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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Resquícios

Reprodução: Edward Hopper (Summer Interior)
Depois que ele escorregou
De dentro dela
Percebeu que uma fina
Lâmina de desejo
Ainda pulsava
E ansiava por seus beijos

Depois que ela
Partida ao meio
Forte e frágil ao mesmo tempo, sentiu
Ele escorregar de dentro
Abriu a boca
E ouviu o mesmo som e o mesmo grito

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Eu guardo:

Os poemas que nunca foram rabiscados durante a madrugada, tampouco em outras horas. A receita de bolo de cenoura da minha avó. A reverência quase pueril pelo alvorecer. A distância necessária da palavra “adeus”. A distância provisória da palavra “talvez”. E a distância pendular da palavra “para sempre”. Livros. Sapatos. Bilhetes. Óculos. Folhas secas. Papéis de jornal e poemas alheios. Guardo também a vacina anti-rábica dentro da gaveta do ressentimento. E a última gota de perfume que me lembra o verão de 2002. Algumas fotografias que amarelam meu passado e tornam brancas minhas páginas. Guardo poucas coisas na memória. Só as que fazem rir e as que fazem doer, são mais fortes que o esquecimento. Guardo pó de estrelas, só para não esquecer que dentro de mim vive uma criança. Guardo a esperança. O respeito. E o desprezo pela inveja, pela mentira e pela deslealdade. Guardo palavras como quem guarda filho na barriga. Guardo cigarros escondidos em vários cantos da casa. Guardo cheiros. Chuvas. Fantasmas. Espíritos da floresta. Jarrinhos de flores e os bigodes do meu gato. Todas as cartas que nunca me mandastes. O silêncio que ensurdece as paredes da minha boca. O frio quando tuas mãos estão longe das minhas costas. A calcinha molhada pelo desejo contido. O gesto daquele garçom que olhou como se quisesse esvaziar, ao invés de encher o copo. O segredo de meia-dúzia de amigas contemporâneas.

E guardo também o domingo, porque no fundo no fundo, todos carregamos culpa cristã.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O contador do tempo II

O ponteiro pequeno quase apontado para o sete. O grande apontando para os 45 minutos do próximo tempo, das próximas horas, da hora do jantar. Do banho quente. Da chegada em casa.

Depois de anos a fio, sem rumo e sem lenço, comprei um relógio. Decisão sem grande arroubos ou significâncias. Comprei e pronto. Comprei e só. “Dez reais. Se a pilha acabar, me avise que coloco outra”. Foi o que prometeu a moça simpática que sempre ronda o trabalho à tarde, cheia de sacolas com muambas. Ele até que é um falsinho simpático, após o necessário ajuste para poder se encaixar no braço fino. Os detalhezinhos dourados em pelo menos 15 dias deverão ficar foscos, sem cor. O que me será bem mais aprazível. Nada mais ridículo que um falsinho com ares de exuberante. Se é para ser falso, que ao menos seja discreto. Por favor!

O mais engraçado é que continuo não gostando de relógios. E, provavelmente, não mudarei de idéia. Nessa altura do campeonato alguém pode pensar que eu gastei, portanto, dez reais à toa. E estará certo. Mas é uma conclusão que eu chego sem grandes arroubos ou significâncias. Não gosto, gastei e pronto.

Para demarcar a minha solidão, prefiro mil vezes o silêncio das horas à necessidade de um falsinho simpático me tagarelando segundos no pulso.

Olho no relógio. Desde que comecei a escrever essa crônica, dentro do ônibus, sob olhares curiosos, já se passaram oito minutos.

Cruzes! Já estou quase justificando essa compra ordinária. Acho que é hora de parar de contar o tempo e voltar ao abandono das minhas escolhas incertas e nada redondas.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pedaços do que se parece comigo

Fui lá no Entremundos (às vezes sinto falta de mim mesma, nesses outros mundos que me habitam). E garimpei algumas coisas escritas há um ano. Ei-las:

Poema em pedra

Eu tranco a porta / Eu não abro a janela / Vejo melhor no escuro / O chão é frio / Escuto a rua / Escuto a música / Ela não fala de amor / Atendo o telefone / A voz do outro lado chora / Eu não choro mais / Digo coisas sem sentido / Disfarço o despreso que sinto pelas canções de amor / Eu tiro a roupa / O ar é frio / Disfarça a chuva que está por vir / A janela chora lágrimas finas / Eu não choro mais por amor / Despreso telefones que tocam sem sentido / Eu abro a porta / A rua é escura / Escuto o vento / Ele bate no corpo nu / Escuto o carro que corre na rua / Ele bate no corpo parado no meio da rua / E entra pela porta / O rádio ainda toca / Agora uma canção de amor / Fala de despedida.

publicado em Entremundos em 12/06/2007

buquê de fantasias II

sorvo as entrelinhas
como quem furta as palavras
escondidas nos
teus pensamentos
delas extraio pedra escuridão e pó
volto pra toca

empanturrada de espinhos
e cheia de versos sem cheiro

em 06 de 06 de 2007


Chuva

tão fina que cortava a pele em
mil e um sentimentos

e foi deixando a rua
com um brilho melancólico
e um cheiro de passado

pedaços de lembranças
que escorriam em mim

31 de 05 de 2007

Um pensamento bom

Acho que isso ocorre com todo mundo. Mas, como é muito mais fácil falar do meu mundinho particular, de vez em quando me deparo com um devaneio se descortinando em realidade. Penso num filme e, dois dias depois, dou de cara com ele numa prateleira, na casa de alguém ou sendo exibido na TV. Só para citar um exemplo. Mas acontece também com amigos distantes, livros que já li, gostos que nunca esqueci e cheiros que me trazem recordações.

Domingo passado, enquanto via a chuva cair no meio da tarde, me percebi pensando no Paulo José. Ator gaúcho que fez 71 anos em março passado e que eu gosto tanto, nem sei bem por quê. Talvez porque foi casado com a dona dos olhos mais expressivos da televisão brasileira, a Dina Sfat. Talvez porque tenha uma voz macia, que me acalma. Ou porque é inegavelmente um grande ator e ainda por cima, gosta de poesia desde muito pequeno, embalado pelo encantamento de sua mãe pelas letras. Teve até um quadro no Fantástico sobre isso.

Pois bem, eu pensei no Paulo José. E ontem, zapeando minha TV de 29 polegadas, lá estava ele no programa Revista do Cinema Brasileiro, do Canal Brasil, sendo entrevistado pela Júlia Lemmertz que, a julgar pelo nome, deve ser filha da Lílian Lemmertz, atriz com quem ele e mais o Paulo César Pereio, a Ítala Nandi e o Fernando Peixoto, entre outros, criaram em PoA, o Teatro de Equipe, em 1955.

Ele descobriu a doença em 1992. E ontem, pude ver que o Mal de Parkinson dá cada vez mais seus sinais. A voz macia sai meio embriagada. As mãos pulam desajeitadas de um lado e outro. E, às vezes, parece que o corpo resiste aos comandos. A Júlia foi carinhosa, atenta e aprendiz todo o tempo. Paulo José parecia um bambu ao vento. Numa combinação de fragilidade e firmeza. Resignação e resistência. E eu podia sentir aquela brisa na minha casa, invadindo minha existência anônima. Tocando-me tão ferozmente quanto os pingos da chuva da tarde no dia anterior. E fiquei grata aos meus bons pensamentos. Quisera poder ser sempre assim.

E, em certa ocasião, numa entrevista para uma revista de circulação nacional, em 1998, quando a doença foi se tornando mais pública, teria dito: “Os melhores artistas são aqueles que têm alguma limitação a ser superada”.

Não sou artista. Os pudores e a reverência à arte me impedem de trazer para mim tal predicado. Mas sou ciente de muitas limitações. O que me aproxima do que ele disse. Quase me tornando íntima. Quase como se me fosse permitido sentar no sofá de sua biblioteca e, ao lado dos dois, pudesse também ouvir sua voz macia, tomando uma xícara de chá e sorvendo toda aquela sabedoria e generosidade.

Quisera poder só pensar em coisas boas. Mas minhas limitações existem e são bem mais reais.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O contador do tempo


Um relógio na parede tece as horas. Dita as regras do tempo de fervura da água do arroz, do feijão, conta os dez segundos que o forno leva para ser abraçado pelo fogo. Um relógio na parede deveria ter a função de tecer as horas; de velar o silêncio das janelas e observar a empreitada das formigas indo de um lado e outro, carregando os provimentos antes da chuva.

Mas o dono do relógio não pensa do mesmo jeito. Ele prefere tecer o tempo em um labirinto de fervuras que não estão nas panelas, e sim na ausência de horas. No vácuo entre um pensamento e outro. No intervalo da palavra que nunca é dita. No medo de que o tempo o vá libertando a tal ponto de que ele possa criar asas. E o ponteiro dos relógios não sejam mais setas apontando-lhes a ferida. Somente braços que o esperam, gentilmente, de volta para casa.

Minha infância (Parte I)

Minha infância tem cheiro de jasmim. Acordava com aquele cheiro escapando pela janela. Vinha da casa da vizinha. Mais precisamente do muro dela. Eu achava o cheiro mais incrível do mundo porque vinha de umas florezinhas tão simples, tão discretas. Era diferente do pé de sabugueiro que tinha no pomar. Lá, davam muitas rosas. Mas não cheiravam tanto. Minha infância tem catapora estourada e o pior Natal da minha vida. Estava de férias, longe de casa. Começou com uma febre que não terminava nunca. Dez dias. Quase fico surda de tanta dor no ouvido. Aí minha avó liga e diz, “dá chá de sabugueiro para essa menina que a catapora sai”. Não deu outra. Mais uns dez dias de cama. Ventilador em cima para aliviar a pele queimando e estourando em pústulas roxas. Paninho para roçar na pele e aliviar a coceira. Saudades da minha mãe. Não dava para ir, também não dava para ficar. Criança não devia sofrer. No máximo levar topada e ralar o joelho. Guardo até hoje uma cicatriz na coxa daqueles dias difíceis.

Minha infância tem vovó me balançando na rede. Cantando músicas de duplo sentido, numa época em que havia inteligência no duplo sentido. “Bem feito quem foi que te mandou, tu botar a mão no buraco do tatuuuuuu”. Era essa minha canção preferida. “Canta vovó, a do tatu”, pedia sempre. Aí, pouco depois, ouvia a reprimenda da minha mãe: “Mamãe, não cante assim. Ela vai aprender essas coisas”. E a minha avó ria e dava uma piscadela cúmplice. Minha infância tem cheiro de avó companheira.

Não tínhamos TV em casa. E a da vizinha era em preto e branco e tinha uma tela multicolorida. Deixava a roupa amarela, o pescoço verde e a cara lilás. Eu achava o máximo. Não tinha pitoco de acionar, nem luzinha vermelha. Para passar de canal, era preciso girar o botão, mas sem colocar muita força, porque poderia quebrar, claro. Eu, raramente mexia na televisão alheia. Tinha um certo fascínio por aquele objeto distante da minha realidade durante o dia. Só fazia parte à noite. Adorava as novelas. Beijava as bochechas da minha mãe com força, imitando o beijo apaixonado de Cacá e Júlia (Sonia Braga e Antonio Fagundes), em Dancing Days.

Minha infância tem medo de disco voador. Tem muitas estrelas no céu. E tem padre Zezinho, falando com os ouvintes ao meio-dia. Antes, tinha a Patrulha da Cidade, com Nice Fernandes, geralmente encenando a mulher espancada pelo marido. O rádio me ajudou a imaginar as coisas. Não lembro a primeira vez em que vi um rádio. Mas lembro a primeira vez que vi TV, Som System Sounround, celular, nunca mexi num MP3, P4, P8. Minha infância tem cheiro de inocência, a tortura da tabuada dos sete e oito, as cocadas compradas no fim de tarde. A tapioca com coco que a minha avó fazia; minha mãe chegando do trabalho às sete; tem cheiro de miolo de pão, roubado na trajetória da bodega até em casa. Certa vez, minha mãe notou. Não tive coragem de confessar que aquele buraco tinha sido feito pelos meus dedos. Foi pior. Ela achou que era rato. Ficou uma fera. Suspendeu o pão naquele dia. A vergonha e o medo da confissão foram maiores que a precisão da verdade. Naquele dia, comi banana d’água cozida. Não era como o pãozinho assado, mas também tinha cheiro de mãe, de café-da-manhã da infância e de barriga satisfeita.

Minha infância tem cheiro de gibi: Aventuras Marvel; Walt Disney; A Turma da Mônica; Aventuras do Didi – Bonga o vagabundo trapalhão – era tão deprimente aquilo. Talvez a chave da minha eterna melancolia tenha sido confeccionada naquele tempo, com aquele personagem. Minha infância tem um ar de distância, coisa antiga. Século passado. Um abismo separa meus 34 anos para quem tem 24 hoje em dia. Não sou filha da tecnologia. No máximo prima, que chega devagar e vai compreendendo, mas sem se misturar muito. Não sou refém da tecnologia. Mal sabia usar um Atari. E só fiz isso na adolescência, sem achar muita graça. Preferia as queimadas no meio da rua. Preferia desenhar em dias de chuva. Preferia ser criança e ficar em dúvida sobre o porquê que a minha mãe não queria que eu ouvisse minha avó cantar, aquelas canções tão bonitinhas do tatu.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Para o dia de hoje (ou um simples exercício de bem-querer)

Que o espaço entre a pele e a roupa seja
um subterfúgio para o toque

que o calor de uma chama de vela
seja menos intenso que o calor de um olhar

que a casca não sufoque a polpa
e o doce seja livre das culpas

que a intimidade revele toda a indiscrição
e não sinta vergonha por isso

que o espinho não tenha a mesma ansiedade das pétalas
e, firme, aponte para dias menos efêmeros

que o amor não seja uma revelação ou um acontecimento
e que esteja mais para anos de observação e respiração,

das infinitas possibilidades de querer bem.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

lado a lado b


uma chuva no meio do dia -
lado negativo: sapatos molhados; sombrinha quebrada; bolsa encharcada; cabelo nem se fala.
lado positivo: as borboletas tiram férias; as lesmas saem para balneário de água doce; as poças brincam com os sapatos e os pingos de chuva ensaiam passos de balé com o vento.

uma chuva no meio do dia -
lado negativo: chuva molha e dá frio
lado positivo: caroninha amiga surpresa; a ponta do nariz faz contatos imediatos com uma bochecha quentinha. de repente, abençoada seja a chuva, que traz surpresas, gentilezas e o calor da boa companhia.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Bernardo, eu e nossos encontros

Confesso que estou num momento de ausência. Sequer a vontade ou a angústia transformam-se em combustível para colocar algo aqui. E não lamento por isso. Lembro de uma vez que o Pablo me falou que diante do divino, diante do incomensurável, calar-se é o melhor caminho. Desde então, julgo o silêncio minha religião. Mas, essa semana tive um encontro que mexeu com esse vazio. Insisto, não houve nenhuma pretensão de preenchimento. Muito pelo contrário. Permaneceu intocável o caos.

Eu estava caminhando pela manhã fria da quarta-feira, chegando perto do trabalho, em Petrópolis. E ele vinha do outro lado da rua. Aparentemente da parte baixa da Ribeira, esbaforido, meio assustado, perdido. Lembrei-me imediatamente do cachorro Benge, dos filmes da sessão da tarde da minha infância. Mas ele era um pouco maior, mais acinzentado e sua pelagem absolutamente desgrenhada lembrava a cabeleira de um cantor de reggae. Diminui o passo para observá-lo e ele me olhou. Imediatamente atravessou a rua e veio em minha direção. Parei no meio da calçada, quase obediente. Quando chegou bem perto e se sentou do meu lado, trazia uma fina corrente atada ao pescoço e visivelmente partida ao meio. Era um fugitivo. Um libertário.

Passamos pouco mais de três segundos naquele movimento inerte de cumprimentos e revelações silenciosas. Ele no seu mundo andarilho, em busca apenas de uma pequena pausa em seu percurso; eu, no mundo de obrigações com os ponteiros. Segui meu caminho em direção à portaria do jornal, ele em direção ao vento, quem sabe.

Tenho predileções por crianças, bichos e velhos. No mundo deles, sempre há uma conexão mais clara e límpida com o divino. E com o meu silêncio também. Encontrar-me com Bernardo (ele tinha cara de Bernardo) trouxe à tona os meus abandonos e as minhas prisões. Invejei aquela liberdade. Lamentei minha falta de coragem de não seguir em frente ao seu lado. De não quebrar minhas próprias correntes. Disse adeus sem olhar pra trás, para não correr o risco de me transformar em nuvem.

Ontem, enquanto falava ao telefone no teto de cobertura do meu outro trabalho, depois de várias tentativas de encontrar "sinal" de vida das torres das telefonias celular, olhei para baixo e lá estava Bernardo. Andando na calçada da Ulisses Caldas, no coração do centro da cidade. Tive a sensação de que olhou para cima e me reconheceu. Sentou-se calmamente por uns três segundos como se de novo estabelecêssemos nosso contato ulterior e seguiu seu rumo.

Vi que já não arrastava nenhuma corrente no pescoço. Fiquei contente por ele. Dei meia volta e desci as escadas, achando que ainda nos encontraremos.