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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

... Bom, deu erro no html no post anterior e não consegui explicar que esse refrão é da Ópera Rock do Tom Zé, "Segrega Mulher" que eu, repito, adoro.

Adoro esse refrão

- Tudo bem?
- Tudo – respondeu.
(Era mentira. Estava tudo uma merda. Mas as pessoas que perguntam se está tudo bem não estão muito interessadas em saber se realmente está tudo bem. E, quando muito, elas só querem a réplica “tudo bem” e pronto. Segunda tentativa:
- Como foi seu dia?
- Foi bom. Normal.
(Bom, nesse caso, a segunda pessoa realmente não está querendo muito falar. Ou, numa outra hipótese, está querendo falar, mas não sabe como e também não está muito a fim de responder a perguntas tão óbvias). Aí ela arrisca um outro tipo de conversa:
- Eu estava pensando...
- O quê?
- Eu acho que tem alguma coisa errada...
- Eu tava pensando se a gente não podia mudar de assunto. Eu tive um dia cheio, tô cansado pra caramba e meu chefe me deu maior sabão hoje à tarde e você fica com esse ar todo queixoso e essa cara mal lavada e assim não dá para conversar.
- Quer ir ao cinema?

“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

- Alô?
(- Oi... o que é que você está fazendo? Estava pensando se você não quer passar aqui mais tarde...)
- Ooooi. Não sei se vai dar. Estou meio ocupado
(- Pena... Coloquei um vinhozinho na geladeira e aluguei um filme que eu acho que você ia gostar. É daquele cineasta...)
- Pois é. Mas é que eu estou atolado de coisas agora. Eu te ligo depois.
- (Então tá. Um beiiiijoooo. E me liga viu?).
- Quem era?
- Ninguém. Um cara chato do trabalho querendo que eu fosse ver um relatório com ele uma hora dessas. Vê se pode?

“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

- Sinto falta dele.
- Mas já faz um ano e meio que ele foi embora.
- É. Mas, a gente se entendia tão bem.
- Tão bem que ele nem pensou duas vezes antes de partir.
- Não foi bem assim. Nós conversamos bastante e chegamos à conclusão – juntos – de que não dava mais para continuar.
- É isso que eu não entendo. Como é que você sente falta de uma coisa que não tinha continuidade. Pára de fazer flash back de Love Story, isso não está com nada. Coisa mais passada.
- Ai amiga, você está tão ácida hoje.
- Só estou sendo realista. O cara nunca mais te procurou e pronto. Parte para outra.
- Isso você não sabe.
- Como assim? Ele telefonou? Mandou carta? Imeio?
- Sim e não.
- Hã?
- A gente voltou a se falar. Ele está pensando em dar uma passadinha por aqui de novo.
- Dar uma passadinha? Estar pensando não é o mesmo que fazer ou falar, amiga. O Vinícius nunca foi um cara de agir muito de acordo com suas palavras. Eu me lembro muito bem que ele vivia marcando com você e na hora “agá” inventava uma desculpa e não aparecia e desligava o telefone e sumia do mapa.
- Não. Esse não era o Vinícius.
- Não?
- Não. Afinal de quem você está falando heim?
- Ai, você me deixou confusa. Vai ver que eu estou falando de mim. Deixa pra lá.
- Eu heim...

“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”


- Ô mãêeeeeeeeeeee, já acabeeeeeei!
- Mulher, o menino acabou. Vem limpar!
- Tô indo.
- Ô meu filho, você já tem sete anos, não acha que já pode se limpar sozinho?
- Mas ele não se limpa direito, mulher. Você não sabe que aqui a gente não vive sem você?
- É sei. Ao menos para limpar o cu, eu sou imprescindível.


“Sem alma cruel, cretino descarado, filho da mãe,
O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

É dose


Uma dose de realidade:
A pilha de brinquedos estendida no chão de areia fina, sufocando os pulmões. Bonecas, ursinhos e ursões de pelúcia, carrinhos e carrões de plástico. Um enorme trator à espera da disposição dos 80 mil itens prontos para serem destruídos pelo Instituto de Pesos e Medidas (IPEM). “Minha senhora, esses brinquedos não poderiam ser doados para creches comunitárias?”. (Ta bom, ta bom, uma provocação barata e estúpida, eu sei). “Veja bem, todos esses brinquedos não têm selo de qualidade e oferecem riscos para as crianças que o manuseiam”. (Resignação). “Realmente, melhor assim né, minha senhora? Caso contrário, daqui a alguns meses poderia eu mesma fazer outro tipo de matéria sobre menino que ingeriu chumbo retirado de brinquedo e está hospitalizado em situação grave”. (Para ser dramática e simpática, confesso).

Uma dose de lembrança:
Nunca tive brinquedo caro. Teve uma época que era uma febre as meninas terem uns bonecos que tinham cheiro e carinha de bebê. Chorei muito. Fiz drama. Chantagem. Tive caganeira. Greve de fome. Mamãe comprou na feira do domingo – a contra gosto – um boneco de plástico, que tinha cheiro de plástico, cabeça maior que os membros, membros com articulações desmontáveis e completamente nu. Coloquei fraldinhas de retalhos. Dei papinha de maisena e talco. Fomos felizes para sempre, até o dia em que perdi um de seus membros superiores e ele não conseguia mais me abraçar.

Uma dose de sociologia:
Bonecos de plástico com ou sem cheiro de bebê são um desastre. Fazem de nós, mulheres, seres melosos e desejosos de termos bebês de carne, fofinhos e cheirosos. (Que cagam e comem e choram e não têm o menor senso de oportunidade). Sou de uma geração que ouviu a vida toda conselhos do tipo “Estude. Estude para não depender de homem algum”. E assim o fiz. Só que esqueceram de um detalhe: o que eu faço com o vazio deixado pelo boneco da feira? Não, eu não estou falando de relógio que apita, instinto ou de qualquer coisa que se pareça com determinismos biológicos. Falo do desenvolvimento de afeto, de carinho, proteção, cuidado. Da necessidade de se apreender os vazios e as perdas que os outros seres humanos vão nos legando, mas sob a ilusão de que um dia, em algum momento, aquele ser fez parte de você. (Momento autobiográfico). Tenho problemas com a minha mãe. Ruídos terríveis assombram nossos diálogos. A velha máxima "a gente não se entende" foi feita em homenagem a nós duas. Aí, hoje, enquanto esperava a porra do ônibus que sempre passa atrasado, a vi do outro lado da rua, acenando, enquanto se dirigia à hidroginástica na academia do bairro. Acenei de volta. E era seu o meu braço. E era sua a minha vida. Um laço invisível e mais forte que mil cabos de aço nos unia naquele momento.

Uma dose de escatologia para variar

Estou farta dessa prisão de ventre. Farta da falta de flatos. Desse exercício diário de cagar e andar para o mundo e sequer conseguir ir ao banheiro e tornar o ato o mais literal e decente possível.

Outras doses
De água. De Toddynho. De poeira. De sol no quengo. De cólicas menstruais. De pé na rua do segundo trabalho (Mário Ivo, pode divulgar!!!). De desejos que não têm fim e fins próximos. De medo da dor. Medo de injeção. Medo de sofrer. Medo de médico. Medo de tudo. Medo de alma. De feijão verde com farofa de ovo. Doses e mais doses de blargh! Doses de hormônio nos peitinhos do traveco do fim da rua. Doses de Faustão. Doses de Gugu. Dose pra leão. Dose pra dormir. Doses de insônia. Doses de masturbação. Doses de cansaço. Doses de ciúme. Doses de educação. Doses de alegria e doses de saco absolutamente cheio.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

TPM

Não, eu não teria coragem de fazer nenhuma técnica de suspensão, nem na sala de casa, nem em lugar algum. Para quem não entendeu ainda do que falo, basta imaginar pessoas que enfiam ganchos no corpo (a mais comum é a técnica vertical) e se deixa suspender acima do chão e fica pendurado pelas costas. Há quem acredite na transcendência do ato. (E quem sou eu para duvidar?).

Porém sei, e eu sei quando sei, que meu corpo está suspenso por enormes ganchos fincados na pele. É a representação mais fiel do que venho sentindo ultimamente, embora não consiga entender ou enxergar nenhuma transcendência nessas sensações. Pelo contrário. Parece que encolho e desapareço dentro de mim mesma, a maior parte do tempo. Alguns poderiam dar o nome de angústia. Mas não creio muito nisso. Toda angústia se dissipa quando uma decisão é tomada. O passo seguinte a se instalar é a frustração, porque afinal, de um modo ou de outro, nos sentimos incompletos quando tomamos uma decisão. Mesmo que esse vazio seja quase imperceptível.

Não são decisões ou frustrações que determinam minha suspensão. É o abismo inevitável ao qual eu, mulher, me proponho a encarar diariamente. Ora apenas nas bordas, ora em completa e entregue queda. Como meu corpo está suspenso, sinto a incompletude do ato porque nem estou na borda, nem estou em queda livre. Posso sentir o apelo de ambas as situações me chamando e atraindo. Mas não consigo abismar-me, nem na minha sala, nem nas salas do mundo.
Meu amigo Pablo (
www.pablocapistrano.com.br) escreveu dia desses que tem medo das mulheres e de suas estranhas metamorfoses.

Fico aqui a pensar o que pensaria ele se descobrisse que minha Górgone recita poemas para minha Arthemis. Que a minha Vênus faz greve de sexo e a minha Heloísa terminou o namoro com Abelardo, para viajar sozinha e sem ninguém até o litoral baiano. Certamente, ele ficaria chocado, perplexo, tocado. Mas, se calaria diante do desconhecido, esse primo-irmão do divino e do incomensurável.

Final da manhã de um dia ensolarado, que começou com fracas pancadas de chuva e um trânsito infernal no início. Meus abismos estão todos enfileirados prontos para me abocanhar. Mas hoje não. Voltem outro dia, estou em suspensão.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Algumas razões para sonhar

Todo domingo é a mesma coisa. Ouço música. Vejo TV. Leio alguma coisa. Tomo café às oito da noite. Fumo alguns cigarros. Ouço minha mãe falar sem parar. Arrumo a bolsa para o dia seguinte. Penso em arrumar outras coisas. Desisto no meio do caminho. Vejo os tênis de corrida jogados no canto da parede. Lamento e quase o peço desculpas pelo desperdício de sua inércia. E sigo com minha insônia crônica. É assim.

Mas ontem foi diferente. Dormi mais cedo do que de costume e sonhei que tinha conhecido um homem. Um rosto novo no meio da multidão de palavras e gestos conhecidos. Numa dessas situações em que tudo o que você quer é chegar logo em casa depois do trabalho, tomar um analgésico, uma xícara de café ou quem sabe até um chá de hortelã, ler um livro, tomar um banho, vestir uma roupa leve e cair na cama. Ao invés disso, assim que chego ao lugar acolhedor – após sucumbir às investidas de uma doce amiga, que tanto queria minha companhia - nossos olhos se encontram e somos apresentados. Ele me sorri como se fosse um velho amigo. Não faz muita força para ser gentil e tudo o que os outros dizem parece que tem uma importância incrível para ele. Guarda a elegância discreta de um velho senhor e a curiosidade e senso de observação de um adolescente que está construindo seu próprio mundo, na descoberta do mundo dos outros.

No sonho, conversamos um pouco. E é engraçado como me sinto à vontade com ele em tão pouco tempo. E não sinto necessidade de ser um rio caudaloso de sedução. Meus cabelos estão presos num coque baixo, com a velha e boa presilha marrom quebrada que me acompanha desde muito. Ele não fuma. Mas segura gentilmente meu cigarro aceso entre seus dedos, enquanto busco, constrangida, alguma coisa perdida na bolsa. Quando pega meu cigarro o faz com delicadeza, e posso sentir o calor masculino que sai de sua mão, abrindo caminho por entre meus dedos. Aquilo me desconcerta, mas disfarço. Malditos cigarros! Obrigada por vocês existirem.

Embora tudo seja muito nebuloso no sonho e, portanto, não há precisão da linha do tempo, sei que poucos dias depois tivemos nosso primeiro beijo. Estamos numa praia conhecida e discreta, lendo poemas sentados sobre uma manta, tomando vinho e dando mais beijos para espantar o frio e acender o desejo. Também é um domingo. A poucos metros dali um outro casal. São bem diferentes de nós dois. Mas não menos cúmplices da lua que desponta madrugada adentro. Gosto de domingos de lua cheia no céu.


Como a dimensão da verdade toma rumos grandiosos nos sonhos, algumas vezes penso que estar do seu lado e poder encostar os lábios em sua pele, colocar seu rosto entre as mãos, apertar meu corpo embriagado no seu e sentir aquele mesmo toque quente dos dedos – do primeiro contato quando me auxiliava com o cigarro – pelo corpo inteiro, poderiam representar algo assim como o último desejo de um moribundo. A derradeira pétala aberta antes do outono chegar. Os pingos de chuva amolecendo as rugas da terra seca. E quando ele simplesmente sorri, eu tenho certeza.

Todo domingo é a mesma coisa. Ouço música, vejo TV, brinco com meu gato, vejo minha mãe falar comigo enquanto tento apenas ouvir meu silêncio, leio um livro, tento escrever um poema que se esconde por entre as frestas do pudor e da minha incapacidade, deito-me tarde da noite. Com a única a certeza de que as dúvidas e o improvável porvir me esperam na segunda-feira. Mas não tem muito segredo. É pelos sonhos que eu acordo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Fotografias de memórias


Minha memória tem se confundido com meus sentimentos. Faço isso com freqüência a ponto de às vezes duvidar se o que sinto não é um mero estímulo de antigas e remotas sensações, ou o contrário, se o que estou a me lembrar nesse momento não é uma peça pregada pelo que sinto. Na verdade nem sei se mensurar ou compartimentar essas coisas fariam alguma diferença. Talvez elas estejam tão intrinsecamente ligadas que uma e outra seja parte de um mesmo propósito. Divino ou não.

Poucas coisas importam mais que sentir e relembrar. Não deixar morrer. Não sei se as pessoas pensam muito nisso. Ou pelo menos com a ênfase que necessito dar nesse momento, a mim mesma. Mas observo que, de alguma maneira, as pessoas, a seu modo, fazem isso o tempo inteiro. No meu caso, por exemplo, hoje não saberia quantificar o que foi mais importante quando ouvi pela primeira vez “eu te amo”. Se o infinito acolhimento de felicidade naquela expressão tão amplamente compartilhada, ou se no definido frio na barriga que subiu como um rojão para o canto dos olhos, se derramando em grossos filetes salgados de espanto, medo e incertezas.

Vejo outros exemplos de necessidade de tornar eternos os sentimentos ao menos nas lembranças. Tem gente que casa em pleno vôo de pára-quedas; outros debaixo d’água; ao redor de fogueiras e pisando na areia ou em tantas outras sortes de idéias criativas. Como se, internamente soubessem, que embora aquela decisão e aquele olhar e aquelas palavras não são eternamente certas, ao menos ficarão as lembranças. Mesmo que depois de algum tempo, elas virem apenas fotos na parede, guardadas em caixas de papelão decorados ou nas imagens diluídas e perturbadoras dos pesadelos.

As memórias são fotografias do tempo, gravadas apenas em nossas almas. Essas não se dissipam, nem podem ser guardadas para sempre até mofar em algum baú velho. Jamais esquecerei do primeiro “eu te amo” porque hoje ele é um pedaço dos sentimentos que venho tecendo ao longo da vida. Transfigurado de fio para teia. É isso. Deve ser isso. Noves fora, zero. Jamais esquecerei a expressão inocente do meu primo Dude me chamando de “Shequinha” – com o olhar mais apaixonado que eu já recebi em toda a vida - com o bubu pendurado no canto da boca, mesmo que para ele isso não seja nem uma lembrança de infância. Sempre trarei na memória o dia em que minha avó se despediu de mim, segurando as grades da janela, quase exaurida, quase sucumbindo ao irrefutável destino nos humanos e das velhas avós. Jamais esquecerei o significado da palavra surpresa, depois que meu pai jantou num daqueles infindáveis retornos de viajem e montou para mim meu primeiro e único castelo. Mesmo ele só sendo de papelão e tenha durado apenas algumas semanas. Sempre trarei comigo o gosto adocicado daquela moça que me roubou um beijo na estação, há poucos minutos de cada uma virar pro seu lado da vida e das escolhas. E a descoberta das rugas da minha mãe, que um dia serão tão minhas que já nem saberei mais se elas realmente existiram em outra pessoa.

Um dia, eu mesma serei só uma lembrança. Ou esquecimento.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Um bicho esquisito

Os ponteiros fazem uma trilha entre eu e uma enorme bolha de tédio, que me sufoca e não me deixa fazer o exercício democrático de respirar com prazer. Respiro quase por obrigação e porque é básico para sobreviver; (longe de qualquer essência pseudo ambientalmente correta, o cigarro me ajuda a recolher o ar dentro de mim)

De resto, sinto que posso mudar de assunto a qualquer momento. Para ser ilustrativa, mudo de assunto (leia-se pensamento) como quem acorda atrasado. Num sobressalto. Numa absoluta revolta silenciosa de ter de levantar; (e encarar toda essa esquisofrenia de ser realmente quem se é, nunca sendo o mesmo, ou não)

Ultimamente tenho ouvido músicas melancólicas. Meu gato pressente as coisas e me olha com uma cara triste, olhos miúdos, focinho molhado. Como se estivesse com os ossos doloridos, prenunciando uma tempestade. Afago sua cabeça com uma certa displiscência, dispensando sua atenção prestimosa. "Olhe-me com menos altivez e mais atento, querido", diria eu se fosse eu Hilda Hilst. Mas não sou. ("Our father who art in heaven; For the kingdom, the power, the glory, yours; Now and forever")

Hoje pela manhã fui ao Walfredo Gurgel. A pauta não era minha. Estava lá por acaso. Nas últimas semanas tenho usado com menos freqüência os óculos para miopia de 2,5 graus. Principalmente pela manhã. Uma vez, li em algum lugar que as pessoas que desenvolvem a miopia são pessoas com tendência a não conseguir enxergar a realidade com clareza. Meu amigo russo, Igor - devoto de Krishna (que as pessoas chamam equivocadamente de "Hare Krishna") assumiu a miopia para mim. Mas não usa óculos há anos. E segue enxergando o essencial. A senhora com a perna quebrada contorcia o rosto de dor, desde que desceu da ambulância. Apoiada ao braço da filha - que tinha um outro tipo de dor estampado no rosto - ela caminhava desgraçadamente para o balcão da portaria do Walfra. Será que se eu estivesse usando os óculos teria enxergado com tanta clareza aquela cena?. (Às vezes o grande esforço reside justamente na displiscência de fisgar um momento)

Tenho tédio sim, miopia, marasmo, solidão, desejo, conversa, dia-a-dia, conta, trabalho, emprego, fobia, menstruação, mãe, jardim, perfume francês, livros não lidos, mais desejos, sonhos, raiva, curiosidades, palavra, silêncio, orgamos, creme hidratante, óculos, amigos, esperança, sinceridade, vontade, análise, e-mail. Mas, principalmente, tenho fome; (dessas coisas todas que não têm nome)