Google+ Followers

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Da mesma terra e do mesmo pó

Minha mãe mora comigo. Todas as noites, seja verão, primavera, outono ou inverno na nossa relação cotidiana, ela vem me dar um beijo de boa noite. Minha avó morou com a minha mãe. E todas as noites elas faziam o mesmo. Acho que são coisas da hereditariedade dos sentimentos. Amanhã fará 15 anos de morte da minha avó. É incrível como depois de tanto tempo, de quase metade da minha vida, ainda é inevitável chorar. E, mesmo com toda delicadeza, a tristeza se instala e se acomoda nos sulcos que o tempo desenhou no meu ainda frágil tronco.

A árvore mais frondosa que eu já conheci no alto dos seus pouco mais de um metro e meio. Descansei muito nos galhos da minha avó e me fartei dos seus frutos. E hoje percebo nos trilhos do rosto da minha mãe, os mesmos círculos de uma velha árvore, tão generosa quanto. Mesmo sabendo tão diferentes entre si, eu e elas, vezencuando me procuro nessas duas senhoras e me revelo raiz da mesma terra. Não só pelo grau de parentesco ou consangüinidade, isso seria prosaico, óbvio demais.

É isso. As raízes se transformam, se transmutam. O enigma está na terra.

Com amor, F.


A long long time ago vivi uma experiência da qual passei anos – como agora – para entender sua totalidade. Na verdade, até hoje continuo tecendo os retalhos daquele episódio, me reconhecendo em detalhes. Estranhando outros. Foi uma despedida. A mais linda que tive até hoje porque embora houvesse tristeza – senão não era despedida - havia também um profundo sentido de cumplicidade e compreensão. Ambos tomaríamos caminhos diferentes e distantes, mas jamais nos separaríamos completamente. E para dar um pouco de concretude ao incerto porvir, cada um deixou com o outro um livro estimado.

O que ficou comigo, de uma escritora cubana, radicada nos EUA, cujas crônicas lembram outras tantas de outras mulheres, ele escreveu uma dedicatória que dizia mais ou menos assim: “Usted me enseñó que es tiempo de volver a casa. Esta casa que no tiene nombre ni lugar. Y está dentro de nuestro corazón. Con amor, F.”. Como meu espanhol é tão bom quanto meu The book is on the table, limitei-me a escrever um poema do L. Lugones que diz assim: “Al promediar la tarde de aquél dia / Cuando me habitual adíos fui darte / Fue uma congoja de dejarte / Pero que hizo saber que te quería”. Não nos despedimos em uma das esquinas do Once. Tampouco num bucólico banco de praça ou num por-do-sol inspirador de poetas. Nem plantas, nem bichos, nem rosas, nem muros presenciaram o desfecho. Apenas carros, buzinas, estudantes uniformizados, semáforos e, no máximo, um canteiro central, tivemos por testemunhas. Era somente uma despedida. Sem espelhos quebrados, faturas postas, fraturas expostas, partilha de bens, divisão de lágrimas. Digamos, sem as pequenas tragédias cotidianas.

Trago comigo uma fé quase abstrata de que sempre podemos tirar mensagens, poemas, sentimentos, palavras, aprendizados de absolutamente quase tudo o que vivemos. Mesmo quando nem percebemos. Mesmo quando só nos lembramos anos depois. E já é tarde.

Uma vez, eu falei para um amigo poeta que me incomodava a obsessão por alguns temas. O movimento pendular de uma ou duas doses de motivação para escrever. Ele me olhou assim meio de banda e, num tom fraternal, com o cigarro no canto da boca, a fumaça azulada desenhando uma torre disforme no ar, me disse que isso era algo assim como a gente é. Não tem jeito de mudar. Não se muda, no máximo se transforma. Agora já estou mais acostumada com os temas recorrentes. Eu já escrevi várias vezes sobre essa despedida e, no entanto, parece que ela ainda não se esgotou em mim. Vai se transformando a cada giro em torno do sol em outra coisa que não é tristeza, não é ausência, não é desilusão, não é sequer palavra.

É uma coisa assim que nos redime, nos resigna, nos conforta, nos torna o que somos, sem grandes danos. É uma coisa assim, parecida com amor.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Alma

A minha alma não obedece aos ponteiros do tempo dos homens.
Minha alma se espreme pelo corpo enquanto transborda pelas paredes.
A minha alma é meio lama, lodo,
Prata, vinho, som de silêncio.
A minha alma tem um quê de distração que me enerva, me atordoa, me distingue das formigas.
A minha alma tem inclinações para filmes trágicos, para espinhos e amendoim.
A minha alma cospe fogo e come brisa.
Ela se prende ao desabafo e é torturada pelas mentiras, principalmente as alheias. Porque são impossíveis de se pintar à mão.
A minha alma desenha estruturas insolúveis tendo como matéria-prima nuvens e
Depois sai para passear


A minha alma não tem nome, cor ou dono.
A minha alma chora com a chuva e brinca com os córregos como se ainda fosse uma menina.
A minha alma é nua da cintura para cima e usa calcinha bunda-rica
A minha alma tem vergonha do pudor, do desconcerto e da inabilidade alheia

A minha alma não perdoa porque prefere esquecer
A minha alma não se ajusta na trilha dos ponteiros dos outros
Porque ela é fogo que atordoa no silêncio.
É desabafo que espinha a garganta
E chora fino como chuva em fino córrego.
A minha alma tem um corpo que é brisa e atravessa as paredes cor de prata.
A minha alma não é exata, nem desatina. Ela é uma coisa assim sem rumo, diferente das formigas.
A minha alma fala no lugar da voz. Depois vai assistir a um filme, comendo amendoim.



"A minha alma está armada e apontada para a cara do sossego. Paz sem voz, paz sem voz, não é paz, é medo"

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Miopia

Retirei-me por uns dias desse sítio virtual para verdejar um pouco as idéias úmidas do cotidiano. Precisava de terras mais firmes e palpáveis. Sentir falta é algo muito subjetivo para mim. Porque, ao passo que não queria, nem desejava estar aqui, por outro lado, era como se de mim faltasse um pedaço. Como se estivesse renegando o inevitável encontro comigo mesma. Como quando nos olhamos no espelho e nada vemos. Ou quando vemos o que não queremos ver.

Tenho inclinações para uma miopia incurável. E vez ou outra prefiro deixar no armário os 3 graus emoldurados de uma armação marrom tartaruga, para enxergar o mundo em seu descortinamento diáfano e sem controle de linhas retas ou curvas fechadas. É um bom exercício diário de sobrevivência. As linhas retas e as circunferências compassadas nunca me foram um bom alento, uma boa companhia. Sempre preferi os labirintos e seus minotauros, é fato.

Às vezes é preciso perder-se para descartar o que julgávamos tantas vezes indispensáveis. Nunca fiz, mas acredito que o caminho de Santiago de Compostela deve ter lá suas utilidades. Uma pequena mochila nas costas com escova de dentes, creme dental, um cobertor, uma barrinha de cereal quem sabe, um mapa-guia e um par de sapatos que comportem a areia, as pedras e os ventos. Pronto, o suficiente.

Fiz isso nos últimos dias. Não o caminho de Santiago. Mas assumi de vez a mochila com poucos provimentos. A miopia é interessante porque só nos esforçamos para enxergar o que realmente importa. Quando a visão não é o suficiente, podemos recorrer a outros artefatos como a palma das mãos; o toque dos lábios; a ponta da língua; o som oco da comida batendo no estômago; o pio distante de um bem-te-vi; a pele do pé rasgando-se quase que impeceptível no chão frio da sala; os cílios jorrando sal. Tudo fica no seu mais perfeito estágio e lugar.

Bem-vinda miopia, que consigo se instale a harmonia.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O mundo nos olhos dele


Todos os dias é como se fosse o primeiro para Fellini. Não há um canto da casa, um pedaço de jardim, uma réstia de sol, poça de chuva ou lagartixa na parede que ele não olhe como se nunca tivesse olhado antes. E assim, sem forçar a barra, está sempre descobrindo, sempre se surpreendendo, sempre se encantando, e sendo conquistado pelas mesmas coisas. Acho que vem daí o meu fascínio por ele. Dessa condição de renovar o olhar diariamente. De não se cansar ou não se fartar nunca de nada. Até mesmo da mesma comida que ele insiste em degustar desde o dia em que chegou em casa. E não experimenta outra nem por decreto.

Bom, vez por outra, percebo aquele olhar sobre mim. A princípio me constrange um pouco. Afinal, ninguém que se sente observado fica totalmente à vontade. Perco o rebolado. Olho para o outro lado. E, quando resolvo encará-lo, me surpreendo com o olhar firme. Quase parado, envolto numa cortina azul clara ou escura – dependendo da luminosidade – que parece me fazer mil perguntas em um segundo, à medida em que mexe quase que imperceptivelmente as órbitas. As perguntas estão ali, mas nenhum apelo para respostas. Daí talvez me venha outro fascínio por ele: o da incondicionalidade. Como se dissesse. “Não tem importância se você não fala nada, porque estou te olhando pelo lado de dentro. E esse lugar prescinde de palavras”. E aí, torno-me a pessoa mais condescendente possível. Entrego-me sem reservas e medos. E fico tentando também enxergar-lhe por dentro. Numa simbiose rara.

Mas aí minha humanidade bate à porta e tento adivinhar seus desejos, seus questionamentos, o que lhe falta, o que lhe basta. Às vezes é facílimo. Às vezes impossível. Não vou negar que isso me frustra um pouco. Não que pareça que me exige nada. Pelo contrário. É sempre tão superior. Tão soberano, tão suficiente. E eu tão pequena. Tão apegada a coisinhas miúdas do cotidiano igual. Enquanto que ele me codifica pela primeira vez todos os dias.

Claro que sei que esse olhar guarda uma certa ingenuidade que não se sustenta no mundo dos humanos, tão carregado de códigos e direcionamentos que, geralmente, levam ao excesso e, por sua vez, ao esgotamento. Claro que eu sei que não dá para fazer esse exercício com pessoas e a qualquer hora. Claro que eu sei que no nosso mundinho que é pequeno demais para caber o entendimento alheio - só se sustentam o seu olhar e o meu amor quase felino. Quase saindo da humanidade que me cega.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Dando um tempo

Eu não sei se a culpa é minha ou da TV. Eu, às vezes (e quase sempre) tenho dúvidas, se o problema é meu ou do resto do mundo. Mas não agüento mais ver nos noticiários especulações e indefinições sobre o caso da menina Isabella, que foi morta em São Paulo, uma semana depois da Páscoa. Em situações mais que obscuras e bizarras para qualquer pessoa digerir.

Fico pensando se sempre foi assim. Antes mesmo de eu nascer. Ou se só eu não consigo compreender – nem me envolver – com a espetacularização que se cria em torno da dor dos outros. Com essa obrigação esquizofrênica de sabermos os detalhes, de nos envolvermos, de chorarmos e clamarmos por justiça, além de esperarmos – em breve isso vai acontecer, escrevam – milagres interceptados pela criança morta.

Não nego o clamor das ruas por justiça ou pelo desejo de diminuição da violência e crimes bárbaros como esse. Mas não acredito que dor, ausência e luto possam ser substituídos por camisetas com fotografias, flores em jarrinhos e criação de mais ONGs. Também não acredito em perdão imediato ou qualquer coisa que o valha para que assim, todos, vítima e criminoso, possam se redimir e descobrir que se amam e que o mundo é lindo e um dia vão dançar uma ciranda no céu.

Meu Deus, minha avó morreu aos 73 anos, depois de padecer de um câncer terminal por seis meses. A gente não podia negar que a morte estava sondando a matriarca, mas quase vinte anos depois eu ainda me pego vivenciando uma dor e um luto que permanecem em mim. E uma inconformidade que não tem nada a ver com racionalidade e sim com perda, com saudade, com tristeza, com sentimentos humanos que me são inerentes.

E, a exemplo da minha avó, que não gostava muito de assistir televisão. Vou dar um tempo por esses dias. Vou me recolher ao meu insignificante direito de ser anônima, de ser bicho do mato, de não gostar de holofotes em cima da minha
dor, nem em cima da desgraça alheia.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O lugar perfeito

Umas duas, três ou cinco vezes durante o dia parto rumo ao nada. É um local ermo no meu trabalho, onde ficam as lixeiras, um sumidouro estourado, uma escada absolutamente imunda, e umas vinte mil piubas de cigarro.

Já quando saio dos corredores frios e infindáveis - onde muitas vezes eu passo e me deparo com pessoas tão abandonadas à própria sorte que não aparentam ter outra alternativa senão sentarem-se rente ao chão, como mendigos a estender a mão para quem está no andar de cima – tento me despir do que vou deixando para trás. É quase como um ritual necessário para que eu possa voltar a praticar a apnéia diária do trabalho. Lá, fumando meus cigarros, em meio ao lixo, à lama do sumidouro mal projetado, e sentada na escada imunda, é como se me libertasse para respirar.

Tenho reparado que é nesse lugar onde minhas humanidades mais têm se exacerbado: quando estou com fome, sinto-me faminta; quando estou cansada, pareço não me sustentar nas pernas; quando tenho uma idéia, parece a mais brilhante; se estou triste, me sinto em casa. É como se em todos os outros lugares - até mesmo no meu quarto, na companhia do meu gato mimado e condescendente com minha carência – eu representasse o papel de mim mesma, só que do lado de fora.

Uma, duas, três ou quantas vezes forem preciso, parto rumo ao nada. Para sobreviver.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Conversa com estranho na rua

- Ei moça, não se assuste. Eu sei que um cara alto, meio careca, meio hippie é tudo muito estranho.

- Tudo bem. Respondi sem muita reação.

- É que eu estou vendendo meus trabalhos - Ele carregava uns dois painéis feitos de um pano de algodão cru e sujo, numa estrutura quadrada de um metal vulgar. Continuou: - E estou precisando ir para o outro lado da cidade. Você não teria um vale para me dar?

Fiquei pensando o que levaria um cara estranho como aquele me abordar no meio do calçadão da João Pessoa. Tantas pessoas passando em volta naquele mesmo momento. Não me parecia perigoso. Nem mesmo atraente. Talvez um pouco. Se parecia com um amor do passado. Alto, magro, olhos claros. Mas a voz era bem mais suave. Quase de um menino. Sorri e disse que ia dar uma olhada na carteira. Tinha uns dez reais no bolso, mas o bom senso brecava minha generosidade naquela manhã nublada. Algumas moedinhas seriam o suficiente para fazer a interseção entre nossas alma.. Não durou mais que um minuto. Imaginei uma conversa entre nós dois:

- Eu não sou o que pareço ser.
- Eu também não.
- Quanto de mim, você acha que existe em você?
- Talvez o mesmo, ou muito próximo, do que de mim, há em ti.

Então sorriríamos e sairíamos satisfeitos com nossas descobertas.

Ao invés disso, apenas estendi a mão e lhe passei duas moedas de 50 centavos, três de 25. Como a alma nômade e vagabunda é dotada de um orgulho quase monárquico, não aceitou simplesmente. Queria retribuir. Disse que não era preciso, que estava tudo bem. “Siga seu caminho, irmão. Leve nos seus passos, um pouco das minhas raízes. E de ti, levarei o pó dessas suas estradas”. Quase disse, mas soaria tão piegas e fora do lugar, que desisti meio envergonhada. Ele não se deu por satisfeito.

- Sabia que eu te fotografei?
Apenas sorri. Estava dada ao silêncio do olhar atento, muito mais que a palavras. Falou isso e retirou dos seus trabalhos manuais um par de brincos. Entregou-me:
- Pega tua fotografia. São os dois lados do teu rosto. O que mostras e o que escondes.

Agradeci ternamente e parti sem olhar para trás e sem ouvir suas últimas palavras.
Atravessei o sinal vermelho para os carros e fui caminhando em direção à Catedral, onde meu amigo me pegaria para almoçar dentro de alguns instantes. Por alguns minutos não ousei abrir a mão; guardar o par de brincos; examinar com mais atenção aquele emaranhado de um outro tipo de metal vulgar, minuciosamente organizado em quebras e relevos.

Minha alma estava leve. A melancolia cedeu espaço por alguns instantes a um contentamento quase infantil. O gesto dele me tocou de alguma forma. Digno, altivo, gentil.

O pequeno regalo eram duas estrelinhas.

Quando chove



Da janela, faço telepatia com a chuva. Talvez um pacto fosse mais adequado. Mas não sou dada a nós definivos. Um laço bem arrumado de cetim me cai bem. A força do nó não está no repuxado das cordas. Sim no entrelinhado das tramas.

Sou dada a olhares distantes, respiração compassada e uma certa melancolia heleniana, em épocas de terra molhada. Teço xales imaginários para aquecer meu coração. E tomo por definitivo e irreversível qualquer verso de qualquer poeta.

Os pingos da chuva me deixam assim.