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domingo, 31 de agosto de 2008

O peso do fio

Uma hora o peso da bolsa pendurada no ombro distribui seus tentáculos para outras partes do corpo. Um salto para chegar até a alma. É incrível como uma bolsa pesada pode refletir tantas outras coisas na vida de uma mulher. Ao menos em algum momento de sua vida, aquilo que aparentemente é útil e necessário – carregado para todos os cantos - passa a se tornar um fardo. Apenas um acumulado de coisas, escapando pelas fendas do cansaço. Transformando-se em pontos que interrogam se valem ou não à pena serem carregados. Uma bolsa não é só uma bolsa quando nela ficam entulhados excessos de silêncio, desatenção e fios de cabelos perdidos no pente. Afinal, qual a valia de um fio de cabelo solto dentro de uma bolsa? Qual a valia de uma palavra presa por entre os dentes? E que adiantam braços frouxos? Se o peso já chegou às pernas e tem escorregado pelas horas como um ponteiro quebrado que parte para lugar algum? Desculpem-me senhores e senhoras, não dêem tanto peso às perguntas, tampouco se preocupem com as respostas. O remédio eu já sei. É desapegar dos cabelos.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Era para ser um poema...

Tive dor de barriga esses dias. Braba mesmo. Cinco idas ao banheiro durante a noite e um saldo de cansaço e olheiras profundas despontando antes da chegada do sol. Dor de barriga – e suas implicações - é uma coisa estranha porque provoca um esvaziamento involuntário. Você ali querendo entender o porquê de tanto esforço do corpo de querer expelir tudo, até quase as vísceras. Minha alma fica cansada de tanto querer entender. E fico sonhando com o bem-estar da normalidade, em sua grandeza de detalhes tão pouco percebida no dia-a-dia.

Quando fico doente, fico nostálgica também. Lembro de coisas antigas e dispersas que eu já nem sabia que existiam dentro de mim. Das vezes em que brinquei no quintal com a bicicleta de pneus furados e que mesmo assim quase me levava aos céus. O calor se materializando em gotas pelo rosto, afogueado muito mais pela emoção da corrida do que pelo castigo do sol. “Vem pra dentro, menina. Você vai ficar gripada com essa brincadeira sem fim”, dizia minha mãe, quase que entoando um mantra, por horas seguidas.

Às vezes, sua razão fazia pacto com o acaso. E eu adoecia.

Umas semanas atrás eu tive um outro piriri. Ela advertiu. “Você tem de ir ao médico. É verme”, pré-diagnosticou. Dei de ombros. Fiz exames recentes. "Tudo OK”. Deixa pra lá. É estresse, pós-diagnostiquei.

Ao saber que o piriri tinha voltado e dessa vez com a intensidade da tsunami do mar asiático, a razão vencedora deu lugar à solidariedade. Ela não só catou o remédio no armário que promete repor a flora intestinal, como veio me recepcionar com um copo de água na mão. Aquilo me consternou. Razão de mãe não é razão revanchista que tripudia ou se envaidece. Razão de mãe é uma coisa assim que cuida, e que nem queria, na verdade, ter razão.


PS.: Eu estava pensando em fazer um poema e que não tinha nada a ver com esse texto que acabou saindo... Coisas de quem sofre as seqüelas do segundo piriri em duas semanas...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Bicho acuado

- Ei, moça, desculpe incomodar, mas você comprou essa bolsa aonde?

A interpelação brusca me tirou do silêncio e da solidão urbana, debaixo do sol escaldante e de uma parada de ônibus que só é parada de ônibus porque as pessoas ficam lá esperando dezenas de minutos um ônibus que uma hora vai passar. Nem tenho muito tempo para responder porque ela desata a falar.

- Ela é grande. Preciso de uma bolsa assim, grande. Onde caiba tudo. Se meu filho me visse assim – mostra um saco plástico com coisas dentro – ficaria uma fera. Eu tenho um filho sabia? Quero muito bem a ele. É casado. Funcionário da Petrobras. Ganha um dinheirão.

Meneio a cabeça. Bicho preso na coleira. Nenhuma chance de sair correndo daquela senhora macilenta de bigodes. Nenhuma chance de dizer, minha senhora, eu já lhe dei a informação da bolsa. Agora, por favor, deixe viver minha vidinha caduca e simples de espera de ônibus. Não percebe que tenho muitas coisas para pensar? Mas só meneio a cabeça. Amordaço o tédio do monólogo. Estarreço-me com a solidão alheia. Aceito suas garras cravadas no meu tempo.

- Eu moro ali – continuou, e mostra o enorme condomínio popular de cinco mil famílias em apartamentos de dois quartos, dois filhos, diarista e carro 1.0 na garagem.

- Desde que eu me separei do meu marido, que bebia muito, ele me jogou nesse apartamento. Quer dizer, me jogou assim, né? Porque ele é bom pra mim. Paga o condomínio. Mas, se casou, tem um filho, meu netinho de sete meses. E foi morar na casa dele. Hoje é dia de pagar o condomínio. Você acha que eu deveria ligar pra ele para lembrar que hoje é dia de pagar o condomínio? A mulher dele é negra. Bonita. Mas negra. Eu não tenho preconceito. Cada um sabe o que está fazendo né? O meu netinho é lindo.

Tira uma foto do netinho de dentro do saco plástico. No andar da carroça, já sei que ela está indo à Igreja Universal do Reino de Deus para o culto dominical. Leva fotografia dos filhos. Da nora negra e do neto mulatinho para o pastor abençoar. Beija as fotografias, acaricia o rosto da filha, que mora longe.

- Minha filha é sargento da Aeronáutica. Vive há uns 11 anos no Rio de Janeiro. Se casou agora, no São João. Eu não pude ir. Mas ela mandou o convite, ó como é bonito.

Uma fotografia de um casal (a moça é realmente muito bonita) numa foto posada, envolta numa guirlanda desenhada de passarinhos e flores e corações. De um brega gritante. Gosto duvidosíssimo. Tenho vontade de sair correndo. Não quero ler a caligrafia em tinta dourada com os dizeres de convite para as bodas. Socorro! O bicho morde a corrente. Tem fome. Tem sede de sangue. Quer estraçalhar carne humana.

O telefone não toca. O ônibus não vem. Não começa a chover. Nenhuma nuvem faz sombra na areia quente. Chance alguma de um conhecido passar e me dar uma carona. Sinto não ser tão afeita à estranha mania dos outros agora de andar com fones de ouvido plugados a MP3 ou até telefones celulares.

- Eu faço crochê. Sou boa nisso. Eu mesma poderia fazer uma bolsa de crochê para carregar meu artesanato, né? Você não me respondeu se eu deveria ligar para ele para falar do condomínio. Eu falo demais né? Você mora sozinha?

- Sim. Minto para me livrar de explicações. Às vezes é preciso mentir.

- E não quer se casar não? Minha filha passou três anos noiva. Hoje em dia, certos casamentos, é melhor ficar sozinha mesmo né?


Dou com a mão para a van que surge, como se ela fosse o 13º mandamento enviado pelos Céus, para uma pagã com sede da Palavra gasta. Finalmente uma jaula me livraria do risco de ganhar forças e partir para o ataque. Subo rapidamente sem sequer dar tempo de alguma despedida. Ouço a sua voz:

- Essa besta passa na Igreja? O cobrador-ávido-por-passagem-inteira diz que passa perto. Ela dá de costas, desdenhando a falsa promessa, sabendo que será obrigada a atravessar a passarela e andar muitos metros antes do templo divino. O condutor dá a partida, ela grita, já completamente com idéia renovada. Sobe esbaforida. Com as duas bolsas, o álbum de fotografias ainda na mão, me busca com o olhar. Senta do meu lado.

- Melhor pegar esse mesmo. Nunca se sabe quando o ônibus vai passar né? Já estou atrasada. Mas é melhor chegar atrasada, do que não ir né? E ainda posso ir conversando com você...


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

do amor e outras quimeras

Os poetas que eu amei me deixaram gosto de palavra na boca e um coração em formato de baú, onde eu guardo principalmente lembranças de versos inacabados.

Os poetas que eu amei me deixaram sandálias de pedra e rastros de outras Marias, Joanas e fulanas que eu nunca poderia ter sido.

Os poetas que eu amei deixaram frases tempestuosas, que causaram enxurradas, relâmpagos e trovões no meu céu de agosto, que tem gosto de sálvia e alecrim.

Os poetas que eu amei quando descobriram meus olhos tristes e minhas mãos mancas, deram risada do meu jardim pisoteado pelos meus gatos e pelas joaninhas que se escondem por entre as folhas.

Os poetas que eu amei deixaram gosto de relva nos meus cabelos e meia dúzia de canções na vitrola (que eu não ouço mais).

Os poetas que eu amei nunca se deixaram fotografar à luz do dia. Mas se entregaram às metáforas das minhas pontes e às linhas dos meus desejos, (sempre no cenário da lua).

Os poetas que eu amei me deixaram gestos lascivos como, passar os dedos por entre os cabelos; caminhar sentindo a areia tocando os pés; ouvir som de flauta e atravessar sorrisos com gargalhadas.

Os poetas que eu amei me deixaram, no mínimo, três imperfeições. Com as quais invento sonhos, desenho caminhos e ergo muros.

sábado, 16 de agosto de 2008

Eu estava lá

Mada – segunda noite


Enquanto o cenário indie dava seu recado nas bandas centradas nos dois palcos do Mada para um público ora atento, ora crítico e até meio disperso, em alguns momentos do início da noite, na Tenda Tim, rolava um som eletrônico que atraía os adeptos de música eletrônica e suas inúmeras variações. E, ao mesmo tempo, artistas performáticos do grupo Disfructorium roubavam a cena musical e interagiam com o público, dentro da enorme tenda onde se fixou esse ano a Feira Mix. “Eu gosto do Mada por isso. Porque é o único Festival de Música de Natal que reúne tanta coisa ao mesmo tempo e consegue atrair nossos olhos e ouvidos”, assim resumia em poucas palavras o espírito do Mada, a estudante Renata Nascimento, natural de Recife (PE) e que há um ano mora em Natal e já participou três vezes do Mada. “Mesmo antes de morar aqui, eu vinha para o evento”.

A segunda noite do maior festival de música independente do Nordeste começou com ares de aquecimento para as duas bandas principais da vez: Pato Fu e Lobão que fecharam a noite da sexta e continuaram embalando a madrugada do sábado. Um atraso de quase uma hora para a entrada da última atração, o cantor Lobão, que subiu ao palco por volta das 2h30 não pareceu desanimar ou desapontar os espectadores do Mada. Pelo contrário, quando ele entrou uma nuvem de pessoas, tanto mais maduras quanto na mais tenra idade, aguardava ansiosa pela sua chegada, que foi marcada pela singela canção da história da Chapeuzinho Vermelho. Muito conhecida dos que já passaram dos 30 e se lembram da fase do Lobão dos anos 1980 e seguiram curtindo a carreira de um dos artistas mais insurretos do mercado fonográfico, que construiu uma história tanto pelas suas posições contrárias aos “jabás” das grandes gravadoras, quanto à sua volta ao mercado pelos caminhos que antes ele desdenhava, e que ele afirma, aconteceu “pela qualidade de sua música”. Que o diga o professor de Língua Portuguesa, Alberto Saturnino, 24, um dos primeiros a chegar ao Mada, e assistir às primeiras bandas que se apresentaram com The Volta e Lunares, embora tenha feito questão de frisar que estava ali, principalmente para ver o Lobão: “Eu ia sempre procurar sua revista (Outracoisa) nas bancas e acho que ele tanto é um cara de atitude, quanto um cara que se mantém pela boa música que produz. Dizem que ele se vendeu agora. E daí? Ele quer mesmo é fazer música e cantar, e isso é o que importa”, defendeu o fã.


Bahia roqueira
Saturnino também aprovou o show da terceira banda a se apresentar no Mada na sexta-feira passada: a baiana Subaquático, que teve no Festival a primeira aparição fora do seu estado de origem. Segundo o vocalista e guitarrista da, Junix, a participação no Mada é bastante significativa para eles até porque o cenário do rock e independente em Salvador encontra dificuldades para apoio e até mesmo espaço para tocar. “Lá a gente é meio órfão de tocar em bons espaços como esse. As pessoas não conseguem se articular muito para fazer shows de rock. Até que tem público, mas falta apoio”, disse ele, afirmando em seguida que a proposta da Subaquático é tocar um som independente dos grilhões do mercado fonográfico. “A gente faz o que gosta e não quer pegar carona no sucesso de ninguém não. Queremos fazer um som com liberdade”, defendeu o roqueiro que chamou a atenção no palco do Mada.

Alegria eletrônica
A décima edição do Mada trouxe também alguns estreantes como a DJ Madame Mim, principal atração da Tenda Eletrônica, e que também é apresentadora da MTV. Argentina radicada no Brasil desde criança, Madame Mim disse que seu eletro é muito mais conhecido fora do Brasil que internamente. O que não impediu uma boa interação com o público potiguar e nordestino, com direito até a algumas surpresas. “Eu já me apresentei em países como Berlim e Barcelona, e o público europeu curte muito música eletrônica. Mas eles ficam quietos, são mais frios. Aqui não, a galera aqui no Brasil não se contém e vem pegando, passando a mão, fica empolgado”, brincou ela, fazendo questão de elogiar o Mada e lembrar de que é o único Festival que ela conhece que acontece à beira-mar. “O mais importante que quero passar do meu trabalho é alegria. E acho que isso rolou muito bem aqui”.

Espaço democrático
O coordenador da Feira Mix e também um dos articuladores da Tenda Eletrônica, Nestor Mádenes, já participa do Mada desde 2000 e também vê uma certa evolução na receptividade do som dos DJ’S assim como a consolidação irrestrita do evento: “O Mada cresceu muito nesses anos todos e acho que já criou um conceito de festival. Está cada vez mais ampliado, já tem uma identidade própria” opinou.

Tanto ele, Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, a penúltima banda a se apresentar no Mada, acreditam que a reunião de bandas independentes, junto a bandas nacionalmente conhecidas é um exercício bastante democrático de mostrar o cenário musical e bandas que poderão fazer grande sucesso. “Quando a gente começou (anos 1990) não tinha tanta estrutura de festival como existe hoje em dia. Lá em Belo Horizonte, existia o Rock Brasil e a gente chegou a abrir noites para bandas como Barão Vermelho, Titãs e Paralamas, e você se coloca ali, no mesmo palco, dá entrevista porque a imprensa toda está presente. Assim como acontece também aqui no Mada, para bandas não tão conhecidas, então eu acho que o espaço que o Mada proporciona é muito bom para quem está começando”. Takai também falou da consciência da banda sobre o carinho do público natalense. “A gente recebe e-mails das pessoas reclamando que a gente vem pouco à Natal (essa foi a terceira vez apenas e primeira no Mada). E nós tínhamos uma vontade antiga de nos apresentarmos no Mada, e que bom que agora tivemos o convite”. O show do Pato Fu, sem dúvida, foi o mais esperado e celebrado pelo público. E eles não deixaram por menos, mataram a saudade com mais de uma hora de show.

Destaque local
Depois de Florbela Espanca nos anos 1980 e do Sangue Blues que acabou em 2006, o vocalista Isaque Ribeiro sentiu de novo o gostinho de levar ao público - bastante satisfeito - um trabalho autoral com sua nova banda, a Síntese Modular. “Desde que acabou o Sangue Blues, que era uma banda mais cover, criou-se esse hiato que agora foi preenchido com a proposta dessa banda. Eu sempre senti a necessidade de mostrar composições minhas, e passei esses dois anos me concentrando nisso”, explica o vocalista. A Síntese Modular mostrou um rock maduro, mas sem perder o frescor de brincar com novos elementos como é o caso do eletrônico. “O legal é que a parte orgânica da banda (guitarra, baixo e bateria) não está, necessariamente, atrelada à mesa (dos arranjos eletrônicos). Esse novo elemento entra como um algo a mais, dá uma cor no nosso som”, resumiu ele. E, a contar pelo público atento, em breve quando o primeiro CD for lançado – com previsão para setembro próximo, a Síntese Modular já terá muitos interessados em querer levá-la para casa.


Psiu: Essa matéria pertence ao Diário de Natal / O Poti

sábado, 9 de agosto de 2008

Irresistível

Love Is A Losing Game
Composição e vocal: Amy Winehouse

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game

Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game


Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand

Self professed... profound
Till the chips were down
...know youÂ’re a gambling man
Love is a losing hand

Though IÂ’m rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned

Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game



Não tenho muito o costume de colocar músicas ou poemas alheios nesse espaço. Só quando é impossível ignorar. Essa moça é absolutamente irresistível. E a melodia então, só mesmo ouvindo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Torre de Piche

Meu gato passa horas sentado em algum lugar ermo, numa escolha criteriosa de silêncio e solidão.

O tempo todo, a todo tempo, pessoas também fazem isso. Só não sei se com a mesma determinação dos gatos.

No trabalho. Na rua. No trânsito. No supermercado. No ônibus. Somos uma multidão de irmãos órfãos.

Tenho cá minhas dúvidas sobre se a solidão é uma escolha ou uma condição. Mas nunca gostei de resolver equações. Portanto, abstenho-me.

No máximo me permito, vezencuando, perguntar se há alguém do outro lado que possa dividir sua solidão com a minha.

Mas, geralmente, minha língua em repouso balbucia um dialeto incompreensível para quem prefere as janelas abertas e as cortinas balançando ao vento.

Sempre tive mais fascínio pelas sombras, que medo da descoberta de que o medo é só algo que já está dentro e que não sabemos lidar muito bem.

Hoje, um estilete cego desfia as folhas do caderno onde guardo as lembranças do meu dia. Por isso assim, me fragmento.

Sou peixe no aquário. Presa na torre de piche.

Bom para os gatos.