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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Meu mundo cabe naquele sorriso


Uma mulher está sentada na cadeira com uma criança no colo. Talvez uma cena corriqueira. Eu, com minha roupa e minha bolsa invisíveis, com meu rosto de manhã e meus cabelos da madrugada, caminho pelo corredor à procura de equilíbrio.

Fico de pé, ao lado da mulher sentada na cadeira com uma criança no colo. Talvez em busca de equilíbrio para enfrentar o peso das horas. Ainda é cedo. Sei que no meio daquele dia vou encarar um rosário de burocracias na Caixa. Cena ordinária.

O olhar dela chama o meu. Olho. Ela segura. Fico desajeitada. A bolsa pêncil. Os ombros cheios de nós. O ônibus com tantos ninguéns. O olhar não desiste.

Tiro o foco. Mas a conexão já está feita. O balé de cílios e íris rodopiam na mesma direção. É um encontro, enfim. Dessa vez, ela sedutora, sorri. Eu não disfarço. Não há mais constrangimentos entre nós. Dá para ver nossos dentes. Os meus um tanto amarelados. Os dela florescendo.

Você fez uma amiga Vitória. A mãe sussurra e ela quase parece dar uma piscadela. Vitória de vestidinho laranja e sapatinhos rosa, colorindo o caminho. Cabelinhos anelados. Chupeta desprezada na altura do peito. Eram nítidos alguns sinais. A cabecinha se punha firme, resoluta. Só os pés e mãos bailavam sem orientação. Como se a vida tivesse ficado sem ar por alguns instantes. E a existência de Vitória passou a pertencer, de algum modo, a duas dimensões: o vácuo e o ventre. Se eu fosse enfermeira, diria que ela não precisa de injeção. Talvez algumas vacinas. Talvez fisioterapia, fono, deslimites.

Amor ela já tem. Dá pra ver no rostinho miúdo e nas unhas bem cortadas. Dá para ver na cara da mãe. Na minha.

Continuo de pé ao lado da minha nova amiga. De repente não sou mais invisível. Nem me lembro da mochila, nem das pessoas, nem do peso das horas. Vitória sabe que eu sei. E faz cara de tudo bem. Há muito mais guardados por trás do meu olhar, menina. Ela me chama de menina. E eu a chamo de anjo.

Vitória é especial porque, tão pequenininha e silenciosa, no colo da mãe, de cabelinho anelado e vestido laranja, ela sabe que num sorriso dá para sentir e guardar quase tudo. Até mesmo o mundo de outra pessoa.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Naquela Casa

Tem uma roseira de sorriso discreto
Uma lagartixa que faz companhia às vidraças
Um sol por detrás das cortinas
E labirintos de portas fechadas


Naquela casa tem


Um homem vestido de versos e de cores
E tempo
De sorriso discreto
Que me enche de sol

Por detrás da roseira
E descobre os meus labirintos

Como se fosse o vento
Que sopra na minha janela

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Alguém à espera de carinho



ele é fofo. cheio de personalidade. meigo. doce. come pouco. lambe a ponta dos nossos dedos. dificilmente reclama dos muitos cheiros e abraços (até parece gostar). já destruiu o estofado de um sofá. agora está tentando se controlar e só tem arranhado (muito) os tapetes. nada do que estou dizendo é propaganda enganosa. nem ele não está à venda ou para adoção. mas, no meu trabalho, tem uma gatinha, tipo vaquinha malhada de branco e preto, com cerca de três meses, que estamos chamando de gilda, e que precisa muito de carinho e um destino decente. ela é meiga. já está só comendo ração e já tomou dois banhos debaixo da torneira. acho que tem um problema nas cordas vocais e é rouca. portanto, senhoras e senhores, o miado é quase imperceptível. se alguém gostar de um(a) amiginho(a) que é cheio de personalidade, sem ser dependente emocionalmente de ninguém, por favor, entre em contato comigo!

PS.: vou ver se providencio uma foto dela.

sábado, 13 de setembro de 2008

Variações sobre o mesmo crime

Um homem atira numa mulher dentro do ônibus, durante um assalto. Depois, diz que "foi sem querer". Já outros, vários, dizem muitas coisas. Ela estava dormindo, com a cabeça inclinada na janela. Sonhando com a hora do jantar, quando vai se reencontrar com o marido e os três filhos e, quem sabe, até pedir uma pizza na padaria da esquina. Acorda sobressaltada, grita sem saber direito a gravidade com que sua voz escapa da garganta e o homem, aponta a arma e atira em sua cabeça. Em outra versão, ela após entregar o dinheiro da bolsa, que é a justa medida para ir e voltar do trabalho e, na volta, comprar algumas cocadas, reivindicação do filho mais novo que nunca mais teve a mãe por perto, ela se desespera e protesta. O homem, numa ira que desnorteia, aponta a arma e atira em sua cabeça.

Um homem que não estava lá, tem uma não versão da história: "As pessoas precisam contar histórias para uma coisa dessas. Ninguém aguenta saber que uma pessoa atirou friamente noutra". Ficamos todos parados diante daquela declaração. Pensando sobre o que podemos ou não ouvir, ver e até mesmo sentir. Ele tem dessas coisas. Sempre sabe dizer coisas certas. Até mesmo em horas impróprias. Várias vezes já se feriu por conta disso. Atirando contra si mesmo. Só que isso ele não conta pra ninguém.

Sempre me lembro daquela canção eternizada pela voz da Nancy Sinatra, que eu só conheci no filme Kill Bill 1 "Bang, Bang (My baby shot me down)".

O que me leva a crer que homens sabem mesmo atirar. Uns, só de raspão. Outros, deixam marcas para sempre.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Bens

Eu tenho um isqueiro que só funciona quando quer. Fósforos que não funcionam ao vento. Unhas quebradiças (acho que já falei sobre isso) e que pioram na primavera. Um gato que abre a boca, mas ainda não fala. Uma mãe que ainda pensa que eu sou criança. Um celular que não toca. Dois CD's d'Os Poetas Elétricos. Alguns poemas guardados no Balaio. Meia dúzia de pensamentos inacabados sobre a civilização. Cheiro de cigarro nos dedos. Nunca tive uma bússola. Tenho uma vontade danada de não ser. Tenho saudades também. Mas no fundo, no fundo, acho que o problema é meu.

Terapia

Hoje eu comprei sementes de gerânio, rosa e jasmim.

Um punhado duas vezes ao dia é o recomendado.

Resolvi duplicar as doses.

Semana que vem, será a vez dos girassóis.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dieta obrigatória de palavras


A fome me abraça quase terna
Ignora o divórcio de minhas mãos em sua cintura
Eu, discreta, porém, resoluta
Oculto me mim mesma o barulho que irrompe
Da boca do estômago
Às vezes,

Abro a janela sem pressa
E sinto o gosto das teclas

Ao som dos meus dedos
Falta pouco, falta bem pouco
Para que minha língua toque o doce do teu silêncio