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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Quarta-série

Uma vez quebrei a tiara de uma amiga batendo com o livro de matemática na cabeça dela. Quarta série. A professora era a mais linda e doce que já tive. Não tomou conhecimento do ato quase na hora da cigarra tocar às cinco e meia. A coleguinha, uma loirinha atarracada de cabelo pixaim, não quis conversa. Tinha de ressarci-la do prejuízo. O primeiro perrengue de que me lembro até hoje com riqueza de detalhes. Pra completar, arrumou uma carrasca para fazer as honras da tortura. Magna, lembro o nome dela. Oitava série. "você tem dois dias para trazer o dinheiro ou então uma nova tiara". Dizia isso enquanto me sacudia pelos ombros, no canto do corredor na hora do recreio. Meu corpinho subitamente amassado e jogado no canto. Ninguém via nada. Minha culpa ampliada na covardia de não contar a ninguém.

Voltei para casa meio zonza. Enjoada. Era a casa da Tia Jesus, em Campina Grande. A tia mais linda de que me lembro. Minha mãe estava resumida numa pia de louça três vezes ao dia, duas passadas de pano na casa, cinco banheiros impecavelmente lavados (minha tia tinha obsessão por banheiros) e à noite, na hora da novela, derretia gordura de boi para fazer sabão. Não podia ser importunada por uma brincadeira inconseqüente de criança. Não tínhamos dinheiro, nem casa, nem salário. Só a gratidão pelos favores de ter um teto pra morar.

Eu chorava com as pálpebras fechadas no escuro, para não acordar as sombras.

Aí minha avó me salvou da culpa. Mesmo não estando com a gente naquela época. Foram os únicos seis meses em que nos separamos durante nossos 17 anos juntas. Ela havia me dado um bracelete de prata quando eu tinha oito anos. vovó gostava de jóias. E gostava de dar presentes também. Era lindo. Meio fosco no meio e com uma lapidação brilhante nos cantos. Reluzia. Me deixava inédita quando usava. Iria negociar.

Na data marcada, meu corpo tremulava no canto do corredor pelos ganchos de Magna. Eu mal podia falar com os olhos que tinha encontrado a solução. E falava por dentro, por favor, me deixe negociar, me deixe mostrar a redenção. Vai dar tudo certo. E deu. Foi a última vez que vi o brilho do bracelete. E ele já não era mais meu. Brilhava refletido nos olhos da atarracada que saiu em disparada, balançando o braço vitoriosa. Magna ainda deu um último empurrão, sentindo-se a justiceira. Desde então, evitei os corredores do primeiro andar do colégio, tinha medo da oitava série. E nunca mais me sentei na carteira atrás da amiga cabelo encarapinhado com tiara de plástico frágil.

Minha mãe nunca sentiu falta daquele bracelete. Minha avó também deve ter tirado suas conclusões. Mas nunca me interpelou ou fez qualquer cobrança. Não sinto falta do bracelete. Sei que fiz a coisa certa. Ao menos naquele momento, substitui a culpa de um ato impulsivo pelo amor de poupar a minha mãe de mais um problema. De engordurar seus dias com minhas travessuras.

Dia desses, disse para uma amiga: a culpa pode até existir, mas não pode se sobressair ao amor. E, sinceramente, não acho isso filosofia de botequim. É ensinamento da quarta-série.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Oito dias úteis

Que a burocracia é uma coisa chata e aborrecida isso ninguém duvida. Mas, tenho vivido situações nos últimos meses e dias que me fazem chegar à uma conclusão mais enfática. A burocracia é uma condenação. Só pode ser.Esperas em filas, fichas numéricas, painéis eletrônicos, papéis, carimbos e todo o resto de milacrias que emolduram o terrível quadro da burocracia têm me provado isso diariamente.

Desculpem, não quero ser burocrática. Mas preciso desabafar. Ontem, após cinco meses de longa espera consegui fechar um contrato de compra e venda. A parte boa é que em 34 anos, terei a primeira casa própria da minha vida. Sim, claro que a terei em passos lentos e graduais: tenho de pagar 300 prestações. Ou seja, em vinte e cinco anos farei um outro texto no blog, certamente ainda mais feliz, já que serei dona integralmente do referido imóvel (ops, essas coisas pegam, medo!). Bom, essa é a parte boa. A ruim, e sem direito a nenhuma poesia, diga-se, começou assim que eu parti para tocar a papelada. Primeiro, as instruções que me foram dadas no banco estavam erradas. O primeiro lugar a ir não era na Secretaria de Finanças e sim no cartório. Que cartório? Um, dois, no terceiro cartório é que de fato eu tinha encontrado o local certo. Ficha, painél eletrônico, 300 pessoas apinhadas no balcão, espera, espera. Atendimento de três segundos. Um carimbo. Uma instrução. "Volte aqui amanhã".

Obedeci. Papel na mão, fui à Secretaria de Finanças. 13h, céu nublado escondendo um sol de 36,8 graus célsius. Resultado: o Centro da Cidade parecia uma panela de pressão, explodindo todinha dentro do meu quengo.

Portaria. Ficha. Itiv. Senta. Espera. Uma mulher passa à frente da moça que está na minha frente. Espera. Moça irritada. Moça frustrada. Esperou 25 minutos. Descobriu 2 segundos depois que não era naquele lugar. Minha vez. Eu idem à moça. Relato: "Não, a senhora entrou na fila errada". Mas me disseram, senhora, na portaria, que era aqui que eu resolveria. "Não. A senhora trouxe o IPTU da casa?". Não eu acabei de comprar a casa e o IPTU que eu saiba é só em janeiro do ano que vem. "A senhora sabe o código do IPTU?" (...). "A senhora tem que entrar na fila do IPTU. Pegar o código do IPTU. Depois, vai para a fila da Certidão Negativa do IPTU. Pega a Certidão Negativa do IPTU. Aí, depois, pega a ficha do Protocolo e dá entrada no processo". (Fumaça saindo da cabeça).

Volta portaria. Ficha IPTU. Painél eletrônico. Cadeira. Espera. Espera. Código do IPTU. Volta portaria. Ficha Certidão Negativa de IPTU. Cadeira. Painél eletrônico. Espera. Espera. Certidão Negativa. Volta portaria. Ficha Protocolo. Espera. Espera. "Ficha 66...Ficha 66, por favor". Senhor, acho que a ficha 66 não está mais aqui. Será que o senhor poderia pular para a ficha 67?. (Silêncio). Ele me ignora por 47 segundos. "Ficha 67". Entrego ficha. Ele folheia Guia de Recolhimento para Imposto de Certidão Negativa IPTU Nada Consta Mais de Dois mil reais de taxa tributável em três segundos! Moço (ele usa aparelho e parece que é um estagiário, economizo o senhor e talvez ele nem goste de ser chamado assim por uma pessoa que tá na cara que é mais velha que ele), está tudo certo? Não vai dar uma olhadinha na Certidão Negativa do IPTU?. "Não senhora. Eu já sei que está tudo ok. Eu vi que a senhora foi na fila do ITIV, depois falou aqui comigo, depois na do IPTU, depois na Certidão...". Ok. E o boleto, onde eu pago, tem desconto? Me disseram que tenho 10% de desconto em cima desses 3% iniciais. "Se lhe disseram, lhe disseram, só não sou eu quem vai lhe confirmar". (Bingo! É estagiário!). Imprime um papel. Corta um pedaço dele com uma régua. Joga fora 2 terços. Me entrega o pedaço sobrevivente. "Em oito dias úteis a senhora vem aqui ver se o protocolo já realizou a avaliação. E assim a senhora receberá o boleto e assim poderá estar solicitando o ITIV" (Como assim? Mas me disseram que tinha desconto. E graças a Deus que ele só usou o gerúndio essa vez). Como assim? Eu não vou poder levar o documento agora? Até estou disposta a encarar a fila do banco, me dá logo esse boleto menino! "Não senhora. Primeiro vai passar oito dias úteis. É o tempo que o protocolo precisa. Depois a senhora vem aqui". Faço as contas. Mas, espere, isso quer dizer que é lá para o final da semana que vem! "Não senhora. Semana que vem só tem quatro dias úteis. Não se esqueça do feriado na sexta-feira. Boa tarde".

Moral da história: oito dias úteis é um tempo razoável que a gente tem para sair dali, refletir bem, ponderar e não ter um acesso de fúria, sair chutando lata, quebrando vidro de carro ne estacionamento, pensar em suicídio no Ducal (nada original isso), xingar a mãe do porteiro do seu trabalho, ou então matar o desinfeliz do estagiário com uma panela de pressão. É, só pode ser uma condenação.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Carta de um amigo, hoje às 16h

Hola, Shyla! Como está?
Penso em ti.
Agora estou viajando de novo. Vi um mar que me lembrou você.
Mar e mãe são palavras quase iguais, sabia? Em francês, acho.
Meu gato Ludo está bem. Agora de novo na estrada (e nos ares também), voltou a ficar com minha avó. E tu? Teus gatos?
Acho que ele (Ludo) é o mais acostumado de tudos, com minhas idas e voltas.
Como está, heim? Do lado de cá estou bem. Estou de volta a la casa que não tem nombre, nem chao, entao estou bem. Você sabe.
Escutei uma música brasileira. Parecida com uma que ouviamos quando pegamos o ônibus para a praia.
A praia. Os pescadores. As redes. Sabia, que ainda penso se realmente não deveria ser pescador? Mas as montanhas me atraem também. Você sabe.
Bueno, não sei mais o que dizer, Shyla.
Estou bem. Espero que tu também.
Besos, seu amigo.

O melhor luau da minha vida

Tinha parado de fumar. Tentou remédio, adesivo, força de vontade. Se orgulhava disso (das tentativas. Nem que fosse por vinte minutos a mais sem sucumbir ao vício). Mas confessava sempre uma certa nostalgia da fumaça entrando sorrateira nos pulmões. Nos conhecemos numa entrevista no jornal. Ele e sua fase naïf. Se não me enganam as cortinas do tempo, sua pintura tinha ido até a Alemanha, naquela época. Trazia um catálogo e as referências ao seu nome. "A gente não pode ficar preso a esse lugar não, menina. Aqui é muito pequeno, sufoca", disse ele. De entrevista a bate-bapo foi um pulo. E quando olhava para aqueles olhinhos miúdos e encontrava tanta reciprocidade já podia arriscar que ali nascia também uma amizade.

Dito e feito. Fizemos outras entrevistas depois. Mas a conversa sempre terminava no corredor que dá para a redação. Dávamos umas tragadas generosas e tecíamos nossos sonhos, angústias, projetos e poesias numa colcha de retalhos de empatia e cumplicidade. "Mas você tem um livro? Tem que publicar, menina. Eu faço a capa", prometeu e cumpriu. Meses depois, me entregava um CD com três opções. Mas, sem perder de vista a menina e o espinho que impregnam minhas letras. Quis o destino que, nessas mudanças da vida, de lugar, o CD se extraviasse. Nunca disse isso a ele. Nunca tive coragem de publicar também.

Até que um dia ele me convidou para um luau em sua casa. Então, o que era brisa se transformou em ventania. A casa era a casa de um artista plástico. Mas Diniz tinha muitas outras cores em sua vida, fossem estampadas no rosto dos amigos, nos afagos, nos carinhos, nas gargalhadas, nas lembranças, na música, na fogueira à beira-mar, na lua que estava cheia e orgulhosa de nos servir, no vinho que embriagava os sentidos e que dava sentido a quase tudo ali naquele momento. Ele estava feliz e todas as outras pessoas também. Dormi no quarto de cima, na companhia de Darquinha, uma amiga de vários verões e invernos. É difícil descrever o melhor luau da minha vida. Eu já tinha participado de festas à beira-mar, já tinha cantado ao som do violão de amigos, já tinha tomado vinho, trepado no embalo das ondas, já tinha encontrado Iemanjá, já tinha até pensado em como seria viver no fundo do mar. Mas, nada se comparava à atmosfera daquela noite. Em certo momento Diniz me buscou com o olhar e percebemos que o melhor nunca é pra sempre, o melhor é único. Imutável. Passageiro. Nos abraçamos. Já satisfeitos de que aquele melhor já era o bastante. Ali, com os amigos, rindo, livres. Nós estávamos felizes. Conheci pessoas novas. Reconheci outras. Mas ninguém era o mesmo. Ninguém saíra ileso daquele dia.

Por diversas outras vezes, comentamos sobre aquele luau. Até pensávamos em fazer outro. Mas certos de que aquele tinha sido e pronto. A última vez que vi Diniz foi lá na Funcarte. No lançamento de um livro. "Menina, e quando é que você vai publicar o seu heim?", insistia. Tinha voltado recentemente de uma estada em Nova Iorque e estava cheio de idéias (como sempre) e inquietações (naturalmente). "E o cigarro?". "Parei de vez". Mostrou os adesivos. Tive vontade de segui-lo. Tive vontade de não sair mais de perto. De ficar sorrindo e ouvindo suas histórias.

Inevitável agora não lembrar daqueles olhinhos miúdos sempre buscando o que havia de melhor em mim. Descobrindo e falando sobre coisas que nem eu mesma sabia muito bem se existiam ou se eram perceptíveis a mim e aos outros. Gostava da cor que o Diniz me imprimia. Era uma cor alegre, vibrante, uma cor que sempre via o dia seguinte como possível. Sem contar que ele me proporcionou o melhor luau da minha vida.

Diniz, vai colorir as nuvens, meu amigo. Vai deixar tua assinatura na barra da saia de Nossa Senhora.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sobre a poesia dos outros

Recolho as belezas das linhas alheias
Para transformá-las
Em estrada, suspiro e no pousar de um passarinho
Que zomba do (des)equilíbrio das minhas pernas
Perdidas no meio-fio

Me espanta o jeito com que elas, as linhas,
Se arrumam,
Desarrumando meu dia
Brincando com meus pequenos segundos
De encantamento

Me encanta esse silêncio
Dos outros
Que mais compartilho que compreendo
E, quanto mais tento,

Mais me atrapalho, tropeço, me engano
E me desconserto nesse alento
Que é viver
Do contentamento alheio

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Meu mundo cabe no mundo dela

Ela reclama: "Meu professor de Português é muito chato". "Minha tia me deu pouco dinheiro para a passagem estudantil". "A filha da minha vizinha e a minha vizinha gritam demais. Não consigo me concentrar". E segue seu rosário de lamentações no alto dos seus 16 anos. Idade em que o ontem, o agora e o amanhã se confundem numa espécie de "tudojuntoaomesmotempoagora".

Mas os olhos de Ísis me dizem muito mais do que reclamações. Folgo em chegar na parada de ônibus e encontrar Ísis com sua bolsa de tecido rosa, já meio surrada e seu caderno de final de ano. Igualmente surrado e cheio de anotações. Ísis e seu caderno. Ísis e o vestibular marcado para daqui a alguns dias. Ísis e o ano em que ela se testa e vê o mundo testando sua progesterona indecisa que espoca em espinhas pelo rostinho liso e sem nenhuma sombra de rugas.

Ísis me olha e me vê. Gosta dos meus sapatos. Pergunta por que eu não coloco um pouco de lápis nos olhos e rímel para acentuar minha castanhez aguda (ela coloca). Nem espera eu responder. Pergunta o que eu faço, como é o meu trabalho. Se foi assim também comigo, na época do vestibular. Se eu ainda tenho dúvidas. Fica feliz com o fato de que eu vou me mudar, em breve, morar num canto que é meu. E nem liga se não nos veremos com tanta freqüência. Quando ela não está no mesmo horário, sinto falta dos olhos de Ísis me buscando a cada pergunta. E reclama da mãe que mora longe. Reclama do pai que a abandonou ainda pequena. Reclama por que queria ser livre, independente, morar sozinha, (porque adora o silêncio) e sequer se lembra que mal tem o dinheiro para pagar o ônibus.

Hoje Ísis me deu um presente, que me fez tirar a franja teimosa de cima dos seus olhos umas cinquenta vezes, que era para ela não perceber que seu presente realmente me emocionara. Ísis me convidou para sua formatura, no dia 20 de dezembro e, como se não bastasse, adiantou: "Não abro mão da sua presença lá. Vou lhe buscar no seu apartamento novo, meu primo dá uma carona para mim e você". E eu, ali, emprensada entre duas pessoas e outras. Ela também. Estávamos só felizes. Só amigas.

Quanto há de Ísis em mim? E o contrário, também é possível?

Não pensem os senhores que não me revisto da "tia-amiga-da-parada-do-ônibus-legal-mas-que-sabe-ser-chata-quando-ela-extrapola". Já cheguei a dizer-lhe de supetão, parando aquela ladainha sem fim e sem começo: "Ísis, ela é que é a sua mãe. Ela tem o direito de namorar. Você não é responsável pelas escolhas da sua mãe. Não confunda as coisas, etc, etc, etc". Tudo ali mesmo, dentro do ônibus. Falando baixo para não expor nossa intimidade aos estranhos. Encarando sua falta de pudor em falar alto, quase gritando.


Ela sabia da minha tentativa frustrada da semana passada. Ela também teve espaço na minha vida para lamentar uma perda que era só minha. Ísis gosta de mim. Eu gosto de Ísis. Talvez ela disfarce bem, mas sabe que eu também tenho dúvidas, também discuto com a minha mãe e também sabe que eu ainda estou em busca de muitas coisas. Que tenho muitos sonhos e uma mala cheia de vazios. Ela também deve saber que eu gosto do silêncio que se instala nos meus olhos só para ter ouvidos pra ela.

Ísis chorou hoje no ônibus. Ficou emocionada. Talvez tenha pego emprestado da espontaneidade um pouco da coragem que eu não tive para fazer o mesmo. Ísis deve ter ficado emocionada porque eu aceitei de imediato seu convite. Ou porque brigou com a tia na noite passada. Ou porque o vestibular tá chegando e ela está cansada e assustada. Ou, quem sabe, foi por causa simplesmente do tudojuntoaomesmotempoagora, da vida da Ísis.