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sexta-feira, 30 de maio de 2008

Alguns desejos

Escrever como se as palavras tivessem acabado de ser inventadas. Sorrir com vontade. Chorar quando der vontade. Olhar como se fosse o último pôr-do-sol da sua vida. Respeitar cada movimento do universo. Conspiração involuntária. Dormir serena e acordar com o canto dos passarinhos.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A chuva voltou

Chuva pede silêncio para escutar o canto dos córregos
Córrego pede barquinho de papel
Papel pede letra
Letra pede livro
Livro pede tempo
Tempo pede sol
Sol despede a chuva
Chuva pede passagem

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Ei, você

que vem hora ou outra, ou quase sempre ou quase nunca neste blog, quero fazer uma confissão: estou muito cansada.

tão cansada que nem vou dar explicações. nem vou cantar qualquer pedra ou fazer qualquer oração. cansada como sinônimo de cansada. sem metáforas. sem arestas. sem brecha para qualquer dedo de prosa.

é isso.

A marca do bem-querer

Nos primeiros minutos ela foi logo me mostrando as bonecas. Depois, duas cadeirinhas na proporção do seu tamanho. Uma das cadeiras maiores, no meio da área, sem um braço, tem logo o diagnóstico “está quebada”. Uma perfeita anfitriã, fazendo sala. Duas, três palavras no máximo são proferidas por vez. Não há construções complexas ou períodos longos em sua fala. Mas tudo faz um sentido enorme. Aliás, o que me surpreendeu bastante e vou tentar reproduzir, sem direito a licença poética e todos os recursos do encantamento de uma madrinha completamente apaixonada:

A lua: é a lua.
O sol: é a lua de dia.
Cada uma das folhas secas no chão do jardim: um aviãozinho.
Uma formiga fazendo sua caminhada de sempre: um “mosquitinho da dengue”.
O machucado na perna: “na calchada”.
O nome da babá: Naninha (na verdade, é Leninha. Naninha é a outra que já não cuida mais dela).
Bom dia Bárbara: “Mom dia”
Banho: “Ni novo?”
Papai vai trabalhar: “Ni novo?”
Um pouco de refrigerante num copinho minúsculo de acrílico verde na hora do almoço: “Bigado, madinha”.
A figura de um feto dentro de um vidro, na parte de trás do Hollywood Blue: “Um bebezinho!!!”.
Negociação para calçar as sandálias, depois de dois minutos de argumentação: “tá certo”.
Vovó foi embora: “Vovó sumiu” (falando em sussurros).
De quem é esse cinto? “De Bia (a irmã).
De quem é essa boneca? “De minha”.
Quer um leitinho?: “Não, bananinha”
Quer um todynho?: “Não, bananinha”
Quer um pãozinho?: “Manteiga”.
Viagem para Natal: “Shopping”.

Nos momentos de silêncio, fazíamos mimetismos cada uma apontando para uma parte do rosto. Com o dedo indicador, começávamos no queixo; depois na ponta do nariz; depois os dois indicadores dentro dos ouvidos, fazendo movimentos circulares; em seguida, dedos perto dos olhos e, finalmente, as mãos espalmadas no rosto, pressionando a boca, com movimentos de abrir e fechar, fazendo “peixinho”.

Na despedida, nenhuma palavra de adeus. Mas um beijo estralado no meu rosto me surpreendeu, porque não teve nenhum apelo de minha parte. Tampouco fazia idéia que aquela menininha ainda tão pequenininha - que mal sabe o que significam “dois aninhochs” incompletos – já sabe que a função primordial do beijo é deixar uma suave marca de bem-querer nos outros.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

llena de vazios

Conversando no msn hoje com minha amiga Adriana (Silveira, Drica, morena linda, gente finíssima, gostosa e que diz que sempre vem aqui, mas não se sente à vontade para comentar) ela me retrucou uma coisa que me deixou pensativa: “Você nunca me parece vazia”, ou algo assim. Não era preciso argumentar pois, os amigos às vezes querem nos convencer de algo que já sabemos e não concordamos. Mas quis dizer para ela que são nos meus vazios que deixo os outros entrarem. E quando digo os outros, são todos os outros mesmo. É no vazio que encontro o meu espanto e abro brechas para o mundo.

Ontem à tarde, quando estava na parada de ônibus, voltando para casa, vi um homem, uma mulher e uma criança que me chamaram a atenção. Primeiro porque não era bem assim. Ele era um menino de 17 anos; ela deveria ter no máximo 15 e a neném no colo, um ano e meio. Ela carregava a filha e ele uma sacola com provimentos para bebê, enquanto chupava um sorvete com euforia de menino que está no circo. Tudo era combinado, apontado, esclarecido e harmonizado. Atravessaram a rua juntos, a neném olhando para os lados como quem não cabe em si de tanta rua e tanto prédio e a mais velha arregalava e brilhava os olhos diante da vitrine de uma loja. Ele não quis entrar porque trocou o sorvete por um cigarro. Ela flertava com algumas lingeries, mostrava para ele. Sorria. Ele concordava. Saiu sem comprar nada. Mas com cara de satisfeita.

Fazia tempo que meu silêncio não se encontrava com uma cena tão tranqüila no meio do Centro da Cidade. Claro que sei que cenas como essa, ou diversas, ocorrem o tempo inteiro e eu não estou lá, porque não estou com as portas do vazio abertas. Para perceber o outro é preciso estar atento, mas é preciso também não estar cheio de compromissos, de pensamentos, de afazeres, de tempo controlado, de dicionário na mão ou receita de bolo. Sorvi aquele sorvete, abracei aquele bebê e senti o amor recente e urgente daquele casal como talvez nunca tenha experimentado antes qualquer uma daquelas coisas. E talvez nunca venha a experimentar de fato algo assim. Mas ao menos já sei como é que pode ser.

Depois disso eu abracei o tempo com força e com vontade de que ele não fosse embora. Desatei as linhas dos ponteiros, abri as janelas de vidro do ônibus e deixei que a brisa me contasse sua história. Era uma história cheia de vazios. Como a minha.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Para um menino que sabe chorar

Lembra aquele dia que você caiu de joelhos no chão, no meio do pátio da escola, e aquele amiguinho gordo e macilento sorriu como se tivesse visto a mais incrível atração de circo? E você teve vontade de chorar, de bater nele, de sumir?

E quando foi flagrado pela sua mãe, roubando leite condensado do armário e ela lhe impôs o pior dos castigos: o olhar silencioso de reprovação e a recusa de qualquer explicação infantil. E você sentiu como uma faca cortando a garganta e partiu para o canto mais silencioso da casa.

Teve também aquela vez que seu pai voltou de viagem. E só o simples fato de estar ali, te levantar nos braços, rodopiar como se fosse pião, embalar teu sorriso com sua voz grave e firme e dizer, sem nenhuma palavra, que era bom estar de volta.

Aos 14, lendo F. Pessoa pela primeira vez, você percebeu que as lágrimas também servem como receptáculos de emoções. E que elas também podem deixar escoar o rito silencioso da reverência.

E aquela moça de calça boca de sino e cabelos a la Janis Joplin, tão conhecedora do To be or not to be, que casou com o piloto, sequer podendo adivinhar que ela habitava seus sonhos. Talvez você não tenha sentido vontade de chorar, mas foi a primeira vez que experimentou o espaço vazio no peito deixado por uma mulher displicente.

Quando o cachorro, o gato, a primeira namorada, a professora de Matemática e a atriz de cinema partiram para sempre levando no bolso os segredos que você teve coragem de contar, deixando um monte de sentimentos atropelando-se entre suas pálpebras, você se sentiu sozinho. E descobriu que é normal se sentir sozinho, mesmo que para isso seja preciso chorar.

Tempos atrás você se viu assombrado por dragões, tempestades e o acinzentado das horas. Experimentou o gosto amargo dos sentimentos às avessas. As cenas transcorrendo nas coxias. Você de expectador sem roteiro. Sem direção. Vislumbrou dentro de si um bicho acuado, trotando nas pedras, berrando desesperos. Compreendeu a função do tormento.

Deixa eu te contar um segredo, menino. Tudo isso faz um sentido danado para mim, porque você sabe chorar. E quando você é assim, um menino sem disfarces, sem dobradiças e sem cadeados, você fica tão infinitamente lindo, menino, que faz o meu mundo despertar e também me dá vontade de chorar.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A diferença de

Não sei bem o que dizer hoje. Acordei na segunda com ânsias de sábado de manhã. Quando só me permito abrir os olhos depois das 9.

O chão não ficou fofo, nem a cabeça parecia gaivotear quando me levantei, sensações sentidas há dias atrás e que me levaram a uma sessão literal de soro na veia no meio da tarde. Porém, sinto que acordei mas não despertei hoje.

Até aí tudo bem. Nada de novo no front, como reproduzia um chefe engenheiro em priscas eras quando eu ainda era só uma desenhista copista, num escritório de arquitetura e engenharia no Centro da Cidade. Segunda-feira não é um dia para já se acordar com definições. Segunda-feira é, talvez, recomeço. De que é que eu ainda estou para desvendar.

Como sempre faço pela manhã, dei uma visitada nos blogs dos amigos Carito, Moacy, Mário Ivo, Pablo, o novo do Crico, que finalmente fez um blogspot ontem, além de etcoétera, e aí fui ao do Carpinejar: "Testar e experimentar não são a mesma coisa. Testar é sondar a relação com cautela e distanciamento. Experimentar é desfrutar com intensidade o que é oferecido no momento", diz ele em determinado trecho.

Aí me veio uma coisa possível. Testo o dia de hoje, para continuar experimentando a vida.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Uma pequena lista de quimeras para o fim da tarde

Chá de folha de laranjeira com solda preta, servidos pela minha avó.
Chuva no telhado embalando meus pés deitados e vestidos com meias gastas
Um desenho de criança para colorir
Um bem-te-vi na janela e um bem-te-vi surgindo naqueles olhos miúdos
Bolinhas de sabão escapando dos caules ocos das folhas de mamão
Uma palavra que não existe
Uma palavra impronunciável
A música atravessando paredes
O ronronar preguiçoso do meu gato, encostado em minhas costelas
Paciência para deixar o pôr-do-sol ir embora
Frescor para encarar os anos que ainda estão por vir
Um arco-íris não seria nada mal também
Uma poesia que aquietasse meu coração por cinco segundos
A poesia dos outros para fazer a vida ter sentido
Mais um botão surgindo na roseira
As rosas murchas despedindo-se sem rancor
Um sonho roubado no meio da soneca
Algodão doce rosa antes e água gelada depois
Uma viagem inesperada para alguma estrela distante
Uma poça d’água cheia de vazios
Um caramujo mudando de cor
Dois dedos de prosa com um beija-flor
Uma concha que toca Beethowen
A ponta dos dedos dele tocando minhas costas nuas
A chegada de uma carta
O vento arrepiando a grama
E a grama dançando com o vento
A menina dos meus olhos
Saindo para passear
E não pensar mais em nada


Pergunta

Há quem diga que a escultura já existe, adormecida, na pedra bruta.
Será que com os sentimentos também é assim?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Biografia quase autorizada de mim mesma



Sempre me senti um bicho meio deslocado. Encosto fácil em cantos de parede, sento em meio-fio, no meio da rua, e evito tapetes Persa. Há quem chame isso de cansaço. Não se enganem com o sorriso, por trás mora muita chuva. Se não pareço, acreditem sou tímida e desacostumada com elogios. Hoje mesmo, fiquei atordoada com um “você ta linda assim". Certa vez, o cantor disse que eu era graciosa e quase perdi o sono, procurando borboletas. Sim, gosto muito de borboletas e das minhas sandálias de couro vermelho. Não gosto de sapato apertado. Meus pés se machucam fácil. Minhas unhas são fracas e quebradiças. Tenho amigos de longa data. Sou madrinha da Bárbara que vai fazer aniversário no dia 27.
A foto é de Joana Lima

Biografia não autorizada do Fellini




Eu cheguei aqui bem pequeno. Uns dois meses. Nunca fui apegado a datas. Não vou mentir que achei tudo muito estranho. Móveis, paredes, cheiros, vozes, barulhos, teto e chão se misturavam aos meus sentidos, deixando-me confuso e assustado. Agora eu acho tudo normal. Melhor, todos os dias eu procuro achar tudo normal. Antes disso, acordo faminto e irascível, querendo morder. Disfarço bem minha irritação e elas acreditam que sou um "fofo". Quase dois anos depois, ainda não revelei todos os meus segredos e nem pretendo. Meus passos silenciosos e meus gestos discretos tornam-me uma boa companhia. Mas às vezes tudo muda e eu preciso dar um tempo. Sumo mesmo. Vou para o alto de algum lugar onde elas não me alcançam. Passo horas no meu desatino particular. Sonhando com as mais calorosas orgias. Encochando gatas e arrancado-lhes gritos. Há quem diga que eu lido bem com a dor. Não sabem que eu ligo tanto para a dor quanto me importo com a meteorologia. Sou mais chegado a metafísica. Camarão cru me deixa histérico. Odeio aqueles beijos que estalam os lábios. Odeio que me tirem de qualquer lugar. Gosto da Maria Rita e da Rita Ribeiro. O "Canto para Oxalá" mexe com meus sentidos ancestrais. Se fosse humano, não mudaria nada. Agora, se pudesse, queria ser um passarinho.

Tempo

Parece que foi ontem.
Mas quando dei por mim,
já era hoje
E o amanhã ainda
está por vir

terça-feira, 13 de maio de 2008

11h06

Celular bloqueado nas teclas. Canetas e blocos espalhados pela mesa. Dois computadores ligados. Um anel com o mais lindo cristal. Um presente. Uma luz no meio do céu. Cigarrilhas na janela. Manhã nublada pede café no meio. Cartas comerciais. Convites impessoais. No pensamento um sentimento que não cansa. Uma angústia fina corta o tempo domado. Um poema roubado do blog da amiga. Um poema do Bukowski. Literatura na veia. Veia aberta:

(Sem chance de ajuda,
Charles Bukowski)

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais que
nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós iremos esperar

e
esperar

nesse
lugar

(a amiga é Elis, o blog É logo ali, que nunca é atualizado...)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Um filme, um poema


Assisti ontem Mar Adentro (2004), dirigido por Alejandro Amenábar. Acho que o filme conseguiu comigo o que pretendia, ao menos em uma de suas inúmeras nuances. Fiquei pensando na morte numa perspectiva de libertação.


Fiquei pensando também nas incontáveis pessoas que andam por aí tetraplégicas. Mortas do pescoço para baixo. É isso mesmo. Soa estranho. Mas tem muitas pessoas tetraplégicas que nunca precisaram de uma cadeira de rodas. Dotadas de faculdades físicas, intactas. Porém, tão inertes ou mais dependentes que uma pessoa que realmente tenha perdido seus movimentos. Não vou negar que, muitas vezes, eu mesma me senti assim. Mas sem o charme, a dignidade e o bom humor galego de Rámon Sampedro. Para me lembrar dessas coisas, transcrevi o poema que Rámon deixa para a amiga Júlia (Belén Rueda):


Mar adentro, mar adentro,

e na leveza do fundo,

onde se realizam os sonhos,

se juntam duas vontades para realizar um desejo.

Seu olhar e o meu olhar;

como um eco repetindo, sem palavras.

Mais adentro, mais adentro.

Até mais além de tudo,
pelo sangue, pelos ossos.

Mas eu acordo sempre,

e sempre quero estar morto.

Para continuar com minha boca

enredada em seus cabelos.


Dias das mães sem maquiagem

O primeiro Dia das Mães de que me lembro com precisão de detalhes e sentimentos foi em 1987. Naquele ano eu vim estudar em Natal e minha mãe ficara no interior, trabalhando e cuidando de outra mãe, a sua. Eu estudava na 8. Num colégio que tinha um nome pela manhã e outro nome nos horários vespertino e noturno. Minha tia me levou a primeira vez lá, mas faltava ainda uma semana para as aulas começarem, o que me rendeu não ter compreendido muito bem o caminho e no dia real de aula, me perdi e cheguei atrasada. Bom, mas isso não vem ao caso.

O que eu mais queria era poder estar ao lado da minha mãe, naquele domingo de maio. Articulações feitas, ela conseguiu uma carona para eu ir em casa, na sexta-feira à noite. A matemática era simples: eu deveria ir por volta das 18h para uma parada de ônibus do campus universitário, em frente à Residência Universitária. Como eu morava em Nova Descoberta, a empreitada não parecia tão difícil. 17h30 eu já estava a caminho. Não queria me atrasar. Na bolsa, algumas mudas de roupa sujas e o presente dela. Um estojo de maquiagem. Era o presente mais incrível que eu poderia ter pensando para minha mãe. Tinha umas três opções de blush, umas cinco de sombras, uns dois pincéis de aplicação e outra sorte de cosméticos. Era todo vermelho e tinha uma tampa cuja parte interior tinha espelho. Uma beleza. Eu sabia que ela ia gostar porque até onde ia meu conhecimento sobre mamãe, ela era muito vaidosa, mas lhe faltava um estojo daqueles.

Subi a ladeira do Campus com o coração aos pulos. O pôr-do-sol distraindo o meu cansaço. Naquela época tudo parecia muito extenso e distante. O Batalhão de Engenharia era um mundo que espocava de vez em quando em tiros de canhões; o anel viário do Campus um caminho sem fim que levava a outros horizontes. Depois de muito caminhar, cortar ruas, e subir ladeiras, posicionei-me na parada, no banco que ficava de frente para os carros que passavam na mão direita da via. Tinha esquecido de perguntar a cor do carro à mamãe, mas a moça certamente me identificaria. Era essa minha maior crença. Iria rever minha mãe, passar dois dias inteiros em casa, comer feijão branco, brincar com minha cadelinha “Biu” e ainda por cima dar de presente à minha mãe, o estojo de maquiagens vermelho.

Sete horas da noite. Escuro. Poucos carros passavam. Os residentes universitários passavam poucos minutos na parada. Ora carona, ora um coletivo os levavam embora. Apreensão não era a palavra mais adequada. Eu estava apavorada com aquela escuridão, aquele mato e aquele batalhão contra minha pequenez. Eu devia ter perguntado a cor do carro. Eu devia saber direito o nome da moça. Eu acho que ela já passou e não me viu. Eu acho que eu não a vi. Eu estou com medo.

Uma hora e meia depois resolvi voltar à casa que não era minha. A desolação e decepção escorriam pelo meu rosto sardento. Ainda ouvi algumas piadinhas infames dos soldados rasos que ficavam nas guaritas do batalhão. Desci a ladeira com o coração sufocado. Subi a ladeira, do outro lado, que dava para o bairro, com a alma sufocada pela derrota. Minha mãe ainda não teria o estojo de maquiagens vermelho.

No dia seguinte, as pessoas da casa que não era minha, ficaram compadecidas e resolveram me pagar uma passagem. Cedo na rodoviária. Ônibus lotado. Coisa normal já que era véspera do Dia das Mães. Algumas chacoalhadas, apertões e bulinações depois, finalmente eu via o “Bar das Moças”, parada obrigatória na cidade e, finalmente, eu estaria ao lado da minha mãe e lhe entregaria o presente mais incrível que eu pudera pensar em lhe dar naquele ano. Cheguei em casa numa euforia só. Mal abracei e beijei minha mãe ou atendi aos apelos histéricos do rabinho da Biu, eu queria entregar o presente logo.

Ele não estava em lugar algum. Decerto, caiu da bolsa enquanto ela estava no bagageiro apertado e sujo do ônibus da Jardinense. Única explicação. Choro convulsivo. Tanto sacrifício, tanta obstinação, para, no final, minha mãe sequer poder ver como o estojo de maquiagem vermelho era lindo e incrível.

Ela riu. Não tinha nenhuma sombra de decepção em seu rosto. Falou aquelas coisas óbvias que mãe sempre fala, me apertando forte contra o peito, me enchendo de beiijos e falando que tinha cozinhado feijão branco fresquinho. Nunca me esqueci daquele olhar de satisfação. Nunca vi uma pessoa tão feliz por não receber um presente.

Mas, mais de 20 anos depois, ela ainda insiste para eu colocar batom, antes de sair de casa...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Uma mulher no meu dia


Conheci Evânia no ônibus abarrotado de gente de cada dia. A princípio ela era só mais uma pessoa que disputava lugar comigo. Passou a chamar minha atenção quando percebi sua insistência em ser gentil com todo mundo, segurando bolsas, cadernos, distribuindo sorrisos e bom-dias, sem distinção de raça, escolaridade ou vale-transporte. E, claro, sem fazer nenhum esforço para isso. Como descemos no mesmo ponto e nossa trajetória é a mesma até chegarmos nos nossos respectivos trabalhos, um ficando em frente ao outro, a ligação passageira também se tornou pedestre. E mais uma vez aprendi com a Evânia que você pode, mesmo tendo total consciência de sua solidão urbana, não estar sozinho. Ou, ao menos, não ignorar as outras pessoas, como se elas não tivessem suas sombras. Não há um vigia de prédio, de escola, de universidade, um gari que limpa as ruas pela manhã, uma senhora com o filho que vai tirar uma ficha no hospital, a quem ela não dê bom dia nos 8, 10 minutos de caminhada até a casa do “Seu Zé”, seu patrão há 15 anos, de quem ela fala com intimidade filial, e também reclama de suas teimosias.

A última de que me falou é que ele não quer de jeito nenhum fazer um exame tal que vai invadir um orifício tal cuja função, segundo ele, e ela me reproduziu, é de saída e não de entrada. Pois bem, ela vive um dilema. Tem vontade de leva-lo à força. Mas sabe que jamais poderia fazer isso. Assim como não quer que ele sofra com uma grave enfermidade.

Sei de outras coisas da Evânia. É casada com outro Zé. Mora no Jiqui. Tem goiaba e manga no seu quintal. É evangélica, mas adora o cheiro do meu cigarro e sente saudades dos pilequinhos que tomou na vida de solteira. Não é muito vaidosa, só a vi usando brincos uma única vez e fiz tanto alarde que ela enrubesceu ainda mais a pele escura. Foi mãe de Priscila precocemente e dez anos depois veio Mariana. É avó de Juan, absolutamente a pessoa que mais faz o olho dela brilhar e que é capaz de distraí-la a ponto de não cumprimentar algum transeunte na rua, quando está falando nele.

Sinto falta de Evânia quando não a vejo no ônibus. Nossa intimidade já é tanta que já nem faço mais cerimônia em entregar-lhe a bolsa pesada quando a vejo sentada, antes mesmo de dar bom dia. E ai de mim se eu não o fizer. E também já sou amiga da amiga dela, a Lola, que está de viagem marcada para a Noruega e está muito preocupada porque não fala uma palavra em inglês (!).

Na volta das minhas férias, quando nos reencontramos, não podia faltar abraço, beijo e um rosário de novidades. Ela me aconselha, ela torce por mim, ela confia em mim, ela me ouve, ela me respeita, ela é minha amiga. E eu sou amiga dela.

Diariamente Evânia me dá lições de civilidade, humildade, generosidade e respeito ao próximo. Conheço pouquíssimas pessoas como ela, que se comprazem com o bem-estar do outro; que se preocupam tanto com o êxito do seu Zé, da Bia, neta do Seu Zé, do Seu Zé, da Mariana, do Juan, da Priscila, da vizinha que tem três filhos e está desempregada, do pastor da Igreja que ela acha que é ingênuo e tem gente que tira proveito de seus auxílios, do gato que está morto no acostamento, do menininho de 10 anos que ela viu morrer atropelado no giradouro do Cidade Verde. E mesmo assim, ela não perde de vista suas falhas, seus erros, suas necessidades, seus sonhos.

Tenho uma alegria quase eufórica quando vejo Evânia. Porque é um encontro sincero, sem máscaras, sem grandes expectativas. Gosto da nossa caminhada diária pelas ruas de Petrópolis, onde sempre há uma novidade, sempre há um sorriso, um acolhimento no olhar ou nas palavras trocadas. Com Evânia eu reforço dia-a-dia a diferença da leveza entre ser o que é e o fardo de ser o que se gostaria.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Agora um pensamento

Sempre hesito em visitar uma parte do passado. Aquela onde mora meu pai. Talvez por medo de admitir que a saudade, em alguns momentos da minha vida, seja maior que o ressentimento. Talvez por gostar muito do que vou lembrar e, imediatamente, despertar dores de feridas cicatrizadas, cujo maior remédio foram o pó das ruas e os livros que substituíram sua voz grave e sua avidez por me ensinar coisas.

Falar do meu pai não é coisa fácil.

Dia desses um velho amigo me confessou uma depressão súbita quando comparado fisicamente ao pai, por um incauto que não fazia idéia do buraco que abrira em sua alma, depois daquela alusão displicente. Dou graças de que os poucos que conviveram com meu pai - e convivem comigo ainda - são discretos quando percebem as semelhanças entre eu e ele. Certamente a comparação me causaria espanto e medo. Porque nem sempre consigo mensurar o quanto ainda existe dele em mim. Tampouco consigo imaginar o quanto de mim ainda existe nele.

A revelação do meu amigo me provocou uma certa reflexão. Talvez, pela primeira vez, ouvindo uma outra voz que não se reconhece no próprio eco, eu tenha olhado para minhas lembranças. Tenha me sentido igualmente triste e perdida num primeiro momento e no próximo, me vi sem exagerar nas cobranças ou tentar preencher vazios que não voltam mais.

Pensar no meu pai é abrir mão do presente e procurar no passado indefinido, a definição atual da paciência, da compreensão e da inevitável incapacidade de controlar tudo, especialmente os desejos. Durante muito tempo fui uma menina desejosa de colo, de carinho e de lições de vida que pudessem vir mastigadas, para facilitar a digestão. Depois, tornei-me uma moça que gostava de mastigar pedras, cuspir tempestades e cagar rebeldias. Hoje procuro me fartar com minhas próprias necessidades. O desejo é sempre o desejo do outro. E nem sempre dá para ser satisfeito.

Quando lembro do meu pai, a melhor visão que me vem é uma brincadeira que ele fazia de me erguer do chão e me dependurar pelos braços nos caibros do teto de casa. Ele era alto e quando nos uníamos num enlace de segurança e ternura, ambos ficávamos maiores e poderíamos alcançar outras alturas. Algumas vezes ele testava a força dos meus pequenos braços e me deixava à sorte dos meus músculos. Ali, dependurada e livre do seu apoio, num misto de medo, obstinação e crença, eu testava meus próprios limites. E entendia que a liberdade não consistia apenas em ter asas, mas em saber a hora de abri-las ou de repousa-las. Trago essa lição em minhas penas.

Pensar no papai é abrir mão do orgulho da auto-suficiência. É admitir desamparos e assumir desilusões. Quase tão necessários quanto o conforto das certezas. Pensar no papai é não pisar em terra firme. É assumir que a solidão, às vezes, é insubstituível. É voltar aos caibros da velha casa, testar a força das minhas asas, descobrir habilidades na tolerância e traçar minhas escolhas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Los Hijos

Sábado. 6h: despertador.Três horas e meia de sono. Saldo: cabeça zonza e lembranças de uma conversa tão acolhedora que valia até ressaca. 7h: ônibus. Em um dos semáforos, dois hijos do mundo. Ele: cara de palhaço. Malabarista. Uns 26 anos. Ela: cara de índio. Pele bonita. Caixinha na mão. Barriga de uns quatro meses. Uns 22. Mais dezenas de semáforos adiante. Não sinto sono. Sinto preguiça.

8h: trabalho. Faxineiro reclama de vida dura: “Gosto de trabalhar, mas me matar não”. Sinto-me irritada. Tenho sede. Bebedouro vazio. Não quer trabalhar, dê o lugar para outro. Penso, em dizer pra ele. Digo para mim. Sorrio com certo ar de cumplicidade. Mas continuo irritada. Ele não traz logo a água. Passa vinte minutos para repor o garrafão. Ao menos o café estava muito bom. Nada como o primeiro cigarro. Penso na “bananinha” e na “vitaminha” e na “torradinha” que recusei. Penso que poderia ter feito depilação na quinta. Penso no livro chato de contos que preciso ler. Penso e nada faço. Leio o script de duas linhas e que deverão nortear a encenação do dia.

8h30: vou para o circo. 13h30: volto do circo. O cansaço sumiu. A irritação aumentou. A fome aponta. Os dedos pisoteiam os teclados, narrando o espetáculo que será lido por alguns pares de olhos só no dia seguinte. Tanto alarde. Tanto tempo perdido. Penso no quanto poderia ser bom um cigarro. Abstraio. Não dá tempo. Pelo menos dois pares de olhos esperam as primeiras 32 linhas do quadrado imperfeito a mim oferecido. É só o começo. 105 linhas depois, quatro fatias de pizza: muzzarela, catupiry, frango, frango com catupiry. Pizza solidária. Saldo negativo na carteira. Não sobrou nem a moedinha da sorte. Meio da tarde.

15h22: caroninha amiga. Quase perfeita. Ainda tinha o ônibus de volta. Pessoas com sacolas de supermercado. Ônibus enumerados. Pessoas sobem, outras descem. As sacolas se vão. Nem um puto na carteira. 15h50: o homem com cara de palhaço e a mulher cara de índio surgem na parada. Reconheço-os. Têm o desprendimento e a felicidade melancólica da alma de artista. Tão estranhos e tão próximos. Hijos del mundo. Malabaristas da própria fome, do desejo e da liberdade. Invejo-os. Ela fala alguma coisa com alguém do meu lado. Está realmente grávida. Barriga protuberante num corpo que ainda teima em ter cintura. Tem uma beleza estranha. Uma cara e um nariz alongados. Boca pequena. Olhos grandes e uma sombrancelha grossa. Pele bonita. Ele é 15 centímetros maior que ela. Músculos evidentes num corpo magro. Suas asas são mais aparentes. A tinta da cara não tem nenhum resquício de suor ou desbotamento. Até parece que nasceu assim. Vejo-os ir embora do mesmo modo com que chegaram. Fazendo perguntas, conversando, interagindo. Ele distrai o motorista, ela entra pela porta traseira. Caixinha na mão. Não tenho sequer a moedinha da sorte na carteira.

16h: vejo-os pela primeira vez. O maior pode chegar a 17. O menor a 12. Muito embora pareçam bem mais velhos que eu e que a simpática senhorinha que joga conversa fora comigo, enquanto descobrimos que vamos para o mesmo destino e que o ônibus, como sempre, demora a espera de uma eternidade. Eles passam, seguem em frente. Hijos da puta madre. Hijos do pai ausente. Hijos do odor dos bueiros. Hijos da nike falsificada. Hijos do noticiário policial. 16h17: nem um puto na carteira. A bolsa com o PC pesando dez quilos nas pernas cansadas. Eles estão de volta. A poucos metros, o menor deles quebra uma garrafa no acostamento e aponta na direção dos que só esperam uma porra de um ônibus passar. Nem um puto na carteira. Minha alma pressente a guerra. Minha alma se enfurece e se amedronta de uma maneira quase nunca sentida.

Corre Lola! Corre calçada abaixo; ultrapassa o sinal fechado. Grita Lola! Cala, Lola! Pede ajuda com os olhos, o coração aos pulos, o sangue sumindo. Balança as pelancas dessas pernas semi-mortas! Desperta Lola da pasmaceira das academias. Levanta os joelhos Lola e corre sem olhar para traz. São os hijos da puta madre de sal que não ti pariu! São os hijos da escória que não pediram para nascer dos bueiros. Eles vão te devorar se você não correr.

E eu ainda não consegui chorar. De raiva. Por medo. Por remorso. Por incompetência. Nem mesmo quando lembro da simpática senhorinha que sequer tive tempo de me despedir, de pedir desculpas pelo meu súbito instinto de salve-se quem puder! Penso nos outros que não lembro do rosto e que ficaram. Penso na guerra silenciosa das ruas. Nos olhos embotados de ódio e desprezo do menino da garrafa. Revivo em pesadelos aquele pedaço da vida urbana.

Minha mãe diz que foi graças às suas orações e a ida à Igreja aos domingos. Penso na guerra que começou às 6h do sábado. 23h47 do domingo. Minhas pernas ainda doem muito. Acendo o último cigarro. Minha alma ainda pressentindo perigo.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Carta aberta à chuva


Olho pela janela e vejo milhares de casinhas turvas, um pedaço do mar cor cinza claro, a ponte de nós todos envolta em névoa, tão sem rumo, feita de extremos. É a chuva tomando conta da paisagem. Sinto como se fosse um retrato meu. Uma imensidão de elementos, nem sempre conexos, nem sempre visíveis, detalhes que se perdem, outros que se intensificam. Nada muito definido. Só depois da chuva é que se pode ter a real dimensão dos fatos.

No dia da enxurrada, saí de casa minutos antes pela manhã e fazia sol. De repente, estava quase sendo tragada pela força daquele mundaréu de água, o vestido encharcado, os pertences desbotando, a alma umedecida pela impotência, o coração naufragando em espanto, medo e respeito pela natureza das coisas. Ainda tenho dúvidas se não morri naquele dia. Ainda tenho dúvidas se não sou agora uma alma errante, à espera da redenção ou do castigo.

Uma tristeza profunda tem insistido em mim desde então. Uma tristeza que não tem crime nem culpados e, portanto, sem explicação. E, quando não há culpados, o vazio é tanto que às vezes é preciso dar atenção para o pedaço que está faltando para se compreender o inteiro. Devo confessar que não é uma das melhores sensações. Foi a chuva naquele dia que me trouxe a dimensão da minha paisagem. Eu ali, tão pequena, tão insignificante diante do pranto da cidade. Quase envergonhada por aceitar o quinhão de buracos e crateras que se abriam nas minhas costelas.

Não dá para confessar o inconfessável. Há um lugar onde as palavras não chegam. E aí os gestos ficam mais lentos e mais pesados, os cílios carregados de sal. As páginas insistem em ficar em branco e a poesia dá lugar ao tempo fechado.

Às vezes é preciso desapegar, despertencer. Deixar simplesmente que a chuva arrebente as comportas. A chuva atravessa em mim e segue seu caminho.