa de tv tão vulgar.

Mas há quem goste de fazer de sua vida um programa de TV. Nem que ele tenha dez segundos, ou alguns minutos. Vale tudo: mostrar o café da manhã; mostrar que está puxando ferro; mostrar a cor do esmalte; mostrar que está pisando numa calçada; mostrar que mudou a cortina; mostrar que acordou de cara amassada; mostrar a boca em bico; mostrar, mostrar, mostrar. Mais do que viver. 

Vale mais que os outros saibam como transcorre aquele interminável minuto de sua vida, do que você parar um pouco para pensar ao menos um minuto na sua vida. É o êxtase da exibição engolindo a profundidade de ser e estar em algum lugar, sendo alguém. Não uma coisa à mostra. Não um objeto a ser consumido pelo olhar alheio. Não uma pessoa que passa pela timeline, mas nunca fica para um café. Uma pessoa que dribla o tédio com doses cavalares de repetição do próprio tédio.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Bon Iver - For Emma, Forever Ago (Extended)





Eu amo esse álbum... as canções me acompanhavam pelas trilhas que eu fazia com a minha velha bike de cestinha que descansa preguiçosamente no quartinho coletivo do prédio. Cada canção ouvida é uma esquina dobrada ou uma subida ou descida. Nossa! Como eu gosto dessa sensação.

Chet Faker - No Diggity (Live Sessions)