Google+ Followers

terça-feira, 29 de julho de 2008

Carta a Orfeu


meu querido Orfeu, eu sei, eu sei que eu deveria estar te esperando até hoje. e ansiando para ouvir de novo tua música e sentir a ondulação do meu corpo com o toque da tua flauta. mas agora, depois de tanto tempo, acabei me acostumando com toda essa escuridão de notícias e me libertei das adivinhações que não me foram contadas por uma cigana hindu. porém, meu eterno querido, só me restou uma pergunta, embora saiba que você volta com a bagagem cheia de tantas recordações, e postais, e partituras, e CDs da Nina Simone e Bossa Nova em geral: será que quando a gente se esquece de limpar a poeira das frestas, a sombra se torna maior que a luz? será que quando a gente tem tanta pressa, se esquece que os passos devem vir antes da caminhada? a verdade, é que enquanto você esteve fora pude realmente entender a organização do lar de Hades e Perséfone. e não os tiro a razão. Cérbero vive lá em casa agora. aprendeu a controlar seus impulsos e descobriu a verdadeira função de um guardião: respeitar a liberdade dos outros. sendo mais simples, ele entendeu o direito de ir e vir das pessoas. inclusive o dele próprio e, de vez em quando, sai para passear com Pégasus. Caronte também andou revendo seus conceitos e anda menos estressado com o silêncio da inevitável despedida. começou a pintar quadros de paisagem pra relaxar. você acha tudo isso muito estranho? ficou desapontado? fique não. o melhor remédio para uma decepção é o tempo. assim como para outras coisas também, meu querido. além de perdoar, o tempo também é capaz de esquecer. de apagar. até mesmo de transformar o mais belo som, numa simples e fugaz lembrança.

Eurídice

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Na cozinha

Dois pratos. Dois copos. Quatro talheres. Uma bandeja. Mais um prato que surge por entre os corredores estreitos da mesa e o fogão. Aqueles objetos compondo o terreno da pia. A água da torneira escorrendo num filete. Ela coloca uma porção generosa de sabão neutro na bucha. As mãos pequenas e um tanto ásperas se entregam ao serviço prosaico de esfregar, deslizar, enxaguar, esfregar, deslizar, enxaguar. Absorta, não se sabe se na própria tarefa ou em outros pensamentos silenciosos, cumpre o ritual como se fosse sagrado.

É despertada por uma voz grave e quente, que cantarola algo incompreensível, bem rente ao ouvido. Duas mãos largas, com veias pulsando, a envolvem no vão entre a cintura e o quadril e recebe de presente, na parte mais carnosa do corpo, o volume petulante, que parece pronto para atravessar montanhas, se espalhar em rios. Não é perigo, não é morte, mas ela sente que alguma fera ronda sua tranqüilidade doméstica.

O que fazer? Fingir-se de morta? Contra-atacar? Qual revide mais adequado? Ignorar ou virar-se repentinamente e entregar a boca àquela língua que passeia pelo pescoço e deságua no ombro? Não há muito tempo pra pensar. Nada de quebrar copos ou espalhar guardanapos pelo chão. A dança é selvagem, mas os movimentos são quase ensaiados. Há um encaixe perfeito de pernas e as mãos passeiam entre pescoço e dorso e nádegas. A mesa poderia ser adequada, mas a cadeira está mais próxima.

Ele senta primeiro. Ela, como se estivesse prestes a tomar uma cerveja num boteco senta-se no sentido inverso do dele. No movimento, é atravessada pelo desejo físico e molhado de ser mulher e ter uma cartola mágica engolidora de fogo. Primeiro, sente o calor do encaixe sem nenhum movimento brusco. Como se espreitasse a fera antes de partir para o embate. Depois, já dominada, sucumbe e surpreende. Revira-se, estremece, morde, busca, prende, tira, sai, quer mais, quer mais. Matando outra fome.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ante-sala

Todos os dias venho aqui e me visito.
É como se tivesse um encontro marcado e, estivesse incomensuravelmente atrasada. E mesmo assim, ainda houvesse a esperança de ele estar lá. Sentado, lendo um livro quem sabe, absorto na leitura, relaxado a tal ponto que nem vira o tempo passar, nem estava à espera de fato e sim na esperança de não estar mais sozinho. E aí eu chego.

É por isso que todos os dias venho aqui. Dar de cara com a minha esquisitice. Com a cara (des)lavada de sempre. Porque sei que não é a explicação o mais importante. O que me importa é a essência.

Sinto falta de mim nos últimos dias.
Sinto falta das palavras que me escapam pelas brechas do pensamento sempre ocupado. Não estou reclamando. Mas seria leviano negar a mim mesma que lamento.

O tempo tem se pintado em preto e branco. As cores chegam apagadas e sem vida no fim dos ponteiros. O sono e a lucidez têm tomado o espaço do sonho e da fantasia. Tenho guardado a poesia em cartas que jamais serão escritas, quiçá enviadas.

Alimento-me do verbo dos outros. Escrevo nos poemas abertos do Moacy; na loucura quase invisível, pela razão, do José; na poesia encantada do olhar do Carito; no mundo virado ao avesso do Crico; nas confissões noturnas do Mário Ivo e nas fábulas urbanas do François. Só para citar alguns. Só para falar de flores, suor, gozo e espinho.

Todos os dias venho aqui e os visito.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Identificação


O som polifônico desperta-me da penosa concentração conquistada há poucos minutos. Olho o visor do celular e vejo um "Número Confidencial". Coisa rara hoje em dia. Mas não menos irritante. O identificador de chamadas de um celular indica também quem é bem vindo em sua agenda. Quem é necessário. Urgente. Útil. Íntimo. E quem você não quer atender. Ninguém jamais, em tempo algum, deveria burlar a lei do direito à classificação do celular.

Mesmo contrariada atendo à chamada:

- Mãe, sou eu! A voz do outro lado era um misto de aflição e carência.
- Hã? Balbucio incrédula.
- Mãe, sou eu. Diz apressado.
- Você ligou errado, viu. E desliguei impaciente.

Não dá nem cinco segundos, o mesmo toque inconveniente e a mesma chamada clandestina:

- Mãe, sou eu mãe! Fala como se agora sim, estivesse certíssimo do que faz.
- Eu não sou a sua mãe! Respondo, irritada e continuo: - Como é que você não sabe decorado nem o telefone da sua mãe. Você não tem vergonha disso não? Menino!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Pelos Dias

Será a vida ora um recolher de momentos alegres, suaves, doces, ora um amontoado de dúvidas, conflitos, angústia? Talvez. Muito mais ou um pouco menos, quem sabe. Tenho tido dias atribulados. Elaborando frases curtas, certeiras para ganhar tempo. E deixando uma série de palavras pontiagudas, alojadas nas paredes do estômago. Porque simplesmente não sei como tirá-las de dentro.

É certo que é na multidão onde nos sentimos mais sozinhos. É certo também que, muitas vezes, somos ilhas isoladas tentando entoar alguma música que faça sentido, no meio do ruído louco das máquinas e dos homens.

Mesmo assim, gosto de andar no meio da rua, ouvindo meus pensamentos e ao mesmo tempo observando os passos alheios, espreitando os bueiros, driblando os carros, disputando tempo e espaço com os semáforos, contando passos, distraindo sonhos, roubando segundos antes da próxima tarefa.

E é nesse exercício que me encontro com a euforia e a tristeza dos outros. E me vejo diante do espelho. Mesmo que às avessas. Na mulher sentada na esquina da Rio Branco com a Ulisses Caldas, sempre com o braço estendido para cima, em busca de algo, balbuciando alguma oração aos que passam rápido e negando sua existência, dou de cara com a indiferença. Ou talvez com a vergonha de nos sentirmos impotentes diante da miséria alheia.

Embora com disfarçado desinteresse sempre dou uma olhadela no bebum do camelódromo, à procura do seu galanteio. Está sempre sorrindo para quem passa, como se a embriagues pudesse suavizar também a ansiedade de ser compreendido. É como se algum olhar que se encontra com o seu, pudesse lhe devolver a cumplicidade que perdeu da mulher e dos dois filhos que não vê desde que se mudou para a rua. Construo essa imagem da vida daquele homem por absoluta necessidade de dar nome e sentido ao desconhecido. Uma característica – ou falha – humana que me é inerente.

Meus Deus! Não posso me esquecer de falar da perda da inocência e da ternura da infância que tem chegado cada vez mais cedo nas esquinas por onde passo. Quantas e quantas vezes, desde que fui tomada de assalto e vi meu coração vazado pendurado no pescoço sendo arrancado por dois meninos ainda imberbes, não me deparo com o medo paralisado de reviver aquele triste ato. E não importa se surgem diante de mim outros dois meninos. Ou se é um rapazola ou um bando deles. O teatro dos horrores volta à minha mente, rouba a cena, atordoa meus passos, entrecorta o ar cheio de buzinas que entra nos pulmões. Tenho ímpetos de correr e de pedir perdão por eles, já vendo a iminência de um novo assalto. Sinto vergonha e raiva dessa neurose urbana.


Em dias de chuva sinto saudades do mar. Tão perto e tão longe. Sinto vontade de temperar o corpo com o sal e segurar o sol com os braços do vento. Será a vida ora um recolher de momentos alegres, suaves, doces; ora um amontoado de dúvidas, conflito, angústia? É bem possível que sim. Basta estar atento.

Bom, saí do jejum. Sinto-me estranha mesmo. Essa crônica será publicada no próximo domingo em O POTI.