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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Uma ángústia, uma saudade, uma revelação

Não é de hoje que os psicólogos e pessoas em geral têm reparado na fragilidade das relações. No quanto as pessoas estão indisponíveis para um talvez ou um não. Conversava com um amigo dia desses e ele se referia a um certo "autismo" que vem se apoderando de todo mundo. Como se construíssemos uma redoma em volta dos nossos sentimentos, da nossa alma e até mesmo do nosso corpo. E o que estivesse fora, estaria automaticamente descartado. Ignorado.

Pois bem, essa constatação nada me alegra. Tampouco é algo que eu persiga nas minhas relações. Mas um episódio que me aconteceu há poucos dias tem me deixado bastante angustiada. Tem a ver com a quebra - nem que seja momentânea - de uma harmonia que levou meses, anos, para ser instalada. Fico pensando se daria para medir sentimentos de amizade; e se isso fosse possível, se daria para medir também todas as vezes em que nossos amigos, digamos, pisa na bola ou faz um gol contra.

Nunca fui muito boa nesse lance de futebol. Nem nunca quis entender o que está por trás da histeria masculina com relação ao tema. (Bom, se for parecida com a feminina sobre cosméticos, até que posso fazer uma idéia) Mas, entendo de amizades. Tenho um monte delas espalhada Brasil afora. Um monte delas que não vejo faz tempo, mas que pulsam tão forte e elegremente no meu ser, como se vivessem ao meu lado. Dia desses, um desses fortes laços foi afrouxado por algo que até agora não entendi direito. E isso está me deixando muito triste.

O primeiro impulso foi o de chutar o pau da barraca, dizer cobras e lagartos, me sentir a senhora da razão. O segundo foi de deixar tudo quieto. Não mexer. Não xingar. Não procurar entender ou questionar determinadas posturas que eu arriscaria dizer que foram infantis e egoístas. Mas, agora, e cada hora que passa e o telefone não toca, um e-mail não chega, me sinto vazia. Triste e solitária. É incrível isso! A gente perde namorado, acaba noivado, morre nosso cachorro, um passarinho aparece de asa quebrada no meio do quintal. E tudo isso dói. Mas passa. Perder um amigo não. É como se parte da gente se perdesse na imensidão daquele vazio escuro que se instala.

Eu não acho que o tenha perdido para sempre. Vou continuar apostando no nosso amor quase que incondicional. Se bem que, pensando bem, e lembrando que ele sempre me chama de "neurótica" e eu o chamo de "megalomaníaco", é bem possível que nosso amor seja incondicional. O fato é que se ele fosse um namorado, marido ou amante, eu cantaria para ele "Volta, vem comigo viver outra vez, do meu lado". Mas ele não é só isso. Ele é muito mais. E eu sinto saudades. E eu quero voltar a chamá-lo de megalomaníaco, quero rir com seu jeitão de menino mimado (mas de coração enorme); com um meneio de cabeça que ele faz bem rápido, como se tivesse o peso do mundo do Pequeno Príncipe nas costas. Quero de volta até mesmo seu jeito descarado de fumar meus cigarros. Quero de volta aquele brilho no olhar, da cumplicidade que às vezes eu penso que não acabaria nunca, nem numa guerra. E quero de volta a sensação de que não sou uma altista. De que não somos altistas. No mínimo, artífices de uma relação que está sendo construída na base do dia-a-dia, do olho no olho, do dizer coisas que nem sempre são bem ouvidas, ou bem compreendidas. Quero ter de volta a chance de ser artista do lado dele. De continuar criando um dia ensolarado, um céu azul e, uma cerveja gelada, uma confidenciazinha só para fazer todo o sentido do mundo confiar, e tudo isso, embalada por um fundo musical que é uma gostosa risada, compartilhada e vivenciada a dois. E já que eu tô fazend o post mais real e sincero de toda a minha vida, sem nehuma sombra de cronicidade (se é que essa palavra existe), vou finalizá-la dizendo o seguinte: "Crico, volta, vem comigo viver outra vez do meu lado".

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Poema em dó menor

Para que te convidar para entrar
Se sequer bates à porta
De que adiantaria todo alvoroço
Rosas no cabelo
Saia rodada
Calcinhas na gaveta
Se me despes apenas com silêncio e indiferença

Para que te convidar a beber
Da minha saliva
Se sequer sentes sede
E de que adiantaria colocar um blues na vitrola
Vinho em taças
Cubanos equilibrando-se no fino cristal
Se teus olhos se mantêm altivos e ávidos por outras esquinas

Não, senhor, não entrarás mais em minha casa.
Para chegar até esse lugar é preciso atravessar uma rua
Dois rios, alguns vendavais, poças de sangue
Quiçá um continente inteiro
E dois ou três versos desperdiçados

Mas de que adiantaria
Se sequer soubestes ler nas entrelinhas



terça-feira, 23 de outubro de 2007

A verdadeira função

O relógio do meu quarto, cuja função é me guiar pelas primeiras horas da manhã, quando travo a luta mais feroz contra mim mesma, está com os ponteiros parados. E, embora tal situação não seja a representação da morte que andei lendo no livro O Dia Mastroianni, do J.P. Cuenca, parece que eu descobri a verdadeira função do relógio.

Na verdade nunca gostei de relógios. Há anos aboli tal utensílio. Prefiro coisas mais inúteis como o canto dos bem-te-vis me anunciando o dia, o chiado da panela horas depois e o roçar cheio de intenções silenciosas do meu gato, no fim do dia, por entre as minhas pernas.

Tenho a impressão de que descobri a verdadeira função do relógio, cujos ponteiros me apontam sempre para a mesma direção. O relógio quebrado pode ser uma seta apontando para cima; um rio que desce; um interruptor apagado; um livro fechado; uma rosa de plástico; um olhar distante; aquela mesma hora em outro fuso-horário, em Montreal, por exemplo; uma hora atrasada, uma hora adiantada, anos e anos girando em torno do próprio eixo, sem nunca sair do lugar. O relógio quebrado pode ser um espelho. Assim como todos os outros que agora circulam para lá e para cá, mesmo sem saber onde tudo isso vai dar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Confissões sem palavras

Delia Elena San Marco

Despedimo-nos em uma das esquinas do Once.
Da outra calçada tornei a olhar; você tinha-se virado e me acenou com a mão.
Um rio de veículos e de gente corria entre nós; eram cinco horas de uma tarde qualquer; como eu podia saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o intransponível?
Não nos vimos mais e um ano depois você estava morta.
E agora procuro essa memória e a observo e penso que era falsa e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação.
Ontem à noite não saí depois do jantar e reli, para compreender essas coisas, o último ensinamento que Platão põe na boca de seu mestre. Li que a alma pode fugir quando a carne morre.
E agora não sei se a verdade está na infausta interpretação ulterior ou na despedida inocente.
Porque, se as almas não morrem, é bom que em suas despedidas não haja ênfase.
Dizer adeus é negar a separação, ou seja: “Hoje brincamos de nos separar, mas nos veremos amanha”. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, embora se julguem contingentes e efêmeros.
Delia: um dia reataremos – à margem de que rio? – este diálogo incerto e nos perguntaremos se um dia, em uma cidade que se perdia em uma planície, fomos Borges e Delia.

(Jorge Luis Borges – O Fazedor, pg. 187.)


Como dá para perceber, recorri a Borges para registrar alguma coisa na minha jaula preferida. (Esse espaço). Às vezes releio minhas coisas escritas e duas sensações me ocorrem com freqüência. Uma, é que não me reconheço mais nas palavras. Ao menos por completo. Só vez ou outra, uma letra me parece familiar. Mas não vai além disso. Já a outra sensação é ainda mais angustiante. Sinto-me envergonhada. Tímida até por insistir em escrever tais e tais coisas.
Ontem a angústia da falta de palavras, da inapetência em criar teias com sentimentos e fatos reais ou fictícios se apossou dos meus pensamentos. Como se olhasse para dentro do meu caleidoscópio de idéias e dele não conseguisse divisar nenhum pedaço. Nenhum resquício de cor vermelha, amarela, azul, verde. Sequer um triste cinza. Nada.


E nesse momento, me entreguei ao que me é muito mais rico, mais caro e precioso. Folheei meus livros. Revirei o barro de que é feito os grandes homens e mulheres que realmente sabiam e sabem transformar a efêmera areia, no desejado ouro.

No ensaio A Cegueira de J. L. B. pude compreender essas coisas que para mim ainda não têm nome ou forma definida. E fui mais além, pude me aperceber que nem sempre o que é nome, é nominável e o que é forma, define alguma coisa. E confesso que foi um alívio. Covardia? Quem sabe. Conheci poucas pessoas valentes na vida. Mas talvez ainda tenha coragem de continuar me investigando. Mesmo que para isso tenha que me deparar vez ou outra com o sentimento de morte. De coisa irrefutável. De perda eminente e sem tréguas.

A primeira vez que entrei em uma biblioteca foi em Bom Jesus (Bonja, para os íntimos). Ela funcionava onde um dia fora a Prefeitura, numa época que minha mãe me deixava dedilhar uma pesada máquina de datilografia, nos intervalos de seu próprio trabalho. Até então não conhecia prazer mais intenso. O de poder riscar a folha branca do papel oficio, com palavras que saíam de dentro de mim e ficavam cravadas em outro lugar. E, de certo modo, aquilo era eterno.


Confesso que a primeira impressão de Edgar Alan Poe ficou. E não mais o li. Um amigo que já não mais está entre nós, mas que se tornou inesquecível pela inteligência, docilidade e generosidade, (e que era chamado pelos outros pelo nome de Francisquinho - embora pudesse ser o que quisesse) me apresentou outros nomes. Richard Bach e seu Fernão Capelo Gaivota; Saint Exupéri e o menino que era completamente vulnerável a uma flor voluntariosa, dona de um mini-asteróide no meio do universo, entre muitos outros livros. Não parei mais. Porém, tomei rumos nebulosos. E confesso que agora sei que vivi um hiato quando me dediquei a ler um, dois e até três folhetins românticos de histórias água com açúcar do século XIX, num único dia.

Anos depois, às vésperas de começar o movimento Sótão 277, com 17 anos, meu amigo Pablo me emprestou um livro, na despedida do último daquele semestre na escola técnica. Eu deveria levá-lo para ler nas férias em Bonja. Dentro do livro havia um bilhete de apresentação do livro e coisa e tal, do qual revelo uma das frases que mais acertaram o alvo de minha existência: “Leia e cresça!”. Era Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce. Nunca mais fui a mesma.

Meses depois já arriscava uns poemas.

Até hoje tenho aquelas palavras na memória, como se fossem uma espécie de profecia. Hoje me sinto pequenininha para amanhã, só amanhã, me metamorfosear – quem sabe - em nuvem. Ou em outra palavra que ainda não nasceu (em mim) e não cresceu. Mas sabe que um dia não será mais somente palavra. Será tudo o que uma palavra pode ser.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Só as pedras

Pedras na boca. Pedras no ventre. Pedra na lua.

Meu tempo está acorrentado aos meus afazeres. Numa conta rápida ontem, somei seis coisas ao mesmo tempo. E estou sempre com a sensação de que subtraio algo para o dia seguinte. E assim vou multiplicando um rescaldo que me põe quase com saudades do tempo em que chegará a aposentadoria.

Não sou muito saudosista - embora pareça o contrário em muitas coisas que escrevo. O que passou e o que virá não faz muito sentido para mim. Mas, sim, faz todo sentido do mundo, os resquícios desses tempos abstratos. Que por hora teimam em deixar marcas, arder, confundir, anestesiar, comprimir, expandir, retirar pedaços do meu corpo (e instantes da minha alma).

Hoje, excepcionalmente, tenho ímpetos que me deixam arredia, inquieta, indisponível e, paradoxalmente calma. Seria simplista resumir que sinto cólicas, muitas, abundantes. (Na verdade, seria quase uma coisa muito idiota dizer isso, posto que pode virar matéria de inspiração). É incrível os efeitos que uma dor física são capazes de causar na essência de um ser. Enquanto meu útero se revira buscando um espaço entre as víceras, vou remexendo sensações daqui, sentimentos dali e vendo que de dor em dor, a gente vai enchendo um baú de lembranças inúteis e anestésicos débeis para justificar a absoluta inabilidade em não ser. Ou não ter de ser coisa alguma. E ignorar qualquer apelo interno ou externo.

Hoje, afora as pedras, eu não sou ninguém.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O que realmente me interessa no filme "Tropa de Elite"



eu quero dizer que odeio estratégias de marketing violentas que levam milhares de pessoas a assistirem filmes piratas e depois saírem correndo para se enfileirar em guichês de cinema e depois se empanturrar de pipocas e balas com os pezinhos por sobre as poltronas da Tela Mãe, na grande sala escura. eu quero dizer também que odeio filmes de ação, cheio de porradas, tiros para todos os lados, sangue escorrendo, mulher histérica gritando e homens falocêntricos suando desesperados, correndo para o lado do bem ou para o lado do mal.


tampouco estou afim neste momento de tecer comentários sobre o filme Tropa de Elite, de José Padilha, do tipo que ele traz à tona - com pouca maquiagem - a violência urbana porque passa nosso país diariamente, principalmente no Rio de Janeiro e que, portanto, como é um recorte, um "objeto", ele acaba se tornando mais palpável e discutível pelas pessoas que a própria essência da violência. dura, fria e incontestável, mas bastante volátil e sem profundidade, fruto das reportagens meia-boca e a conta-gotas que nossa querida imprensa se presta a fazer.


lhufas para tratados sociológicos e explicações grandiloqüentes. deixo isso para os falastrões de plantão, ou para quem realmente tem algo a dizer e o diz. cada um fala o que quer num país democrático, pois não?


o que realmente me importa é poder me deparar com a beleza tranqüila e sem alardes do ator Wagner Moura. de poder observar com bastante atenção aos vincos criados pelos músculos que saltam do seu ante-braço. uma digressão: esse tipo de característica eminentemente masculina muito me empolga. adoro antebraços masculinos. talento? carisma? concentração? tô pouco me lixando. eu até concordo que ele fez um excelente papel como o vilão Olavo na novelinha da Globo e blá blá blá. o que eu quero mesmo é ver o ante-braço do Wagner Moura e ponto.
PS.: qualquer relação entre ante-braço e outras partes do corpo masculino não terá sido mera coincidência nesse caso. aliás, eu também queria ver aquela outra parte musculosa. reticências.


terça-feira, 9 de outubro de 2007

A garota mais bonita do bairro e o meu desejo

eu vi de novo a garota mais bonita do bairro. trazia consigo uma sombrinha vermelha com cabo prata e sua pele e cabelos pareciam mais claros. é bem possível que a garota mais bonita do bairro já tenha me visto, mas nunca me olhou de fato. ao contrário de mim, cujo ar fica preso e o tempo parado no meio dos espaços apertados do ônibus quando vejo a garota mais bonita do bairro.

ela é de longe a mais bela criatura que eu já vi passar. tem uma estatura que a torna elegantemente displiscente, com suas camisetas, jeans e chinelos de dedo; uma cintura que a deixa graciosa, e seios e quadris que a fazem generosa, sem nenhum desperdício. os olhos, a boca, a pele e as mãos são um espetáculo à parte. como se daquela árvore, os frutos fossem mais vermelhos, brilhantes, tenros e convidativos. ela é, sem dúvida, a garota mais bonita do bairro. quiçá de outros lugares.

quando passa por mim tenho vontade de tocá-la. mas sua altivez me intimida, sempre. num outro dia, ela veio em minha direção e colocou-se bem próxima a mim. quase me levantei para dar-llhe o assento, mas me lembrei que isso não faria sentido algum. nem para ela, nem mesmo para mim. e como lamentei a existência dos sentidos. foi quando pude observar mais atentamente a languidez dos seus dedos segurando o corrimão do corredor. as pequenas dobras que separam as falanges. as unhas nem curtas nem longas. numa simetria davinciana.

eu não queria ser a garota mais bonita do bairro. a garota mais bonita do bairro é ela. e, talvez, no alto da minha admiração e estarrecimento, eu quisesse ser ela por alguns segundos, para no momento seguinte descobrir que eu não poderia ser a garota mais bonita do bairro porque esse posto é dela e de mais ninguém.

eu não queria possuir a garota mais bonita do bairro. posto que alguns de vocês devem estar pensando nisso. eu sequer quero a amizade ou qualquer outra sorte de intimidades com a garota mais bonita do bairro. mas, uma coisa devo confessar: se pudesse, ao menos, comeria-lhe o mindinho. Para experimentar o provável adocicado gosto de suas pétalas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

(in)coerências

eu te amo
porque não te amo mais
e porquê não te amo mais
te amo tanto assim


(taí um texto que eu tenho quase certeza de que estou copiando de alguém... mesmo sem saber, mesmo sem querer)

No divã pela manhã

Meu coração está aos pulos. Está assim desde que levantei. Talvez o infinito tédio que não me bateu à porta e sim já foi entrando sem ser convidado durante todo o final de semana, seja o responsável por essa rebelião de batimentos e fluxo sangüíneo. Talvez por uma sucessão de pequenos e ínfimos acontecimentos do início da manhã. Citarei alguns: atraso da porcaria do ônibus; pessoas mal-educadas no ônibus; uma mistura insosa de sol e chuva no meio do caminho; uma vontade de continuar dormindo que me tira o ânimo e me dá uma certa animosidade em responder coisinhas infames e inúteis para algumas pessoas debaixo do sol.

Mas, eu não quero falar de coisa alguma hoje. Aliás, nunca quis falar de coisa alguma sempre, como hoje. Ou seria o contrário? O que sei é que quem muito fala, pouco tem a dizer; no fundo, no fundo é isso. Excetuando claro, os filósofos, os ascetas, os poetas e os punhetas (desculpem-me, mas o apelo da rima foi mais forte que os bons ditames do vernáculo). Hiii, acho que estou ficando palavrosa hoje. Mérd!

Falando em merda. Talvez a prisão de ventre que me assola dias a fio, seja a grande causadora dos arroubos do meu coração. Há! Era só o que faltava. Ou melhor, o que me sobra.
Meus pais tinham um santo remédio para minha prisão de ventre. Eles abundavam em carinho. Explico: o pouco de afeto e delicadeza que me restam nesse mundo cheio de vazios, devo ao exercício diário a que eles me submetiam. Bastava uma queixa que fosse da santa caca que não vinha, para eles me colocarem na cama e, enquanto um me enchia de beijinhos, o outro massageava a barriga, as costas, os joelhos e até o nariz. Era tiro e queda.


Só por hoje não vou me lembrar que eles não estão juntos há muito, mas muito tempo. Só por hoje vou me esquecer de que a separação foi extremamente dolorosa. E, só por hoje vou ignorar que talvez o coração aos pulos, a caca represada e o infinito tédio façam parte de uma única coisa que me é tão familiar: a absoluta inabilidade em lidar com o real.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Quando o silêncio é tudo que deve ser dito

Estava eu linda e nunca loira entre meus afazeres que tantas vezes extirpa toda e qualquer possibilidade de poesia em minha vida (só para se ter uma idéia, hoje cobri a morte prematura de um bebê), e eis que o destino incerto e diáfano da internet me reserva uma grata surpresa: minha amiga Elis (do blog É Logo Ali) me manda esse texto abaixo, creditando à senhora Clarice Lispector. Há poucos dias, meu amigo Carito (www.ospoetaseletricos.com.br) me mandou um outro texto dessa senhora, que muito me tocou também. Pois bem, hoje não estou para muitas palavras (só para acordes silenciosos de gemidos de rãs e borboletas). E transcrevo as palavras pantanosas de dona C.L. E assim como ela confesso, não sou mais que essa tênue névoa de silêncio, dúvidas e assombros.

"Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada.


Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade." (escreveu a Sra. querida Clarice Lispector)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Poeminha Naïf

O homem amava a menina
E a menina queria a lua

A lua amava o sol
E o sol queria o dia

O dia esperava a noite
E a noite só queria se enfeitar com estrelas

Num belo dia, todo mundo se rebelou:
A noite amou o sol, e se queimou
A lua mergulhou no dia, e se perdeu
O homem roubou as estrelas, e presenteou
E a menina, que não era menina coisa nenhuma
Se enfeitou com o colar

Toda delicadeza

Assisti Before Sunrise (Antes do Amanhecer) numa época em que tinha muita insônia, e morava sozinha lá na Ribeira. Geralmente ficava angustiada mas, naquela madrugada foi diferente. A Globo devia estar reprisando pela milionésima vez aquele filme. Primeiro, fiquei encantada com as imagens de Viena; depois, com o belo casal, falando sobre tantas coisas, com diálogos existenciais, filosóficos, profundos e com o frescor de um amor que surge naturalmente, sem grandes esforços ou armadilhas. Bem diferente da maioria dos filmes que estava acostumada a assistir. E das máscaras e das armadilhas que os amantes gostam de cultuar.

Anos depois dei de cara com o filme Before Sunset (Antes do Pôr-do-sol) nas prateleiras de uma locadora lá em Petrópolis. Ambos são dirigidos por Richard Linklater. Aluguei e adorei como no primeiro. Porém não acreditava que fosse um filme para, simplesmente, se ver e acabou. (Ainda hoje procuro o primeiro). Comprei-o nas Americanas e, sempre que me sobra um tempinho, como ontem, revejo-o.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se reencontram nove anos depois numa livraria em Paris. Ele está lançando um livro que conta justamente a história deles dois, uma vez que prometeram um ao outro se reencontrarem seis meses após o primeiro encontro, naquela mesma estação em Viena, mas o destino quis que fosse diferente. E ele admite ser um livro meio autobiográfico. Em certo momento, na livraria, ele diz: "Somos a somatória dos momentos que vivemos. E o escritor usa a argila que moldou sua vida", creditando a frase a Thomas Wolfe. Quando Celine fica sabendo que ele está em sua cidade-natal, vai ao seu encontro. O estarrecimento com que ele a recebe, quando a vê pela primeira vez, já no final de sua palestra é um momento sublime.

Os diálogos inteligentes, o charme meio neurótico da Celine e a aparente apatia do Jesse, mais silencioso e observador, dão um tom mais amadurecido ao segundo encontro deles. O romance dos dois só se descortina nas entrelinhas. Nos olhares que roubam um detalhe reconhecido, ou uma nova informação que surge quase dez anos depois; no suspiro de um, devido a surpresa do momento e na preocupação do outro se ainda está ou não atraente.

Tanto em encontros, quanto em reencontros - o filme trata disso - uma coisa me enternece profundamente: a sensação de mundo parado lá fora; de que, de alguma maneira, está tudo no lugar, encaixado. E se não estiver, pouco importa. Porque ali, naquele momento, há esperança.

Em determinado momento do filme, Celine diz que se sente anormal porque não consegue simplesmente passar uma borracha no que lhe aconteceu, esquecer tudo. Não olhar para tráz. E, sua angústia reside no fato de que para as outras pessoas isso é cotidiano, uma forma de sobrevivência, talvez. Mas sua incapacidade de tornar-se indiferente se traduz nessa frase: "Todo mundo é uma soma de pequenos e belos detalhes".

A delicadeza desses dois filmes, a naturalidade com que os dramas e desejos e vontades e sonhos e realidade se entrelaçam me tocam profundamente. Em muitos momentos de minha vida, sou a Celine. Em busca de reencontrar, em algum lugar, o meu Jesse. Alguém que me veja nas entrelinhas. Que possa fazer uma leitura nada dinâmica de todas as minhas idiossincrasias e, mesmo assim, não esgote nunca a vontade de saber quem realmente eu sou. Mesmo que isso seja improvável.