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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Orquídeas no Jardim

- E se tivéssemos nos conhecido há 10 anos?

- Não podemos prever o que é impossível, Clara. Nos conhecemos agora. É o que temos.

- Mas é como se eu me lembrasse de você há muito tempo. Tenho a impressão de que essas coisas todas, essa música, o seu toque, sua voz, você, tudo é tão familiar. Tanta coisa abstrata e tão pouco de concreto.

- Clarinha, você parece uma menina. Você é uma menina.

- Não pormenorize minhas sensações, Joaquim. O que falo não é coisa de criança. Eu queria que você tivesse aqui mais cedo. Poderíamos já ter uma casa. Mesmo que dormíssemos em quartos separados. Sabe que prefiro assim. Dividiríamos o mesmo escritório. Do lado das suas árvores, eu poria minha jardineira com as minhas flores preferidas. Uma roseira, uma cravina de várias cores e até quem sabe pudéssemos ter uma orquídea no jardim. E nossos filhos poderiam estar no jardim da infância. Se o tempo tivesse sido generoso conosco, talvez até mesmo um deles já estaria na quarta série.

- Não vamos apressar o rio, Clara. Está tão bom assim, vivemos os minutos, as horas e os dias com intensidade e delicadeza. Não somos estranhos um ao outro. Você sabe disso. Embora o tempo seja ainda curto e incerto, temos parceria. E isso já é muito bom.

- Você tem razão, meu querido. Vamos tomar mais uma taça de vinho? Gosto muito desse. Sempre que dá, compro uma garrafa.

- Antes de mim você tomou com mais alguém esse vinho?

- Que pergunta é essa agora?

- Sei lá. Às vezes fico pensando se foi alguém especial que te apresentou esse vinho. Sei tão pouco da sua vida. Não que eu queira saber de fato, mas é que às vezes bate uma curiosidade.

- E se tivesse sido dessa maneira que você sugere? Que diferença faria, Joaquim? Vão-se as garrafas, fica a embriaguez, o enlevo, a sublimação das ressacas.

- Tá vendo? Eu tinha razão.

- Razão do quê, meu Deus? Do que você está falando agora?

- Você já quis ter filhos com alguém? Já fez planos? Já plantou uma árvore ou pensou em escrever um livro a quatro mãos?

- Quantas perguntas! Era só uma pequena taça de vinho.

- Você já amou alguém, Clara?

- Sim. Acho que sim. Já fiz planos. Já quis ter filhos, plantar árvores. Escrever poemas. E How I Wish You’re Here, do Pink Floyd, era nossa música preferida. E também tinha uma outra que o Ed Motta gravou que começa assim, “Areia, manhã...”

- Eu não quero saber, Clara.

- Joaquim, eu não acabei de nascer sabia? Já tenho 35 anos. E...

- Você sabia que existem mais de 30 tipos de orquídeas?

- Eu pensava que tinha mais que isso.

- Depois a gente poderia pesquisar as que são mais resistentes. E as mais apropriadas para um jardim pequeno, mas de terra fértil.

- Claro, que sim. Mais vinho?


5 comentários:

Anônimo disse...

Ótimoooooooo!!!! Adorei, tava com saudades...


Bjãoooo ;-)

José Correia Torres Neto disse...

Calendários. Calendários!? Calendários? Com dias e tudo? Como datas, feriados e dias santos? Orquídeas engalfinhadas em pau-brasil? Clara e Joaquim sabem que ambos - as orquídeas e o pau-brasil - floram quase que ao mesmo tempo, mesmo que plantados distantes, mesmo que plantados em epócas diferentes.

RASCUNHOS -Yasmine Lemos disse...

bela Clara
um beijo e um natal em paz...

Yasmine

Carito disse...

...um texto-jardim para ser regado assim, entre o não e o sim, entre Clara e Joaquim, entre as taças do vinho-tento, entre as traças do tempo...

cacau disse...

Eita coloquei e não me identifiquei,rsrsrs.

Bjão Saudades!