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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Pedaço de Neve

Clarice não conhecia a neve. Morando em Nápoles, setembro ou outubro de 1944, o chauffeur lhe avisa que há neve no carro. Ao pegar nos flocos, Maury corre, bate-lhe a mão e a deixa com "cara de boba" (Correspondências, Rocco, p. 64). Clarice adoece de gripe.



No dia seguinte, acamada, Maury lhe traz um pacote branco. Dentro, neve. Já feia, horrososa, derretida, quase sem vida. Nunca vi neve. Tampouco recebi um presente como esse. Desconheço tais arrebatamentos.



Moacy, Carito, era disso que falava naquela conversa. Assim que li esse trecho, lembrei-me imediatamente do que havia dito.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

15 minutos

Fora tempo
Suficiente
Para ela perceber
O afogamento inevitável
Das horas

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Uma ou outra, mesmo correndo o risco de chorar

Todo final de ano é quase tudo sempre igual. Nesse período tendo a curvar-me diante de algumas lágrimas que me roubam o canto da boca. É um comercial de TV, a promoção de uma geladeira - que eu não posso comprar - uma vinheta natalina, um outdoor, um cartão de Natal, a confraternização onde todo mundo dá as mãos para rezar ou o simples olhar verdejante de uma amiga mais atenta que pára e me elogia, assim no meio das linhas do trabalho. Tudo dá vontade de chorar. Se esse azul desacelerado que me toma o céu da boca é bom ou ruim, não sei. Mas é assim que é.

Todo ano é sempre a mesma coisa também, no quesito fazer listinhas para melhorar o ano que está chegando. Confesso que não gosto muito das listas porque elas tendem a limitar o campo de visão da gente. E se eu me lembro de listar que devo ser mais tolerante e amigável com as nuvens e me esqueço de ser alegre e atenta com as pedras? E se eu me lembrar de ser cada vez mais livre e de repente me esquecer daquele carrapicho, politicamente inconfessável, que me espeta a humanidade bem no canto da barra da calça? Não. Melhor não arriscar. Melhor não tentar melhorar aos olhos de fora. Melhor, melhorar para dentro. Abrir um espaço para que a existência flua sem grandes acontecimentos, nem exigir do acaso que esteja sempre presente.

Eu não falei ainda, mas pensei em árvore de Natal. Pois bem, falando em árvore de Natal, lá em casa nunca tivemos muito essa tradição de montar árvores. Eu gosto de ver. Mas meus olhos nunca prescindiram. Legal mesmo era observar os detalhes do presépio da pequena Igreja lá de Bom Jesus. Eu tinha um encantamento especial pelo lago. Eles colocavam um espelho, cobriam com areia, abriam largos espaços e lá acomodavam as miniaturas dos patos. Era bom demais ver tanta água cristalina e reluzente. Mergulhava naquele universo. Sentia as dores de Maria, o alumbramento de José e a inocência do Menino Deus. Era como se naquele momento, pudesse trocar umas idéias com meu anjo da guarda. Faz tempo que não converso mais com ele.

Mas, ele me deixou uma amiga. E todo dia tenho, no mínimo, uns dois dedos de prosa com a consciência. E é ela quem me avisa que chorar no período de Natal é uma coisa meio clichê sentimentalóide, mas é inevitável. Acontece. Ela também me ensina a ser mais gente e menos vitrine. Ser mais olhar e menos palavras. Ser mais formiga e menos arranha-céus. Arriscar o silêncio sempre que o grito ameaça. Ser menos apresentação e mais contemplação. Não me elevar com o despudor de uma rima, só para seduzir meia-dúzia de linhas. Ser mais rolo de lã e menos pedra de granito. Lágrima e sal. Poema e música. Alma e corpo. Um e outro. Sempre.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Coisas que dão samba

* Quando ele me toca com o olhar e eu sinto o calor do meu desejo correndo pelas veias

* Quando ele roça bem devagar o dedo no meu braço, num carinho disfarçado pra ninguém notar

* Quando ele fala baixinho, bem próximo do meu rosto coisas sem importância nenhuma - só pelo prazer de ficar perto

* Quando ele me abraça forte pouco antes de ir embora

* Quando a gente fica calado

* Quando a gente conversa

* Quando eu vejo que é melhor ser alegre que ser triste


Publicada em Entremundos, em dezembro de 2006.

Eu não valho um tostão!!!

Parei pra pensar dia desses no quanto valemos no mercado. Já que o mundo pulula de vitrines, comerciais, out-doors, revistas e anúncios com pencas e pencas de produtos que valem alguma coisa e, se fazemos parte disso, será que também temos uma etiqueta invisível pendurada no nosso pescoço anunciando nosso valor? Tudo bem que eu nasci numa sociedade capitalista e que a revolução industrial aconteceu bem, bem, bem antes disso. E eu deveria estar acostumada com esse tipo de comportamento. Mas, às vezes fico pensando se estou preparada para descobrir o meu valor. Ou ao menos o que os outros vêem e pensam de mim quando estou com minha calça jeans comprada em 1999 – que ainda cabe como uma luva – e com alguma das minhas inúmeras camisetas brancas e o meu surrado tênis acinzentado (que já foi preto!).

Para mim é tão simples. É óbvio que as roupas não falam sobre a minha profissão, os livros que já li, as cacetadas que já levei da vida ou as vitórias já conquistadas. As roupas não atestam minha honestidade ou minha incapacidade de compreender algumas posições do tipo “fulano é menos interessante que cicrano porque não tem um carro ou um celular multi-uso que paga contas e passeia com o cachorro”. Para mim, celular deve fazer e receber ligações. É para isso que ele serve, pois não?

Dia desses, uma amiga fez uma entrevista para um novo emprego. Não é porque é minha amiga que digo isso. Mas ela é muito competente. Mesmo com um currículo admirável debaixo do braço, teve que pedir um blazer emprestado e colocar um sapato, em igual situação, um número a menos que seu pé, que lhe rendeu uma boas bolhas de saldo. A “indumentária” parece que fez efeito logo de imediato, porque ela me contou que gostaram do que ela conversou e das idéias que tinha. Ela só esqueceu um pequeno detalhe: a saia! É, estava meio amassada, ou tinha um furo de cigarro, que ela nem havia notado. Querem que eu conte o resto? O emprego foi dado a uma outra pessoa. Bem menos preparada e inteligente que ela, é fato. Mas que usa uns óculos estilo Ray Ban, comprado no camelô, uma bolsa Loui Vitton, em igual situação e um blazer impecavelmente passado. E isso não vale só para trabalho não. Tem gente por aí usando esses critérios para fazer amigos; para arrumar namorado e pasmem, para dizer o sim na saúde e na doença, na tristeza e na alegria até que a morte os separem.

Sendo assim, quero deixar bem claro aqui e agora que eu não valho nada. Não valho um tostão furado que pague o tempo perdido de alguém me olhando de cima abaixo para descobrir através de etiquetas quanto custou minha calça, minha blusa, meu sapato e meu celular que cumpre com o que quero dele. Tem mais, sou um zero a esquerda no quesito status quo igual a bens materiais. As coisas as quais acumulei na vida que mais me dão orgulho de ser o que sou, não têm valor nenhum no atual mercado. São coisas do tipo, chorar num filme sensível; ter dó de um gatinho (ou qualquer outra espécie) abandonado na rua; passar horas lendo poemas; passar mais horas ouvindo o que meus amigos têm pra me dizer ao telefone; escrever cartas; regar minha samambaia; brincar com os filhos das minhas amigas e, sobretudo, ficar feliz com a felicidade alheia.

(PS.: aquela minha amiga da entrevista conseguiu sobreviver à mediocridade humana e deu a volta por cima!)


Originalmente publicada em Entremundos, em 23/10/2005.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quando o amor acaba





Tomar decisões é um dos exercícios humanos mais difíceis. Principalmente aquelas que nos obrigam a dobrar a esquina, sem saber exatamente o que terá do outro lado. E não estou falando de que roupa usar pela manhã, colocar ou não o silicone da moda ou finalmente decidir se o cinto deve ser mais fino ou acompanhar as tendências da estação. Sempre que sou impelida a tomar uma decisão, começo pelas negativas. Ou seja, se ainda não sei o que quero, ao menos tenho de saber o que não quero.


Se as decisões pudessem ser tomadas como se recolhe roupas penduradas num varal, seria muito fácil, mas não justo. Já vi muita gente que trata assim suas decisões: deixa acontecer. Num belo dia, vai no quintal dependura o egoísmo, despe-se de lealdade, e sai destilando ideais de sobrevivência para todos os lados. Como se ser demasiado humano fosse uma guerra de interesses, onde alguém, ou algo, ou um momento tão delicadamente construído pelo tempo e pela convivência, pudessem ser destruídos em nome da incompetência de ser fiel a si mesmo e, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao outro.

Uma vez eu ouvi uma das frases mais estúpidas que alguém pôde proferir na vida. "Não ter medo de trair os outros para ser fiel a si mesmo". Fala sério! Tratam-se de duas coisas absolutamente incompatíveis. Se você é fiel a si mesmo, é óbvio e conseqüente que você será fiel aos demais. E é simples. É mais que humano. Até os cães sabem disso. E quando alguém é leal, não há espaço para o medo da reprovação. E mesmo se o medo surgir, ele é ainda melhor que a avalanche do desrespeito. Não posso, melhor não quero, acreditar que um sentimento possa ser estruturado por sobre os escombros do desrespeito a outro sentimento.

Nunca pretendi ser uma espécie de arauto das relações humanas. Deixo isso para aqueles que justificam seus erros e suas falhas lembrando dos erros e das falhas dos outros. Como se comparar fosse um mecanismo que levasse à absolvição. Assumir a falha por si só já está de bom tamanho. Pedir desculpas, dispensar faturas é muito mais digno.

Ser puro é ser autêntico até nas sombras. De que vale uma moldura bem trabalhada, cheia de rococós e besuntada com o mais fino óleo, se o quadro é um borrão que até um rabo de elefante é capaz de fazer melhor? Quando o amor acaba, ao menos precisa restar gentileza. Se não dá para ser solidário à angústia alheia, ao menos que haja delicadeza no final. Há que se perder o pudor das palavras educadas, mas não perder o cuidado. Mentira e dissimulação não combinam com amor.

Se alguém toma essa postura no fim de uma relação, melhor partir para a despedida. Fazer um Harakiri do passado. E lembrar que uma despedida não é, necessariamente, o fim de tudo. É sobretudo a possibilidade de um outro encontro.


Esse texto será publicado em O POTI/Diário de Natal, neste domingo, 14.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Mensageiras

Se pudesse entender todos esses desdobramentos de faces em meu rosto. Sinto como se minha alma usasse roupas largas. Uma coisa miúda, acanhada, aborrecida e cansada se apodera do meu ser. Sobra pele, sobra unhas, cabelo, sobre extremidades. Um caminho inteiro vazio à frente do espelho.

Não tem nada a ver com raiva ou com desespero. Antes tivesse um nome. Talvez fosse mais fácil compreender.

Mas essa não-coisa está em todo o vazio que me completa. Como se fosse um não-viver. Ou talvez um excesso de vida constante, quem sabe. Um zumbido ecoa pelas minhas veias. Numa pulsação cadenciada e lenta. Uma coisa não identificada nem classificada pelos olhos de quem vê de fora.
Talvez por isso tanta solidão. Aquela que ao invés de libertar, sufoca. Se outrora trazia luz, agora se enclausura em escuridão. Mas é uma escuridão que esclarece. Tudo está tão claro agora que o medo já não existe. Antes o medo que a desesperança.


Será que chegar a pontos tão extravagantes da alma faz bem ao ser? Ou será que a inevitável dor é o que de fato nos move?

Sinto inveja dos que se entorpecem. Eles estão mais próximos de Deus. E sinto extrema ternura por quem se enternece com uma flor morta num jarro. Provavelmente, não é deles a picada fina do espinho.

Na minha rua não há sinos. Nem padres.Só duas velhas de vozes esganiçadas anunciam o raiar, o desenrolar e o cair do dia.Elas não dizem coisas com algum nexo para os leigos.Agora, o que é mais estranho, é que mesmo mortas ou adormecidas elas desconhecem o meu nome.


Publicado em Entremundos, em 03/10/2005 23:03

Um dia

Um dia. A visão do mar. Uns 20 cigarros. Uma ligação inesperada. Um abraço no fim da tarde. A descoberta do valor incomensurável dos olhos de uma menina que faz poesia há 20 anos.
Tanta coisa circula dentro de mim neste momento. E é óbvio que não daria para falar sobre elas sem correr o risco que escapassem pelas fendas do precioso silêncio da contemplação. Por isso, calar é preciso, e viver é precioso.


É assim que me sinto. De quando em vez, olho-te dentro de mim e compartilho todas essas coisas contigo, falando baixinho como se entoasse uma canção de ninar. Vejo, que por cima do ombro, você faz aquele ar de estou ouvindo mas, não quero falar nada. E por dentro, do teu lado, sorrio com aquele ar de que entendo seu enfado porque somos feitos do mesmo pó.

Em verdade vos digo. A vida é tanta coisa. E é só um pedacinho de dia que se perde por entre as folhas do calendário. E espero e espero e espero. O relógio escuta o meu chamado. Só meu amor não ouve. Dorme tranqüilo, dentro de mim.

(Publicado, originalmente em Entremundos, em 8 de outubro de 2005)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ainda sobre o Rio e a melhor frase de efeito que consegui elaborar...

Não há recompensa maior para pés desesperançosos que uma cadeira, um banco de praça, um degrau, um filete de córrego. No meu caso, a recompensa era depois de caminhar por quase duas horas, ter achado as escadas em espiral que me levariam ao sebo e à livraria da Avenida Rio Branco, 185. Cheguei e fui logo anunciando minha aventura, quase como na música do Cidade Negra. A mulher simpática que havia me atendido ao telefone, sorriu, mesmo não compreendendo muito o que significava aquele sorriso pra mim. Insisti: "é a terceira vez que venho aqui". Um senhor octagenário circulava por entre as prateleiras e me olhava como se ele próprio superasse em mil vezes minha ida ao local. Eu tinha ligado para o Pablo naquela manhã. Pedindo socorro, porque não me lembrava do nome da Rua. Fui a primeira vez ao local com ele e Ana Cláudia, em 2005, durante a Bienal do Livro. Ele também não lembrava mais. Mas me deu as pistas possíveis: "Sheylinha, fica perto de um prédio com enormes colunas".
Não sabia por onde começar. Se pudesse, teria começado pelo esquecimento. Limpado toda a minha memória e começado do zero. Prateleira por prateleira. Tanto livro desnorteia. Deixa confuso. A vida fica curta diante de tantas páginas.

Em 1946 a Editora Agir publicou pela primeira vez
O Lustre da Clarice L. Eu estava caminhando por entre as prateleiras com o mesmo vislumbre de como quando eu era criança e me soltava da mão da mãe no supermercado, diante dos biscoitos recheados. Aí eu disse displicente ao atendente “tem algum da Clarice? Me ajuda a achar”. Aí, o outro moço bonito, meia-idade, barba farta, camisa verde, calça azul e voz suave, foi para dentro de um outro compartimento onde fica um oceano de livros mais tímidos e o entregou discretamente um livrinho verde. E sussurrou: "para ela é cinco reais". Eu ouvi tudo, mas fingi distração. O rapaz me entregou O Lustre, 3a. edição, 1967, José Álvaro Editora. Capinha verde, carcomida nas extremidades. O nome dela em cima, branco, o título em vermelho vinho, num logotipo que usávamos nos trabalhos de cartolina no colégio. As páginas amareladas.

Só aquele livro e aquele gesto do moço bonito seriam o bastante.
Trouxe sete livros para casa e apenas 46 contos a menos na carteira.

Quando me sentei no ônibus para voltar à estrada que me levaria de volta ao Congresso, abri livro por livro, senti o cheiro, catei palavras, exortei canções, enchi os olhos de alegria. Estava cheia de orgulho da minha empreitada e quis me exibir para a moça paquidérmica que me acompanhava. “Credo! Livro velho! Não gosto dessas coisas. E essa moça aí que assinou esse livro em 1968? Será que já não é um fantasma?”. E continuou tagarelando argumentos quase insuportáveis de serem ouvidos.

(...)


Engarrafei minha indignação. Pensei numa resposta adequada e retruquei no meio da sua voz esganiçada: “Jaqueline (esse é o nome da paquidérmica), todo livro tem um caminho próprio. Esse tem o seu. E eu espero que ele siga sua história um dia, sem mim, nas mãos do meu filho, ou de qualquer outra pessoa que seja”. Ela me olhou com cara de cuscuz e comecei a cochilar, exausta.


(Pavitra, na próxima vez que for ao Rio, peço socorro, tá bom? Obrigada pelo carinho)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O começo da visita

Muitas pessoas. Todas indo pra lá e pra cá. Ninguém se conhece. Ninguém se vê. Muitos santinhos e panfletos me chegam às mãos. Mas ninguém tem tempo de rezar ou de ler anúncios. Na quinta entrega, recuso educadamente. Na décima oitava, ignoro. Prédios longos e tontos. Esquinas. Muitas esquinas. Não sou daquele lugar. Guardo em mim um sopro do galo que canta a partir das três da manhã lá no quintal da casa da minha avó. Não é tempo nem hora, mas analiso as páginas do meu livro de memórias. O galo e a minha avó estão lá. Decerto para me proteger. Ninguém parece se importar, mas em mim faz um frio de porta de geladeira aberta. A primavera se despede com chuvas embaixo da linha do Equador.

Não queria fazer um diário bobo de viagem. Mas é inevitável. Fui pela terceira vez ao lugar onde meu pai sempre ía e ficava por muito tempo na minha infância. "Moça, eu estou de frente para... poderia me dizer como faço para chegar em...". As pessoas me diziam qualquer rua e qualquer direção. E, mais vinte minutos de caminhada. E o lugar não chegava nunca. O Rio é muito grande. Bem maior que o arco dos braços do meu pai. O Rio é do tamanho das informações erradas. Dadas de qualquer jeito e sem o menor jeito.

Assim, daquele jeito, sentia saudades de muita coisa. Até de umas meias surradas que já nem me lembrava mais onde as tinha guardado. Fiquei pensando se não era naquele canto do armário onde não tiro a poeira faz tempo. De onde eu venho, a gente quase pega na mão dos outros para levar até o lugar. Eu mesma já peguei na mão de perdidos umas três vezes. Até meu coração foi junto numa delas. A vida reserva surpresas nas esquinas. "Moça, você sabe onde fica..." Ela já atravessou a avenida que tem um minuto cravado no semáforo para umas 73 pessoas passarem ao mesmo tempo. Acho que não notou minha presença. O barulho é maior que os olhos.

Quase desistindo, me entrego ao labirinto das lembranças. Vou me guiando pelo cheiro das colunas, a arquitetura antiga do Rio que um dia fora capital, os prédios modernos, exibindo vitrines com 50% Off. Meus pés seguindo o tato do chão. Diante de mim a Avenida Rio Branco, número 185. Finaly, chego ao espiral de escadas que vai me levar ao lugar que não é parecido com a minha casa. Mas que tem cara de lar: o sebo Berinjela de um lado e a livraria Leonardo da Vinci do outro...

Sorry, continuo depois. A chegada ao Sebo me emocionou demais. Preciso de um tempinho para continuar.

O castelo de papel

Quando eu era pequena, meu pai quase sempre não estava em casa. Ele ía para o Rio e ficava lá por meses, anos. Nunca foi pescador. Era sim uma espécie de eletricista. Desenhava super-bem. Era inteligente e gostava de uma boa briga política. Numa de suas voltas, me trouxe um castelo. De bonecas. Chegou no meio da tarde. E disse: "Tenho uma surpresa". Não sabia ainda o que era surpresa. Depois do jantar, e eu fiquei o tempo inteiro no colo dele, desarrumou o enorme embrulho. Cortou, encaixou, colou e estava pronto o castelo. Era bonito. Maior que eu quando sentada ao seu lado. Mas eu estava confusa porque ainda queria saber qual a surpresa que ele havia trazido pra mim. "Pai, e a surpresa?". "A surpresa é o que você poderá fazer agora com oa sua imaginação".

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Quarta-série

Uma vez quebrei a tiara de uma amiga batendo com o livro de matemática na cabeça dela. Quarta série. A professora era a mais linda e doce que já tive. Não tomou conhecimento do ato quase na hora da cigarra tocar às cinco e meia. A coleguinha, uma loirinha atarracada de cabelo pixaim, não quis conversa. Tinha de ressarci-la do prejuízo. O primeiro perrengue de que me lembro até hoje com riqueza de detalhes. Pra completar, arrumou uma carrasca para fazer as honras da tortura. Magna, lembro o nome dela. Oitava série. "você tem dois dias para trazer o dinheiro ou então uma nova tiara". Dizia isso enquanto me sacudia pelos ombros, no canto do corredor na hora do recreio. Meu corpinho subitamente amassado e jogado no canto. Ninguém via nada. Minha culpa ampliada na covardia de não contar a ninguém.

Voltei para casa meio zonza. Enjoada. Era a casa da Tia Jesus, em Campina Grande. A tia mais linda de que me lembro. Minha mãe estava resumida numa pia de louça três vezes ao dia, duas passadas de pano na casa, cinco banheiros impecavelmente lavados (minha tia tinha obsessão por banheiros) e à noite, na hora da novela, derretia gordura de boi para fazer sabão. Não podia ser importunada por uma brincadeira inconseqüente de criança. Não tínhamos dinheiro, nem casa, nem salário. Só a gratidão pelos favores de ter um teto pra morar.

Eu chorava com as pálpebras fechadas no escuro, para não acordar as sombras.

Aí minha avó me salvou da culpa. Mesmo não estando com a gente naquela época. Foram os únicos seis meses em que nos separamos durante nossos 17 anos juntas. Ela havia me dado um bracelete de prata quando eu tinha oito anos. vovó gostava de jóias. E gostava de dar presentes também. Era lindo. Meio fosco no meio e com uma lapidação brilhante nos cantos. Reluzia. Me deixava inédita quando usava. Iria negociar.

Na data marcada, meu corpo tremulava no canto do corredor pelos ganchos de Magna. Eu mal podia falar com os olhos que tinha encontrado a solução. E falava por dentro, por favor, me deixe negociar, me deixe mostrar a redenção. Vai dar tudo certo. E deu. Foi a última vez que vi o brilho do bracelete. E ele já não era mais meu. Brilhava refletido nos olhos da atarracada que saiu em disparada, balançando o braço vitoriosa. Magna ainda deu um último empurrão, sentindo-se a justiceira. Desde então, evitei os corredores do primeiro andar do colégio, tinha medo da oitava série. E nunca mais me sentei na carteira atrás da amiga cabelo encarapinhado com tiara de plástico frágil.

Minha mãe nunca sentiu falta daquele bracelete. Minha avó também deve ter tirado suas conclusões. Mas nunca me interpelou ou fez qualquer cobrança. Não sinto falta do bracelete. Sei que fiz a coisa certa. Ao menos naquele momento, substitui a culpa de um ato impulsivo pelo amor de poupar a minha mãe de mais um problema. De engordurar seus dias com minhas travessuras.

Dia desses, disse para uma amiga: a culpa pode até existir, mas não pode se sobressair ao amor. E, sinceramente, não acho isso filosofia de botequim. É ensinamento da quarta-série.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Oito dias úteis

Que a burocracia é uma coisa chata e aborrecida isso ninguém duvida. Mas, tenho vivido situações nos últimos meses e dias que me fazem chegar à uma conclusão mais enfática. A burocracia é uma condenação. Só pode ser.Esperas em filas, fichas numéricas, painéis eletrônicos, papéis, carimbos e todo o resto de milacrias que emolduram o terrível quadro da burocracia têm me provado isso diariamente.

Desculpem, não quero ser burocrática. Mas preciso desabafar. Ontem, após cinco meses de longa espera consegui fechar um contrato de compra e venda. A parte boa é que em 34 anos, terei a primeira casa própria da minha vida. Sim, claro que a terei em passos lentos e graduais: tenho de pagar 300 prestações. Ou seja, em vinte e cinco anos farei um outro texto no blog, certamente ainda mais feliz, já que serei dona integralmente do referido imóvel (ops, essas coisas pegam, medo!). Bom, essa é a parte boa. A ruim, e sem direito a nenhuma poesia, diga-se, começou assim que eu parti para tocar a papelada. Primeiro, as instruções que me foram dadas no banco estavam erradas. O primeiro lugar a ir não era na Secretaria de Finanças e sim no cartório. Que cartório? Um, dois, no terceiro cartório é que de fato eu tinha encontrado o local certo. Ficha, painél eletrônico, 300 pessoas apinhadas no balcão, espera, espera. Atendimento de três segundos. Um carimbo. Uma instrução. "Volte aqui amanhã".

Obedeci. Papel na mão, fui à Secretaria de Finanças. 13h, céu nublado escondendo um sol de 36,8 graus célsius. Resultado: o Centro da Cidade parecia uma panela de pressão, explodindo todinha dentro do meu quengo.

Portaria. Ficha. Itiv. Senta. Espera. Uma mulher passa à frente da moça que está na minha frente. Espera. Moça irritada. Moça frustrada. Esperou 25 minutos. Descobriu 2 segundos depois que não era naquele lugar. Minha vez. Eu idem à moça. Relato: "Não, a senhora entrou na fila errada". Mas me disseram, senhora, na portaria, que era aqui que eu resolveria. "Não. A senhora trouxe o IPTU da casa?". Não eu acabei de comprar a casa e o IPTU que eu saiba é só em janeiro do ano que vem. "A senhora sabe o código do IPTU?" (...). "A senhora tem que entrar na fila do IPTU. Pegar o código do IPTU. Depois, vai para a fila da Certidão Negativa do IPTU. Pega a Certidão Negativa do IPTU. Aí, depois, pega a ficha do Protocolo e dá entrada no processo". (Fumaça saindo da cabeça).

Volta portaria. Ficha IPTU. Painél eletrônico. Cadeira. Espera. Espera. Código do IPTU. Volta portaria. Ficha Certidão Negativa de IPTU. Cadeira. Painél eletrônico. Espera. Espera. Certidão Negativa. Volta portaria. Ficha Protocolo. Espera. Espera. "Ficha 66...Ficha 66, por favor". Senhor, acho que a ficha 66 não está mais aqui. Será que o senhor poderia pular para a ficha 67?. (Silêncio). Ele me ignora por 47 segundos. "Ficha 67". Entrego ficha. Ele folheia Guia de Recolhimento para Imposto de Certidão Negativa IPTU Nada Consta Mais de Dois mil reais de taxa tributável em três segundos! Moço (ele usa aparelho e parece que é um estagiário, economizo o senhor e talvez ele nem goste de ser chamado assim por uma pessoa que tá na cara que é mais velha que ele), está tudo certo? Não vai dar uma olhadinha na Certidão Negativa do IPTU?. "Não senhora. Eu já sei que está tudo ok. Eu vi que a senhora foi na fila do ITIV, depois falou aqui comigo, depois na do IPTU, depois na Certidão...". Ok. E o boleto, onde eu pago, tem desconto? Me disseram que tenho 10% de desconto em cima desses 3% iniciais. "Se lhe disseram, lhe disseram, só não sou eu quem vai lhe confirmar". (Bingo! É estagiário!). Imprime um papel. Corta um pedaço dele com uma régua. Joga fora 2 terços. Me entrega o pedaço sobrevivente. "Em oito dias úteis a senhora vem aqui ver se o protocolo já realizou a avaliação. E assim a senhora receberá o boleto e assim poderá estar solicitando o ITIV" (Como assim? Mas me disseram que tinha desconto. E graças a Deus que ele só usou o gerúndio essa vez). Como assim? Eu não vou poder levar o documento agora? Até estou disposta a encarar a fila do banco, me dá logo esse boleto menino! "Não senhora. Primeiro vai passar oito dias úteis. É o tempo que o protocolo precisa. Depois a senhora vem aqui". Faço as contas. Mas, espere, isso quer dizer que é lá para o final da semana que vem! "Não senhora. Semana que vem só tem quatro dias úteis. Não se esqueça do feriado na sexta-feira. Boa tarde".

Moral da história: oito dias úteis é um tempo razoável que a gente tem para sair dali, refletir bem, ponderar e não ter um acesso de fúria, sair chutando lata, quebrando vidro de carro ne estacionamento, pensar em suicídio no Ducal (nada original isso), xingar a mãe do porteiro do seu trabalho, ou então matar o desinfeliz do estagiário com uma panela de pressão. É, só pode ser uma condenação.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Carta de um amigo, hoje às 16h

Hola, Shyla! Como está?
Penso em ti.
Agora estou viajando de novo. Vi um mar que me lembrou você.
Mar e mãe são palavras quase iguais, sabia? Em francês, acho.
Meu gato Ludo está bem. Agora de novo na estrada (e nos ares também), voltou a ficar com minha avó. E tu? Teus gatos?
Acho que ele (Ludo) é o mais acostumado de tudos, com minhas idas e voltas.
Como está, heim? Do lado de cá estou bem. Estou de volta a la casa que não tem nombre, nem chao, entao estou bem. Você sabe.
Escutei uma música brasileira. Parecida com uma que ouviamos quando pegamos o ônibus para a praia.
A praia. Os pescadores. As redes. Sabia, que ainda penso se realmente não deveria ser pescador? Mas as montanhas me atraem também. Você sabe.
Bueno, não sei mais o que dizer, Shyla.
Estou bem. Espero que tu também.
Besos, seu amigo.

O melhor luau da minha vida

Tinha parado de fumar. Tentou remédio, adesivo, força de vontade. Se orgulhava disso (das tentativas. Nem que fosse por vinte minutos a mais sem sucumbir ao vício). Mas confessava sempre uma certa nostalgia da fumaça entrando sorrateira nos pulmões. Nos conhecemos numa entrevista no jornal. Ele e sua fase naïf. Se não me enganam as cortinas do tempo, sua pintura tinha ido até a Alemanha, naquela época. Trazia um catálogo e as referências ao seu nome. "A gente não pode ficar preso a esse lugar não, menina. Aqui é muito pequeno, sufoca", disse ele. De entrevista a bate-bapo foi um pulo. E quando olhava para aqueles olhinhos miúdos e encontrava tanta reciprocidade já podia arriscar que ali nascia também uma amizade.

Dito e feito. Fizemos outras entrevistas depois. Mas a conversa sempre terminava no corredor que dá para a redação. Dávamos umas tragadas generosas e tecíamos nossos sonhos, angústias, projetos e poesias numa colcha de retalhos de empatia e cumplicidade. "Mas você tem um livro? Tem que publicar, menina. Eu faço a capa", prometeu e cumpriu. Meses depois, me entregava um CD com três opções. Mas, sem perder de vista a menina e o espinho que impregnam minhas letras. Quis o destino que, nessas mudanças da vida, de lugar, o CD se extraviasse. Nunca disse isso a ele. Nunca tive coragem de publicar também.

Até que um dia ele me convidou para um luau em sua casa. Então, o que era brisa se transformou em ventania. A casa era a casa de um artista plástico. Mas Diniz tinha muitas outras cores em sua vida, fossem estampadas no rosto dos amigos, nos afagos, nos carinhos, nas gargalhadas, nas lembranças, na música, na fogueira à beira-mar, na lua que estava cheia e orgulhosa de nos servir, no vinho que embriagava os sentidos e que dava sentido a quase tudo ali naquele momento. Ele estava feliz e todas as outras pessoas também. Dormi no quarto de cima, na companhia de Darquinha, uma amiga de vários verões e invernos. É difícil descrever o melhor luau da minha vida. Eu já tinha participado de festas à beira-mar, já tinha cantado ao som do violão de amigos, já tinha tomado vinho, trepado no embalo das ondas, já tinha encontrado Iemanjá, já tinha até pensado em como seria viver no fundo do mar. Mas, nada se comparava à atmosfera daquela noite. Em certo momento Diniz me buscou com o olhar e percebemos que o melhor nunca é pra sempre, o melhor é único. Imutável. Passageiro. Nos abraçamos. Já satisfeitos de que aquele melhor já era o bastante. Ali, com os amigos, rindo, livres. Nós estávamos felizes. Conheci pessoas novas. Reconheci outras. Mas ninguém era o mesmo. Ninguém saíra ileso daquele dia.

Por diversas outras vezes, comentamos sobre aquele luau. Até pensávamos em fazer outro. Mas certos de que aquele tinha sido e pronto. A última vez que vi Diniz foi lá na Funcarte. No lançamento de um livro. "Menina, e quando é que você vai publicar o seu heim?", insistia. Tinha voltado recentemente de uma estada em Nova Iorque e estava cheio de idéias (como sempre) e inquietações (naturalmente). "E o cigarro?". "Parei de vez". Mostrou os adesivos. Tive vontade de segui-lo. Tive vontade de não sair mais de perto. De ficar sorrindo e ouvindo suas histórias.

Inevitável agora não lembrar daqueles olhinhos miúdos sempre buscando o que havia de melhor em mim. Descobrindo e falando sobre coisas que nem eu mesma sabia muito bem se existiam ou se eram perceptíveis a mim e aos outros. Gostava da cor que o Diniz me imprimia. Era uma cor alegre, vibrante, uma cor que sempre via o dia seguinte como possível. Sem contar que ele me proporcionou o melhor luau da minha vida.

Diniz, vai colorir as nuvens, meu amigo. Vai deixar tua assinatura na barra da saia de Nossa Senhora.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sobre a poesia dos outros

Recolho as belezas das linhas alheias
Para transformá-las
Em estrada, suspiro e no pousar de um passarinho
Que zomba do (des)equilíbrio das minhas pernas
Perdidas no meio-fio

Me espanta o jeito com que elas, as linhas,
Se arrumam,
Desarrumando meu dia
Brincando com meus pequenos segundos
De encantamento

Me encanta esse silêncio
Dos outros
Que mais compartilho que compreendo
E, quanto mais tento,

Mais me atrapalho, tropeço, me engano
E me desconserto nesse alento
Que é viver
Do contentamento alheio

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Meu mundo cabe no mundo dela

Ela reclama: "Meu professor de Português é muito chato". "Minha tia me deu pouco dinheiro para a passagem estudantil". "A filha da minha vizinha e a minha vizinha gritam demais. Não consigo me concentrar". E segue seu rosário de lamentações no alto dos seus 16 anos. Idade em que o ontem, o agora e o amanhã se confundem numa espécie de "tudojuntoaomesmotempoagora".

Mas os olhos de Ísis me dizem muito mais do que reclamações. Folgo em chegar na parada de ônibus e encontrar Ísis com sua bolsa de tecido rosa, já meio surrada e seu caderno de final de ano. Igualmente surrado e cheio de anotações. Ísis e seu caderno. Ísis e o vestibular marcado para daqui a alguns dias. Ísis e o ano em que ela se testa e vê o mundo testando sua progesterona indecisa que espoca em espinhas pelo rostinho liso e sem nenhuma sombra de rugas.

Ísis me olha e me vê. Gosta dos meus sapatos. Pergunta por que eu não coloco um pouco de lápis nos olhos e rímel para acentuar minha castanhez aguda (ela coloca). Nem espera eu responder. Pergunta o que eu faço, como é o meu trabalho. Se foi assim também comigo, na época do vestibular. Se eu ainda tenho dúvidas. Fica feliz com o fato de que eu vou me mudar, em breve, morar num canto que é meu. E nem liga se não nos veremos com tanta freqüência. Quando ela não está no mesmo horário, sinto falta dos olhos de Ísis me buscando a cada pergunta. E reclama da mãe que mora longe. Reclama do pai que a abandonou ainda pequena. Reclama por que queria ser livre, independente, morar sozinha, (porque adora o silêncio) e sequer se lembra que mal tem o dinheiro para pagar o ônibus.

Hoje Ísis me deu um presente, que me fez tirar a franja teimosa de cima dos seus olhos umas cinquenta vezes, que era para ela não perceber que seu presente realmente me emocionara. Ísis me convidou para sua formatura, no dia 20 de dezembro e, como se não bastasse, adiantou: "Não abro mão da sua presença lá. Vou lhe buscar no seu apartamento novo, meu primo dá uma carona para mim e você". E eu, ali, emprensada entre duas pessoas e outras. Ela também. Estávamos só felizes. Só amigas.

Quanto há de Ísis em mim? E o contrário, também é possível?

Não pensem os senhores que não me revisto da "tia-amiga-da-parada-do-ônibus-legal-mas-que-sabe-ser-chata-quando-ela-extrapola". Já cheguei a dizer-lhe de supetão, parando aquela ladainha sem fim e sem começo: "Ísis, ela é que é a sua mãe. Ela tem o direito de namorar. Você não é responsável pelas escolhas da sua mãe. Não confunda as coisas, etc, etc, etc". Tudo ali mesmo, dentro do ônibus. Falando baixo para não expor nossa intimidade aos estranhos. Encarando sua falta de pudor em falar alto, quase gritando.


Ela sabia da minha tentativa frustrada da semana passada. Ela também teve espaço na minha vida para lamentar uma perda que era só minha. Ísis gosta de mim. Eu gosto de Ísis. Talvez ela disfarce bem, mas sabe que eu também tenho dúvidas, também discuto com a minha mãe e também sabe que eu ainda estou em busca de muitas coisas. Que tenho muitos sonhos e uma mala cheia de vazios. Ela também deve saber que eu gosto do silêncio que se instala nos meus olhos só para ter ouvidos pra ela.

Ísis chorou hoje no ônibus. Ficou emocionada. Talvez tenha pego emprestado da espontaneidade um pouco da coragem que eu não tive para fazer o mesmo. Ísis deve ter ficado emocionada porque eu aceitei de imediato seu convite. Ou porque brigou com a tia na noite passada. Ou porque o vestibular tá chegando e ela está cansada e assustada. Ou, quem sabe, foi por causa simplesmente do tudojuntoaomesmotempoagora, da vida da Ísis.



quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Medições

Não se mede os sentimentos dos outros pelo que eles sentem. A medida mais fácil é pelo que eles dizem e fazem. Não dá para pegar no sentimento dos outros. O que é possível medir é o calor do abraço, a quentura do olhar, o silêncio companheiro. As palavras escolhidas e colhidas do jardim da compreensão. Aí, quando isso não vem na medida que cabe na balança das nossas espectativas, a gente passa a pesar não o sentimento dos outros, mas o que a gente sente pelos outros.

Hoje eu passei por uma escolha difícil. Tive de atravessar o rio caudaloso da decepção e da frustração. E, como é de costume, o nado é sem bóia, sem salva-vidas. Caso contrário, não haveria aquela sensação de abandono que toda frustração nos gera.

Ouvi a notícia vindo de uma voz calma e que tentava ser ainda mais calma para a lança entrar devagar e quase indolor. Reconheço o esforço. Não doeu para entrar. Doeu mesmo depois que desliguei o telefone e quando a realidade se espalhou pelas veias e fui sentindo o desmoranamento de um sonho construído com tijolos de alguns esforços concretos.

Aí, o primeiro movimento foi pedir colo à minha mãe. Porque não tem como não pedir colo à mãe, quando se tem uma mãe com colo disponível. Frases feitas de muita sabedoria me fizeram respirar um pouco e ver que, às vezes, o esforço da perda representa muito mais força e honradez que uma vitória fácil, garantida.

Aí, o aconchego do cuidado daqueles dois primeiros, me deixou mais solta e resolvi falar para mais uma pessoa, na ilusão de ser merecedora de mais acolhimento. Como um gatinho recém-saído do ninho da mãe, que não se contenta só com um pote de leite. Ele quer o que está perdido de seus domínios: auto-confiança.

Ao invés de carinho recebi uma crítica. Cheia de amargura além de mim e de alguns espinhos catados do passado; de conversas soltas aqui e acolá e o que é pior, da fonte que mais pode enobrecer ou destruir uma pessoa: a intimidade. Ela estava tirando proveito da minha intimidade confiada, das confissões que havia feito, para me criticar? Fazendo questão de dizer que o resultado da minha decepção era fruto das minhas escolhas e do que penso sobre mim mesma. Putz! Claro que eu não posso concordar com isso. Claro que não escolhi me esforçar pra caramba, contar com o apoio e a crença de outras pessoas, dar a cara a tapa diante de estranhos, por que estava escolhendo perder no final.

Talvez ela até tenha falado a verdade. Ou a meia-verdade que convém aos que não sabem muito bem o que têm a dizer. Não vou negar, não queria críticas. Não ali, naquele momento, com os olhos marejados e os braços estendidos pra um abraço. Queria apoio. Queria que ela enxugasse minhas lágrimas por três segundos. Queria que respeitasse minha decepção e depois, nem que fosse só alguns minutos depois, risse do meu excesso de meninice. Das minhas fragilidades penduradas no varal à espera do sol e do tempo para evaporar. Não dá para medir o que os outros sentem pela gente pelo o que eles sentem. Mas sim pelo que eles dizem ou fazem. É isso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Domingo Feliz

Eu queria te dar um presente. Na verdade, algo discreto. Que só se revelasse aos poucos. Que tivesse a pressa dos caramujos em dia de corrida. Que pudesse ser misterioso e íntimo ao mesmo tempo. Calmo, sem deixar de ser cálido quando convém. Um presente que não tivesse cheiro, cor ou papel colorido. Mas que, mesmo assim, mexesse com os sentidos.

Ele deve ser como um livro descansando na cabeceira da cama. Sempre tão convidativo. Ou como uma mousse de chocolate, carinhosamente elaborada numa tarde de sábado, para ser servida com suco de graviola bem gelado.

Sem querer estragar muito a surpresa, eu acho que ele deve esconder nas entrelinhas o brilho das luzes de um quadro de Renoir. Ou então a sonoridade quase explícita de Dalí. Pode ter também a ansiedade entrecortada de uma sinfonia de Wagner ou ser instigante como um poema beatnik.

Então eu pensei, pensei, pensei. E sabe o que eu vou te dar de presente? Aquela passagem secreta que liga a sua casa até o fim do mundo. Aquela por onde os carros passam com dificuldade, cai aqui cai acolá, promovendo um desfile trôpego aos passarinhos, sentados nos fios dos postes que nunca acendem. Lembrando que os postes, daquela passagem secreta que agora é sua, são os mais cúmplices dos namorados que eu já vi, quando eles num trotar flutuante entre nuvens, páram e beijam e se esfregam no meio do caminho. Bom, agora que ela é sua, vou pedir à natureza para dar uma forcinha e encher aquela passagem secreta de paus-brasil, pequenos córregos, alguns grilos, sapos, andorinhas e um pé de jasmim. Para que, quando for noite, os passantes sejam guiados não só pelas estrelas, mas também pelo cheiro. E para que, todas as vezes em que qualquer pessoa, cachorro, carro velho ou novo, cometas, estrelas cadentes, lagartixas e pirilampos passarem por ali, eles tenham a sensação de que é domingo. Melhor, que é um domingo feliz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Tudo junto ao mesmo tempo agora

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca

b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarja vermelha têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos

f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que emudece primeiro etcetcetc

Desaprender oito horas por dia ensina princípios

(Manoel de Barros, em O livro das Ignorãnças)



Quem és? Perguntei ao Desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

(Hilda Hilst - Do Desejo)


Entretantos

Eu te escolhi
E assim, me esqueci
De como é que se faz
Pra não ficar
Entretantas
Flores, árvores, selvas
Sonhos e desilusões.
Mas aí,
Quando eu vi
Já não tinha mais olhos de olhar
Só de sentir


(Gente do céu, eu descobri essas coisas guardadas numa caixinha rosa há tempos ignorada por mim... Não me tomem como generosa. Sou apenas uma moça ainda sem meio e fim.... Moacy, você protestou e eis-me aqui. Todas as postagens do dia 20 são todas, todas, todas dedicadas a você)

Regra no. 3 para ser feliz


I - primeiro que tudo, ao acordar, você deve se espreguiçar longamente. Gente que não se espreguiça de manhã nunca foi gato numa outra vida

II - por primeiro, antes do primeiro que tudo, não resista ao espaço tênue entre o sono e a vigília nos primeiros minutos do despertar. É o melhor momento na cama. Entregue-se de corpo, alma e preguiça. Deve ser sua primeira prece

III - coce as costas com um pente, uma caneta ou qualquer outra coisa cuja função passe longe de ser um coçador de costas oficial. Se tiver alguém que lhe faça esse serviço, sempre deixe passar mais um tempinho depois que a coceira acabar. Só para ficar com aquela sensação de cuidado. De coisa útil, acarinhada. Isso também faz parte do acerto de contas com a felicidade

IV - sorria com mais freqüência. Inclusive para estranhos na rua. E fale com os olhos quando a boca estiver ocupada com os pensamentos. As pessoas entendem mais a linguagem dos gestos. Os sons são um recurso em último caso. Em demasia, só servem para os surdos de sentimentos

V - se tiver amigos, leia poesia para eles em voz alta. E poderá ver o que uma poesia é capaz de fazer

VI - se não tiver amigos, não tem problema. Amigos ainda não são uma espécie em extinção. Sempre tem algum em algum lugar, pronto para ser descoberto

VII - quando sair para a ‘‘balada’’, evite companhia de pessoas que não sabem o que é se divertir sem nenhuma pretensão à vista. Evite os ‘‘caçadores’’ de plantão com seus drinques suados pela metade, vazios de boas intenções

VIII - esqueça a função primordial dos verbos; quando você descobrir o delírio que há escondido em cada ação, entenderá como, quando e por quê o verbo se faz carne sempre que o conjugamos na primeira, na segunda e na próxima pessoa

IX - tome sorvete no calor e mingau de aveia nos dias de chuva. Enxergue o tom da singeleza das cores pardas, mesmo se o céu estiver meio adamascado. Nem todo dia o sol dá o ar das graças no Potengi. Mas você sabe que ele está lá escondido por entre as nuvens

X - não estabeleça comportamentos pré-determinados ao seu coração. É dor de cabeça na certa. Por vezes ele tem vontade própria e segue a trilha das formigas mesmo quando você pensa em ignorá-las ou, o que é pior, pisar nelas. Deixe-o em paz. Quieto, sem bússolas, ele acaba tomando o curso exato, mas sinuoso, do rio dos amores

XI - surpreenda-se. A felicidade é prima-irmã da surpresa. E surpreenda os outros com o mais corriqueiro dos elogios, dos ‘‘bons-dias’’. Se quiser ser repetitivo, ou seja, elogiar, admirar e contar (sempre) até 30 se preciso for, também faz um bem danado

XII - quando se sentir muito só, sem sequer uma lagartixa na parede para dizer ‘‘oi, como tem passado?’’, leia um livro, ouça uma música ou então escreva uma carta para alguém distante. Cartas são sempre bem-vindas, principalmente quando vêm de longe; quando travamos aquele diálogo silencioso com seu interlocutor

XIII- é, se o coração bater mais alto pode ser que seja o amor, que às vezes chega num sobressalto. E subitamente os pés parecem querer flutuar nas nuvens. Mas cuidado, pensamentos podem voar, pés foram feitos para atestar a lei da gravidade. Não ame com os pés

XIV - e por último, desfaça-se das amarras. Ignore as regras de quando em vez. Principalmente as de nº 1 e 2



A quem interessar possa: esse textinho faz parte do meu livro "Entre a Flor e o Espinho", que tá de rosca, mas um dia sai...

Um momento

Abro o livro calmamente. Passeio os olhos pelas linhas como quem descortina antigos sabores, doce de leite, coco queimado, cuscuz escaldado da avó, bolinhos de chuva, sorvete de limão.

Em cada frase, período, página virada, sinto o ar entrando calmo e decidido nos pulmões. Junto, vem o cheiro dele, tão familiar e tão próximo. Percebo, nesses gestos simples, qual a verdadeira função do pertencimento: não ter posse. Só a sensação já é o bastante. O possível.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Das escolhas (para minha amiga Kênia)

Desde o princípio em que nos percebemos fazendo parte de uma engrenagem na qual somos uma peça única, não sabemos ao certo se escolhemos nascer. Ao menos, a grande maioria de nós atribui esse fato a um fato anterior entre duas pessoas que, na melhor das hipóteses, se amavam e queriam a concretude desse amor na formação de um outro ser. Muito embora, já depois descobertos humanos e falhos, a gente perceba quem nem sempre é assim que a coisa funciona.

De lá para cá, somos responsáveis por nossas escolhas. Até mesmo aquelas que chegam como um vento forte, nos tomando o corpo por completo, nos forçando a fechar os olhos, estender os braços para a frente e sair tentando tocar o ar e se agarrar ao próximo segundo que trará a calmaria de volta. Escolher é principalmente viver. E viver é inevitavelmente saber que nem sempre conseguimos fazer as escolhas certas. Viver não é certo. Viver é preciso.

Difícil não é escolher. Difícil é estar pronto para encarar os dois movimentos que emolduram a decisão. Antes da escolha, a angústia da dúvida, a busca por respostas, as conjecturas, os sonhos decifráveis, o cartomante que atropela o destino, o destino que não se assusta com sua pressa, e segue seu caminho, incólume. Assim que tomada a decisão, o alívio, o prazer, o deleite de ser senhor dos seus domínios. Nem que seja por alguns instantes, dias. Tão prazeroso quanto a longa espera de três segundos antes de duas bocas se encontrarem para uma primeira apresentação. Como é doce viver.

Mas aí, o trem sai dos trilhos. O que antes era rocha se esvai em pó, o vento leva pra longe as certezas. E você de novo se angustia se tomou o rumo certo. E torna a esperar o resultado. Como é preciso esperar para deixar a vida se instalar. A questão é que ela está em constante manutenção. Deveríamos ter uma placa pendurada no pescoço: "Vida aberta para reformas", "Disponível para reparos".

Somos fadados a viver desafiando as dúvidas, buscando as respostas, encarando os erros, seguindo com a esperança, acreditando nas palavras dadas, lamentando as palavras desditas, sussurrando desculpas a si mesmo, gritando perdões ao mundo, abrindo buracos fundos na compreensão e rasos na mágoa. O contrário também é possível.

Ser gente é doer no espelho e arder no silêncio. Ser gente é abrir pontes com o sorriso e alargar as margens para deixar que a embarcação dos outros ancorem. Ou passem.


Também vou colocar esse texto lá no meu quadrado imperfeito do Diário de Natal/O Poti, no próximo domingo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Meu mundo cabe naquele sorriso


Uma mulher está sentada na cadeira com uma criança no colo. Talvez uma cena corriqueira. Eu, com minha roupa e minha bolsa invisíveis, com meu rosto de manhã e meus cabelos da madrugada, caminho pelo corredor à procura de equilíbrio.

Fico de pé, ao lado da mulher sentada na cadeira com uma criança no colo. Talvez em busca de equilíbrio para enfrentar o peso das horas. Ainda é cedo. Sei que no meio daquele dia vou encarar um rosário de burocracias na Caixa. Cena ordinária.

O olhar dela chama o meu. Olho. Ela segura. Fico desajeitada. A bolsa pêncil. Os ombros cheios de nós. O ônibus com tantos ninguéns. O olhar não desiste.

Tiro o foco. Mas a conexão já está feita. O balé de cílios e íris rodopiam na mesma direção. É um encontro, enfim. Dessa vez, ela sedutora, sorri. Eu não disfarço. Não há mais constrangimentos entre nós. Dá para ver nossos dentes. Os meus um tanto amarelados. Os dela florescendo.

Você fez uma amiga Vitória. A mãe sussurra e ela quase parece dar uma piscadela. Vitória de vestidinho laranja e sapatinhos rosa, colorindo o caminho. Cabelinhos anelados. Chupeta desprezada na altura do peito. Eram nítidos alguns sinais. A cabecinha se punha firme, resoluta. Só os pés e mãos bailavam sem orientação. Como se a vida tivesse ficado sem ar por alguns instantes. E a existência de Vitória passou a pertencer, de algum modo, a duas dimensões: o vácuo e o ventre. Se eu fosse enfermeira, diria que ela não precisa de injeção. Talvez algumas vacinas. Talvez fisioterapia, fono, deslimites.

Amor ela já tem. Dá pra ver no rostinho miúdo e nas unhas bem cortadas. Dá para ver na cara da mãe. Na minha.

Continuo de pé ao lado da minha nova amiga. De repente não sou mais invisível. Nem me lembro da mochila, nem das pessoas, nem do peso das horas. Vitória sabe que eu sei. E faz cara de tudo bem. Há muito mais guardados por trás do meu olhar, menina. Ela me chama de menina. E eu a chamo de anjo.

Vitória é especial porque, tão pequenininha e silenciosa, no colo da mãe, de cabelinho anelado e vestido laranja, ela sabe que num sorriso dá para sentir e guardar quase tudo. Até mesmo o mundo de outra pessoa.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Naquela Casa

Tem uma roseira de sorriso discreto
Uma lagartixa que faz companhia às vidraças
Um sol por detrás das cortinas
E labirintos de portas fechadas


Naquela casa tem


Um homem vestido de versos e de cores
E tempo
De sorriso discreto
Que me enche de sol

Por detrás da roseira
E descobre os meus labirintos

Como se fosse o vento
Que sopra na minha janela

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Alguém à espera de carinho



ele é fofo. cheio de personalidade. meigo. doce. come pouco. lambe a ponta dos nossos dedos. dificilmente reclama dos muitos cheiros e abraços (até parece gostar). já destruiu o estofado de um sofá. agora está tentando se controlar e só tem arranhado (muito) os tapetes. nada do que estou dizendo é propaganda enganosa. nem ele não está à venda ou para adoção. mas, no meu trabalho, tem uma gatinha, tipo vaquinha malhada de branco e preto, com cerca de três meses, que estamos chamando de gilda, e que precisa muito de carinho e um destino decente. ela é meiga. já está só comendo ração e já tomou dois banhos debaixo da torneira. acho que tem um problema nas cordas vocais e é rouca. portanto, senhoras e senhores, o miado é quase imperceptível. se alguém gostar de um(a) amiginho(a) que é cheio de personalidade, sem ser dependente emocionalmente de ninguém, por favor, entre em contato comigo!

PS.: vou ver se providencio uma foto dela.

sábado, 13 de setembro de 2008

Variações sobre o mesmo crime

Um homem atira numa mulher dentro do ônibus, durante um assalto. Depois, diz que "foi sem querer". Já outros, vários, dizem muitas coisas. Ela estava dormindo, com a cabeça inclinada na janela. Sonhando com a hora do jantar, quando vai se reencontrar com o marido e os três filhos e, quem sabe, até pedir uma pizza na padaria da esquina. Acorda sobressaltada, grita sem saber direito a gravidade com que sua voz escapa da garganta e o homem, aponta a arma e atira em sua cabeça. Em outra versão, ela após entregar o dinheiro da bolsa, que é a justa medida para ir e voltar do trabalho e, na volta, comprar algumas cocadas, reivindicação do filho mais novo que nunca mais teve a mãe por perto, ela se desespera e protesta. O homem, numa ira que desnorteia, aponta a arma e atira em sua cabeça.

Um homem que não estava lá, tem uma não versão da história: "As pessoas precisam contar histórias para uma coisa dessas. Ninguém aguenta saber que uma pessoa atirou friamente noutra". Ficamos todos parados diante daquela declaração. Pensando sobre o que podemos ou não ouvir, ver e até mesmo sentir. Ele tem dessas coisas. Sempre sabe dizer coisas certas. Até mesmo em horas impróprias. Várias vezes já se feriu por conta disso. Atirando contra si mesmo. Só que isso ele não conta pra ninguém.

Sempre me lembro daquela canção eternizada pela voz da Nancy Sinatra, que eu só conheci no filme Kill Bill 1 "Bang, Bang (My baby shot me down)".

O que me leva a crer que homens sabem mesmo atirar. Uns, só de raspão. Outros, deixam marcas para sempre.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Bens

Eu tenho um isqueiro que só funciona quando quer. Fósforos que não funcionam ao vento. Unhas quebradiças (acho que já falei sobre isso) e que pioram na primavera. Um gato que abre a boca, mas ainda não fala. Uma mãe que ainda pensa que eu sou criança. Um celular que não toca. Dois CD's d'Os Poetas Elétricos. Alguns poemas guardados no Balaio. Meia dúzia de pensamentos inacabados sobre a civilização. Cheiro de cigarro nos dedos. Nunca tive uma bússola. Tenho uma vontade danada de não ser. Tenho saudades também. Mas no fundo, no fundo, acho que o problema é meu.

Terapia

Hoje eu comprei sementes de gerânio, rosa e jasmim.

Um punhado duas vezes ao dia é o recomendado.

Resolvi duplicar as doses.

Semana que vem, será a vez dos girassóis.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dieta obrigatória de palavras


A fome me abraça quase terna
Ignora o divórcio de minhas mãos em sua cintura
Eu, discreta, porém, resoluta
Oculto me mim mesma o barulho que irrompe
Da boca do estômago
Às vezes,

Abro a janela sem pressa
E sinto o gosto das teclas

Ao som dos meus dedos
Falta pouco, falta bem pouco
Para que minha língua toque o doce do teu silêncio


domingo, 31 de agosto de 2008

O peso do fio

Uma hora o peso da bolsa pendurada no ombro distribui seus tentáculos para outras partes do corpo. Um salto para chegar até a alma. É incrível como uma bolsa pesada pode refletir tantas outras coisas na vida de uma mulher. Ao menos em algum momento de sua vida, aquilo que aparentemente é útil e necessário – carregado para todos os cantos - passa a se tornar um fardo. Apenas um acumulado de coisas, escapando pelas fendas do cansaço. Transformando-se em pontos que interrogam se valem ou não à pena serem carregados. Uma bolsa não é só uma bolsa quando nela ficam entulhados excessos de silêncio, desatenção e fios de cabelos perdidos no pente. Afinal, qual a valia de um fio de cabelo solto dentro de uma bolsa? Qual a valia de uma palavra presa por entre os dentes? E que adiantam braços frouxos? Se o peso já chegou às pernas e tem escorregado pelas horas como um ponteiro quebrado que parte para lugar algum? Desculpem-me senhores e senhoras, não dêem tanto peso às perguntas, tampouco se preocupem com as respostas. O remédio eu já sei. É desapegar dos cabelos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Era para ser um poema...

Tive dor de barriga esses dias. Braba mesmo. Cinco idas ao banheiro durante a noite e um saldo de cansaço e olheiras profundas despontando antes da chegada do sol. Dor de barriga – e suas implicações - é uma coisa estranha porque provoca um esvaziamento involuntário. Você ali querendo entender o porquê de tanto esforço do corpo de querer expelir tudo, até quase as vísceras. Minha alma fica cansada de tanto querer entender. E fico sonhando com o bem-estar da normalidade, em sua grandeza de detalhes tão pouco percebida no dia-a-dia.

Quando fico doente, fico nostálgica também. Lembro de coisas antigas e dispersas que eu já nem sabia que existiam dentro de mim. Das vezes em que brinquei no quintal com a bicicleta de pneus furados e que mesmo assim quase me levava aos céus. O calor se materializando em gotas pelo rosto, afogueado muito mais pela emoção da corrida do que pelo castigo do sol. “Vem pra dentro, menina. Você vai ficar gripada com essa brincadeira sem fim”, dizia minha mãe, quase que entoando um mantra, por horas seguidas.

Às vezes, sua razão fazia pacto com o acaso. E eu adoecia.

Umas semanas atrás eu tive um outro piriri. Ela advertiu. “Você tem de ir ao médico. É verme”, pré-diagnosticou. Dei de ombros. Fiz exames recentes. "Tudo OK”. Deixa pra lá. É estresse, pós-diagnostiquei.

Ao saber que o piriri tinha voltado e dessa vez com a intensidade da tsunami do mar asiático, a razão vencedora deu lugar à solidariedade. Ela não só catou o remédio no armário que promete repor a flora intestinal, como veio me recepcionar com um copo de água na mão. Aquilo me consternou. Razão de mãe não é razão revanchista que tripudia ou se envaidece. Razão de mãe é uma coisa assim que cuida, e que nem queria, na verdade, ter razão.


PS.: Eu estava pensando em fazer um poema e que não tinha nada a ver com esse texto que acabou saindo... Coisas de quem sofre as seqüelas do segundo piriri em duas semanas...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Bicho acuado

- Ei, moça, desculpe incomodar, mas você comprou essa bolsa aonde?

A interpelação brusca me tirou do silêncio e da solidão urbana, debaixo do sol escaldante e de uma parada de ônibus que só é parada de ônibus porque as pessoas ficam lá esperando dezenas de minutos um ônibus que uma hora vai passar. Nem tenho muito tempo para responder porque ela desata a falar.

- Ela é grande. Preciso de uma bolsa assim, grande. Onde caiba tudo. Se meu filho me visse assim – mostra um saco plástico com coisas dentro – ficaria uma fera. Eu tenho um filho sabia? Quero muito bem a ele. É casado. Funcionário da Petrobras. Ganha um dinheirão.

Meneio a cabeça. Bicho preso na coleira. Nenhuma chance de sair correndo daquela senhora macilenta de bigodes. Nenhuma chance de dizer, minha senhora, eu já lhe dei a informação da bolsa. Agora, por favor, deixe viver minha vidinha caduca e simples de espera de ônibus. Não percebe que tenho muitas coisas para pensar? Mas só meneio a cabeça. Amordaço o tédio do monólogo. Estarreço-me com a solidão alheia. Aceito suas garras cravadas no meu tempo.

- Eu moro ali – continuou, e mostra o enorme condomínio popular de cinco mil famílias em apartamentos de dois quartos, dois filhos, diarista e carro 1.0 na garagem.

- Desde que eu me separei do meu marido, que bebia muito, ele me jogou nesse apartamento. Quer dizer, me jogou assim, né? Porque ele é bom pra mim. Paga o condomínio. Mas, se casou, tem um filho, meu netinho de sete meses. E foi morar na casa dele. Hoje é dia de pagar o condomínio. Você acha que eu deveria ligar pra ele para lembrar que hoje é dia de pagar o condomínio? A mulher dele é negra. Bonita. Mas negra. Eu não tenho preconceito. Cada um sabe o que está fazendo né? O meu netinho é lindo.

Tira uma foto do netinho de dentro do saco plástico. No andar da carroça, já sei que ela está indo à Igreja Universal do Reino de Deus para o culto dominical. Leva fotografia dos filhos. Da nora negra e do neto mulatinho para o pastor abençoar. Beija as fotografias, acaricia o rosto da filha, que mora longe.

- Minha filha é sargento da Aeronáutica. Vive há uns 11 anos no Rio de Janeiro. Se casou agora, no São João. Eu não pude ir. Mas ela mandou o convite, ó como é bonito.

Uma fotografia de um casal (a moça é realmente muito bonita) numa foto posada, envolta numa guirlanda desenhada de passarinhos e flores e corações. De um brega gritante. Gosto duvidosíssimo. Tenho vontade de sair correndo. Não quero ler a caligrafia em tinta dourada com os dizeres de convite para as bodas. Socorro! O bicho morde a corrente. Tem fome. Tem sede de sangue. Quer estraçalhar carne humana.

O telefone não toca. O ônibus não vem. Não começa a chover. Nenhuma nuvem faz sombra na areia quente. Chance alguma de um conhecido passar e me dar uma carona. Sinto não ser tão afeita à estranha mania dos outros agora de andar com fones de ouvido plugados a MP3 ou até telefones celulares.

- Eu faço crochê. Sou boa nisso. Eu mesma poderia fazer uma bolsa de crochê para carregar meu artesanato, né? Você não me respondeu se eu deveria ligar para ele para falar do condomínio. Eu falo demais né? Você mora sozinha?

- Sim. Minto para me livrar de explicações. Às vezes é preciso mentir.

- E não quer se casar não? Minha filha passou três anos noiva. Hoje em dia, certos casamentos, é melhor ficar sozinha mesmo né?


Dou com a mão para a van que surge, como se ela fosse o 13º mandamento enviado pelos Céus, para uma pagã com sede da Palavra gasta. Finalmente uma jaula me livraria do risco de ganhar forças e partir para o ataque. Subo rapidamente sem sequer dar tempo de alguma despedida. Ouço a sua voz:

- Essa besta passa na Igreja? O cobrador-ávido-por-passagem-inteira diz que passa perto. Ela dá de costas, desdenhando a falsa promessa, sabendo que será obrigada a atravessar a passarela e andar muitos metros antes do templo divino. O condutor dá a partida, ela grita, já completamente com idéia renovada. Sobe esbaforida. Com as duas bolsas, o álbum de fotografias ainda na mão, me busca com o olhar. Senta do meu lado.

- Melhor pegar esse mesmo. Nunca se sabe quando o ônibus vai passar né? Já estou atrasada. Mas é melhor chegar atrasada, do que não ir né? E ainda posso ir conversando com você...


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

do amor e outras quimeras

Os poetas que eu amei me deixaram gosto de palavra na boca e um coração em formato de baú, onde eu guardo principalmente lembranças de versos inacabados.

Os poetas que eu amei me deixaram sandálias de pedra e rastros de outras Marias, Joanas e fulanas que eu nunca poderia ter sido.

Os poetas que eu amei deixaram frases tempestuosas, que causaram enxurradas, relâmpagos e trovões no meu céu de agosto, que tem gosto de sálvia e alecrim.

Os poetas que eu amei quando descobriram meus olhos tristes e minhas mãos mancas, deram risada do meu jardim pisoteado pelos meus gatos e pelas joaninhas que se escondem por entre as folhas.

Os poetas que eu amei deixaram gosto de relva nos meus cabelos e meia dúzia de canções na vitrola (que eu não ouço mais).

Os poetas que eu amei nunca se deixaram fotografar à luz do dia. Mas se entregaram às metáforas das minhas pontes e às linhas dos meus desejos, (sempre no cenário da lua).

Os poetas que eu amei me deixaram gestos lascivos como, passar os dedos por entre os cabelos; caminhar sentindo a areia tocando os pés; ouvir som de flauta e atravessar sorrisos com gargalhadas.

Os poetas que eu amei me deixaram, no mínimo, três imperfeições. Com as quais invento sonhos, desenho caminhos e ergo muros.

sábado, 16 de agosto de 2008

Eu estava lá

Mada – segunda noite


Enquanto o cenário indie dava seu recado nas bandas centradas nos dois palcos do Mada para um público ora atento, ora crítico e até meio disperso, em alguns momentos do início da noite, na Tenda Tim, rolava um som eletrônico que atraía os adeptos de música eletrônica e suas inúmeras variações. E, ao mesmo tempo, artistas performáticos do grupo Disfructorium roubavam a cena musical e interagiam com o público, dentro da enorme tenda onde se fixou esse ano a Feira Mix. “Eu gosto do Mada por isso. Porque é o único Festival de Música de Natal que reúne tanta coisa ao mesmo tempo e consegue atrair nossos olhos e ouvidos”, assim resumia em poucas palavras o espírito do Mada, a estudante Renata Nascimento, natural de Recife (PE) e que há um ano mora em Natal e já participou três vezes do Mada. “Mesmo antes de morar aqui, eu vinha para o evento”.

A segunda noite do maior festival de música independente do Nordeste começou com ares de aquecimento para as duas bandas principais da vez: Pato Fu e Lobão que fecharam a noite da sexta e continuaram embalando a madrugada do sábado. Um atraso de quase uma hora para a entrada da última atração, o cantor Lobão, que subiu ao palco por volta das 2h30 não pareceu desanimar ou desapontar os espectadores do Mada. Pelo contrário, quando ele entrou uma nuvem de pessoas, tanto mais maduras quanto na mais tenra idade, aguardava ansiosa pela sua chegada, que foi marcada pela singela canção da história da Chapeuzinho Vermelho. Muito conhecida dos que já passaram dos 30 e se lembram da fase do Lobão dos anos 1980 e seguiram curtindo a carreira de um dos artistas mais insurretos do mercado fonográfico, que construiu uma história tanto pelas suas posições contrárias aos “jabás” das grandes gravadoras, quanto à sua volta ao mercado pelos caminhos que antes ele desdenhava, e que ele afirma, aconteceu “pela qualidade de sua música”. Que o diga o professor de Língua Portuguesa, Alberto Saturnino, 24, um dos primeiros a chegar ao Mada, e assistir às primeiras bandas que se apresentaram com The Volta e Lunares, embora tenha feito questão de frisar que estava ali, principalmente para ver o Lobão: “Eu ia sempre procurar sua revista (Outracoisa) nas bancas e acho que ele tanto é um cara de atitude, quanto um cara que se mantém pela boa música que produz. Dizem que ele se vendeu agora. E daí? Ele quer mesmo é fazer música e cantar, e isso é o que importa”, defendeu o fã.


Bahia roqueira
Saturnino também aprovou o show da terceira banda a se apresentar no Mada na sexta-feira passada: a baiana Subaquático, que teve no Festival a primeira aparição fora do seu estado de origem. Segundo o vocalista e guitarrista da, Junix, a participação no Mada é bastante significativa para eles até porque o cenário do rock e independente em Salvador encontra dificuldades para apoio e até mesmo espaço para tocar. “Lá a gente é meio órfão de tocar em bons espaços como esse. As pessoas não conseguem se articular muito para fazer shows de rock. Até que tem público, mas falta apoio”, disse ele, afirmando em seguida que a proposta da Subaquático é tocar um som independente dos grilhões do mercado fonográfico. “A gente faz o que gosta e não quer pegar carona no sucesso de ninguém não. Queremos fazer um som com liberdade”, defendeu o roqueiro que chamou a atenção no palco do Mada.

Alegria eletrônica
A décima edição do Mada trouxe também alguns estreantes como a DJ Madame Mim, principal atração da Tenda Eletrônica, e que também é apresentadora da MTV. Argentina radicada no Brasil desde criança, Madame Mim disse que seu eletro é muito mais conhecido fora do Brasil que internamente. O que não impediu uma boa interação com o público potiguar e nordestino, com direito até a algumas surpresas. “Eu já me apresentei em países como Berlim e Barcelona, e o público europeu curte muito música eletrônica. Mas eles ficam quietos, são mais frios. Aqui não, a galera aqui no Brasil não se contém e vem pegando, passando a mão, fica empolgado”, brincou ela, fazendo questão de elogiar o Mada e lembrar de que é o único Festival que ela conhece que acontece à beira-mar. “O mais importante que quero passar do meu trabalho é alegria. E acho que isso rolou muito bem aqui”.

Espaço democrático
O coordenador da Feira Mix e também um dos articuladores da Tenda Eletrônica, Nestor Mádenes, já participa do Mada desde 2000 e também vê uma certa evolução na receptividade do som dos DJ’S assim como a consolidação irrestrita do evento: “O Mada cresceu muito nesses anos todos e acho que já criou um conceito de festival. Está cada vez mais ampliado, já tem uma identidade própria” opinou.

Tanto ele, Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, a penúltima banda a se apresentar no Mada, acreditam que a reunião de bandas independentes, junto a bandas nacionalmente conhecidas é um exercício bastante democrático de mostrar o cenário musical e bandas que poderão fazer grande sucesso. “Quando a gente começou (anos 1990) não tinha tanta estrutura de festival como existe hoje em dia. Lá em Belo Horizonte, existia o Rock Brasil e a gente chegou a abrir noites para bandas como Barão Vermelho, Titãs e Paralamas, e você se coloca ali, no mesmo palco, dá entrevista porque a imprensa toda está presente. Assim como acontece também aqui no Mada, para bandas não tão conhecidas, então eu acho que o espaço que o Mada proporciona é muito bom para quem está começando”. Takai também falou da consciência da banda sobre o carinho do público natalense. “A gente recebe e-mails das pessoas reclamando que a gente vem pouco à Natal (essa foi a terceira vez apenas e primeira no Mada). E nós tínhamos uma vontade antiga de nos apresentarmos no Mada, e que bom que agora tivemos o convite”. O show do Pato Fu, sem dúvida, foi o mais esperado e celebrado pelo público. E eles não deixaram por menos, mataram a saudade com mais de uma hora de show.

Destaque local
Depois de Florbela Espanca nos anos 1980 e do Sangue Blues que acabou em 2006, o vocalista Isaque Ribeiro sentiu de novo o gostinho de levar ao público - bastante satisfeito - um trabalho autoral com sua nova banda, a Síntese Modular. “Desde que acabou o Sangue Blues, que era uma banda mais cover, criou-se esse hiato que agora foi preenchido com a proposta dessa banda. Eu sempre senti a necessidade de mostrar composições minhas, e passei esses dois anos me concentrando nisso”, explica o vocalista. A Síntese Modular mostrou um rock maduro, mas sem perder o frescor de brincar com novos elementos como é o caso do eletrônico. “O legal é que a parte orgânica da banda (guitarra, baixo e bateria) não está, necessariamente, atrelada à mesa (dos arranjos eletrônicos). Esse novo elemento entra como um algo a mais, dá uma cor no nosso som”, resumiu ele. E, a contar pelo público atento, em breve quando o primeiro CD for lançado – com previsão para setembro próximo, a Síntese Modular já terá muitos interessados em querer levá-la para casa.


Psiu: Essa matéria pertence ao Diário de Natal / O Poti

sábado, 9 de agosto de 2008

Irresistível

Love Is A Losing Game
Composição e vocal: Amy Winehouse

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game


Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed... profound
Till the chips were down
...know youÂ’re a gambling man
Love is a losing hand

Though IÂ’m rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game



Não tenho muito o costume de colocar músicas ou poemas alheios nesse espaço. Só quando é impossível ignorar. Essa moça é absolutamente irresistível. E a melodia então, só mesmo ouvindo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Torre de Piche

Meu gato passa horas sentado em algum lugar ermo, numa escolha criteriosa de silêncio e solidão.

O tempo todo, a todo tempo, pessoas também fazem isso. Só não sei se com a mesma determinação dos gatos.

No trabalho. Na rua. No trânsito. No supermercado. No ônibus. Somos uma multidão de irmãos órfãos.

Tenho cá minhas dúvidas sobre se a solidão é uma escolha ou uma condição. Mas nunca gostei de resolver equações. Portanto, abstenho-me.

No máximo me permito, vezencuando, perguntar se há alguém do outro lado que possa dividir sua solidão com a minha.

Mas, geralmente, minha língua em repouso balbucia um dialeto incompreensível para quem prefere as janelas abertas e as cortinas balançando ao vento.

Sempre tive mais fascínio pelas sombras, que medo da descoberta de que o medo é só algo que já está dentro e que não sabemos lidar muito bem.

Hoje, um estilete cego desfia as folhas do caderno onde guardo as lembranças do meu dia. Por isso assim, me fragmento.

Sou peixe no aquário. Presa na torre de piche.

Bom para os gatos.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Carta a Orfeu


meu querido Orfeu, eu sei, eu sei que eu deveria estar te esperando até hoje. e ansiando para ouvir de novo tua música e sentir a ondulação do meu corpo com o toque da tua flauta. mas agora, depois de tanto tempo, acabei me acostumando com toda essa escuridão de notícias e me libertei das adivinhações que não me foram contadas por uma cigana hindu. porém, meu eterno querido, só me restou uma pergunta, embora saiba que você volta com a bagagem cheia de tantas recordações, e postais, e partituras, e CDs da Nina Simone e Bossa Nova em geral: será que quando a gente se esquece de limpar a poeira das frestas, a sombra se torna maior que a luz? será que quando a gente tem tanta pressa, se esquece que os passos devem vir antes da caminhada? a verdade, é que enquanto você esteve fora pude realmente entender a organização do lar de Hades e Perséfone. e não os tiro a razão. Cérbero vive lá em casa agora. aprendeu a controlar seus impulsos e descobriu a verdadeira função de um guardião: respeitar a liberdade dos outros. sendo mais simples, ele entendeu o direito de ir e vir das pessoas. inclusive o dele próprio e, de vez em quando, sai para passear com Pégasus. Caronte também andou revendo seus conceitos e anda menos estressado com o silêncio da inevitável despedida. começou a pintar quadros de paisagem pra relaxar. você acha tudo isso muito estranho? ficou desapontado? fique não. o melhor remédio para uma decepção é o tempo. assim como para outras coisas também, meu querido. além de perdoar, o tempo também é capaz de esquecer. de apagar. até mesmo de transformar o mais belo som, numa simples e fugaz lembrança.

Eurídice

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Na cozinha

Dois pratos. Dois copos. Quatro talheres. Uma bandeja. Mais um prato que surge por entre os corredores estreitos da mesa e o fogão. Aqueles objetos compondo o terreno da pia. A água da torneira escorrendo num filete. Ela coloca uma porção generosa de sabão neutro na bucha. As mãos pequenas e um tanto ásperas se entregam ao serviço prosaico de esfregar, deslizar, enxaguar, esfregar, deslizar, enxaguar. Absorta, não se sabe se na própria tarefa ou em outros pensamentos silenciosos, cumpre o ritual como se fosse sagrado.

É despertada por uma voz grave e quente, que cantarola algo incompreensível, bem rente ao ouvido. Duas mãos largas, com veias pulsando, a envolvem no vão entre a cintura e o quadril e recebe de presente, na parte mais carnosa do corpo, o volume petulante, que parece pronto para atravessar montanhas, se espalhar em rios. Não é perigo, não é morte, mas ela sente que alguma fera ronda sua tranqüilidade doméstica.

O que fazer? Fingir-se de morta? Contra-atacar? Qual revide mais adequado? Ignorar ou virar-se repentinamente e entregar a boca àquela língua que passeia pelo pescoço e deságua no ombro? Não há muito tempo pra pensar. Nada de quebrar copos ou espalhar guardanapos pelo chão. A dança é selvagem, mas os movimentos são quase ensaiados. Há um encaixe perfeito de pernas e as mãos passeiam entre pescoço e dorso e nádegas. A mesa poderia ser adequada, mas a cadeira está mais próxima.

Ele senta primeiro. Ela, como se estivesse prestes a tomar uma cerveja num boteco senta-se no sentido inverso do dele. No movimento, é atravessada pelo desejo físico e molhado de ser mulher e ter uma cartola mágica engolidora de fogo. Primeiro, sente o calor do encaixe sem nenhum movimento brusco. Como se espreitasse a fera antes de partir para o embate. Depois, já dominada, sucumbe e surpreende. Revira-se, estremece, morde, busca, prende, tira, sai, quer mais, quer mais. Matando outra fome.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ante-sala

Todos os dias venho aqui e me visito.
É como se tivesse um encontro marcado e, estivesse incomensuravelmente atrasada. E mesmo assim, ainda houvesse a esperança de ele estar lá. Sentado, lendo um livro quem sabe, absorto na leitura, relaxado a tal ponto que nem vira o tempo passar, nem estava à espera de fato e sim na esperança de não estar mais sozinho. E aí eu chego.

É por isso que todos os dias venho aqui. Dar de cara com a minha esquisitice. Com a cara (des)lavada de sempre. Porque sei que não é a explicação o mais importante. O que me importa é a essência.

Sinto falta de mim nos últimos dias.
Sinto falta das palavras que me escapam pelas brechas do pensamento sempre ocupado. Não estou reclamando. Mas seria leviano negar a mim mesma que lamento.

O tempo tem se pintado em preto e branco. As cores chegam apagadas e sem vida no fim dos ponteiros. O sono e a lucidez têm tomado o espaço do sonho e da fantasia. Tenho guardado a poesia em cartas que jamais serão escritas, quiçá enviadas.

Alimento-me do verbo dos outros. Escrevo nos poemas abertos do Moacy; na loucura quase invisível, pela razão, do José; na poesia encantada do olhar do Carito; no mundo virado ao avesso do Crico; nas confissões noturnas do Mário Ivo e nas fábulas urbanas do François. Só para citar alguns. Só para falar de flores, suor, gozo e espinho.

Todos os dias venho aqui e os visito.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Identificação


O som polifônico desperta-me da penosa concentração conquistada há poucos minutos. Olho o visor do celular e vejo um "Número Confidencial". Coisa rara hoje em dia. Mas não menos irritante. O identificador de chamadas de um celular indica também quem é bem vindo em sua agenda. Quem é necessário. Urgente. Útil. Íntimo. E quem você não quer atender. Ninguém jamais, em tempo algum, deveria burlar a lei do direito à classificação do celular.

Mesmo contrariada atendo à chamada:

- Mãe, sou eu! A voz do outro lado era um misto de aflição e carência.
- Hã? Balbucio incrédula.
- Mãe, sou eu. Diz apressado.
- Você ligou errado, viu. E desliguei impaciente.

Não dá nem cinco segundos, o mesmo toque inconveniente e a mesma chamada clandestina:

- Mãe, sou eu mãe! Fala como se agora sim, estivesse certíssimo do que faz.
- Eu não sou a sua mãe! Respondo, irritada e continuo: - Como é que você não sabe decorado nem o telefone da sua mãe. Você não tem vergonha disso não? Menino!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Pelos Dias

Será a vida ora um recolher de momentos alegres, suaves, doces, ora um amontoado de dúvidas, conflitos, angústia? Talvez. Muito mais ou um pouco menos, quem sabe. Tenho tido dias atribulados. Elaborando frases curtas, certeiras para ganhar tempo. E deixando uma série de palavras pontiagudas, alojadas nas paredes do estômago. Porque simplesmente não sei como tirá-las de dentro.

É certo que é na multidão onde nos sentimos mais sozinhos. É certo também que, muitas vezes, somos ilhas isoladas tentando entoar alguma música que faça sentido, no meio do ruído louco das máquinas e dos homens.

Mesmo assim, gosto de andar no meio da rua, ouvindo meus pensamentos e ao mesmo tempo observando os passos alheios, espreitando os bueiros, driblando os carros, disputando tempo e espaço com os semáforos, contando passos, distraindo sonhos, roubando segundos antes da próxima tarefa.

E é nesse exercício que me encontro com a euforia e a tristeza dos outros. E me vejo diante do espelho. Mesmo que às avessas. Na mulher sentada na esquina da Rio Branco com a Ulisses Caldas, sempre com o braço estendido para cima, em busca de algo, balbuciando alguma oração aos que passam rápido e negando sua existência, dou de cara com a indiferença. Ou talvez com a vergonha de nos sentirmos impotentes diante da miséria alheia.

Embora com disfarçado desinteresse sempre dou uma olhadela no bebum do camelódromo, à procura do seu galanteio. Está sempre sorrindo para quem passa, como se a embriagues pudesse suavizar também a ansiedade de ser compreendido. É como se algum olhar que se encontra com o seu, pudesse lhe devolver a cumplicidade que perdeu da mulher e dos dois filhos que não vê desde que se mudou para a rua. Construo essa imagem da vida daquele homem por absoluta necessidade de dar nome e sentido ao desconhecido. Uma característica – ou falha – humana que me é inerente.

Meus Deus! Não posso me esquecer de falar da perda da inocência e da ternura da infância que tem chegado cada vez mais cedo nas esquinas por onde passo. Quantas e quantas vezes, desde que fui tomada de assalto e vi meu coração vazado pendurado no pescoço sendo arrancado por dois meninos ainda imberbes, não me deparo com o medo paralisado de reviver aquele triste ato. E não importa se surgem diante de mim outros dois meninos. Ou se é um rapazola ou um bando deles. O teatro dos horrores volta à minha mente, rouba a cena, atordoa meus passos, entrecorta o ar cheio de buzinas que entra nos pulmões. Tenho ímpetos de correr e de pedir perdão por eles, já vendo a iminência de um novo assalto. Sinto vergonha e raiva dessa neurose urbana.


Em dias de chuva sinto saudades do mar. Tão perto e tão longe. Sinto vontade de temperar o corpo com o sal e segurar o sol com os braços do vento. Será a vida ora um recolher de momentos alegres, suaves, doces; ora um amontoado de dúvidas, conflito, angústia? É bem possível que sim. Basta estar atento.

Bom, saí do jejum. Sinto-me estranha mesmo. Essa crônica será publicada no próximo domingo em O POTI.