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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

O Natal dos outros

Todo Natal é sempre a mesma coisa. Bate uma depressão e fico achando tudo tão meio sem sentido. A correria pelos presentes. Os cartões e as mensagens na caixa de e-mail. Desejos e mais desejos de felicidade. Uma coisa absolutamente mecânica e chata. Eu sei que posso parecer ácida e coisa e tal. Pode até ser mesmo. Esse ano estou ainda mais depressiva. Um misto de desolação, raiva e desencantamento. O imbecil do meu chefe (ele sempre trata as pessoas assim, logo, estou lhe fazendo uma homenagem) colocou-me no plantão de logo mais à noite. Lá vou eu para a Missa do Galo, na Catedral que imita um tobogã. Não sem antes procurar alguns mendigos na rua e tentar conversar com eles sobre o espírito do Natal. Já fiz isso antes. Já fiz outras inúmeras vezes reveillon. Aliás, uma das justificativas do imbecil foi essa: a de que era melhor trabalhar no Natal do que na virada do ano.

Ano passado, quando chegou essa época do ano eu também estava assim. Fomos jantar na casa dos meus tios. Tinha pelo menos umas 20 pessoas por lá, todas falando ao mesmo tempo, enchendo a pança e a cara. A comida até que não estava tão mal e eu tomei umas boas taças de vinho e inventei de tomar uma dose de uísque cowboy. Acho que quis ser o "filho mais velho" do meu tio Veríssimo. Só para impressionar. O máximo que consegui foi trocar as palavras e uma ressaca dos diabos no feriado 25. Sem contar a cara dele que era um misto de "essa menina é doida" ou "eu ajudei a criar um monstro". Mas minha outra tia foi mais além. Já mais pra lá do que pra cá, deitou no meio do asfalto - com o dia já claro - só para convencer meu (outro) tio de que ela não estava nada bem e que precisava ir para casa. Ele dirije mal pra caramba, se eu pudesse, tinha pego um taxi. Mas, enfim, troquei a depressão daquela noite por um porre. E não posso reclamar, foi divertido.
Fellini já estava conosco e tinha realizado sua primeira fuga de casa. Mas, esse é um capítulo já resolvido.


Esse ano, todos eles estarão reunidos novamente. Com excessão de minzinha e do meu primo Júnior, que está fazendo residência em Recife e parece-me que está ocupado com plantões. Pausa para uma notícia quentinha. O outro imbecil do meu chefe acaba de entrar em cena e me entregar as duas pautas da manhã: vou fazer matérias sobre o burburinho das compras de última hora e pessoas pedindo esmolas nos canteiros. Eu já fiz isso antes. E, sinceramente, sempre dá para ficar um pouco mais deprimido.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Orquídeas no Jardim

- E se tivéssemos nos conhecido há 10 anos?

- Não podemos prever o que é impossível, Clara. Nos conhecemos agora. É o que temos.

- Mas é como se eu me lembrasse de você há muito tempo. Tenho a impressão de que essas coisas todas, essa música, o seu toque, sua voz, você, tudo é tão familiar. Tanta coisa abstrata e tão pouco de concreto.

- Clarinha, você parece uma menina. Você é uma menina.

- Não pormenorize minhas sensações, Joaquim. O que falo não é coisa de criança. Eu queria que você tivesse aqui mais cedo. Poderíamos já ter uma casa. Mesmo que dormíssemos em quartos separados. Sabe que prefiro assim. Dividiríamos o mesmo escritório. Do lado das suas árvores, eu poria minha jardineira com as minhas flores preferidas. Uma roseira, uma cravina de várias cores e até quem sabe pudéssemos ter uma orquídea no jardim. E nossos filhos poderiam estar no jardim da infância. Se o tempo tivesse sido generoso conosco, talvez até mesmo um deles já estaria na quarta série.

- Não vamos apressar o rio, Clara. Está tão bom assim, vivemos os minutos, as horas e os dias com intensidade e delicadeza. Não somos estranhos um ao outro. Você sabe disso. Embora o tempo seja ainda curto e incerto, temos parceria. E isso já é muito bom.

- Você tem razão, meu querido. Vamos tomar mais uma taça de vinho? Gosto muito desse. Sempre que dá, compro uma garrafa.

- Antes de mim você tomou com mais alguém esse vinho?

- Que pergunta é essa agora?

- Sei lá. Às vezes fico pensando se foi alguém especial que te apresentou esse vinho. Sei tão pouco da sua vida. Não que eu queira saber de fato, mas é que às vezes bate uma curiosidade.

- E se tivesse sido dessa maneira que você sugere? Que diferença faria, Joaquim? Vão-se as garrafas, fica a embriaguez, o enlevo, a sublimação das ressacas.

- Tá vendo? Eu tinha razão.

- Razão do quê, meu Deus? Do que você está falando agora?

- Você já quis ter filhos com alguém? Já fez planos? Já plantou uma árvore ou pensou em escrever um livro a quatro mãos?

- Quantas perguntas! Era só uma pequena taça de vinho.

- Você já amou alguém, Clara?

- Sim. Acho que sim. Já fiz planos. Já quis ter filhos, plantar árvores. Escrever poemas. E How I Wish You’re Here, do Pink Floyd, era nossa música preferida. E também tinha uma outra que o Ed Motta gravou que começa assim, “Areia, manhã...”

- Eu não quero saber, Clara.

- Joaquim, eu não acabei de nascer sabia? Já tenho 35 anos. E...

- Você sabia que existem mais de 30 tipos de orquídeas?

- Eu pensava que tinha mais que isso.

- Depois a gente poderia pesquisar as que são mais resistentes. E as mais apropriadas para um jardim pequeno, mas de terra fértil.

- Claro, que sim. Mais vinho?


sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os motivos de Serena

Uma estranha apatia passeava pelos poros. Tornando mudas as palavras. Cansados os gestos. Quase triste o olhar. A decisão já estava tomada, talvez há tempos. Mas, os dois, até aquele momento, tentavam ignorar que o amor tinha sucumbido. No lugar dele, uma complacência absoluta ao acaso e ao ponteiro das horas. "Lê alguma coisa pra mim", pediu ele, quase infantil. "Não quero ler agora", respondeu a moça, com os olhos baixos, a voz discreta, quase pedindo desculpas.

"Então canta alguma coisa pra mim". Quando se conheceram aquilo era extremamente comum entre eles. Ao invés de CD´s a voz rouca e falha dela era sua atração predileta. "Canta aquela do azul", sempre sugeria a mesma música. A moça refletiu sobre aquela mais nova investida de prolongar a inevitável despedida. Pensou num poema do Lugones, observou as crianças que brincavam na areia da praia, logo adiante. Respirou fundo aquele ar úmido e salgado, passou a mão na cabeça, brincou com alguns fios soltos. Enquanto ele não tirava os olhos de cima dela, num apelo silencioso.

E cantou o que imaginou ser a melodia mais triste e mais dolorosa que sabia. Com o intuito de emoldurar aquele momento com o que mais havia de ser triste. Ele entendeu. Seus olhos de um azul profundo, navegaram por entre nuvens de chuva fininha, que desce alfinetando os poros. Serena nunca tinha visto Lago chorar. Ela, que tantas vezes tinha mergulhado profundamente naquelas pequenas ondas de calor e suor, agora sentia vontade de apenas ficar à margem. Criar raízes longas por entre as pedras e não fazer mais outra coisa a não ser observar o cristalino das águas se transformando - com o passar das horas - em sombra, mistério e espelho das estrelas.


"Vem comigo. Pega teu barco e vem comigo", ele disse com uma clareza de palavras que Serena jamais esperou ouvir. "Mas e o que eu faço com esse jardim que cresce em volta de mim? E os passarinhos, que fazem suas casas em meus cabelos. E as pedras que vivem a se confessar e a contar com meus conselhos?". Lago não tinha as respostas, nem queria dar respostas. Já as conhecia. "Continue cantando. Até eu escorrer por completo e me misturar todo, a esse mar".

E assim Serena o fez.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Pequeno ato de Amor I

você é doce
triste
velho
criança
nuvem.
o homem que eu escolho
(todos os dias)
para ser meu
(um dia).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Buquê de Fantasias (capturado também)

sorvo as entrelinhas
como quem furta as palavras
escondidas
nos teus pensamentos

delas
extraio pedra
escuridão e pó

volto pra toca
empanturrada de espinhos
e cheia de versos
sem cheiro

Capturei a "Louka" do asfalto de novo

Um louco me atropelou. Era meio mundo para a metade das coisas que ainda estavam por vir. Entrou direto em mim, pela costela esquerda. Não deu nem tempo de gritar. E ele acelerava em cima da costela invertebrada e emprestada, pensando ser Adão. E não era. Nem era tão. Lambia meu pescoço sôfrego por compreensão. Enquanto eu ía pensando nas contas vencidas dos cartões de crédito. Totalmente desacreditada daquela instantânea vontade dele de ser o único homem da face da terra.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Persona non grata

Ainda não comuniquei oficialmente no blog, o resultado da fuga – registrada em post anterior – do Fellini. As mil e quinhentas pulgas que eu tirei dele, quando voltou para casa, deixaram um rastro de bactérias pelo seu corpinho franzino. E ele quase morreu. Pegou aquela mesma doença que os cachorros têm quando ficam empestados de carrapato. Depois de vários dias sem comer, triste pelos cantos, tivemos a sábia idéia de leva-lo ao Dr. Dolittle de Nova Parnamirim. Minha mãe já é fã dele porque sempre faz questão de elogiar o comportamento exemplar do bichano e o recebe com um cheiro. “Esse gatinho é um santo”, blasfema, e minha mãe segue repetindo a frase durante toda a semana. Após um inconveniente termômetro enfiado num lugar nada convencional para um gato ou qualquer outra espécie viva na terra, foi identificada uma febre de 42 graus (e Dr. Dolittle não acreditou como ele não convulsionou e coisa e tal). Um tratamento de choque na hora e antibióticos durante um mês garantirão a permanência do canalhinha por mais tempo em casa.

Passei muito tempo morando sozinha. E, todas as vezes, em que adoecia também ficava triste pelos cantos. A sensação de finitude que me invadia toda vez que aparecia um resfriado era enorme. Mas nada se compara quando precisei fazer cirurgia. E já fiz três. Quem já passou por isso, sabe que não é das melhores experiências a se ter. Nem ninguém – em sã consciência – se vangloria de ficar completamente inerte, deitado numa cama fria, à mercê do bom humor e quiçá da ammmmpla e irrestrita experiência médica.

Descobri que tinha um corpo, digamos uma persona non grata, crescendo dentro de mim em 2004. Já devia estar lá há uns dois anos, dada a evolução do quadro. Comparado a uma laranja média, se não fosse tirado logo iria crescer e “empurrar” ainda mais o meu ovário esquerdo para um buraco negro e sem volta. Do diagnóstico à cirurgia foram uns 10 dias. Minha amiga Hayssa estava lá comigo. Antes da hora marcada de entrar no hospital – 21h30 – não podia comer nada, mas fumei uns três cigarros seguidos. Falei muito. Tentava disfarçar o nervosismo contando piadas, falando de amores, do desejo de fazer uma plástica. Ela acompanhava solidária. Cheguei na hora marcada e me mandaram colocar uma roupa azul totalmente lascada atrás que deixa a bunda da gente exposta aos enfermeiros. Uma coisa lastimável. Quase tão humilhante que ser dopada e ficar falando miolo de quartinha por nove segundos antes de apagar por completo num branco abissal. Enquanto esperava o competente médico realizar sua 15ª cirurgia daquele dia, fiquei sozinha em um longo corredor. A sensação de finitude se confundiu com solidão. A minha (cirurgia) deveria ser a última daquele dia. A voz rouca e acolhedora dele me deixaram mais relaxada na hora. É um homem atraente, confesso. Mas, naquele momento e em todos os outros de nossa convivência, o que mais me chamava atenção no Dr. Paulo, era o fato de ele olhar nos meus olhos e gastar uns 30 minutos, simplesmente conversando, explicando e dizendo que tudo ia dar certo.

Acordei sentindo uma dor quase tão lacerante quanto as que vinha sofrendo nos últimos dois anos. Minha barriga estava inchada e dolorida. Minha garganta seca me impedia de deglutir. Acordei chorando de um sono pesado e sem sonhos. Uma sonda enfiada porta a dentro queimava minha bexiga como brasa. Minha amiga Hayssa ainda estava ali, solícita e vigilante. Tinham se passado umas três horas. E eu estava de volta, com 80% a menos de um pedaço original meu, mas estava de volta.

Como a persona non grata é cara-de-pau e persistente, sei que ela ainda pode voltar. E é fato há alguns meses, tem dado alguns sinais. Nada comparado a antes, mas sei que ela me espreita de novo. Desafia mais uma vez minha resistência. Testa minha paciência. Minha tolerância à intrusões e, sobretudo, à dor. Ontem, por exemplo, senti que batia à porta. Com pouca ênfase ainda, mas como se estivesse rondando o portão e pensasse em tocar a campainha. Se disser que não tenho medo estarei mentindo. Mas digo também que a sensação de finitude não é mais algo tão incômodo. Não sou invencível, não tenho super-poderes (de quando era criança), nem todo o dinheiro do mundo (de quando eu era adolescente). Tenho medo. Tenho dor. O corpo tem sucumbido a alguns caprichos do tempo. A cabeça às vezes vai lá na frente. Por conta disso, tenho tomado algumas precauções: todos os dias dou um beijo demorado na minha mãe; brinco, mesmo cansada, com meu gato no fim da noite; ainda tenho pensamentos inocentes e crenças pueris sobre a vida e as pessoas, e não quero desperdiçar tempo com raiva ou ressentimentos se dá para substituir por amor, carinho e aconchego. Tem dado certo. Sou finita, mas não preciso ser limitada. Só preciso agora marcar uma nova consulta.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Reminiscências

Marina sentiu aquelas palavras como uma lufada de vento no meio da cara febril. Será que só ela não percebera até então toda aquela ilusão passeando pelo seu corpo e coração de olhos cegos de inocência?

“Às vezes, as pessoas mentem, Marina. Para conseguir coisas. Para satisfazer prazeres instantâneos. Ouça, Marina, você deve ir agora porque está tarde. Porque já é tarde demais para que você possa entender alguma coisa. Para entender o que se passa dentro de mim. Por favor, Marina. Não insista. Vai ser melhor assim, eu juro”.

“Mas e todos os meus beijos e todos os meu pêlos e todos os meus líquidos? O que eu faço com eles?”

“Arrume-os um por um. Não deixe nada espalhado pelos cantos. Seja uma boa menina. Você deve ir agora. Por favor, bata a porta. E não deixe sapatos, anéis, vestidos ou calcinhas esquecidos no banheiro. Minha casa não é mais a sua casa”.

“Eu te avisei que se você andasse no meio-fio, poderia desequilibrar-se, cair e ralar o joelho. Está vendo agora, o sangue descendo pelas pernas? Menina mal-criada. Engole o choro e vá se lavar em casa. Não chore, quando casar sara.”


Uma história qualquer

Sento na cadeira. Tenho tanta expressão quanto o alcochoado azul. Se fosse eu um vinho, precisaria de um potente saca-rolhas, para que de mim pudesse ser extraído algum líquido. Trocadilhozinho infame. Sem graça até. Imagens me vêm à cabeça. Nenhuma idéia concreta. Ou abstrata. Apenas algumas vagas lembranças de historias que nunca vivi nem tive tempo de criar. Tão diáfanas quanto as palavras que sobrevoam a cabeça, mas não se alinham em nenhum registro que valha à pena. Ouço Antony And The Jhonsons. My lady history balança minha inércia. Não sei por que insisto. Como se, igual na voz melancólica do moço andrógino e inglês, um urro tímido, mas constante brotasse da minha garganta. Mas, ao invés de sair, fica represado.

Um homem e uma mulher sentam-se lado a lado. Ambos têm os braços cruzados abaixo do peito. Estão parados e presos aos próprios pensamentos no meio da multidão. Tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo. Como se minguassem calmamente, à espera da lua cheia que só virá no próximo mês. Olho para trás e observo-os em frações de segundos. Teria eu uma história para contar? Seria mesmo deles aquela história? Nunca saberei e esqueço-me por completo deles e penso unicamente na minha própria história. Em todos os capítulos os quais deixei que escrevessem para mim e aqueles que ainda estão por vir. Penso na caneta tinteiro. No gozo preto jorrando por entre meus dedos. Finalmente algo que posso dizer que é meu. O rabisco inicial se transformando em algo nítido. Traços quase-perfeitos. Um quadro que pode ser exposto. Como aquele casal lá atrás, exposto aos meus olhos. Tão inocentes e tão meus, os dois. Sujando-se com a minha tinta. Deixando-se revelar através do meu rabisco.

De repente ele se levanta. Os passos lentos disfarçam a urgência de respirar longe dela. Respirar longe de todos. No lado de fora da rua, faz a única coisa capaz de salva-lo. Acende um cigarro. A fumaça bailando com a leve bruma do rio que descansa ali próximo. Passa a mão no cabelo. Gesto típico de quem quer afastar pensamentos. Sorve aquela matéria diáfana e letal como se fosse o único antídoto de sobrevivência. Ela o fareja como uma leoa que perde o filhote no meio da selva. O nome dela poderia ser dominação. Ele sorri placidamente. Faz um gesto de já volto para o circo. Seu nome poderia ser selvageria. Mas não. É só solidão.


Volto os olhos para a página em branco. Penso ter visto passar rapidamente, num vôo delicado e inocente, a leve pena de um pássaro. Tão branca que se confunde com os espaços vazios dessa história.


Palavras que poderiam ficar caladas

- Você não vai falar nada?
- Falar o quê?
- Isso que você está pensando?
- E se eu não estiver pensando nada?
- Impossível
- Ta bom, e se o que eu estou pensando não puder ser dito?
- Impossível.
- Impossível por quê?
- Impossível porque o que você está pensando, eu consigo ver nos seus olhos.
- Então não preciso dizer nada.
- Já sei, por que você não fecha os olhos e fala?
- Vou fechar os olhos e permanecer com os pensamentos calados enquanto a boca falar qualquer coisa.
- Você não me leva a sério.
- E você não me escuta.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O nome daquilo

Acho que foi por volta de 1990 que fui apresentada a Caio Fernando Abreu. Quero dizer, aos textos do C.F.A.Eu era uma aspirante a atriz - cheguei a fazer uma esquete e uma comédia pastelão para teatro - e dedicava boa parte do meu tempo a ler textos e mais textos. Pois bem, foi nessa épocaque me deparei com o texto "Pela passagem de uma grande dor". Basicamente é a história de um casal que deu certo em três semanas e uma gravidez inesperada e uma clínica de aborto deram conta de acabar com qualquer sombra de romance entre a mocinha e o rapaz.

A história é até bem banal. Mas impregnada de um drama natural, que causa identificação imediata, justamente porque faz parte da vida de todos nós. E é uma característica marcante no texto do C.F.A. Meu amigo Carlos de Sousa, certa vez, comentou comigo que tem "medo" de ler o C.F.A., porque corre o risco de ficar escrevendo como ele, tamanha é a intimidade com que ele se comunica com seus leitores. O fato é que, desde aquela época, nunca mais me esqueci daquela história, tampouco daquele título: "Pela passagem de uma grande dor". Poderia ser a epígrafe da humanidade.

Sempre que me sinto assim, como estou agora, penso naquela frase. Porém, o mais estranho de tudo é que dessa vez, não identifico nenhuma crostra invisível ou visível de dor, lamentação ou qualquer coisa que me ponha igual e humana. Dia desses, enquanto fazia minha caminhada, me ocorreu algo aterrador: a ausência total de dor. Nem mesmo o vazio que me toma as paresde da existência, tem me causado algum incômodo. Não sinto nada. Estou no mais profundo e genuíno tédio.

Como se me permitisse uma supra-realidade, na qual observo as outras bolhas de realidade, voando abaixo e fracas demais para se aproximar. É uma sensação horrível. Indolor, repito. Mas mais aterrorizante que o episódio de minha infância quando, num devaneio, enquanto me olhava no espelho, não conseguia me enxergar. Eu não estava ali. Embora pudesse sentir a respiração brincando em vapores. Agora eu sei que crianças devaneiam quase todo o tempo, inclusive quando as deixam ser criança. Só adultos sabem o que é insônia e conseguem definir que uma caneta é apenas uma caneta e não um mastro de circo, ou uma bengala, ou uma varinha mágica.

E, agora, enquanto observo a letargia dos outros diante da minha bolha. Rogo aos espelhos que, senão a minha grande dor, ao menos pequenas dores possam ressurgir das brechas, dos becos, das fendas que ainda estão por vir. E que os humanos costumam dar o nome de esperança.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sim, eu faço Pose

Parimos a cria. Em maio passado o Crico e eu (depois chamamos a Ara), tomando café lá no Alamanda, decidimos fazer algo por nós mesmos nesse mundinho jornalístico de piso salarial que não chega a três mínimos, releases malacabados, pautas idem, uma semana sim, três não de prazer profissional. A idéia era fazer uma revista/anuário que falasse de moda e disponibilizasse um guia de lojas, produtos e serviços relacionados ao tema.

Pra ele até que tudo bem. O cara é chegado nessas coisas de roupa, grife, etc. Quanto a mim, quem me conhece sabe que é muito mais fácil me encontrar de jeans e camiseta básica que encontrar água na geladeira. Sabia que as pessoas iriam questionar o que é que eu estava inventando de falar sobre algo que nada tem a ver comigo. Às vezes até mesmo eu fazia esse questionamento.

Quando eu era adolescente, a falta de grana - que já me era algo inerente - me levava a transformar calças em saias, saias em blusas e sapatos surrados em telas para meus anseios de artista plástica. Também sonhava em ser estilista e desenhava as roupas que minhas tias levavam para a costureira do interior fazer, depois de comprarem tecidos na Esplanada e na Narciso. Era muito bom ver as criações ou as reproduções de revistas tomando forma nas mãos da Dona Nalva, que continua caprichosa, mesmo que nunca mais eu tenha pedido a ela para fazer alguma peça de roupa pra mim.

Ainda muito menina, lembro que desenvolvi uma certa obsessão por lingeries e os chamados maiôs colants. Como não tinha nada disso no guarda-roupa, lembro que certa vez coloquei a saia embaixo dos braços, ensaquei na cintura e pronto, tinha um maiô colant! Só não dei muita importância para o fato de que a saia era godé e que todo mundo percebia que aquilo não se tratava de um maiô tomara-que-caia e sim uma saia-godé-disfarçada-de-blusa. Minha mãe quando viu, fingiu que não era a grossa saia 80% poliéster e 20% algodão que tantas vezes me vestira. Como agradeço à cegueira displiscente da minha mãe. E ela ía mais adiante, também deixava eu passar horas vestindo seus vestidos, colocando seus chapéus e óculos dos anos 1970 e aplaudindo minhas poses diante do espelho. De lá para cá, fui ficando medrosa. Ousei pouco na adolescência no quesito roupa, confesso. Agora na fase adulta, sou mais adepta à personagem da minha revista que diz, "na dúvida, melhor passar despercebida".

Pois bem, a menina tímida que gostava de moda quando criança fez uma revista/anuário (Pose - Anuário da Moda Potiguar). Não que ela ache que tem algum talento para ser estilista ou virar uma crítica/comentarista/colunista de moda. Nada disso. Ela só resolveu se desprender um pouco do musgo medíocre que impregna as ideías, os bloquinhos, os dedos e as folhas dos jornais diários dessa cidade. Construir um outro horizonte de possibilidades, mesmo que ele tenha vindo só para mostrar que ainda é possível criar, acreditar que saias podem se transformar em blusas, e que dá para desenhar a própria vida profissional, nem que seja por algumas páginas. E, nesse caso, são 115.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Meu mundo é três


Fellini desapareceu esse final de semana.Não foi a primeira vez que ele resolveu dar uma descansada de tanto carinho e paparicação, mas foi a primeira vez que ele fez isso comigo sozinha em casa. Na sexta, antes de fazer meu plantão no jornal, deixei mamãe de malas prontas e coração aberto rumo ao interior. Lá, ela deveria visitar o túmulo de vovó e, de quebra, rever amigos, receber paparicos (chegou cheia de presentes) e matar as saudades, ao menos aquelas em que ainda é possível fazê-lo.


Na sexta à noite, num instante Fellini estava brincando na calçada da vizinha e cinco piscares de olhos cansados depois, ele não estava em lugar algum. Evaporou. Ninguém viu, ninguém sabia qual direção ele pudesse ter ido. A casa ficou enorme. Emudeci mais ainda e simplesmente não conseguia fazer nada. Quando pensava em alguma coisa era só no que eu diria para mamãe quando ela voltasse. Não dormi naquela noite. Na madrugada alta, levantei, fumei uns cigarros, chorei um pouco, pensei ter visto o vulto dele passando pelo quarto, mas era só o desejo tomando forma na fantasia e no delírio.


Na manhã seguinte o peso da responsabilidade, o silêncio quase cortando a carne e a solidão encrustrada em cada pedaço da casa me deixaram de cama. Não comia, não bebia, não conseguia dormir. nem chorar era possível. resolvi tomar uma atitude: "moço, o senhor não viu esse gatinho rondando por aqui?" (falava isso em prantos, passeando pelas redondezas, com uma fotografia de um siamêz absolutamente igual a todos os outros siamezes que puderam existir na face da terra, mas completamente diferente de todos os outros, porque era o nosso Fellini. o gatinho que lambe nossos dedos e ponta do nariz, basta ter chances. o gatinho que só come ração a base de peixe, que não reclama para tomar banho, que dá cambalhotas no ar e se espreguiça no mínimo comando, que tem medo de ronco de motocicleta, que adora se esfregar no capim santo do jardim e não faz xixi ou cocô fora do lugar eleito, nem por decreto.


Vinte e quatro horas depois, exatamente às 20h do sábado, ouço o miado infantilizado dele em cima do telhado da vizinha. Cansado, desorientado, faminto e cheio de manha, tive que subir escada acima (tenho medo de altura), munida de uma lata de atum aberta (muito mais atrativa que a minha voz aflita) para conseguir agarrá-lo. Dessa vez o fujão voltou cheio de apetite e absolutamente repleto de pulgas. Ontem, enquanto dava banho nele e tentava livrá-lo daqueles insetos inconvenientes, pensava comigo mesma, se valia à pena tanta convalescência e tanto vale de lágrimas por um único gatinho? já que ele não entendia muito bem o que tinha acontecido e tampouco compreendia o impacto de sua ausência na minha vida. aí pensei também que não era tão simples assim. quanto de mim havia ali? o quanto de mamãe havia ali? o quanto da nossa vidinha pacata e caduca estava ali. que em casa não somos mamãe e eu. em casa somos nós três. em casa tem o mundo de mainha, meu mundo e o mundo do Fellini. os três só fazem sentido se estão juntos e vira um mundo só.


um mundo que não é perfeito. que tem contas a pagar. que assiste novela. que se empesteia com pulgas. que ainda tem muito o que viver, e lembranças para recordar. um mundo pequeno e ao mesmo tempo infinito. cheio de racionalismo e de instintos. um mundo que se encerra a cada noite e recomeça a cada dia. um mundo que se perde e se reencontra em alguns segundos e, ao mesmo tempo, durante toda uma vida.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Uma ángústia, uma saudade, uma revelação

Não é de hoje que os psicólogos e pessoas em geral têm reparado na fragilidade das relações. No quanto as pessoas estão indisponíveis para um talvez ou um não. Conversava com um amigo dia desses e ele se referia a um certo "autismo" que vem se apoderando de todo mundo. Como se construíssemos uma redoma em volta dos nossos sentimentos, da nossa alma e até mesmo do nosso corpo. E o que estivesse fora, estaria automaticamente descartado. Ignorado.

Pois bem, essa constatação nada me alegra. Tampouco é algo que eu persiga nas minhas relações. Mas um episódio que me aconteceu há poucos dias tem me deixado bastante angustiada. Tem a ver com a quebra - nem que seja momentânea - de uma harmonia que levou meses, anos, para ser instalada. Fico pensando se daria para medir sentimentos de amizade; e se isso fosse possível, se daria para medir também todas as vezes em que nossos amigos, digamos, pisa na bola ou faz um gol contra.

Nunca fui muito boa nesse lance de futebol. Nem nunca quis entender o que está por trás da histeria masculina com relação ao tema. (Bom, se for parecida com a feminina sobre cosméticos, até que posso fazer uma idéia) Mas, entendo de amizades. Tenho um monte delas espalhada Brasil afora. Um monte delas que não vejo faz tempo, mas que pulsam tão forte e elegremente no meu ser, como se vivessem ao meu lado. Dia desses, um desses fortes laços foi afrouxado por algo que até agora não entendi direito. E isso está me deixando muito triste.

O primeiro impulso foi o de chutar o pau da barraca, dizer cobras e lagartos, me sentir a senhora da razão. O segundo foi de deixar tudo quieto. Não mexer. Não xingar. Não procurar entender ou questionar determinadas posturas que eu arriscaria dizer que foram infantis e egoístas. Mas, agora, e cada hora que passa e o telefone não toca, um e-mail não chega, me sinto vazia. Triste e solitária. É incrível isso! A gente perde namorado, acaba noivado, morre nosso cachorro, um passarinho aparece de asa quebrada no meio do quintal. E tudo isso dói. Mas passa. Perder um amigo não. É como se parte da gente se perdesse na imensidão daquele vazio escuro que se instala.

Eu não acho que o tenha perdido para sempre. Vou continuar apostando no nosso amor quase que incondicional. Se bem que, pensando bem, e lembrando que ele sempre me chama de "neurótica" e eu o chamo de "megalomaníaco", é bem possível que nosso amor seja incondicional. O fato é que se ele fosse um namorado, marido ou amante, eu cantaria para ele "Volta, vem comigo viver outra vez, do meu lado". Mas ele não é só isso. Ele é muito mais. E eu sinto saudades. E eu quero voltar a chamá-lo de megalomaníaco, quero rir com seu jeitão de menino mimado (mas de coração enorme); com um meneio de cabeça que ele faz bem rápido, como se tivesse o peso do mundo do Pequeno Príncipe nas costas. Quero de volta até mesmo seu jeito descarado de fumar meus cigarros. Quero de volta aquele brilho no olhar, da cumplicidade que às vezes eu penso que não acabaria nunca, nem numa guerra. E quero de volta a sensação de que não sou uma altista. De que não somos altistas. No mínimo, artífices de uma relação que está sendo construída na base do dia-a-dia, do olho no olho, do dizer coisas que nem sempre são bem ouvidas, ou bem compreendidas. Quero ter de volta a chance de ser artista do lado dele. De continuar criando um dia ensolarado, um céu azul e, uma cerveja gelada, uma confidenciazinha só para fazer todo o sentido do mundo confiar, e tudo isso, embalada por um fundo musical que é uma gostosa risada, compartilhada e vivenciada a dois. E já que eu tô fazend o post mais real e sincero de toda a minha vida, sem nehuma sombra de cronicidade (se é que essa palavra existe), vou finalizá-la dizendo o seguinte: "Crico, volta, vem comigo viver outra vez do meu lado".

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Poema em dó menor

Para que te convidar para entrar
Se sequer bates à porta
De que adiantaria todo alvoroço
Rosas no cabelo
Saia rodada
Calcinhas na gaveta
Se me despes apenas com silêncio e indiferença

Para que te convidar a beber
Da minha saliva
Se sequer sentes sede
E de que adiantaria colocar um blues na vitrola
Vinho em taças
Cubanos equilibrando-se no fino cristal
Se teus olhos se mantêm altivos e ávidos por outras esquinas

Não, senhor, não entrarás mais em minha casa.
Para chegar até esse lugar é preciso atravessar uma rua
Dois rios, alguns vendavais, poças de sangue
Quiçá um continente inteiro
E dois ou três versos desperdiçados

Mas de que adiantaria
Se sequer soubestes ler nas entrelinhas



terça-feira, 23 de outubro de 2007

A verdadeira função

O relógio do meu quarto, cuja função é me guiar pelas primeiras horas da manhã, quando travo a luta mais feroz contra mim mesma, está com os ponteiros parados. E, embora tal situação não seja a representação da morte que andei lendo no livro O Dia Mastroianni, do J.P. Cuenca, parece que eu descobri a verdadeira função do relógio.

Na verdade nunca gostei de relógios. Há anos aboli tal utensílio. Prefiro coisas mais inúteis como o canto dos bem-te-vis me anunciando o dia, o chiado da panela horas depois e o roçar cheio de intenções silenciosas do meu gato, no fim do dia, por entre as minhas pernas.

Tenho a impressão de que descobri a verdadeira função do relógio, cujos ponteiros me apontam sempre para a mesma direção. O relógio quebrado pode ser uma seta apontando para cima; um rio que desce; um interruptor apagado; um livro fechado; uma rosa de plástico; um olhar distante; aquela mesma hora em outro fuso-horário, em Montreal, por exemplo; uma hora atrasada, uma hora adiantada, anos e anos girando em torno do próprio eixo, sem nunca sair do lugar. O relógio quebrado pode ser um espelho. Assim como todos os outros que agora circulam para lá e para cá, mesmo sem saber onde tudo isso vai dar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Confissões sem palavras

Delia Elena San Marco

Despedimo-nos em uma das esquinas do Once.
Da outra calçada tornei a olhar; você tinha-se virado e me acenou com a mão.
Um rio de veículos e de gente corria entre nós; eram cinco horas de uma tarde qualquer; como eu podia saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o intransponível?
Não nos vimos mais e um ano depois você estava morta.
E agora procuro essa memória e a observo e penso que era falsa e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação.
Ontem à noite não saí depois do jantar e reli, para compreender essas coisas, o último ensinamento que Platão põe na boca de seu mestre. Li que a alma pode fugir quando a carne morre.
E agora não sei se a verdade está na infausta interpretação ulterior ou na despedida inocente.
Porque, se as almas não morrem, é bom que em suas despedidas não haja ênfase.
Dizer adeus é negar a separação, ou seja: “Hoje brincamos de nos separar, mas nos veremos amanha”. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, embora se julguem contingentes e efêmeros.
Delia: um dia reataremos – à margem de que rio? – este diálogo incerto e nos perguntaremos se um dia, em uma cidade que se perdia em uma planície, fomos Borges e Delia.

(Jorge Luis Borges – O Fazedor, pg. 187.)


Como dá para perceber, recorri a Borges para registrar alguma coisa na minha jaula preferida. (Esse espaço). Às vezes releio minhas coisas escritas e duas sensações me ocorrem com freqüência. Uma, é que não me reconheço mais nas palavras. Ao menos por completo. Só vez ou outra, uma letra me parece familiar. Mas não vai além disso. Já a outra sensação é ainda mais angustiante. Sinto-me envergonhada. Tímida até por insistir em escrever tais e tais coisas.
Ontem a angústia da falta de palavras, da inapetência em criar teias com sentimentos e fatos reais ou fictícios se apossou dos meus pensamentos. Como se olhasse para dentro do meu caleidoscópio de idéias e dele não conseguisse divisar nenhum pedaço. Nenhum resquício de cor vermelha, amarela, azul, verde. Sequer um triste cinza. Nada.


E nesse momento, me entreguei ao que me é muito mais rico, mais caro e precioso. Folheei meus livros. Revirei o barro de que é feito os grandes homens e mulheres que realmente sabiam e sabem transformar a efêmera areia, no desejado ouro.

No ensaio A Cegueira de J. L. B. pude compreender essas coisas que para mim ainda não têm nome ou forma definida. E fui mais além, pude me aperceber que nem sempre o que é nome, é nominável e o que é forma, define alguma coisa. E confesso que foi um alívio. Covardia? Quem sabe. Conheci poucas pessoas valentes na vida. Mas talvez ainda tenha coragem de continuar me investigando. Mesmo que para isso tenha que me deparar vez ou outra com o sentimento de morte. De coisa irrefutável. De perda eminente e sem tréguas.

A primeira vez que entrei em uma biblioteca foi em Bom Jesus (Bonja, para os íntimos). Ela funcionava onde um dia fora a Prefeitura, numa época que minha mãe me deixava dedilhar uma pesada máquina de datilografia, nos intervalos de seu próprio trabalho. Até então não conhecia prazer mais intenso. O de poder riscar a folha branca do papel oficio, com palavras que saíam de dentro de mim e ficavam cravadas em outro lugar. E, de certo modo, aquilo era eterno.


Confesso que a primeira impressão de Edgar Alan Poe ficou. E não mais o li. Um amigo que já não mais está entre nós, mas que se tornou inesquecível pela inteligência, docilidade e generosidade, (e que era chamado pelos outros pelo nome de Francisquinho - embora pudesse ser o que quisesse) me apresentou outros nomes. Richard Bach e seu Fernão Capelo Gaivota; Saint Exupéri e o menino que era completamente vulnerável a uma flor voluntariosa, dona de um mini-asteróide no meio do universo, entre muitos outros livros. Não parei mais. Porém, tomei rumos nebulosos. E confesso que agora sei que vivi um hiato quando me dediquei a ler um, dois e até três folhetins românticos de histórias água com açúcar do século XIX, num único dia.

Anos depois, às vésperas de começar o movimento Sótão 277, com 17 anos, meu amigo Pablo me emprestou um livro, na despedida do último daquele semestre na escola técnica. Eu deveria levá-lo para ler nas férias em Bonja. Dentro do livro havia um bilhete de apresentação do livro e coisa e tal, do qual revelo uma das frases que mais acertaram o alvo de minha existência: “Leia e cresça!”. Era Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce. Nunca mais fui a mesma.

Meses depois já arriscava uns poemas.

Até hoje tenho aquelas palavras na memória, como se fossem uma espécie de profecia. Hoje me sinto pequenininha para amanhã, só amanhã, me metamorfosear – quem sabe - em nuvem. Ou em outra palavra que ainda não nasceu (em mim) e não cresceu. Mas sabe que um dia não será mais somente palavra. Será tudo o que uma palavra pode ser.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Só as pedras

Pedras na boca. Pedras no ventre. Pedra na lua.

Meu tempo está acorrentado aos meus afazeres. Numa conta rápida ontem, somei seis coisas ao mesmo tempo. E estou sempre com a sensação de que subtraio algo para o dia seguinte. E assim vou multiplicando um rescaldo que me põe quase com saudades do tempo em que chegará a aposentadoria.

Não sou muito saudosista - embora pareça o contrário em muitas coisas que escrevo. O que passou e o que virá não faz muito sentido para mim. Mas, sim, faz todo sentido do mundo, os resquícios desses tempos abstratos. Que por hora teimam em deixar marcas, arder, confundir, anestesiar, comprimir, expandir, retirar pedaços do meu corpo (e instantes da minha alma).

Hoje, excepcionalmente, tenho ímpetos que me deixam arredia, inquieta, indisponível e, paradoxalmente calma. Seria simplista resumir que sinto cólicas, muitas, abundantes. (Na verdade, seria quase uma coisa muito idiota dizer isso, posto que pode virar matéria de inspiração). É incrível os efeitos que uma dor física são capazes de causar na essência de um ser. Enquanto meu útero se revira buscando um espaço entre as víceras, vou remexendo sensações daqui, sentimentos dali e vendo que de dor em dor, a gente vai enchendo um baú de lembranças inúteis e anestésicos débeis para justificar a absoluta inabilidade em não ser. Ou não ter de ser coisa alguma. E ignorar qualquer apelo interno ou externo.

Hoje, afora as pedras, eu não sou ninguém.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O que realmente me interessa no filme "Tropa de Elite"



eu quero dizer que odeio estratégias de marketing violentas que levam milhares de pessoas a assistirem filmes piratas e depois saírem correndo para se enfileirar em guichês de cinema e depois se empanturrar de pipocas e balas com os pezinhos por sobre as poltronas da Tela Mãe, na grande sala escura. eu quero dizer também que odeio filmes de ação, cheio de porradas, tiros para todos os lados, sangue escorrendo, mulher histérica gritando e homens falocêntricos suando desesperados, correndo para o lado do bem ou para o lado do mal.


tampouco estou afim neste momento de tecer comentários sobre o filme Tropa de Elite, de José Padilha, do tipo que ele traz à tona - com pouca maquiagem - a violência urbana porque passa nosso país diariamente, principalmente no Rio de Janeiro e que, portanto, como é um recorte, um "objeto", ele acaba se tornando mais palpável e discutível pelas pessoas que a própria essência da violência. dura, fria e incontestável, mas bastante volátil e sem profundidade, fruto das reportagens meia-boca e a conta-gotas que nossa querida imprensa se presta a fazer.


lhufas para tratados sociológicos e explicações grandiloqüentes. deixo isso para os falastrões de plantão, ou para quem realmente tem algo a dizer e o diz. cada um fala o que quer num país democrático, pois não?


o que realmente me importa é poder me deparar com a beleza tranqüila e sem alardes do ator Wagner Moura. de poder observar com bastante atenção aos vincos criados pelos músculos que saltam do seu ante-braço. uma digressão: esse tipo de característica eminentemente masculina muito me empolga. adoro antebraços masculinos. talento? carisma? concentração? tô pouco me lixando. eu até concordo que ele fez um excelente papel como o vilão Olavo na novelinha da Globo e blá blá blá. o que eu quero mesmo é ver o ante-braço do Wagner Moura e ponto.
PS.: qualquer relação entre ante-braço e outras partes do corpo masculino não terá sido mera coincidência nesse caso. aliás, eu também queria ver aquela outra parte musculosa. reticências.


terça-feira, 9 de outubro de 2007

A garota mais bonita do bairro e o meu desejo

eu vi de novo a garota mais bonita do bairro. trazia consigo uma sombrinha vermelha com cabo prata e sua pele e cabelos pareciam mais claros. é bem possível que a garota mais bonita do bairro já tenha me visto, mas nunca me olhou de fato. ao contrário de mim, cujo ar fica preso e o tempo parado no meio dos espaços apertados do ônibus quando vejo a garota mais bonita do bairro.

ela é de longe a mais bela criatura que eu já vi passar. tem uma estatura que a torna elegantemente displiscente, com suas camisetas, jeans e chinelos de dedo; uma cintura que a deixa graciosa, e seios e quadris que a fazem generosa, sem nenhum desperdício. os olhos, a boca, a pele e as mãos são um espetáculo à parte. como se daquela árvore, os frutos fossem mais vermelhos, brilhantes, tenros e convidativos. ela é, sem dúvida, a garota mais bonita do bairro. quiçá de outros lugares.

quando passa por mim tenho vontade de tocá-la. mas sua altivez me intimida, sempre. num outro dia, ela veio em minha direção e colocou-se bem próxima a mim. quase me levantei para dar-llhe o assento, mas me lembrei que isso não faria sentido algum. nem para ela, nem mesmo para mim. e como lamentei a existência dos sentidos. foi quando pude observar mais atentamente a languidez dos seus dedos segurando o corrimão do corredor. as pequenas dobras que separam as falanges. as unhas nem curtas nem longas. numa simetria davinciana.

eu não queria ser a garota mais bonita do bairro. a garota mais bonita do bairro é ela. e, talvez, no alto da minha admiração e estarrecimento, eu quisesse ser ela por alguns segundos, para no momento seguinte descobrir que eu não poderia ser a garota mais bonita do bairro porque esse posto é dela e de mais ninguém.

eu não queria possuir a garota mais bonita do bairro. posto que alguns de vocês devem estar pensando nisso. eu sequer quero a amizade ou qualquer outra sorte de intimidades com a garota mais bonita do bairro. mas, uma coisa devo confessar: se pudesse, ao menos, comeria-lhe o mindinho. Para experimentar o provável adocicado gosto de suas pétalas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

(in)coerências

eu te amo
porque não te amo mais
e porquê não te amo mais
te amo tanto assim


(taí um texto que eu tenho quase certeza de que estou copiando de alguém... mesmo sem saber, mesmo sem querer)

No divã pela manhã

Meu coração está aos pulos. Está assim desde que levantei. Talvez o infinito tédio que não me bateu à porta e sim já foi entrando sem ser convidado durante todo o final de semana, seja o responsável por essa rebelião de batimentos e fluxo sangüíneo. Talvez por uma sucessão de pequenos e ínfimos acontecimentos do início da manhã. Citarei alguns: atraso da porcaria do ônibus; pessoas mal-educadas no ônibus; uma mistura insosa de sol e chuva no meio do caminho; uma vontade de continuar dormindo que me tira o ânimo e me dá uma certa animosidade em responder coisinhas infames e inúteis para algumas pessoas debaixo do sol.

Mas, eu não quero falar de coisa alguma hoje. Aliás, nunca quis falar de coisa alguma sempre, como hoje. Ou seria o contrário? O que sei é que quem muito fala, pouco tem a dizer; no fundo, no fundo é isso. Excetuando claro, os filósofos, os ascetas, os poetas e os punhetas (desculpem-me, mas o apelo da rima foi mais forte que os bons ditames do vernáculo). Hiii, acho que estou ficando palavrosa hoje. Mérd!

Falando em merda. Talvez a prisão de ventre que me assola dias a fio, seja a grande causadora dos arroubos do meu coração. Há! Era só o que faltava. Ou melhor, o que me sobra.
Meus pais tinham um santo remédio para minha prisão de ventre. Eles abundavam em carinho. Explico: o pouco de afeto e delicadeza que me restam nesse mundo cheio de vazios, devo ao exercício diário a que eles me submetiam. Bastava uma queixa que fosse da santa caca que não vinha, para eles me colocarem na cama e, enquanto um me enchia de beijinhos, o outro massageava a barriga, as costas, os joelhos e até o nariz. Era tiro e queda.


Só por hoje não vou me lembrar que eles não estão juntos há muito, mas muito tempo. Só por hoje vou me esquecer de que a separação foi extremamente dolorosa. E, só por hoje vou ignorar que talvez o coração aos pulos, a caca represada e o infinito tédio façam parte de uma única coisa que me é tão familiar: a absoluta inabilidade em lidar com o real.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Quando o silêncio é tudo que deve ser dito

Estava eu linda e nunca loira entre meus afazeres que tantas vezes extirpa toda e qualquer possibilidade de poesia em minha vida (só para se ter uma idéia, hoje cobri a morte prematura de um bebê), e eis que o destino incerto e diáfano da internet me reserva uma grata surpresa: minha amiga Elis (do blog É Logo Ali) me manda esse texto abaixo, creditando à senhora Clarice Lispector. Há poucos dias, meu amigo Carito (www.ospoetaseletricos.com.br) me mandou um outro texto dessa senhora, que muito me tocou também. Pois bem, hoje não estou para muitas palavras (só para acordes silenciosos de gemidos de rãs e borboletas). E transcrevo as palavras pantanosas de dona C.L. E assim como ela confesso, não sou mais que essa tênue névoa de silêncio, dúvidas e assombros.

"Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada.


Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade." (escreveu a Sra. querida Clarice Lispector)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Poeminha Naïf

O homem amava a menina
E a menina queria a lua

A lua amava o sol
E o sol queria o dia

O dia esperava a noite
E a noite só queria se enfeitar com estrelas

Num belo dia, todo mundo se rebelou:
A noite amou o sol, e se queimou
A lua mergulhou no dia, e se perdeu
O homem roubou as estrelas, e presenteou
E a menina, que não era menina coisa nenhuma
Se enfeitou com o colar

Toda delicadeza

Assisti Before Sunrise (Antes do Amanhecer) numa época em que tinha muita insônia, e morava sozinha lá na Ribeira. Geralmente ficava angustiada mas, naquela madrugada foi diferente. A Globo devia estar reprisando pela milionésima vez aquele filme. Primeiro, fiquei encantada com as imagens de Viena; depois, com o belo casal, falando sobre tantas coisas, com diálogos existenciais, filosóficos, profundos e com o frescor de um amor que surge naturalmente, sem grandes esforços ou armadilhas. Bem diferente da maioria dos filmes que estava acostumada a assistir. E das máscaras e das armadilhas que os amantes gostam de cultuar.

Anos depois dei de cara com o filme Before Sunset (Antes do Pôr-do-sol) nas prateleiras de uma locadora lá em Petrópolis. Ambos são dirigidos por Richard Linklater. Aluguei e adorei como no primeiro. Porém não acreditava que fosse um filme para, simplesmente, se ver e acabou. (Ainda hoje procuro o primeiro). Comprei-o nas Americanas e, sempre que me sobra um tempinho, como ontem, revejo-o.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se reencontram nove anos depois numa livraria em Paris. Ele está lançando um livro que conta justamente a história deles dois, uma vez que prometeram um ao outro se reencontrarem seis meses após o primeiro encontro, naquela mesma estação em Viena, mas o destino quis que fosse diferente. E ele admite ser um livro meio autobiográfico. Em certo momento, na livraria, ele diz: "Somos a somatória dos momentos que vivemos. E o escritor usa a argila que moldou sua vida", creditando a frase a Thomas Wolfe. Quando Celine fica sabendo que ele está em sua cidade-natal, vai ao seu encontro. O estarrecimento com que ele a recebe, quando a vê pela primeira vez, já no final de sua palestra é um momento sublime.

Os diálogos inteligentes, o charme meio neurótico da Celine e a aparente apatia do Jesse, mais silencioso e observador, dão um tom mais amadurecido ao segundo encontro deles. O romance dos dois só se descortina nas entrelinhas. Nos olhares que roubam um detalhe reconhecido, ou uma nova informação que surge quase dez anos depois; no suspiro de um, devido a surpresa do momento e na preocupação do outro se ainda está ou não atraente.

Tanto em encontros, quanto em reencontros - o filme trata disso - uma coisa me enternece profundamente: a sensação de mundo parado lá fora; de que, de alguma maneira, está tudo no lugar, encaixado. E se não estiver, pouco importa. Porque ali, naquele momento, há esperança.

Em determinado momento do filme, Celine diz que se sente anormal porque não consegue simplesmente passar uma borracha no que lhe aconteceu, esquecer tudo. Não olhar para tráz. E, sua angústia reside no fato de que para as outras pessoas isso é cotidiano, uma forma de sobrevivência, talvez. Mas sua incapacidade de tornar-se indiferente se traduz nessa frase: "Todo mundo é uma soma de pequenos e belos detalhes".

A delicadeza desses dois filmes, a naturalidade com que os dramas e desejos e vontades e sonhos e realidade se entrelaçam me tocam profundamente. Em muitos momentos de minha vida, sou a Celine. Em busca de reencontrar, em algum lugar, o meu Jesse. Alguém que me veja nas entrelinhas. Que possa fazer uma leitura nada dinâmica de todas as minhas idiossincrasias e, mesmo assim, não esgote nunca a vontade de saber quem realmente eu sou. Mesmo que isso seja improvável.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Viver é bom


Comecei a caminhar essa semana. Isso significa uma hora a menos de sono e a sensação de que vou ficar gostosa em seis meses. Não que isso seja a coisa mais importante da minha vida (ficar gostosa). Mas, se a minha barriga diminuir já vai estar de bom tamanho. Eu sei que as minhas amigas dizem que eu NÃO tenho BARRIGA e ficam querendo me escalpelar quando eu digo isso, mas eu insisto que TENHO BARRIGA e isso não é firula não. Só tenho espelho em casa.


Bom, o despertador toca às 4h50. Fellini me olha estranho, sem acreditar que já é hora de ele ficar enchendo o saco para comer ou ir fazer xixi no jardim e vem todo chameguento para perto do meu rosto, lamber o meu nariz, como se dissesse: "ainda está cedo para eu começar minhas exigências diárias. Volte a dormir, daqui a uma hora conversamos". Nas madrugadas, meu gato siamês, fica mais carente e mais persuasivo. Mas já estou decidida. Às 5 da matina levanto ainda meio tonta, visto a roupa leve, calço o tênis já meio surrado (preciso comprar um tênis novo urgente) e saio pra rua.


É muito boa a sensação. Sinto-me viva, o sangue esquenta. Esqueço totalmente da obsessão estética e me entrego à sensação de estar fazendo algo que só diz respeito a mim, que me liberta, me põe comigo mesma. Geralmente concentro-me num ponto no infinito e sigo. Cabeça erguida, ombros alinhados, coluna reta. Passos rápidos. Só uma coisa atrapalha: o pensamento. É uma pauta que preciso completar, um texto que falta; o exame da mamãe; se o ex ligar o que eu digo; se eu esbarrasse com aquele diretor de novo, será que rolaria o mesmo clima? preciso ligar para o Keko, ele está querendo conversar; mandar a correspondência; tentar acabar o livro que estou lendo; escrever a crônica. Aiiiiii. Perco o ritmo, saio do acostamento, não sei mais onde foi parar o ponto no infinito, lembro-me que miopia de três graus não permite resolução em nenhum ponto no infinito. Recomponho-me, volto a somente caminhar. Divirto-me com as digressões inerentes do dia. Só uma forma de sobrevivência (acho).


Nos primeiros três dias foi uma maravilha. No quarto, a hora a menos no sono já apertado se rebelou e eu passei da parada do ônibus, no final do dia. Geralmente tiro um cochilo no caminho de volta para casa. Pausa para um comentário "un passant": sempre que cochilo no ônibus, depois da terceira página de um livro, lembro-me de dois amigos que têm posições totalmente contrárias à essa prática proletária. Um deles diz que é apaixonante ver uma menina com a cabecinha inclinada, quase babando, absorta em sonhos, nas trilhas urbanas da vida. Já o outro acha o cúmulo do cansaço, algo indigno de se fazer, uma vez que a cabeça parece uma mini-bola de basquete, batendo, ritimada no vidro da janela. Bom, deixei passar umas dez quadras na minha indigna e sedutora atitude de sucumbir ao passivo de sono diário. Fui obrigada a fazer uma caminhada forçada, quase às 8 da noite, barulheira infernal, carros cuspindo fumaça, avenida pouco iluminada, chute no escuro num paralelepípedo, pedaço do dedo arrancado. Estômago vazio, bom-humor tomando um jatinho para Tóquio e ainda tinha todos aqueles pensamentos para administrar.


Acordei no dia seguinte toda dolorida. Pensei duas vezes se valia à pena aquela empreitada. Já que eu não ía ficar gostosa coisa nenhuma e a barriga precisava mesmo era de abdominal, que eu e a grande maioria dos mortais, ABOMINA. Mas aí o Fellini me olhou resignado e até de certo modo me incentivando, dando uma rabiçacas e correndo em direção à porta, como se dissesse: "Vamos, estou gostando dessa nova rotina. Vou mais cedo fazer meu xixi no jardim, como minha ração fresquinha também mais cedo e, ao contrário de você, posso voltar a dormir a hora que eu quiser". Suspiro.


É incrível como as manhãs guardam uma certa inocência. Um certo ar de que só hoje as coisas podem dar muito certo. Que não haverão atrasos, o ônibus não vai estar tão cheio. As pautas correrão tranqüilas. Vai rolar uma boa inspiração para a crônica e que ex que nada. Um olhar novo poderá surgir na próxima esquina do acaso. Aí, concentrei meus esforços em bons pensamentos e fiquei pensando também na Dona Canô, uma baianinha arretada que esse mês fez 100 anos. E numa entrevista à TPM, muito serena, acostumada a acordar bem cedo disse: "Viver é bom, mas saber viver é melhor ainda".

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Me, Myself and I



Essa sou eu, na arte do bmp, by minha amiga Ju (Juliska Azevedo). Adorei.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Sempre é noite no meu casulo


Os quartos estavam todos ocupados e muitas pessoas mantinham atividades lá dentro. Num deles, alguns manequins trajavam roupas de um tecido cru que não distinguia o tipo, de um cinza pálido, com rosas coloridas bordadas com vidrilhos. Compunham uma mescla de cores que atra¡am os olhos. Num deles, o corpo esguio não tinha a cabeça e no outro, faltavam-lhe as pernas. Como se tudo fosse de propósito. Como se o vão daqueles membros pudessem ser preenchidos com a nossa imaginação.

Penso que estava hospedada na casa, mas não sabia ao certo onde poderia deixar minhas coisas - espalhadas por vários cômodos. Metade de mim se sentia à vontade. A outra parecia um bicho enjaulado, pronto pra correr, desde que encontrasse escancarada alguma brecha de luz. Mas era noite. (Nos meus sonhos sempre é noite).

Voltei ao primeiro quarto que me chamara atenção e encontrei um homem bordando as rosas. Era híbrido. Tão sedutor quanto o que brilhava em suas mãos. Logo estava junto dele, sentindo um calor intenso que saía de sua pele. Tentava disfarçar para que as outras pessoas ao redor não percebessem. E não demorou muito pra sentir aquela força fazendo pressão por sobre minha saia. Meu corpo todo tremia, escorria de dentro pra fora um desejo que não tinha nome. Puro. Selvagem. Tinha cheiro de terra e musgo. E quando eu descolava os lábios dos dele, vinha junto uma gosma que ressecava rápido nos lábios, no resto do corpo. Parecia parafina. Acho que copulamos, dada a sofreguidão no meio das minha pernas. Queria mais e saí para outro lugar, mas num suspiro já estava de volta. Pedindo com os olhos, levantando a saia, implorando para que aquela substância se impregnasse de novo no meu corpo. Aprisionando-me num casulo.

Mas, ele quase não me olhava nos olhos e preferia me ignorar. Foi quando vi a gaveta aberta e dentro delas algumas seringas usadas. Carretéis de linha. Alfinetes. Alguém tocava pandeiro, outros flautas. Rodavam as saias e me distraíam. Enquanto isso o híbrido concentrava-se num outro bordado. Dessa vez no meu corpo, anestesiado pelas suas mãos. Partindo do quadril ao tornozelo, filetes de linhas já ensaiavam uma trama bem desenhada. Não sentia dor, mas o sangue me assustou. Pedi que parasse. Ficou me olhando sem nada dizer, levantou-se com certo ar de contrariedade, acendeu um cigarro e pude ver que seu semblante era totalmente diferente daquele que havia me encantado. Grossas rugas contornavam a mandíbula quadrada e o canto dos olhos, partindo para o meio das bochechas magras. O nariz quase tocava a boca e as orelhas crescidas denunciavam um tempo distante. Tinha o rosto coberto por tisna. E não havia nenhuma melancolia nos seus olhos. Como se solidão, desprezo, medo, fúria, desejo ou o nada não pudessem atingi-lo.

Voltei para o outro quarto, passando pelos corredores silenciosos e escuros e lá, do lado de fora, dava para ouvir vozes. Entrei, alguns familiares lavavam roupa numa cisterna. Roubavam a água. Pediam silêncio e discrição. Meu tio Edmar era uma mistura de caminhoneiro com traficante colombiano. Hilário. Acordei sobressaltada. A respiração entrecortada. Boca seca. O suor impedindo o caminho do ar debaixo do lençol. O coração ainda sem acreditar que o que acabara de acontecer era um sonho e que já tinha passado. Incrível como lembro de todo o episódio com riqueza de detalhes. E por vezes fico pensando se aquela realmente era eu, que agora sonha ser essa.

(Sonhei comigo mesma na madrugada dessa segunda. Fazia tempo que não me encontrava com tanta ênfase. Eis-me aqui, quase nua)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Aquele olhar

Tenho 33 anos e nessa caminhada de vida, que ora parece longa, ora parece pueril e efêmera, uma das coisas que mais me é cara é a construção das amizades. Tenho poucos amigos à vista e ao alcance da mão, é fato. Mas tenho vários outros na memória afetiva, na memória fincada nas veias e outros na memória das coisas que ainda estou por viver.

O encontro entre duas pessoas que não são, necessariamente, ligadas pelo sangue oficial do parentesco, é deveras mágico, meus senhores. E é um dos fenômenos que não tem hora, local ou dia certo para acontecer. Pode ser no ônibus, na praça, numa fila de banco, nas carteiras de uma sala de aula, no pátio do recreio e até mesmo no banheiro de um bar. E, pra começo de conversa, é como se não houvesse medo ou reservas na força daquele olhar mútuo. Um amigo se reconhece pelos olhos. É uma espécie de aconchego no olhar de um amigo que em lugar nenhum existe.

Hoje tive um desses encontros. Afonso Laurentino me incubiu (cujo olhar me aconchega) de conversar com dona Tereza Aranha, para uma matéria especial para o DN Educação. Ela é uma professora aposentada da UFRN, pesquisadora de Manoel Rodrigues de Melo, que tem por força da teimosia da vida uma das maiores garras e conhecimentos que pude ser apresentada, até hoje. Entoamos uma boa conversa logo de cara. Traz consigo um turbilhão de informações e não o traduz de forma muito ordenada. É mais ou menos assim: se o mundo está a girar 700 quilômetros por hora, ela gira duas vezes mais rápido. Porém, com a paciência e generosidade inerentes a quem sabe que dessa vida não se leva nada. A não ser o que se deixa de herança. Fiquei pensando se quando eu chegar aos 79 - como ela - e se chegar, se terei pelo menos metade daquele entusiasmo. E caso isso ocorra, já terá valido à pena.

Pois bem, depois de uns dois copos de suco de maracujá e mais um de água em duas horas e meia de conversa - sem nenhum enfado, o que me é raro - senti vontade de ir ao banheiro. Prontificou-se não só a me indicar, como a me levar até lá, enquanto seguia passando-me informações. De repente, vira-se abruptamente e diz: "Era isso o que você esperava?". E eu, atordoada, respondi um tímido sim.

E como me arrependo. Claro que agora perdôo minha ingenuidade e falta de traquejo diante do incomensurável conhecimento das coisas. Mas deveria ter respondido de outra maneira. E com mais ênfase. Devia ter lhe dito que não, eu não esperava nem metade daquilo. Que estava adorando nossa conversa e que o seu olhar me falava tanta coisa que quase podia acreditar que nos conhecíamos há décadas. Que seu entusiasmo, e respeito e crença nos outros - no caso no M.R.M. - eram maneiras que me comoviam profundamente. Que me colocavam pequena diante do gigantesco; jovem diante da sabedoria; aprendiz diante do mestre; chula diante do raro.

Nos despedimos pouco depois daquela investida dela de prerscrutar minha índole, de testar meus reflexos, de sentir meus batimentos cardíacos. Já no carro, passo a mão pelos inúmeros livros que me emprestou, não sem antes fazer mil recomendações e crédito nos meus cuidados, e me ative nos dois que ela me deu para sempre e fez questão de escrever dedicatória. No primeiro livro (Cartas ao Mestre Encantado) que me foi dado logo no início da entrevista, numa escrita firme e feminina ela me faz alusão ao meu trabalho e contribuição à imprensa do Estado. No segundo, entregue há poucos instantes da despedida, a revelação de que aquele encontro não tinha sido em vão, tampouco fruto apenas do trabalho jornalístico compartilhado. Nos escritos assinados por ela "Significação do Estudo da Seca para a UFRN", constava a seguinte frase: "Para Sheyla, uma amiga que encontrei nessa minha caminhada".

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Balanço

"É incrível a força que as coisas têm quando elas precisam acontecer" (Caetano??) e "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez" (Cocteau?).

Essas foram as duas frases do mês passado.

As desse mês, ainda não sei. O mês também não acabou. E nunca fui chegada a listas disso ou aquilo. Até mesmo meu diário, aquele que a gente escreve escondido e não quer que ninguém, nunca, mas nunca mesmo, pegue para ler (... mentira, a gente no fundo reza para que alguém leia e descubra que é um tesouro literário perdido...), não vou muito nele com freqüência. Às vezes penso, pôxa, aconteceu isso e foi tão importante e tal e eu deveria escrever no diário. Deixar registrado, reler anos depois, ver quais eram minhas demandas, meus movimentos internos. Aí bate uma preguiça. Eu penso, pôxa, mas se é algo assim tão importante, então eu não vou esquecer. E aí deixo pra lá.


Vá lá que eu tenho umas obsessõezinhas. Coleciono muitos, mas muitos post cards (sim, porque cartão postal parece aquelas fotografias do Morro do Careca, quando ele ainda tinha vegetação e não estou falando disso. Gosto daqueles cartões de propaganda, de idéias, de bares, etc, etc, etc). Tenho uma porção de brincos pequenos. Um mais sem número de camisetas brancas. E, bom, hoje não estou muito a fim de ficar listando coisas ou de falar de coisas... Lembrei! Também tô inventando de colecionar fitas de DVD... Alguns clássicos. Uns romantiquinhos para ver e reafirmar meu amor eterno ao Jude Law e por aí vai... (ele tem uma cara de tarado, ui!). Bom, estou mareada. Estou cansada. Estou sem saco. Estou muito "não estou pra nada hoje".

É isso. Esse é meu balanço do dia. E já estou ficando enjoada com esse balançado.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Condicionantes


Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só pra deixar você entrar

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Encontro Marcado


















"Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
nossa visão se constrói. O real
nos doerá para sempre". (O.F.)

fui ontem participar do Grandes Temas, na TVU. "Assédio Moral no Trabalho".bons convidados (excetuando a euzinha merminha, claro). boas falas. acho que foi esclarecedor. cheguei cedo ao local. resolvi ir à Cooperativa Central... afora o fato de ter chegado praticamente atrasada à hora da gravação depois que me perder naquelas prateleiras. uma outra coisa me aconteceu. e é disso que quero falar: comprei as "Poesias Reunidas de Orides Fontela, da Cosac & Naif, que há pelo menos um anonamorava em outras prateleiras e em outras paisagens. Assim como também as Reunidas de T.S. Eliot, de uma editora que não me lembro agora. resumo da ópera. ganhei o dia!

ontem foi bem corrido pra mim. tinha que fazer um texto para o Anuário de Moda o quanto antes. como não tenho PC em casa, acordei meia hora mais cedo, para ver se chegava mais cedo no jornal, por votal das 7h, e lá escrevera pendência. consegui chegar cedo, mas acabou que não rolou como o esperado. depois, trabalhei normal no caderno Muito (estou emprestada deCidades até amanhã). fui para o outro trabalho da tarde e findei, como no começo desse texto, no Grandes Temas, e comprando os livros e chegando mais tarde em casa.

quando fico cansada, fico meio excitada. não consigo dormir logo. tomei um banho quente. comidinha leve. e acho que passei pelo menos uma meia hora dedilhando as páginas. sentindo o cheiro. passeando pelas palavras. pescando um ou outro sentido dos poetas, para que assim, quem sabe, pudesse entender meus próprios sentidos.

estou louca para ir pra casa. meu gato fellini tomou vacina anti-rábica hoje (minha mãe avisou que ele está meio jururu). preciso brincar um pouco com ele. tomar um banho quente. comer uma comidinha leve. sentar na cama com as pernas esticadas e relaxadas. colocar os livros no colo. experimentar a troca de calor que aquele objeto é capaz de me dar. e se alguém me ligar hoje para festa de aniversário, encontro amoroso, batizado, casamento, mesa branca, roda de capoeira, sarau, sorvete de limão, cervejinha encorpada, taça de vinho, promoção na Leezoo, brad pitt na esquina. não posso. já tenho um encontro marcado.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Uma palavra, um olhar, o amor

a palavra
- sabe onde fica la estacion bus? (meu Deus, ele é gringo. calei). - non sabe?- sei! (emprestando meu cigarro pra ele acender o dele). rodoviária velha. um cara enorme. uma mochila nas costas enormes. um calor de lascar. ele não entendia muito bem e eu não sabia explicar muito bem como chegar na praia. resolvi deixá-lo na parada certa. francês. tinha acabado de chegar de Manaus. antes estava na Bolívia. morou na Argentina. falávamos um "portunhol" confortável.

o olhar
cinco dias. depois de mostrar pra ele todos os pontos não-turísticos dessa cidade. e de comer um peixe grelhado ao molho de alcaparras. e de vê-lo lavando a louça como um garoto obediente. e de aprender a falar "garfo", "garrafa", "faca" e "coração" em francês. e de apresentá-lo a Marisa Gata Mansa e Paulinho da Viola. não sobrou mais nada a não ser o olhar. o consentimento. (meu Deus, como não beijar? calei).

um amor
leitura em voz alta. cantar pra dormir. pra refletir. para aprender português. yoga. cenoura, tomate, abacate, cebola, azeite, pão. peixe grelhado. cozido. menos cigarros. café só pela manhã. água. praia de cotovelo. caminhadas. amizade com os "perros" da vizinhança. um sonho revelado. uma briga intraduzível. (meu Deus, como não deixar ele partir? calei).

hoje acordei pensando na cumplicidade do Franck. acho que é porque se aproxima a primavera. mesma época em que se foi (depois daquela primeira vez em que nos reencontramos). tanta coisa em tão pouco tempo. tanto silêncio compartilhado. uma compreensão do mundo. um mar de paz inundando minha alma. somente um olhar, uma palavra e fazia todo o sentido do mundo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Quando eu crescer, quero ser criança


Quando eu crescer quero escrever poemas. Para compreender melhor esse torpor que alimenta minhas veias quando leio palavras de Hilda Hilst; Anna Akhmátova; Adília Lopes; Sílvia Plath. Para, quem sabe, poder tocar suavemente nas feridas expostas de Fausto Wolf e Murilo Mendes e sentir o cheiro do amarelo pardo das folhas de papel de Manoel de Barros e me matamorfosear em joaninha, borboleta, sapo, lagartixa. Quando eu crescer quero ser pedra. Que rola pelas ruas; dança no fundo dos rios; por entre as nuvens, disfarçada de pó de estrelas. Quero ser ruína dos castelos, cuidadosamente construídos pelos homens, para que não experimentem a deveras assustadora sensação de liberdade tão inerente aos passarinhos. (Todos os dias nasço passarinho bem-ti-vendo da minha janela).

Um dia quero entender esse desejo que me sufoca o peito, e a condescendência quase prestimosa de minhas carnes em sucumbir aos seus caprichos. Sei que um dia minha boca cessará seus temores. E terei o tempo como companheiro. Minha vida não será somente de despedidas. Mas de reencontros. Quando eu crescer, serei criança novamente. Aquela que tudo vê, tudo sente, tudo se inspira e tem fome de sonhos, de afagos e de gente. Finalmente o incêndio das angústias cessará. Porque descobrirei que não existe Paraíso. Em seu lugar, uma macieira, uma serpente, um cálice de vinho. Emergirei do descompasso das horas para respirar um tempo infindo. Sem perdões. Só esquecimento. Quem perdoa não se desvencilha do ressentimento. Só aquele que é capaz de esquecer compreende o que é liberdade.

Quando eu crescer, quero morrer e renascer mil vezes nos olhos dos meus filhos. Escrever muitas páginas em branco para que eles rabisquem seus encantos pelo mundo, essa vastidão de ilusões. Dar-lhes-ei as linhas de minhas mãos para que em suas brincadeiras, façam delas cordão de pião e linha de pipa. Porque eu só quero crescer se for para perder essa dor do mundo; essa sensação de indisposição, de tédio, dúvida, calor e cansaço. Porque para crescer é preciso ser pequeno, aberto e infinito.


Publiquei esse texto originalmente no meu quadrado imperfeito quinzenal do Diário de Natal, em 2005. Estou republicando nesse próximo domingo no mesmo lugar. Particularmente acho um dos textos mais bacaninhas que escrevi até hoje e, vezencuando, sinto inveja daquele dia inspirado. Essa crônica também vai estar no meu livro que nunca sai, o Entre a Flor e o Espinho, pela editora Sebo Vermelho... Bom, aqui, no meu novo espaço virtual, quero dedicá-lo a um estranho íntimo de letras, poesia e alma. Carito, esse texto é seu.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Segunda-feira


Desassossego. Tenho uma independência capenga das horas que me esfolam o dia. Tenho uma ânsia do que não vivi que, por vezes me faz regredir à prisão de ventre. Tenho vontades impronunciáveis, que ficam dançando na boca do estômago. Empatando a consolidação da minha absoluta incapacidade de resolver os problemas do mundo e, de lambuja, os meus. Mesmo quando durmo, permaneço acordada, embalando os fantasmas analfabetos que não têm a menor idéia do que seja uma ópera. Aliás, quero deixar claro que invejo a ignorância. O alheamento me é praticamente uma dádiva do divino. Algo assim tão distante de mim.

Cansaço. “Todo dia ela faz tudo sempre igual” só pode ser tradução do meu mais profundo tédio. Hoje ninguém pediu a bolsa pra segurar no ônibus. Uma moça, grávida, trocou as boas maneiras por um enjôo que eu não consegui compreender. “Aperta aí pra mim!” ela disse. Como se a coisa mais importante do meu dia fosse obedecê-la e auxiliar na sua saída do ônibus. Se tem uma coisa que me cansa é falta de “obrigado, obrigada” nesse mundo.

Artesanal. Descobri uma maneira ótima de presentear pessoas. Uma, duas, três mudas de flores, um jarro em forma de jardineira e pronto: está feito uma belezura de arranjo. As unhas ficam um horror, mas aquele perfume e aquelas cores me fazem lembrar que apesar do calor do cão no meio da rua, do frio de lascar no meio do trabalho e da tempestade que cai agora em algum lugar do Pacífico, estou na primavera.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Diálogos

- Engraçado...

- O que?

- Esse pôr-do-sol... me deixa triste

- Então por que é engraçado?

- Quem falou em engraçado?

- Você.

- Quando?

- Agora há pouco

- Como eu posso ter falado em algo engraçado, se eu estou meio triste?

- Não sei, foi você quem falou.

- Você nunca me ouve, nunca presta atenção em mim.

- Mas você falou! E eu não vou falar mais nada.

-Você nunca quer conversar. E o engraçado é que eu sempre insisto.

- Falou de novo.

- Hã?

Revirando o baú

Visitando meu antigo "mundinho", achei esse textinho que postei em outubro de 2005. Fiquei com vontade de colocar aqui. A vida muda o tempo inteiro e é incrível como muitas coisas continuam as mesmas quase sempre. Pois está aí, sem retoques!


Cotas do Cotidiano

Um dia. A visão do mar. Uns 20 cigarros. Uma ligação inesperada. Um abraço no fim da tarde. A descoberta do valor incomensurável dos olhos de uma menina que faz poesia há 20 anos.

Tanta coisa circula dentro de mim neste momento. E é óbvio que não daria para falar sobre elas sem correr o risco que escapassem pelas fendas do precioso silêncio da contemplação. Por isso, calar é preciso, e viver é precioso.

É assim que me sinto. De quando em vez, olho-te dentro de mim e compartilho todas essas coisas contigo, falando baixinho como se entoasse uma canção de ninar. Vejo, que por cima do ombro, você faz aquele ar de estou ouvindo mas, não quero falar nada. E por dentro, do teu lado, sorrio com aquele ar de que entendo seu enfado porque somos feitos do mesmo pó.

Em verdade vos digo: a vida é tanta coisa. E é só um pedacinho de dia que se perde por entre as folhas do calendário. E espero e espero e espero. O relógio escuta o meu chamado. Só meu amor não ouve. Dorme tranqüilo, dentro de mim.

sábado, 1 de setembro de 2007

PS.:

Tenho inclinações de orvalho. E meu mundo é absolutamente ínfimo. Cheio de coisas. Cheias de significados como, barbatanas de girassóis, pistilos de borboletas e asas de moréias.O rio que corre em mim me corta ao meio e me divide em mil e duzentos e trinta e três pedaços. Tenho inclinações para a matemática das formigas. E esse é um texto descaradamente inspirado no homem-pássaro, Manoel de Barros. Há tanto descaramento nele (no texto) que nem sei se me não ocorre uma demência e, de repente, sou uma caçadora de entardeceres pardos das páginas dos livros (dele).Desde pequena, tenho inclinações para amizades profundas. Comadre Fulozinha é minha melhor amiga. O saci pererê é meio temperamental e foi-se num redemoinho. Mas o bicho-papão num arroubo e nessas ironias da vida, se apaixonou pela a Véia Debaixo da Cama da Silva e Castro. E foram felizes para sempre, é o que me chega aos ouvidos e nas correntes de
e-mail.


Aos 12 anos descobri que poderia desenhar com palavras e me tornei astronauta, carpinteira, costureira, médica pediatra, modelo, paquita (sim, meu passado me condena) e aspirante a joaninha.Aos 21 me mudei de casa. Desde então, a casca ainda não endureceu, mas os pés sim. As raízes estão engrossando e estou quase tocando a superfície do Japão.Por falar em Japão, lá agora já é amanhã. Estranho o hoje ser amanhã né? E, se em algum lugar, o hoje já é amanhã. Então hoje é ontem. E ontem eu nem fazia idéia que escreveria isso aqui. Bom, era pra ser. E assim será.

Ps.: esse local é totalmente absurdo, diáfano, impuro, intenso, insano e descompromissado com o léxico, a semântica e as pessoas que fingem não se preocupar com o que os outros pensam do léxico e da semântica. Se você for uma pessoa sensível às banalidades, à falta do que fazer e ao
completo despropósito de idéias, cuidado, melhor procurar um médico, ou se aboletar num espaço como esse.