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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

"Uma roda de jamanta na banguela" - (Uma crônica para o Crico)


Eu adoro quando ele me procura. E a qualquer hora do dia isso pode acontecer. E quando nos encontramos é como se, de alguma maneira, os questionamentos do dia, do ano, do próximo segundo, do próximo amor ou do indesejado desamor pudessem se descortinar em respostas. Mesmo que silenciosas e invisíveis. Mesmo que impossíveis de, de fato, haver alguma resposta para as perguntas do dia, do ano, do próximo segundo. Nos últimos tempos, temos nos encontrado na hora do almoço – que é o horário que dá. E, não sei porquê exatamente sempre se faz uma festa dentro de mim. Talvez porque dos seus olhos saiam um brilho intenso e cheio de vida, capazes de contagiar até o Frankstein de Mary Shelley. Talvez porque eu gosto de rir com suas palhaçadas, gosto de ouvir suas histórias do dia, da noite, da semana passada, do mês que vem. E porque sei que ele faz o mesmo comigo. Seja porque sinto que, em meio ao turbilhão de informações e novidades, e de falarmos ao mesmo tempo, alto e em som audível até para os cachorros da rua, nós conseguimos nos entender, nós conseguimos nos ouvir mesmo assim.

Eu gosto também quando passamos uns dias distantes. Só para sentir o gostinho de um telefonema inesperado no fim do dia, na hora inesperada do almoço do sábado ou do domingo. Sim, porque, de alguma maneira, ele sempre está disponível. Mesmo que distante, mesmo que ausente. Geralmente, quando ficamos um pouco separados pela rotina do dia-a-dia o telefonema chega com o já esperado “oi frô...”. E mesmo sabendo que essa delicada e letrada alcunha é oferecida a mim – e a todo um estádio inteiro de meninas que fazem parte de sua vida - eu fico toda molinha e me sentindo especial. Ele também tem um jeito todo único de me chamar de “Sheéyla”, que só ele sabe fazer. O que me faz simular uma irritação quando, na verdade, eu acho muito engraçado. E fico tentando repetir a mesma entonação, mas é em vão.

De resto, tenho a impressão de que nada do que vivemos ou falamos ou sentimos um pelo outro é em vão. Mesmo que esse período nosso seja apenas um ruído passageiro dos muitos acordes que a vida ainda tem para nos mostrar. Mesmo que de uma hora para outra, ou no arrastado de anos de convivência, o tempo corroa alguma coisa e quebre a pilastra que sustenta o nosso carinho, a nossa admiração e o respeito que a gente tem construído. Mesmo assim, sei que restarão as ruínas, o pó que seja, dessa bendita coisa chamada amizade.

É certo que ele não é muito afeito a elogios ou arroubos de demonstração de afeto gratuitos. Diria que é um cara contido. Às vezes um velho grisalho de 25 anos. E no próximo minuto, um moleque cheio de gostos e teimosia. Vai devagar quando eu quero correr. E dispara enquanto me arrasto. Não ouve quando eu quero um minuto de sua atenção. É extremamente educado quando digo um palavrão. E, quando quero falar de poesia ele quer entrar no ringue. Mesmo assim nos entendemos. E talvez seja esse o sentido dessa bendita coisa chamada amizade.

E mesmo sabendo que jamais poderíamos namorar ou casar e ter filhos. Ele poderia ser o cara que eu escolheria para amar, ser feliz e ter filhos. Mas isso não faz sentido algum quando se trata dessa bendita coisa chamada amizade. Bom, como eu falava antes, ele não é muito de demonstrações de afeto, ao menos da maneira convencional e clara. E eu, que sou tão despachada e óbvia quando o assunto é amor, me surpreendi quando, ele deixou um recadinho pra mim, reproduzindo um pedacinho de música que a Khrystal gravou (e que eu dei para ele, o único CD que tinha, e ele já decorou todas as músicas só para se mostrar). O recadinho dizia assim: “Uma roda de jamanta na banguela/ é mais ou menos assim / o meu amor por ela”. E é mais ou menos assim também, o meu amor por ele.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Um pequeno milagre

Do lado da escada que dá para a sala da redação, tem um pequeno jardim, com alguns vasos de plantas. Num deles, um enorme e venenoso cróton divide o espaço com uma plantinha rasteira, verdinha e aparentemente frágil. Do lado desse vaso, tem algumas rachaduras no chão de cimento grosseiro. E, do alto, respingam renitentes gotas d’água retiradas do ar, pelo aparelho que condiciona a sala do chefe. Pois num é que aquela plantinha frágil e verde resolveu investir em expansão territorial e alguns pequenos brotos nascem naquele chão inóspito? Bem ali, ao lado do jarro.
Em meio a um dia como esse, nada poderia ser mais reconfortante.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Duas decisões tomadas ontem

Tenho pensado e até tentado escrever alguma coisa por esses dias no blog. Mas não consigo. Ora pela absoluta falta de tempo e de espaço para sentar e pensar em alguma coisa que ao menos ensaie um pouco de poesia em meio à lama do dia-a-dia. Ora porque se me sobra tempo, falta-me objeto, desejo, consumação de qualquer coisa que pareça literário.

Tenho vivido a dor literalmente esses dois últimos dias. Se poeta sente dor, eu sinto dor demais. É isso. E quando a dor é assim palpável e implacável, não sobra mais nada a não ser doer. Alguém mais próximo poderia imaginar que preciso consultar um médico e coisa e tal. E eu não discordaria. Só tenho feito um certo desdém à visita a um especialista porque talvez já saiba o diagnóstico, talvez já saiba quais serão os caminhos e, por isso sei que isso pode ser ainda mais doloroso. (Talvez esteja me polpando).

A dor quase sempre é complacente, serena e insistente. Nós é que não nos entendemos com ela. Pois bem, de uns tempos para cá, resolvi fazer uma trégua e parar de brigar com a dor. Podem me chamar de masoquista; megalomaníaca; escafandrista. Sou simplesmente humana. (Dispenso títulos de nobreza). A princípio eu parecia ser mais forte que ela e até conseguia me distrair entre uma música, o chacoalhar dos ônibus, a ladainha desconexa da vizinha, uma imagem da novela ou, quiça, um poema do Manoel de Barros, tomando um exemplo mais fino. Depois percebi que, se ficasse imóvel, ou ao menos tentasse ficar o mais parada possível, ela também se entregaria ao relaxamento. O problema é que ao passo em que eu – e ela – nos entregávamos ao relaxamento, ela tomou mais espaço pelo corpo. Em 20, 15 minutos, além do ventre, doía a cabeça e, se não estou exagerando, a ponta dos meus cotovelos também começaram a latejar (...!).

Bom, mas embora não tenha vocação para monja tibetana, nem fiquei entoando mantras do tipo “a dor não existe”, “a dor não existe”, apelei para o auspicioso cochilo. E deu certo. Por alguns instantes. Até eu sonhar com uma versão mais que trash dos “Piratas do Caribe” e de me ver amarrada no mastro de um enorme navio, enquanto que uns 15 marujos com cara de zumbi, rodeavam-me e tentavam partir-me ao meio. Acordei viva, mas com a nítida sensação de que a espada havia realmente me atravessado.

Aí eu joguei a toalha. Além de não ser masoquista, também não tenho muita vocação para mártir. E o que é pior, mártir de mim mesma. Seria o cúmulo da pós-modernidade-contemporânea: a pessoa sacrificar-se, única e exclusivamente por si mesma. Tomei um Buscopan Plus, que não contem dipirona (que eu sou alérgica até a alma) e ainda é um pouco relaxante muscular. Dormi feito uma pedra. Acordei meio mareada, um pouco dolorida, mas pronta para encarar outros tipos de dores, e as outras vidas que, por ventura, ainda me restem.

Exercícios de Solidão

Não consigo me lembrar do rosto dele. O contorno da face, a textura da pele, o olho, o nariz. Tudo está ficando meio turvo. A voz ainda me é muito familiar. Assim como também o sorriso vezencuando se descortina nas curvas do meu esquecimento. O sorriso dele é daqueles que começa por entre os dentes e se alastra nas curvas dos olhos. Sem sobressaltos ou ímpetos de explodir numa alegria inconstante. Ele sorri como todo homem sorri. Meio contido, meio distante da coisa que nasce, cresce e desaparece em pequenos instantes.

Ainda me lembro da primeira vez que nos vimos. Fazia muito sol naquele dia. Seu olhar estava um castanho quase barro. O meu quase verde. (Dava para plantar uma rosa ali dentro). Sorríamos, inebriados por um cheiro que vinha da terra. Acho que era prenúncio de chuva.

Às vezes, sequer lembro do meu próprio rosto. Envolto nessa nuvem que não é minha, mas que no entanto, eu deixo que chova em mim.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Fuligens

Do alto da janela do trabalho dá para ver a ponte e inúmeras outras janelas. Vejo também a rua larga que nasce por detrás da cabeça do bode e morre estreita e suja na General Glicério. Uma rua que é meio Ribeira meio Rocas e onde eu habitei por seis anos. Dos poucos que lá estiveram, palavras de que era um lugar “bonitinho” de se ver. Até o era. Foram os anos mais solitários de minha vida. E também os anos de maior aprendizado até hoje. Não é sempre que, no atravessar dos dias, me lembro de lembrar daquela rua e daquele período. Mas hoje, a caminho de qualquer ponto do marcador de horas, me deparei olhando para aquele lugar que um dia fez parte dos meus pedaços de vida.

Não chego exatamente a sentir falta. A ausência sempre me foi algo muito mais administrável que propriamente a completude. Mas, em algum lugar de mim, senti saudades das coisas que não aconteceram por lá. Das cartas nunca enviadas da Elvira, que foi para São Paulo tornar-se acadêmica da USP; das plantas que nunca foram cultivadas porque a terra do pergolado era estéril; do vento que nunca circulava porque só tinha uma entrada e nenhuma saída; do adeus à vizinha “dona Claudete”, cujos olhos verdes foram acinzentando e entristecendo até fechar de vez – num ataque fulminante - por conta do filho toxicômano, que tantas vezes ela mesma chamou a Polícia para “levar e dar um descanso”; do filho que não tive; do casamento que não ocorreu porque era tarde demais para quem estava começando a amar demasiadamente a liberdade; do perdão ao pivete que roubou a correntinha de ouro e do mesmo sentimento que não ocorreu às vizinhas barraqueiras que roubaram do varal a bolsa laranja (que combinava com o All Star), comprados na viagem ao Rio/Sampa em 2005; do não batismo na Igreja de Jesus Cristo e dos Santos dos Últimos Dias porque, na verdade, o que interessava mesmo era arranhar o inglês com o mormonzinho que não conseguia deixar de olhar para minhas pernas desnudas; da palavra desnuda, uma vez que é fato, usei pouquíssimo o espaço para orgias e desbundes sexuais. Enfim, do que poderia ter sido e não foi, para não perder a deixa do jargão.

Amanhã sei que nada disso terá importância. Já que não obedeço a agendas, e não sei se isso é um defeito ou não. Daquela rua não levei nem o pó. Só as lembranças da fuligem que se impregnava em todos os cantos de mim.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A moça faz adivinhações

Durante a madrugada eu parei para observar uma lágrima solitária que foi se formando do canto do olho esquerdo, deslizou lavando todo o globo, espalhando o sal naquele salão já tantas vezes molhado pelo tempo, até tomar a forma original no outro canto do olho. Pesada, foi despencando no vão entre o nariz e o outro olho e de novo fez o mesmo balé. Cada vez mais pesada e lenta. Era a lágrima mais solitária e triste que já produzi. Por um momento cheguei a pensar que fosse alguma dessas patologias vulgares de verão, pela ardência, pela densidade. Mas não. Era só tristeza condensada num único e solitário gesto. Agradeci por liberar aquela tristeza silenciosa. Aquela lágrima discreta. Não gosto de chorar na frente dos outros. Salvo quando há um profundo laço de amizade. E, portanto, quando não há nenhum resquício de julgamento ou desejo de solução. A ninguém cabe o fardo de enxugar lágrimas alheias. Esse jogo é duro demais, injusto demais para qualquer pessoa. Uma vez um homem me olhou profundamente, foi além das sardas do meu rosto e disse “a Sheyla é triste”. Foi a coisa mais verdadeira e triste que eu ouvi de alguém. Hoje, meus sentimentos cabem na palma da mão. Ontem pareciam ocupar um vão infinitamente maior. Mas só por hoje quero trafegar pelas linhas fundas e íngremes da minha mão. E qualquer tipo de adivinhação, só se for sobre o que já passou.

Vou contar um segredo: eu adivinho o meu passado. Às vezes, a iluminação, vem numa simples lembrança de uma salada de generosas porções de cenoura, tomates, abacate, cebola, algumas amêndoas, azeite de oliva e pão. Depois, os olhos azuis e quase translúcidos do meu gato, iluminam outros pensamentos, de outros bichanos que já passaram pela minha vida e tinham a mesma contemplação e a mesma melancolia blazé do atual. Quando dou por mim, estou perdida em adivinhações do que já me ocorrera um dia. O que a maioria das pessoas não consegue entender é que a iluminação do passado só se dá quando ele já fez a curva do rio. Hoje eu recebi uma música que não consigo abrir no computador. Mas embora não consiga escuta-la, sei que ela vem carregada de adivinhações do passado. Principalmente pela sua dedicatória: “Felicidades y amor”. E pude rever que nos gestos daquele homem têm coisas que parecem que saíram de dentro de mim. Como se em algum momento, alguém tivesse lhe entregue um manual de instruções. Às vezes chego a duvidar e quero acreditar apenas em coincidências. Mas vem um novo gesto e pronto. Está ali a minha história. O traçado do meu corpo. O esboço da minha alma. Ora uma leitura simples e frugal; ora um compêndio metafísico. Senti isso pouquíssimas vezes. Que não cabem sequer na mão inteira, mas apenas em algumas pontas de dedos.

Eu posso ver meu passado. E nele, eu achava que sabia o que era o amor.


PS.: desculpem-me, minha meia dúzia de leitores. esse texto está tão horrível quanto minha incapacidade de escrever bons textos.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Um registro

Tenho sonhado ultimamente. Quero dizer, tenho sonhado e me lembrado dos sonhos quando acordo. Ontem foi muito especial. Sonhei que ía até o mar e ele estava verde. Eu sou do tipo de gente que acredita que o mar é azul e não verde. Além do mais, o verde do meu mar era quase musgo. Nem verde bebê ou verde bandeira. Verde musgo. E tem outra coisa, no meu sonho, o verde do mar não era sujo. Era cristalino. As ondas se quebravam na areia fazendo uma espuma tão branca quanto aquelas que a gente vê no céu, que aliás, era meio cinza. Sim, o céu do meu sonho era quase que ausência de cor. Não disputava espaço com o mar.

Aí eu acordei com uma sensação muito boa, que nenhuma palavra conseguiria exprimir completamente. Por isso, vou voltar a lembrar do meu mar verde musgo, que é o melhor que posso fazer.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Desejos que não acontecem

Queria que chovesse hoje. Não que me sinta dependente da mocinha do tempo do JN. Mas queria que chovesse. Quando isso acontece, o céu assim meio cinza, uma atmosfera quase fria (o suficiente para eriçar meus póros), sinto mais vontade de escrever. De me perder em sensações que deslizam por entre as teclas e se fixam na telinha.

Quando eu era pequena contava histórias desenhando. Certa vez choveu e eu desenhei uma casinha com chaminé apagada, uma estradinha que dava para fora da margem do papel, uns passarinhos pousados no meio fio, uma árvore cheia de maçãs, roupas encharcadas no varal e um pirulito flutuando por entre as nuvenzinhas que eu teimava em pintar de azul, embora soubesse que deveria ser o contrário. Meu pai gostou do que viu. Só não entendeu muito bem o que um pirulito fazia no meio da paisagem. Meu pai nunca foi muito bom em entender desejos.

Bom, terceiro parágrafo e continuo querendo que chovesse. E, uma vez meu desejo se realizando, no meio da tarde ensopada, eu iria para o Alamanda. Tomaria um capuccino quentinho com cara e gosto de achocolatado. Conversaria amenidades com a menina que tem nome de embarcação indígena e o menino cristão e tudo, de repente, pareceria estar na mais perfeita ordem.

Mas aqui não chove nunca. Pelo menos nessa época do ano. Muitas pessoas me desejaram felicidades e coisas tais esse ano. Até minha mãe num lampejo de serenidade senil me desejou mais paciência com ela mesma, ao mesmo passo que pedia desculpas pelo trabalho que dá: por coisinhas cotidianamente comuns do tipo marcar comigo num lugar e se instalar em outro completamente diferente, me deixando durante pelo menos 40 minutos, plantada esperando, enquanto penso se vou ligar primeiro para o Corpo de Bombeiros, o Bope ou para minha psicanalista. Depois, quando finalmente aparece, é como se eu fosse um monstro por estar aos berros no meio da rua, soletrando: m.a.m.ã.e, p.a.r.a.d.a d.e ô.n.i.b.u.s é i.s.s.o a.q.u.i. e não dentro da recepção de um hotel q.u.e v.o.c.ê n.e.m e.s.t.á h.o.s.p.e.d.a.d.a! (aí respiro fundo, fico de mal por 13 minutos e meio e pronto, volto a amá-la como sempre). Confesso que fiquei consternada por ela me pedir desculpas. É sempre mais fácil lidar com a raiva do que com o reconhecimento de que a raiva é uma coisa boba demais, inútil demais para se dar muita atenção.

Bom quinto e último parágrafo. E ainda não choveu.

Miudezas

As gotas de água descem pela pele. Tomar um banho: última tentativa vã de, quem sabe, conseguir escrever alguma coisa no feriado. A água descendo pelo corpo, começando pelo pescoço. Deslizando pela barriga, represando-se um pouco por entre os pêlos logo abaixo. A frieza contrastando com o calor natural de todas as outras peles. Água e meus outros líquidos diluindo-se com sabonetes, espumas e pensamentos soltos. Perco-me por alguns instantes numa sensação quase sexual. Mas não adianta, em poucos segundos tudo escorre pelo ralo.

Não encontro cais para essa angústia que às vezes nem minha é. E é só minha. Portanto, ora nado contra a maré, ora sou um marinheiro atrasado, vendo o transatlântico passar, sonhando apenas com um pequeno barco que pudesse me levar às outras margens.

As bananas estão ficando escuras na fruteira. (Prática condenada pelo Dr. Bactéria no Fantástico). Não as bananas, e sim as fruteiras. Logo, hei de convir que os mamões e o abacaxi esverdeado também estão no malho do especialista. Há condenações para tudo hoje em dia. A noite até que está agradável em casa. O gato come a ração num croc-croc constante. A taça está meio cheia (do champagne que sobrou de ontem). Ouço velhas canções que sempre me trazem novas sensações a cada acorde. Mas nem as bananas, nem o croc-croc ou as bolhinhas são capazes de desencadear algo consistente na noite agradável.

Poderia fazer uma oração. Afastar velhos fantasmas que se escondem debaixo da cama. Mas eles nem são meus. E só são. Tenho fantasmas que gostam especialmente de se aproximar quando bebo taças de vinho, cerveja quente. De tudo, talvez o que fique, no final são os fantasmas. Bêbados. Mas nunca ausentes.

Os cigarros acabaram. E a velha promessa de parar de fumar no ano que espoca em fogos de artifício que eu não vi, nem na TV, fica sem forças. Sozinha e sem cigarros. Algo inconcebível, por suposto. Meu reino por um cigarro. Coisinha mais ordinária. Poderia pensar: meu reino por um beijo; um amante insaciável, quiçá um homem sem passado. Recém-nascido. Só que velho o suficiente como os bons vinhos. Com o viço e a tagarelice dos 15; a ingênua força de mudar o mundo dos 25; só que com o musgo irresistível do olhar de que já viu muita coisa dos 40.

“Esse teu olhar, quando encontra o meu, fala de umas coisas que eu nem posso acreditar”. Um ex-namorado, quase impúbere, e que ficava de pau duro bastava eu roçar a mão no braço dele, me ganhou cantando essa música. Tinha nome de filósofo grego. Mas isso faz muito tempo. E essa história não interessa a mais ninguém. Porém, a quem interessar possa, agora ele deve estar barrigudo e pai de três filhos quase entrando na puberdade.

Voltando aos 40. A taça de vinho começa a fazer efeito. Sonho com um poema. Quando tinha 28, sonhava em pular para os 40. Agora aos 33, tenho sonhado com os peitos durinhos dos 19. Peitos durinhos, coração mole. Conselhos da minha tia quase madrasta. Não há como fugir da alquimia do tempo. Um homem aos 40 vem assim com um leve gosto frutado no início, nuances de amadeirado no meio, e um inevitável gosto avinagrado no final.

Você é uma janela e eu sou a noite. (O poema começaria assim...) Você é a promessa, eu sou a profecia. (... e o momento exato onde haveria conexão entre uma coisa e outra, entre o eu e o outro, não sei. Por isso o poema para mim não faz o menor sentido agora).

Eu já fiz longas viagens para poder voltar. Viagens que nem foi preciso sair do lugar. Portanto, qual é mesmo o sentido de sair se, primeiro, não se tem para onde ir? Segundo, uma vez indo, por que voltar? E uma vez ficando, para quê mastigar velhos desejos de nunca mais voltar? Perguntas, perguntas, perguntas.

Estou ficando velha e sem nenhuma resposta. Estou ficando complacente com a minha insatisfação. Meus peitinhos estão moles. Meu cabelo está liso. E as minha idéias cada vez mais enroladas (ops, isso é uma idéia cantada pela Ana Carolina). Rezei para ter um homem de 40. Rezo para não chegar aos 40 com esse gosto de vinagre na boca.

Pronto. O feriado acabou. E a vida continua com as suas miudezas.