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terça-feira, 25 de março de 2008

Mulher interesseira

Uma mulher não se interessa por um homem que sabe demais. Uma mulher não acha interessante um homem que abre portas do carro, da casa, puxa cadeira, mas mantém trancada a porta do coração.
Uma mulher não se interessa por um homem que só quer ouvir respostas macias e foge de perguntas surpreendentes.
Uma mulher não se interessa por um homem que prevê o futuro, teme o passado e se distrai com o presente.
Uma mulher não se interessa por um homem que não sabe ouvir e não faz cara de atenção suprema quando ela está falando da última liquidação do magazine do Centro.
Uma mulher não se interessa por um homem que rumina palavras para traduzí-las em servidão. Uma mulher não se interessa por um homem que estuda as palavras e não gagueja ou não esquece algumas delas na hora de falar.
Uma mulher não se interessa por um homem que não gosta de bicho, planta, velhinho, criança. Uma mulher não se interessa por pessoas que não gostam de bicho, planta, velhinho, criança.

Uma mulher se interessa por um homem que não tem certeza do futuro, lida com serenidade com as lembranças, e descobre que viver não tem garantias, nem em notas promissórias.
Uma mulher se interessa por um homem que deixa a barba, tira a barba, mas permanece entendendo que a função primordial da barba é o arrepio.
Uma mulher se interessa por um homem quando ele é menino faminto e meia hora depois é sábio encanto.
Uma mulher se interessa por um homem quando ele entende que o cabelo dela às vezes é a parte mais importante do seu corpo.
Uma mulher se interessa por um homem quando ele deixa de ser sêmem e passa a ser entrega.
Uma mulher se interessa por um homem quando ele sorri e ela se emociona.
Uma mulher se interessa por um homem quando ele chora. Quando ele treme, quando ele teme, quando ele foge, quando ele espera, quando ele encerra e quando ele dorme.

Uma mulher se interessa por um homem quando ele ama.


(essa crônica foi livremente inspirada na crônica "Homem perfeito" do Fabrício Carpinejar, publicada numa terça-feira, 28 de fevereiro de 2006).

segunda-feira, 24 de março de 2008

Quinze minutos atrasada. Vinte e seis graus nos termômetros. 360 gramas de almoço. 1 real no brigadeiro casadinho. Meia hora para o início da tarde. 24 dias para 34 anos. Quinto "boa tarde", noves fora "tudo bem". 36 milímetros de chuva no meu quintal. Três sacos de lixo para a coleta. Vinte e um anos meu coleguinha que chora as pitangas do meu lado. Duas mortes no final de semana. Página 17 do livro Saartão. Três crônicas pra hoje. Carpinejar com um cafezinho pra aliviar a alma. Dois rosários de encomenda. 14 ônibus na frota da Maria Lacerda. Um telefonema inesperado do outro lado do mundo. 10 minutos que resumem quatro anos. Um poema com três versos. Um minuto e meio para a lata do lixo. Nenhuma palavra quantifica com precisão um sentimento. Cinco minutos de chuva. Suficiente, nunca o bastante. Eu não sei contar. Nunca soube. Não tenho inclinações para números. Sim, para tijolo. Barro. Lama. Cinco minutos atrasada. Vinte e seis graus nos termômetros.

Reminiscências II

A memória afetiva sobre páscoa me leva à fazenda da tia dalvinha, lá nos brejos da Paraíba: 1984. De lá para cá não mudei muito. Tenho quase o mesmo corpo. Com exceção de uma tatuagem ao lado da barriga, meus olhos continuam muito abertos e por vezes penso que só o penteado mudou. Para ser sincera, naquela época, duas coisas me interessavam mais que ovos de chocolate e coelhinho da páscoa: requeijão e o primo Rodolfo. Um menino de cachinhos dourados dois anos mais novo que eu. (O que me tornava praticamente uma pedófila mirim!).

Naquela tarde daquele dia, as tias e mães e avós prepararam esconderijos de ovos de páscoa, espalhados por dentro do casarão, alpendre, nas casas vizinhas, no estábulo, perto da lagoa, na casinha junto ao pé da serra, em todo lugar. Com direito até a coelhinhos vivos e fofos e que me davam alergia. Não tinha muito segredo. Quem achasse os tais, ficava com eles. E começou a caçada. O que nós, umas 10 ou 12 crianças não sabíamos é que havia muito mais que 15 ou 20 ovos. Ou seja, todo mundo acharia hora ou outra um ovo da páscoa. Eu achei um enorme. Comi tanto e tão rápido que acho que vem daí minha parcimônia até hoje, em comer os tais. Chocolates só me servem para distração.

Ontem foi páscoa de novo. Cuja data é lembrada no primeiro domingo depois que sai a primeira lua nova, depois da entrada do outono, (ou seria o contrário?), debaixo da linha do Equador. E tem toda uma ligação com a própria transformação do clima e coisa e tal. No judaísmo, a páscoa significa a libertação do povo escravo do reinado egípcio, quando Moisés resolveu arrebanhar seu povo em busca da terra prometida (e a confusão perdura até hoje, como nos contam o livro de história do Oriente). Já para o cristianismo, a páscoa significa vida nova, uma vez que três dias após a crucificação do Messias, ele ressuscita na Páscoa.

Acho uma das datas mais bonitas do calendário religioso. Seja ele judeu ou cristão. Não pelas crenças ou qualquer coisa correlata. Mas pelo significado de transformação, de passagem, de vida nova, de mudança, renovação, esperança. A grande maioria de nós vive com o pé no porvir, e na crença de que o que está por vir será melhor do que já foi. Claro, que os revertérios estão aí para nos mostrar que não é bem assim, e não os estou negando, só porque falo do sentido da páscoa.

Mas o fato é que prefiro mesmo é me distrair com o verbo esperançar que com o verbo comer (chocolate).

O vento dos outros



Eu nunca gostei muito dessa música. A melodia é triste. Existe um desespero iminente na voz, nos versos, na resignação do autor, que incomoda. Tinha um amigo - na época em que ela tocava a cada cinco minutos nas rádios, isso há uns 16 anos - que ficava quase inconsolável quando ouvia. Rejeitar a familiaridade com a dor é algo irrevessistivelmente humano. Mas hoje não havia bem-te-vis na minha janela. Hoje eu acordei e essa música da Legião e do Renato estava latejando na minha cabeça. E eu percebi com mais clareza que a dor nem sempre é óbvia e bela, como nas músicas. Daí a importância de uma e de outra em nossas vidas.


Vento No Litoral
Legião Urbana / Renato Russo

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras...
Sei que faço isso prá esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...

Agora está tão longe vê
A linha do horizonte
Me distrai
Dos nossos planos
É que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção...
Aonde está você agora?
Além de aqui, dentro de mim...
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo
O tempo todo...

E quando vejo o mar
Existe algo que diz:
-Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...
Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano
Era ficarmos bem...
Ei, olha só o que eu achei:
Cavalos-marinhos.

Sei que faço isso
Pra esquecer
Eu deixo a onda
Me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...

quinta-feira, 20 de março de 2008

A peça do jogo (Para Paula Moura)

Dia desses, reencontrei depois de longos anos de separação uma amiga. As razões pelas quais nos separamos não têm mais a menor importância agora. Na verdade, o que me interessa não é o vácuo de oitos anos de nossa existência sem notícias ou tricotagem do dia-a-dia, tão comum às amigas. Tão comum à gente. Nos conhecemos dentro de um ônibus, quando morávamos no mesmo bairro, na adolescência. Estudávamos na antiga ETFRN, agora CEFET, e ela diz que adorava me ver sorrindo. Já eu, olhava para aqueles imensos olhos de cílios de boneca e sentia uma invejinha branca. (Toda mulher deveria ter cílios longos). Bom, o fato é que entre sorrisos e olhares, quando nos conhecemos não nos desgrudamos mais.

Foi com ela que passei horas da minha vida falando sobre um simples "oi" ou uma olhada furtiva de um carinha que eu estava a fim e torcendo para que houvesse reciprocidade; foi juntas que descobrimos os próximos beijos depois do primeiro (sem graça e estranho demais). Foi no ombro dela que chorei cântaros o primeiro fora da minha vida, e com quem dividi a descoberta de outros amigos, que acabou formando uma turma grande e que desencadeou uma série de coisas, até movimento performático-literário-poético, nos anos 1990, quando performance ainda era uma coisa que fazia sentido. (Medo!) Em nós duas, especificamente, o aumento da turma desencadeou o gosto pela leitura e o maravilhamento de ter amigos que eram estranhos o suficiente para serem geniais e verdadeiros mestres em matéria de viver uma adolescência maluquinha, mas com notas que dava para passar sem recuperação e porres de garrafões de vinho barato que é melhor não comentar muito, senão a dor de cabeça volta.

Bom, há mais ou menos um mês ela me reaparece. Foi ela quem tomou a iniciativa e eu, como se tivesse esperado pacientemente todo esse tempo, só não a abracei de imediato porque o contato era virtual. Algumas conversas depois, subo de elevador até o nono andar pensando, "meu Deus, e o que vou fazer quando vir de novo aqueles olhos imensos e cheios de cílios?". E, acho que eu já sabia o que fazer. Simplesmente sorri.

E finalmente voltamos a nos abraçar de novo, um abraço cheio de braços e de calor e de vontade de estar junto. Agora ela não é só mais ela e "tia Help" e irmãos. A família aumentou, tem o companheiro, e os filhos Pedrinho, 4, e Julinha, 1. Isso significa dizer que a minha família também aumentou. Principalmente no que diz respeito à empatia imediata ao pequeno "Pepê" que me olhou com os mesmos olhos da mãe e se deixou abraçar como se fosse meu amigo antes mesmo de termos nascido. E me chama de "tia Sheyla". Precisa falar mais alguma coisa?

Precisa. Muita gente há de convir que a vida é, em grande parte do tempo, o maior palavrão que a gente conhece. Eu diria que é um jogo por vezes duro e cruel. E, por mais que tentemos, nem sempre dá para encaixar todas as peças na engrenagem enferrujada. Mas, uma peça é fundamental: o amor. Com ele é possível reencontrar diariamente aqueles que escolhemos como companheiros; com ele, é possível perdoar, compreender, rever fórmulas; aprimorar descobertas e desatar os nós (até da garganta) ou, do contrário, apertar outros.



Essa crônica será publicada em O POTI/Diário de Natal, no dia 23 de março de 2008.

segunda-feira, 17 de março de 2008

"Seu olhar melhora o meu" (Ou crônica para o homem atual da minha vida)

Ele tem os olhos mais intensos que me fitaram nos últimos tempos. É mais ou menos assim, como quem olha um único ponto de um imenso lago. E, nesse ponto, descobre que há um outro lago de tamanho e largura superiores ao primeiro. E assim, vou me perdendo naquele olhar.

É um pouco maior do que a média de sua idade. O que o deixa absolutamente charmoso. Mas, sedutor mesmo ele se torna, quando a urgência do seu querer é maior que todas as convenções e regras de início de um relacionamento. Fomos apresentados na quarta-feira passada. E foi imediata a empatia. Parecia que nos conhecíamos desde que ele nasceu. Foi receptivo, meigo, gentil e um pouco ousado. “Venha conhecer o meu quarto”, ordenou. E eu, hipnotizada, obedeci. Lá, foi logo me apresentando seus preciosos utensílios, numa conversa um pouco atravessada, confusa. Típica de um primeiro encontro. Quando a gente tem muito a falar, mas não sabe por onde começar.

Um pouco ainda tateando o terreno, certa hora indaguei sobre suas preferências de atividades. Falou grego. O que me deixou ainda mais instigada para continuar adentrando no seu universo, num diálogo que reproduzo abaixo:

- Pepeu (o nome dele é Pedro), qual seu brinquedo preferido?
- Eu, eu, eu, eu – ele sempre fala uns 20 “eus” até encontrar as palavras certas – gosto mais do que tem o super punho, mais forte que o vento e as paredes dessa casa. O “Mach Still Força Mística”.
- (...). Fiquei sem palavras. Era muita informação para uma vez só. Recorri à mãe, (Paula, que sempre disse que quando parisse ía ser assim, meio uma vaquinha mococa, e estava certa). Ela me explicou que ele estava juntando dois tipos de brinquedos diferentes, só para dar ênfase ao que queria dizer. Um artifício de que ele sempre lança mão, quando quer impressionar.


Conversa vai, conversa vem. Chegou a hora de ir embora. Um beijinho molhado, enlaçando o meu pescoço, fora a cartada final. Eu já era dele. Ainda por cima ele fez aquela carinha de “se não tem jeito, tudo bem, mas eu não queria que você fosse”. E eu quase desisti de colocar as conversas em dia com a mãe, o principal propósito da minha visita. Diga-se, até o Pepeu chegar e me mostrar um minúsculo machucado ocasionado por uma "bola de rocha". E roubou completamente a cena.

No dia seguinte, a mãe me informa que ao chegar da escola – na qual ele está no estágio 4 do ensino infantil e, lá, se chama "Pedro Moura" porque existem mais dois pedros além dele – vem logo o questionamento:
- Mãe, a tia Sheyla está lá em casa?
- Não, meu filho. A tia Sheyla não pode ir toda hora lá em casa.
- Pôxa! Droga, que chato!
- Mas ela disse que vai lá no sábado, você quer?
- Sim, sim, sim! E enquanto ela não vem, eu vou fazer pensamento nela toda hora.

E eu aqui. Digo sim, Pepeu. Sim, mil vezes sim, para você, sim para nossas doces lembranças (eu levei um coelho recheado de chocolate para ele). Sim para o primeiro encontro do resto de nossas vidas e, sobretudo, sim para seu olhar de pipa, de algodão doce, mach still força mística, nuvem e de encantamento.

O Vento

Não me peça para ficar.
Também não me peça para ir.
Como Carpinejar, quisera desaprendesse os limites.
Os seus e os meus.
Uma hora ou outra, isso ía acontecer.

A página fica em branco.
Os acordes mudos.
A garganta arde uma poesia seca
O vento passa o seu tempo
balançando as folhas murchas da roseira.

Não dá para prender o vento
Nem se prender a ele.
Pra sempre

sexta-feira, 14 de março de 2008

terça-feira, 11 de março de 2008

Loucura engarrafada

A gente não podemos fazer nada com esse salário, Lula. A gente não podemos comprar remédio, pagar transporte, comprar os estudos dos filhos. A gente, Lula, não podemos nem comprar um sacolão.

18h30 - parada de ônibus na Praça Cívica cheia de pessoas. O homem franzino, com cara afável de doido controlado por remédios, bradava aos quatro cantos seu protesto nada silencioso ao Governo Lula. Para "ampliar" o alcance da voz, que brigava com o ruído ensurdecedor dos carros e buzinas e sons da rua, ele usava uma garrafa de água mineral, de 50 ml, como megafone. Uma coisa poética. Na verdade, era quase um lamento. Vocês precisavam ver quando ele falou que o salário não dava para comprar nem um sacolão. Melancólico. Algumas pessoas riam, esquecendo um pouco o cansaço. Outras se irritavam mais ainda. Eu fiquei interessada e queria prestar atenção.

Minha gente, a gente precisamos de ter um governo que olhe pela gente, minha gente. É por isso que eu estou aqui para lançar minha candidatura a vereador...

Meu Deus! Até os loucos hoje em dia distribuem promessas. Coisa mais irritante. Naquele momento, desisti de tudo.

Aí, o ônibus passou. Entrei no ônibus. O ônibus estava lotado, mas consegui uma cadeira. Dois milisegundos depois, uma senhora com idade próxima a da minha mãe, sobe pela porta de saída e eu dou a cadeira para ela. Ela não me agradece. Ela não pede para segurar minhas pastas pesadas. Ela ainda me pergunta se está longe de chegar na caixa prego. Eu respondo gentilmente. Eu tento abstrair o meu cansaço e os safanões. Eu ignoro o cara que passa roçando o pau meio-duro-por-dentro-da-calça na minha bunda. Eu abstraio o cheiro da mulher gorda. Eu deixo a garotinha pisar no meu pé. Eu vejo os carros passando. O barulho. Os ruídos. As luzes. O trânsito lento. A fome. E assim, ao contrário daquele incauto senhor da garrafa de água mineral, eu vou soprando dentro da minha garrafa. Mas não sai som algum. Lá não tem promessas de mudanças. Lá não tem candidatura a cargo eletivo. Não tem tese de Doutorado. Não tem diazepan. Não tem sequer uma aspirina. Não tem filhos me esperando em casa. Não tem dinheiro na conta bancária. Lá também não tem um CD da Janis Joplin. Não tem uma poesia da Sylvia. Não tem nem água.

Lá só tem minha loucura e todas as outras coisas que cabem nela.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Com quantas lágrimas se faz uma dor?

Assisti ao filme Crash - No Limite (2004), dirigido por Paul Haggis, esse domingo. E não contive as lágrimas em algumas seqüências de cenas. Chorar em filme é um excelente remédio para a gente pegar carona na ficção e botar para fora as dores que estão latejando dentro do peito. Ninguém chora unicamente por sensibilidade. Onde há lágrimas, há dor.

Há alguns anos assisti A Felicidade não se compra (1946), de Frank Capra, e não economizei lágrimas. Até hoje, vez ou outra me vêm algumas cenas do filme na memória. E a estranha sensação de que fora como se eu não fosse mais a mesma desde aquele dia. Lembro que o meu companheiro do lado, a quem me apresentou o filme, ficou tocado com minha emoção. Beijou-me a mão e solidário disse: "Eu também chorei muito a primeira vez em que assisti".

Ontem no mesmo horário em que eu assistia ao filme e adentrava pelos meu labirintos onde se escondem a emoção e a arte, um garoto chamado Welson era brutalmente assassinado do outro lado da cidade, em Mãe Luíza. Oito tiros a queima roupa. Faria 13 anos hoje. Envolvido com pedra e ervas desde os nove. Suspeito de ter assassinado no carnaval desse ano o "irmão de Bruno Pacote" Welson parecia não ter escolha, nem outro caminho. Ontem pela manhã, depois que tomou café, finalmente deu de cara com seu destino já anunciado. A vingança se consumara. Sua "dívida" paga. "Eu sei que vou morrer, eu sei que vou morrer", vivia entoando essa canção em casa, nos últimos dias, como se tivesse pressa.

Olhando de perto era só um menino magro e esverdeado, de olhos cerrados e semblante abandonado. Vivos, mas com o mesmo ânimo do menino arrumado no caixão enfeitado com flores brancas "nove horas", ficaram as três irmãs, o avô e a avó, a tia, os primos e a mãe que não estava em casa. Olhei demoradamente para o rosto dele. Depois para o rosto dos outros. No deserto daqueles olhos me perdi. E entendi que nem sempre onde há dor, há lágrimas.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Sobre objetividade, sedução e baratas

Não gosto de pantufas. De jerimum. De cantar para os outros ou ouvir alguém cantando para mim “Parabéns pra você...”, não gosto do calor excessivo do meio-dia na cidade da Ponte, tampouco gosto dos 19 graus do ar-condicionado do Diário. Também não gosto de cochichos perto de mim. Nem de chefe que chama para dar sabão no meio do trabalho e você fica com cara de bunda, sem nem saber para onde vai, nem muito menos o que vai escrever. Não gosto de dor de dente ou menstruação atrasada. Odeio com todas as forças do meu coração a banda Calipso e sua band-líder Joelma (não tem explicação lógica, é algo sangüineo demais para fazer sentido no mundo das palavras) e também posso garantir que não gosto de tipinhos cafajestes.

Mas devo confessar uma coisa que admiro nessas criaturas: a objetividade. Dia desses uma amiga me confessa que conheceu um cara – casado – e que deu categoricamente em cima dela numa festa. (E estava acompanhado da mulher). Sabe-se lá como cargas d’água ele conseguiu uma caneta e um papel, mas num gesto simples, jogou o bilhetinho perto do lixo do banheiro, não sem antes fazer-lhe sinal para que ela visse seus passos e gestos. No bilhetinho algo vulgar e irresistível como “Achei você linda, meu telefone, me liga!”.

Eu acho que quando o Nelson Rodrigues disse que as mulheres preferiam os cafajestes (vá lá, é praticamente a mesma coisa quando ele diz que só as normais gostam de apanhar), ele estava se inspirando nessa característica para lá de obstinada dos cafajestes de serem irresistivelmente sedutores, atenciosos e cientes do que querem. Não existe cafajeste com crise existencial; com medos e angustias; que divida conta do restaurante ou do motel, ou que tenha uma mãe doente em casa que precisa de seus cuidados. Ao menos quando o assunto é atingir o alvo. Ou seja, a mulher da vez. E mulher gosta dessas coisas. Principalmente porque toda e qualquer mulher que se preze, por mais emancipada e analisada e liberada e auto-suficiente e auto-sustentável e que tenha um vibrador com o nome de Pimpão, adora se sentir o centro das atenções. Adora que o cara faça algum tipo de sacrifício (sorrindo) para estar com ela. Adora que ele saia correndo do trabalho, na hora do almoço, só para vê-la por uns instantes, adora quando ele liga no meio do dia com o desejo a flor da pele. Mesmo que ela saiba que isso é ilusão.

Para essa minha amiga, que é descolada e sabe o que quer, o homem da vez é um cafajeste. Hoje ela não tinha muita novidade pra contar porque ontem teve jogo na TV e o cafajeste só perde a objetividade para mulher quando o assunto é futebol. Nem reza braba, nem promessas libidinosas, muxoxos, palavras roucas ao pé do ouvido, ou vinho tinto na geladeira e depois no scarpin vermelho são capazes de abalar essa estreita, verdadeira e única relação que ele, o cafajeste, tem com a bola e aqueles 11 homens. Eu sei que ela não tem nenhum ideal romântico com o cara. Se tivesse isso me preocuparia bastante. Mas ela me disse uma coisa dia desses que me deixou encafifada e pensando no assunto. Ela disse que preferia os cafajestes aos covardes.

E, para não tergiversar muito mais sobre esse tema. Eu queria finalizar dizendo que odeio matar barata.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Pára tudo que eu quero descer – ou devaneios de uma moça doida, doida, doinha

Semaninha escachapante. Eu explico, eu criei essa palavra ridícula. Quando não encontro nenhuma palavra que represente o incomensurável, ela é a única que me resta, que me redime, me salva. Seria como a palavra “coisa” e suas mil e uma aplicabilidades semânticas. Pois bem, escachapante é uma coisa que explica qualquer coisa. Bom, falava antes da minha semana. E não tem nada a ver com extraordinariedade, num sentido elevado. Em português comum, foi uma semana dura, difícil, confusa, triste, com direito a depressões intermináveis no travesseiro, falta de apetite, idas ao médico, exames de ultrasson, telefonemas anônimos (covardes, chulos e inexplicáveis como é a grande maioria das coisas anônimas), uma palavra que fere aqui, outra que derruba ali, falta de olhar, falta de ar, falta de atenção, falta de amor até.

Aí eu pensei no Rodrigo Hilbert. Eu explico. Rodrigo Hilbert é o ex-modelo bonitão, marido da ex-modelo bonitona e agora atriz/apresentadora Fernanda Lima, macho arretado, que plantou logo duas sementinhas nela de uma única vez e que, como se não bastasse está tendo uma atuação relativamente convincente para um macho bonitão e marido da Fernanda Lima – igualmente um arraso da espécie humana, admito – na novela das nove que eu esqueci o nome agora, mas que assisto sim de quando em vez e, principalmente, quando estou deprimida e de saco cheio de tudo, como foi essa semana. Pois bem, essa semana o Rodrigo Hilbert pegou dengue hemorrágica. Na novela, claro, para felicidade de Fernanda Lima, dos gêmeos e do resto das mulheres da nação. E, no auge do seu delírio, na novela, ele disse: “Pára o mundo que eu quero descer”. (Suspiro profundo). Como eu não pensei nessa expressão antes? Era exatamente o que eu estava sentido. Era isso: a minha dengue hemorrágica emocional estava me obrigando a pedir parada, ralar o peito, entrar em coma profundo por três meses, que fosse.

Mas angústia não seria angústia se não viesse atrelada a desejos não correspondidos, decisões frustrantes e sonhos impossíveis. E as coisas estavam caminhando escachapantes assim, até que ontem eu fui almoçar com meu amigo Crico e a minha amiga Ara e passei na Afonso Pena e vi que a Mason Letícia começou a fazer 80% de desconto nas suas roupas de grife. Grifes que eu nem conheço ao certo. Mas que sei que são grifes. E isso pode parecer a coisa mais prosaica, mais vulgar e mais idiota e do mundo. Mas eu garanto, depois dos 80% de liquidação da mason Letícia, tudo mudou, e ficou muito mais escachapante.


terça-feira, 4 de março de 2008

O que é para dizer
exatamente
o poeta não sabe

Há quem pense
que, antes, ele só sente
Mas como dizem
ele só
caminha displiscente

Tentando esconder
em vão
uma certa obsessão
pela palavra
ausente.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Mais um sonho de domingo

Dia desses estive no auditório do Cefet. Um lugar que na minha adolescência parecia enorme e continua assim agora. Diferente de quando a gente é criança que o quintal parece grande, o pátio da escola parece enorme e a rua parece não ter fim. E no entanto, quando crescemos parece que não cabemos mais naqueles lugares. Foi lá que encenei minha única peça num palco teatral. Vá lá que fiz outras coisas em escolas públicas e até mesmo no palco da rua, mas nada se compara à magia de circular por entre as coxias enquanto aguardava minha hora de entrar. Ver os outros atores em cena. As luzes. Todas aquelas pessoas sentadas, com os olhos voltados para você. E eu, tremendo de medo e de admiração pela existência, como diz a Clarice.

Meu nome era nervosismo. O local para quinhentas e tantas pessoas estava lotado. Minha família estava na platéia. Minhas notas não andavam muito boas no curso de Saneamento, meus finais de semana eram todos preenchidos com ensaios, meu namorado tinha voltado há poucos dias, tivemos um hiato justamente porque meu foco e meu grande amor era o teatro. E ali, naquele momento, eu celebrava aquela união na frente de todos, justificava todos os meus pecados em nome da redenção de poder ser plena, forte, nua, bela e horrenda. Num ato insano, emprestando meu corpo para uma outra alma.

Um tempo depois descobri que ser adulto era aprender a lidar com frustrações. Claro que a Psicanálise já sabia disso há pelo menos quase um século. Já eu sou um pouco mais lenta e desinformada. Tive de abrir mão do meu grande amor. E, com ele, uma série de outras coisas foram precipício abaixo: meu namoro acabou de vez, junto com o brilho mais intenso e mais ingênuo no olhar que ele fora capaz de produzir; saí da casa dos meus tios e fui morar num pensionato; fazia estágio durante o dia e à noite cursinho; época de aprendizado em todos os sentidos. Tinha grana para tomar café, não tinha para almoçar. Ou vice versa. Saíam de cena as luzes da ribalta, entravam as sombras da realidade.

Pois bem, a visita semana passada ao auditório por uma razão bem mais inglória que a de atuar me trouxe uma nostalgia gostosa. Daquelas que afagam e adoçam o presente com o mel das boas lembranças. Foi um tempo bom aquele. Tão bom que não me provoca tristeza ou tira pedaços. Pelo contrário, me mostra quem eu fui e quem eu sempre serei.

Acabei sonhando com o teatro ontem. Posto que os meus domingos se dividem entre a insônia que não aceita a chegada da segunda e o cansaço extremo que boicota o recomeço, recomeço, recomeço. No sonho, eu era uma bailarina. Minha mãe e alguns amigos estava na platéia. Meu rosto era iluminado por uma felicidade que só pode existir mesmo em sonhos, uma vez que era ladeada de certezas e sensações puras e silenciosas. Eu estava com uma roupa fluida e leve no corpo magro e meus cabelos eram longos – como naquele tempo – e ao invés de um véu, umas discretas rosas despencavam da cascata negra. Talvez, esse sonho, tenha a ver com a reafirmação daquele casamento perfeito entre eu e o teatro. Mas talvez isso seja óbvio e prosaico demais para o entendimento de um sonho. Agora, como não pode faltar o elemento absurdo, o engraçado é que quando eu e minha mãe caminhávamos em direção ao pátio de estacionamento para irmos embora, um cara estranho e mal encarado nos abordava e não parecia nada bem intencionado. Era forte e alto e trazia no olhar uma malícia capaz de enrubecer os cactos da estrada. Dizia alguns coisas impróprias para o horário e não havia dúvidas de que aquilo prenunciava um gesto brusco e mortal. Mas eu o enfrentava. Não com facas ou véus ou unhas. O fiz com algumas palavras certeiras bem no meio da cara. E ele, envergonhado e derrotado se foi. Não sei como cargas d’água, isso chegou aos ouvidos do Moacy Cirne e, como na vida real, incorporado de um senhor para lá de gentileza, ele me liga parabenizando-me pelo gesto corajoso de enfrentar o estivador. Acho até que deu em alguns jornais da cidade. Putz, sonho é sonho, fazer o quê?

Acordei feliz.
Acordei pensando que a gente só se resigna e até se farta com o que perde, quando a gente sabe que um dia, de fato, aquilo nos pertenceu. O resto é só sonho ou ilusão.