Google+ Followers

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Medições

Não se mede os sentimentos dos outros pelo que eles sentem. A medida mais fácil é pelo que eles dizem e fazem. Não dá para pegar no sentimento dos outros. O que é possível medir é o calor do abraço, a quentura do olhar, o silêncio companheiro. As palavras escolhidas e colhidas do jardim da compreensão. Aí, quando isso não vem na medida que cabe na balança das nossas espectativas, a gente passa a pesar não o sentimento dos outros, mas o que a gente sente pelos outros.

Hoje eu passei por uma escolha difícil. Tive de atravessar o rio caudaloso da decepção e da frustração. E, como é de costume, o nado é sem bóia, sem salva-vidas. Caso contrário, não haveria aquela sensação de abandono que toda frustração nos gera.

Ouvi a notícia vindo de uma voz calma e que tentava ser ainda mais calma para a lança entrar devagar e quase indolor. Reconheço o esforço. Não doeu para entrar. Doeu mesmo depois que desliguei o telefone e quando a realidade se espalhou pelas veias e fui sentindo o desmoranamento de um sonho construído com tijolos de alguns esforços concretos.

Aí, o primeiro movimento foi pedir colo à minha mãe. Porque não tem como não pedir colo à mãe, quando se tem uma mãe com colo disponível. Frases feitas de muita sabedoria me fizeram respirar um pouco e ver que, às vezes, o esforço da perda representa muito mais força e honradez que uma vitória fácil, garantida.

Aí, o aconchego do cuidado daqueles dois primeiros, me deixou mais solta e resolvi falar para mais uma pessoa, na ilusão de ser merecedora de mais acolhimento. Como um gatinho recém-saído do ninho da mãe, que não se contenta só com um pote de leite. Ele quer o que está perdido de seus domínios: auto-confiança.

Ao invés de carinho recebi uma crítica. Cheia de amargura além de mim e de alguns espinhos catados do passado; de conversas soltas aqui e acolá e o que é pior, da fonte que mais pode enobrecer ou destruir uma pessoa: a intimidade. Ela estava tirando proveito da minha intimidade confiada, das confissões que havia feito, para me criticar? Fazendo questão de dizer que o resultado da minha decepção era fruto das minhas escolhas e do que penso sobre mim mesma. Putz! Claro que eu não posso concordar com isso. Claro que não escolhi me esforçar pra caramba, contar com o apoio e a crença de outras pessoas, dar a cara a tapa diante de estranhos, por que estava escolhendo perder no final.

Talvez ela até tenha falado a verdade. Ou a meia-verdade que convém aos que não sabem muito bem o que têm a dizer. Não vou negar, não queria críticas. Não ali, naquele momento, com os olhos marejados e os braços estendidos pra um abraço. Queria apoio. Queria que ela enxugasse minhas lágrimas por três segundos. Queria que respeitasse minha decepção e depois, nem que fosse só alguns minutos depois, risse do meu excesso de meninice. Das minhas fragilidades penduradas no varal à espera do sol e do tempo para evaporar. Não dá para medir o que os outros sentem pela gente pelo o que eles sentem. Mas sim pelo que eles dizem ou fazem. É isso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Domingo Feliz

Eu queria te dar um presente. Na verdade, algo discreto. Que só se revelasse aos poucos. Que tivesse a pressa dos caramujos em dia de corrida. Que pudesse ser misterioso e íntimo ao mesmo tempo. Calmo, sem deixar de ser cálido quando convém. Um presente que não tivesse cheiro, cor ou papel colorido. Mas que, mesmo assim, mexesse com os sentidos.

Ele deve ser como um livro descansando na cabeceira da cama. Sempre tão convidativo. Ou como uma mousse de chocolate, carinhosamente elaborada numa tarde de sábado, para ser servida com suco de graviola bem gelado.

Sem querer estragar muito a surpresa, eu acho que ele deve esconder nas entrelinhas o brilho das luzes de um quadro de Renoir. Ou então a sonoridade quase explícita de Dalí. Pode ter também a ansiedade entrecortada de uma sinfonia de Wagner ou ser instigante como um poema beatnik.

Então eu pensei, pensei, pensei. E sabe o que eu vou te dar de presente? Aquela passagem secreta que liga a sua casa até o fim do mundo. Aquela por onde os carros passam com dificuldade, cai aqui cai acolá, promovendo um desfile trôpego aos passarinhos, sentados nos fios dos postes que nunca acendem. Lembrando que os postes, daquela passagem secreta que agora é sua, são os mais cúmplices dos namorados que eu já vi, quando eles num trotar flutuante entre nuvens, páram e beijam e se esfregam no meio do caminho. Bom, agora que ela é sua, vou pedir à natureza para dar uma forcinha e encher aquela passagem secreta de paus-brasil, pequenos córregos, alguns grilos, sapos, andorinhas e um pé de jasmim. Para que, quando for noite, os passantes sejam guiados não só pelas estrelas, mas também pelo cheiro. E para que, todas as vezes em que qualquer pessoa, cachorro, carro velho ou novo, cometas, estrelas cadentes, lagartixas e pirilampos passarem por ali, eles tenham a sensação de que é domingo. Melhor, que é um domingo feliz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Tudo junto ao mesmo tempo agora

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca

b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarja vermelha têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos

f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que emudece primeiro etcetcetc

Desaprender oito horas por dia ensina princípios

(Manoel de Barros, em O livro das Ignorãnças)



Quem és? Perguntei ao Desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

(Hilda Hilst - Do Desejo)


Entretantos

Eu te escolhi
E assim, me esqueci
De como é que se faz
Pra não ficar
Entretantas
Flores, árvores, selvas
Sonhos e desilusões.
Mas aí,
Quando eu vi
Já não tinha mais olhos de olhar
Só de sentir


(Gente do céu, eu descobri essas coisas guardadas numa caixinha rosa há tempos ignorada por mim... Não me tomem como generosa. Sou apenas uma moça ainda sem meio e fim.... Moacy, você protestou e eis-me aqui. Todas as postagens do dia 20 são todas, todas, todas dedicadas a você)

Regra no. 3 para ser feliz


I - primeiro que tudo, ao acordar, você deve se espreguiçar longamente. Gente que não se espreguiça de manhã nunca foi gato numa outra vida

II - por primeiro, antes do primeiro que tudo, não resista ao espaço tênue entre o sono e a vigília nos primeiros minutos do despertar. É o melhor momento na cama. Entregue-se de corpo, alma e preguiça. Deve ser sua primeira prece

III - coce as costas com um pente, uma caneta ou qualquer outra coisa cuja função passe longe de ser um coçador de costas oficial. Se tiver alguém que lhe faça esse serviço, sempre deixe passar mais um tempinho depois que a coceira acabar. Só para ficar com aquela sensação de cuidado. De coisa útil, acarinhada. Isso também faz parte do acerto de contas com a felicidade

IV - sorria com mais freqüência. Inclusive para estranhos na rua. E fale com os olhos quando a boca estiver ocupada com os pensamentos. As pessoas entendem mais a linguagem dos gestos. Os sons são um recurso em último caso. Em demasia, só servem para os surdos de sentimentos

V - se tiver amigos, leia poesia para eles em voz alta. E poderá ver o que uma poesia é capaz de fazer

VI - se não tiver amigos, não tem problema. Amigos ainda não são uma espécie em extinção. Sempre tem algum em algum lugar, pronto para ser descoberto

VII - quando sair para a ‘‘balada’’, evite companhia de pessoas que não sabem o que é se divertir sem nenhuma pretensão à vista. Evite os ‘‘caçadores’’ de plantão com seus drinques suados pela metade, vazios de boas intenções

VIII - esqueça a função primordial dos verbos; quando você descobrir o delírio que há escondido em cada ação, entenderá como, quando e por quê o verbo se faz carne sempre que o conjugamos na primeira, na segunda e na próxima pessoa

IX - tome sorvete no calor e mingau de aveia nos dias de chuva. Enxergue o tom da singeleza das cores pardas, mesmo se o céu estiver meio adamascado. Nem todo dia o sol dá o ar das graças no Potengi. Mas você sabe que ele está lá escondido por entre as nuvens

X - não estabeleça comportamentos pré-determinados ao seu coração. É dor de cabeça na certa. Por vezes ele tem vontade própria e segue a trilha das formigas mesmo quando você pensa em ignorá-las ou, o que é pior, pisar nelas. Deixe-o em paz. Quieto, sem bússolas, ele acaba tomando o curso exato, mas sinuoso, do rio dos amores

XI - surpreenda-se. A felicidade é prima-irmã da surpresa. E surpreenda os outros com o mais corriqueiro dos elogios, dos ‘‘bons-dias’’. Se quiser ser repetitivo, ou seja, elogiar, admirar e contar (sempre) até 30 se preciso for, também faz um bem danado

XII - quando se sentir muito só, sem sequer uma lagartixa na parede para dizer ‘‘oi, como tem passado?’’, leia um livro, ouça uma música ou então escreva uma carta para alguém distante. Cartas são sempre bem-vindas, principalmente quando vêm de longe; quando travamos aquele diálogo silencioso com seu interlocutor

XIII- é, se o coração bater mais alto pode ser que seja o amor, que às vezes chega num sobressalto. E subitamente os pés parecem querer flutuar nas nuvens. Mas cuidado, pensamentos podem voar, pés foram feitos para atestar a lei da gravidade. Não ame com os pés

XIV - e por último, desfaça-se das amarras. Ignore as regras de quando em vez. Principalmente as de nº 1 e 2



A quem interessar possa: esse textinho faz parte do meu livro "Entre a Flor e o Espinho", que tá de rosca, mas um dia sai...

Um momento

Abro o livro calmamente. Passeio os olhos pelas linhas como quem descortina antigos sabores, doce de leite, coco queimado, cuscuz escaldado da avó, bolinhos de chuva, sorvete de limão.

Em cada frase, período, página virada, sinto o ar entrando calmo e decidido nos pulmões. Junto, vem o cheiro dele, tão familiar e tão próximo. Percebo, nesses gestos simples, qual a verdadeira função do pertencimento: não ter posse. Só a sensação já é o bastante. O possível.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Das escolhas (para minha amiga Kênia)

Desde o princípio em que nos percebemos fazendo parte de uma engrenagem na qual somos uma peça única, não sabemos ao certo se escolhemos nascer. Ao menos, a grande maioria de nós atribui esse fato a um fato anterior entre duas pessoas que, na melhor das hipóteses, se amavam e queriam a concretude desse amor na formação de um outro ser. Muito embora, já depois descobertos humanos e falhos, a gente perceba quem nem sempre é assim que a coisa funciona.

De lá para cá, somos responsáveis por nossas escolhas. Até mesmo aquelas que chegam como um vento forte, nos tomando o corpo por completo, nos forçando a fechar os olhos, estender os braços para a frente e sair tentando tocar o ar e se agarrar ao próximo segundo que trará a calmaria de volta. Escolher é principalmente viver. E viver é inevitavelmente saber que nem sempre conseguimos fazer as escolhas certas. Viver não é certo. Viver é preciso.

Difícil não é escolher. Difícil é estar pronto para encarar os dois movimentos que emolduram a decisão. Antes da escolha, a angústia da dúvida, a busca por respostas, as conjecturas, os sonhos decifráveis, o cartomante que atropela o destino, o destino que não se assusta com sua pressa, e segue seu caminho, incólume. Assim que tomada a decisão, o alívio, o prazer, o deleite de ser senhor dos seus domínios. Nem que seja por alguns instantes, dias. Tão prazeroso quanto a longa espera de três segundos antes de duas bocas se encontrarem para uma primeira apresentação. Como é doce viver.

Mas aí, o trem sai dos trilhos. O que antes era rocha se esvai em pó, o vento leva pra longe as certezas. E você de novo se angustia se tomou o rumo certo. E torna a esperar o resultado. Como é preciso esperar para deixar a vida se instalar. A questão é que ela está em constante manutenção. Deveríamos ter uma placa pendurada no pescoço: "Vida aberta para reformas", "Disponível para reparos".

Somos fadados a viver desafiando as dúvidas, buscando as respostas, encarando os erros, seguindo com a esperança, acreditando nas palavras dadas, lamentando as palavras desditas, sussurrando desculpas a si mesmo, gritando perdões ao mundo, abrindo buracos fundos na compreensão e rasos na mágoa. O contrário também é possível.

Ser gente é doer no espelho e arder no silêncio. Ser gente é abrir pontes com o sorriso e alargar as margens para deixar que a embarcação dos outros ancorem. Ou passem.


Também vou colocar esse texto lá no meu quadrado imperfeito do Diário de Natal/O Poti, no próximo domingo.