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quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Viver é bom


Comecei a caminhar essa semana. Isso significa uma hora a menos de sono e a sensação de que vou ficar gostosa em seis meses. Não que isso seja a coisa mais importante da minha vida (ficar gostosa). Mas, se a minha barriga diminuir já vai estar de bom tamanho. Eu sei que as minhas amigas dizem que eu NÃO tenho BARRIGA e ficam querendo me escalpelar quando eu digo isso, mas eu insisto que TENHO BARRIGA e isso não é firula não. Só tenho espelho em casa.


Bom, o despertador toca às 4h50. Fellini me olha estranho, sem acreditar que já é hora de ele ficar enchendo o saco para comer ou ir fazer xixi no jardim e vem todo chameguento para perto do meu rosto, lamber o meu nariz, como se dissesse: "ainda está cedo para eu começar minhas exigências diárias. Volte a dormir, daqui a uma hora conversamos". Nas madrugadas, meu gato siamês, fica mais carente e mais persuasivo. Mas já estou decidida. Às 5 da matina levanto ainda meio tonta, visto a roupa leve, calço o tênis já meio surrado (preciso comprar um tênis novo urgente) e saio pra rua.


É muito boa a sensação. Sinto-me viva, o sangue esquenta. Esqueço totalmente da obsessão estética e me entrego à sensação de estar fazendo algo que só diz respeito a mim, que me liberta, me põe comigo mesma. Geralmente concentro-me num ponto no infinito e sigo. Cabeça erguida, ombros alinhados, coluna reta. Passos rápidos. Só uma coisa atrapalha: o pensamento. É uma pauta que preciso completar, um texto que falta; o exame da mamãe; se o ex ligar o que eu digo; se eu esbarrasse com aquele diretor de novo, será que rolaria o mesmo clima? preciso ligar para o Keko, ele está querendo conversar; mandar a correspondência; tentar acabar o livro que estou lendo; escrever a crônica. Aiiiiii. Perco o ritmo, saio do acostamento, não sei mais onde foi parar o ponto no infinito, lembro-me que miopia de três graus não permite resolução em nenhum ponto no infinito. Recomponho-me, volto a somente caminhar. Divirto-me com as digressões inerentes do dia. Só uma forma de sobrevivência (acho).


Nos primeiros três dias foi uma maravilha. No quarto, a hora a menos no sono já apertado se rebelou e eu passei da parada do ônibus, no final do dia. Geralmente tiro um cochilo no caminho de volta para casa. Pausa para um comentário "un passant": sempre que cochilo no ônibus, depois da terceira página de um livro, lembro-me de dois amigos que têm posições totalmente contrárias à essa prática proletária. Um deles diz que é apaixonante ver uma menina com a cabecinha inclinada, quase babando, absorta em sonhos, nas trilhas urbanas da vida. Já o outro acha o cúmulo do cansaço, algo indigno de se fazer, uma vez que a cabeça parece uma mini-bola de basquete, batendo, ritimada no vidro da janela. Bom, deixei passar umas dez quadras na minha indigna e sedutora atitude de sucumbir ao passivo de sono diário. Fui obrigada a fazer uma caminhada forçada, quase às 8 da noite, barulheira infernal, carros cuspindo fumaça, avenida pouco iluminada, chute no escuro num paralelepípedo, pedaço do dedo arrancado. Estômago vazio, bom-humor tomando um jatinho para Tóquio e ainda tinha todos aqueles pensamentos para administrar.


Acordei no dia seguinte toda dolorida. Pensei duas vezes se valia à pena aquela empreitada. Já que eu não ía ficar gostosa coisa nenhuma e a barriga precisava mesmo era de abdominal, que eu e a grande maioria dos mortais, ABOMINA. Mas aí o Fellini me olhou resignado e até de certo modo me incentivando, dando uma rabiçacas e correndo em direção à porta, como se dissesse: "Vamos, estou gostando dessa nova rotina. Vou mais cedo fazer meu xixi no jardim, como minha ração fresquinha também mais cedo e, ao contrário de você, posso voltar a dormir a hora que eu quiser". Suspiro.


É incrível como as manhãs guardam uma certa inocência. Um certo ar de que só hoje as coisas podem dar muito certo. Que não haverão atrasos, o ônibus não vai estar tão cheio. As pautas correrão tranqüilas. Vai rolar uma boa inspiração para a crônica e que ex que nada. Um olhar novo poderá surgir na próxima esquina do acaso. Aí, concentrei meus esforços em bons pensamentos e fiquei pensando também na Dona Canô, uma baianinha arretada que esse mês fez 100 anos. E numa entrevista à TPM, muito serena, acostumada a acordar bem cedo disse: "Viver é bom, mas saber viver é melhor ainda".

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Me, Myself and I



Essa sou eu, na arte do bmp, by minha amiga Ju (Juliska Azevedo). Adorei.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Sempre é noite no meu casulo


Os quartos estavam todos ocupados e muitas pessoas mantinham atividades lá dentro. Num deles, alguns manequins trajavam roupas de um tecido cru que não distinguia o tipo, de um cinza pálido, com rosas coloridas bordadas com vidrilhos. Compunham uma mescla de cores que atra¡am os olhos. Num deles, o corpo esguio não tinha a cabeça e no outro, faltavam-lhe as pernas. Como se tudo fosse de propósito. Como se o vão daqueles membros pudessem ser preenchidos com a nossa imaginação.

Penso que estava hospedada na casa, mas não sabia ao certo onde poderia deixar minhas coisas - espalhadas por vários cômodos. Metade de mim se sentia à vontade. A outra parecia um bicho enjaulado, pronto pra correr, desde que encontrasse escancarada alguma brecha de luz. Mas era noite. (Nos meus sonhos sempre é noite).

Voltei ao primeiro quarto que me chamara atenção e encontrei um homem bordando as rosas. Era híbrido. Tão sedutor quanto o que brilhava em suas mãos. Logo estava junto dele, sentindo um calor intenso que saía de sua pele. Tentava disfarçar para que as outras pessoas ao redor não percebessem. E não demorou muito pra sentir aquela força fazendo pressão por sobre minha saia. Meu corpo todo tremia, escorria de dentro pra fora um desejo que não tinha nome. Puro. Selvagem. Tinha cheiro de terra e musgo. E quando eu descolava os lábios dos dele, vinha junto uma gosma que ressecava rápido nos lábios, no resto do corpo. Parecia parafina. Acho que copulamos, dada a sofreguidão no meio das minha pernas. Queria mais e saí para outro lugar, mas num suspiro já estava de volta. Pedindo com os olhos, levantando a saia, implorando para que aquela substância se impregnasse de novo no meu corpo. Aprisionando-me num casulo.

Mas, ele quase não me olhava nos olhos e preferia me ignorar. Foi quando vi a gaveta aberta e dentro delas algumas seringas usadas. Carretéis de linha. Alfinetes. Alguém tocava pandeiro, outros flautas. Rodavam as saias e me distraíam. Enquanto isso o híbrido concentrava-se num outro bordado. Dessa vez no meu corpo, anestesiado pelas suas mãos. Partindo do quadril ao tornozelo, filetes de linhas já ensaiavam uma trama bem desenhada. Não sentia dor, mas o sangue me assustou. Pedi que parasse. Ficou me olhando sem nada dizer, levantou-se com certo ar de contrariedade, acendeu um cigarro e pude ver que seu semblante era totalmente diferente daquele que havia me encantado. Grossas rugas contornavam a mandíbula quadrada e o canto dos olhos, partindo para o meio das bochechas magras. O nariz quase tocava a boca e as orelhas crescidas denunciavam um tempo distante. Tinha o rosto coberto por tisna. E não havia nenhuma melancolia nos seus olhos. Como se solidão, desprezo, medo, fúria, desejo ou o nada não pudessem atingi-lo.

Voltei para o outro quarto, passando pelos corredores silenciosos e escuros e lá, do lado de fora, dava para ouvir vozes. Entrei, alguns familiares lavavam roupa numa cisterna. Roubavam a água. Pediam silêncio e discrição. Meu tio Edmar era uma mistura de caminhoneiro com traficante colombiano. Hilário. Acordei sobressaltada. A respiração entrecortada. Boca seca. O suor impedindo o caminho do ar debaixo do lençol. O coração ainda sem acreditar que o que acabara de acontecer era um sonho e que já tinha passado. Incrível como lembro de todo o episódio com riqueza de detalhes. E por vezes fico pensando se aquela realmente era eu, que agora sonha ser essa.

(Sonhei comigo mesma na madrugada dessa segunda. Fazia tempo que não me encontrava com tanta ênfase. Eis-me aqui, quase nua)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Aquele olhar

Tenho 33 anos e nessa caminhada de vida, que ora parece longa, ora parece pueril e efêmera, uma das coisas que mais me é cara é a construção das amizades. Tenho poucos amigos à vista e ao alcance da mão, é fato. Mas tenho vários outros na memória afetiva, na memória fincada nas veias e outros na memória das coisas que ainda estou por viver.

O encontro entre duas pessoas que não são, necessariamente, ligadas pelo sangue oficial do parentesco, é deveras mágico, meus senhores. E é um dos fenômenos que não tem hora, local ou dia certo para acontecer. Pode ser no ônibus, na praça, numa fila de banco, nas carteiras de uma sala de aula, no pátio do recreio e até mesmo no banheiro de um bar. E, pra começo de conversa, é como se não houvesse medo ou reservas na força daquele olhar mútuo. Um amigo se reconhece pelos olhos. É uma espécie de aconchego no olhar de um amigo que em lugar nenhum existe.

Hoje tive um desses encontros. Afonso Laurentino me incubiu (cujo olhar me aconchega) de conversar com dona Tereza Aranha, para uma matéria especial para o DN Educação. Ela é uma professora aposentada da UFRN, pesquisadora de Manoel Rodrigues de Melo, que tem por força da teimosia da vida uma das maiores garras e conhecimentos que pude ser apresentada, até hoje. Entoamos uma boa conversa logo de cara. Traz consigo um turbilhão de informações e não o traduz de forma muito ordenada. É mais ou menos assim: se o mundo está a girar 700 quilômetros por hora, ela gira duas vezes mais rápido. Porém, com a paciência e generosidade inerentes a quem sabe que dessa vida não se leva nada. A não ser o que se deixa de herança. Fiquei pensando se quando eu chegar aos 79 - como ela - e se chegar, se terei pelo menos metade daquele entusiasmo. E caso isso ocorra, já terá valido à pena.

Pois bem, depois de uns dois copos de suco de maracujá e mais um de água em duas horas e meia de conversa - sem nenhum enfado, o que me é raro - senti vontade de ir ao banheiro. Prontificou-se não só a me indicar, como a me levar até lá, enquanto seguia passando-me informações. De repente, vira-se abruptamente e diz: "Era isso o que você esperava?". E eu, atordoada, respondi um tímido sim.

E como me arrependo. Claro que agora perdôo minha ingenuidade e falta de traquejo diante do incomensurável conhecimento das coisas. Mas deveria ter respondido de outra maneira. E com mais ênfase. Devia ter lhe dito que não, eu não esperava nem metade daquilo. Que estava adorando nossa conversa e que o seu olhar me falava tanta coisa que quase podia acreditar que nos conhecíamos há décadas. Que seu entusiasmo, e respeito e crença nos outros - no caso no M.R.M. - eram maneiras que me comoviam profundamente. Que me colocavam pequena diante do gigantesco; jovem diante da sabedoria; aprendiz diante do mestre; chula diante do raro.

Nos despedimos pouco depois daquela investida dela de prerscrutar minha índole, de testar meus reflexos, de sentir meus batimentos cardíacos. Já no carro, passo a mão pelos inúmeros livros que me emprestou, não sem antes fazer mil recomendações e crédito nos meus cuidados, e me ative nos dois que ela me deu para sempre e fez questão de escrever dedicatória. No primeiro livro (Cartas ao Mestre Encantado) que me foi dado logo no início da entrevista, numa escrita firme e feminina ela me faz alusão ao meu trabalho e contribuição à imprensa do Estado. No segundo, entregue há poucos instantes da despedida, a revelação de que aquele encontro não tinha sido em vão, tampouco fruto apenas do trabalho jornalístico compartilhado. Nos escritos assinados por ela "Significação do Estudo da Seca para a UFRN", constava a seguinte frase: "Para Sheyla, uma amiga que encontrei nessa minha caminhada".

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Balanço

"É incrível a força que as coisas têm quando elas precisam acontecer" (Caetano??) e "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez" (Cocteau?).

Essas foram as duas frases do mês passado.

As desse mês, ainda não sei. O mês também não acabou. E nunca fui chegada a listas disso ou aquilo. Até mesmo meu diário, aquele que a gente escreve escondido e não quer que ninguém, nunca, mas nunca mesmo, pegue para ler (... mentira, a gente no fundo reza para que alguém leia e descubra que é um tesouro literário perdido...), não vou muito nele com freqüência. Às vezes penso, pôxa, aconteceu isso e foi tão importante e tal e eu deveria escrever no diário. Deixar registrado, reler anos depois, ver quais eram minhas demandas, meus movimentos internos. Aí bate uma preguiça. Eu penso, pôxa, mas se é algo assim tão importante, então eu não vou esquecer. E aí deixo pra lá.


Vá lá que eu tenho umas obsessõezinhas. Coleciono muitos, mas muitos post cards (sim, porque cartão postal parece aquelas fotografias do Morro do Careca, quando ele ainda tinha vegetação e não estou falando disso. Gosto daqueles cartões de propaganda, de idéias, de bares, etc, etc, etc). Tenho uma porção de brincos pequenos. Um mais sem número de camisetas brancas. E, bom, hoje não estou muito a fim de ficar listando coisas ou de falar de coisas... Lembrei! Também tô inventando de colecionar fitas de DVD... Alguns clássicos. Uns romantiquinhos para ver e reafirmar meu amor eterno ao Jude Law e por aí vai... (ele tem uma cara de tarado, ui!). Bom, estou mareada. Estou cansada. Estou sem saco. Estou muito "não estou pra nada hoje".

É isso. Esse é meu balanço do dia. E já estou ficando enjoada com esse balançado.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Condicionantes


Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só pra deixar você entrar

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Encontro Marcado


















"Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
nossa visão se constrói. O real
nos doerá para sempre". (O.F.)

fui ontem participar do Grandes Temas, na TVU. "Assédio Moral no Trabalho".bons convidados (excetuando a euzinha merminha, claro). boas falas. acho que foi esclarecedor. cheguei cedo ao local. resolvi ir à Cooperativa Central... afora o fato de ter chegado praticamente atrasada à hora da gravação depois que me perder naquelas prateleiras. uma outra coisa me aconteceu. e é disso que quero falar: comprei as "Poesias Reunidas de Orides Fontela, da Cosac & Naif, que há pelo menos um anonamorava em outras prateleiras e em outras paisagens. Assim como também as Reunidas de T.S. Eliot, de uma editora que não me lembro agora. resumo da ópera. ganhei o dia!

ontem foi bem corrido pra mim. tinha que fazer um texto para o Anuário de Moda o quanto antes. como não tenho PC em casa, acordei meia hora mais cedo, para ver se chegava mais cedo no jornal, por votal das 7h, e lá escrevera pendência. consegui chegar cedo, mas acabou que não rolou como o esperado. depois, trabalhei normal no caderno Muito (estou emprestada deCidades até amanhã). fui para o outro trabalho da tarde e findei, como no começo desse texto, no Grandes Temas, e comprando os livros e chegando mais tarde em casa.

quando fico cansada, fico meio excitada. não consigo dormir logo. tomei um banho quente. comidinha leve. e acho que passei pelo menos uma meia hora dedilhando as páginas. sentindo o cheiro. passeando pelas palavras. pescando um ou outro sentido dos poetas, para que assim, quem sabe, pudesse entender meus próprios sentidos.

estou louca para ir pra casa. meu gato fellini tomou vacina anti-rábica hoje (minha mãe avisou que ele está meio jururu). preciso brincar um pouco com ele. tomar um banho quente. comer uma comidinha leve. sentar na cama com as pernas esticadas e relaxadas. colocar os livros no colo. experimentar a troca de calor que aquele objeto é capaz de me dar. e se alguém me ligar hoje para festa de aniversário, encontro amoroso, batizado, casamento, mesa branca, roda de capoeira, sarau, sorvete de limão, cervejinha encorpada, taça de vinho, promoção na Leezoo, brad pitt na esquina. não posso. já tenho um encontro marcado.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Uma palavra, um olhar, o amor

a palavra
- sabe onde fica la estacion bus? (meu Deus, ele é gringo. calei). - non sabe?- sei! (emprestando meu cigarro pra ele acender o dele). rodoviária velha. um cara enorme. uma mochila nas costas enormes. um calor de lascar. ele não entendia muito bem e eu não sabia explicar muito bem como chegar na praia. resolvi deixá-lo na parada certa. francês. tinha acabado de chegar de Manaus. antes estava na Bolívia. morou na Argentina. falávamos um "portunhol" confortável.

o olhar
cinco dias. depois de mostrar pra ele todos os pontos não-turísticos dessa cidade. e de comer um peixe grelhado ao molho de alcaparras. e de vê-lo lavando a louça como um garoto obediente. e de aprender a falar "garfo", "garrafa", "faca" e "coração" em francês. e de apresentá-lo a Marisa Gata Mansa e Paulinho da Viola. não sobrou mais nada a não ser o olhar. o consentimento. (meu Deus, como não beijar? calei).

um amor
leitura em voz alta. cantar pra dormir. pra refletir. para aprender português. yoga. cenoura, tomate, abacate, cebola, azeite, pão. peixe grelhado. cozido. menos cigarros. café só pela manhã. água. praia de cotovelo. caminhadas. amizade com os "perros" da vizinhança. um sonho revelado. uma briga intraduzível. (meu Deus, como não deixar ele partir? calei).

hoje acordei pensando na cumplicidade do Franck. acho que é porque se aproxima a primavera. mesma época em que se foi (depois daquela primeira vez em que nos reencontramos). tanta coisa em tão pouco tempo. tanto silêncio compartilhado. uma compreensão do mundo. um mar de paz inundando minha alma. somente um olhar, uma palavra e fazia todo o sentido do mundo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Quando eu crescer, quero ser criança


Quando eu crescer quero escrever poemas. Para compreender melhor esse torpor que alimenta minhas veias quando leio palavras de Hilda Hilst; Anna Akhmátova; Adília Lopes; Sílvia Plath. Para, quem sabe, poder tocar suavemente nas feridas expostas de Fausto Wolf e Murilo Mendes e sentir o cheiro do amarelo pardo das folhas de papel de Manoel de Barros e me matamorfosear em joaninha, borboleta, sapo, lagartixa. Quando eu crescer quero ser pedra. Que rola pelas ruas; dança no fundo dos rios; por entre as nuvens, disfarçada de pó de estrelas. Quero ser ruína dos castelos, cuidadosamente construídos pelos homens, para que não experimentem a deveras assustadora sensação de liberdade tão inerente aos passarinhos. (Todos os dias nasço passarinho bem-ti-vendo da minha janela).

Um dia quero entender esse desejo que me sufoca o peito, e a condescendência quase prestimosa de minhas carnes em sucumbir aos seus caprichos. Sei que um dia minha boca cessará seus temores. E terei o tempo como companheiro. Minha vida não será somente de despedidas. Mas de reencontros. Quando eu crescer, serei criança novamente. Aquela que tudo vê, tudo sente, tudo se inspira e tem fome de sonhos, de afagos e de gente. Finalmente o incêndio das angústias cessará. Porque descobrirei que não existe Paraíso. Em seu lugar, uma macieira, uma serpente, um cálice de vinho. Emergirei do descompasso das horas para respirar um tempo infindo. Sem perdões. Só esquecimento. Quem perdoa não se desvencilha do ressentimento. Só aquele que é capaz de esquecer compreende o que é liberdade.

Quando eu crescer, quero morrer e renascer mil vezes nos olhos dos meus filhos. Escrever muitas páginas em branco para que eles rabisquem seus encantos pelo mundo, essa vastidão de ilusões. Dar-lhes-ei as linhas de minhas mãos para que em suas brincadeiras, façam delas cordão de pião e linha de pipa. Porque eu só quero crescer se for para perder essa dor do mundo; essa sensação de indisposição, de tédio, dúvida, calor e cansaço. Porque para crescer é preciso ser pequeno, aberto e infinito.


Publiquei esse texto originalmente no meu quadrado imperfeito quinzenal do Diário de Natal, em 2005. Estou republicando nesse próximo domingo no mesmo lugar. Particularmente acho um dos textos mais bacaninhas que escrevi até hoje e, vezencuando, sinto inveja daquele dia inspirado. Essa crônica também vai estar no meu livro que nunca sai, o Entre a Flor e o Espinho, pela editora Sebo Vermelho... Bom, aqui, no meu novo espaço virtual, quero dedicá-lo a um estranho íntimo de letras, poesia e alma. Carito, esse texto é seu.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Segunda-feira


Desassossego. Tenho uma independência capenga das horas que me esfolam o dia. Tenho uma ânsia do que não vivi que, por vezes me faz regredir à prisão de ventre. Tenho vontades impronunciáveis, que ficam dançando na boca do estômago. Empatando a consolidação da minha absoluta incapacidade de resolver os problemas do mundo e, de lambuja, os meus. Mesmo quando durmo, permaneço acordada, embalando os fantasmas analfabetos que não têm a menor idéia do que seja uma ópera. Aliás, quero deixar claro que invejo a ignorância. O alheamento me é praticamente uma dádiva do divino. Algo assim tão distante de mim.

Cansaço. “Todo dia ela faz tudo sempre igual” só pode ser tradução do meu mais profundo tédio. Hoje ninguém pediu a bolsa pra segurar no ônibus. Uma moça, grávida, trocou as boas maneiras por um enjôo que eu não consegui compreender. “Aperta aí pra mim!” ela disse. Como se a coisa mais importante do meu dia fosse obedecê-la e auxiliar na sua saída do ônibus. Se tem uma coisa que me cansa é falta de “obrigado, obrigada” nesse mundo.

Artesanal. Descobri uma maneira ótima de presentear pessoas. Uma, duas, três mudas de flores, um jarro em forma de jardineira e pronto: está feito uma belezura de arranjo. As unhas ficam um horror, mas aquele perfume e aquelas cores me fazem lembrar que apesar do calor do cão no meio da rua, do frio de lascar no meio do trabalho e da tempestade que cai agora em algum lugar do Pacífico, estou na primavera.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Diálogos

- Engraçado...

- O que?

- Esse pôr-do-sol... me deixa triste

- Então por que é engraçado?

- Quem falou em engraçado?

- Você.

- Quando?

- Agora há pouco

- Como eu posso ter falado em algo engraçado, se eu estou meio triste?

- Não sei, foi você quem falou.

- Você nunca me ouve, nunca presta atenção em mim.

- Mas você falou! E eu não vou falar mais nada.

-Você nunca quer conversar. E o engraçado é que eu sempre insisto.

- Falou de novo.

- Hã?

Revirando o baú

Visitando meu antigo "mundinho", achei esse textinho que postei em outubro de 2005. Fiquei com vontade de colocar aqui. A vida muda o tempo inteiro e é incrível como muitas coisas continuam as mesmas quase sempre. Pois está aí, sem retoques!


Cotas do Cotidiano

Um dia. A visão do mar. Uns 20 cigarros. Uma ligação inesperada. Um abraço no fim da tarde. A descoberta do valor incomensurável dos olhos de uma menina que faz poesia há 20 anos.

Tanta coisa circula dentro de mim neste momento. E é óbvio que não daria para falar sobre elas sem correr o risco que escapassem pelas fendas do precioso silêncio da contemplação. Por isso, calar é preciso, e viver é precioso.

É assim que me sinto. De quando em vez, olho-te dentro de mim e compartilho todas essas coisas contigo, falando baixinho como se entoasse uma canção de ninar. Vejo, que por cima do ombro, você faz aquele ar de estou ouvindo mas, não quero falar nada. E por dentro, do teu lado, sorrio com aquele ar de que entendo seu enfado porque somos feitos do mesmo pó.

Em verdade vos digo: a vida é tanta coisa. E é só um pedacinho de dia que se perde por entre as folhas do calendário. E espero e espero e espero. O relógio escuta o meu chamado. Só meu amor não ouve. Dorme tranqüilo, dentro de mim.

sábado, 1 de setembro de 2007

PS.:

Tenho inclinações de orvalho. E meu mundo é absolutamente ínfimo. Cheio de coisas. Cheias de significados como, barbatanas de girassóis, pistilos de borboletas e asas de moréias.O rio que corre em mim me corta ao meio e me divide em mil e duzentos e trinta e três pedaços. Tenho inclinações para a matemática das formigas. E esse é um texto descaradamente inspirado no homem-pássaro, Manoel de Barros. Há tanto descaramento nele (no texto) que nem sei se me não ocorre uma demência e, de repente, sou uma caçadora de entardeceres pardos das páginas dos livros (dele).Desde pequena, tenho inclinações para amizades profundas. Comadre Fulozinha é minha melhor amiga. O saci pererê é meio temperamental e foi-se num redemoinho. Mas o bicho-papão num arroubo e nessas ironias da vida, se apaixonou pela a Véia Debaixo da Cama da Silva e Castro. E foram felizes para sempre, é o que me chega aos ouvidos e nas correntes de
e-mail.


Aos 12 anos descobri que poderia desenhar com palavras e me tornei astronauta, carpinteira, costureira, médica pediatra, modelo, paquita (sim, meu passado me condena) e aspirante a joaninha.Aos 21 me mudei de casa. Desde então, a casca ainda não endureceu, mas os pés sim. As raízes estão engrossando e estou quase tocando a superfície do Japão.Por falar em Japão, lá agora já é amanhã. Estranho o hoje ser amanhã né? E, se em algum lugar, o hoje já é amanhã. Então hoje é ontem. E ontem eu nem fazia idéia que escreveria isso aqui. Bom, era pra ser. E assim será.

Ps.: esse local é totalmente absurdo, diáfano, impuro, intenso, insano e descompromissado com o léxico, a semântica e as pessoas que fingem não se preocupar com o que os outros pensam do léxico e da semântica. Se você for uma pessoa sensível às banalidades, à falta do que fazer e ao
completo despropósito de idéias, cuidado, melhor procurar um médico, ou se aboletar num espaço como esse.