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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Pedaço de Neve

Clarice não conhecia a neve. Morando em Nápoles, setembro ou outubro de 1944, o chauffeur lhe avisa que há neve no carro. Ao pegar nos flocos, Maury corre, bate-lhe a mão e a deixa com "cara de boba" (Correspondências, Rocco, p. 64). Clarice adoece de gripe.



No dia seguinte, acamada, Maury lhe traz um pacote branco. Dentro, neve. Já feia, horrososa, derretida, quase sem vida. Nunca vi neve. Tampouco recebi um presente como esse. Desconheço tais arrebatamentos.



Moacy, Carito, era disso que falava naquela conversa. Assim que li esse trecho, lembrei-me imediatamente do que havia dito.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

15 minutos

Fora tempo
Suficiente
Para ela perceber
O afogamento inevitável
Das horas

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Uma ou outra, mesmo correndo o risco de chorar

Todo final de ano é quase tudo sempre igual. Nesse período tendo a curvar-me diante de algumas lágrimas que me roubam o canto da boca. É um comercial de TV, a promoção de uma geladeira - que eu não posso comprar - uma vinheta natalina, um outdoor, um cartão de Natal, a confraternização onde todo mundo dá as mãos para rezar ou o simples olhar verdejante de uma amiga mais atenta que pára e me elogia, assim no meio das linhas do trabalho. Tudo dá vontade de chorar. Se esse azul desacelerado que me toma o céu da boca é bom ou ruim, não sei. Mas é assim que é.

Todo ano é sempre a mesma coisa também, no quesito fazer listinhas para melhorar o ano que está chegando. Confesso que não gosto muito das listas porque elas tendem a limitar o campo de visão da gente. E se eu me lembro de listar que devo ser mais tolerante e amigável com as nuvens e me esqueço de ser alegre e atenta com as pedras? E se eu me lembrar de ser cada vez mais livre e de repente me esquecer daquele carrapicho, politicamente inconfessável, que me espeta a humanidade bem no canto da barra da calça? Não. Melhor não arriscar. Melhor não tentar melhorar aos olhos de fora. Melhor, melhorar para dentro. Abrir um espaço para que a existência flua sem grandes acontecimentos, nem exigir do acaso que esteja sempre presente.

Eu não falei ainda, mas pensei em árvore de Natal. Pois bem, falando em árvore de Natal, lá em casa nunca tivemos muito essa tradição de montar árvores. Eu gosto de ver. Mas meus olhos nunca prescindiram. Legal mesmo era observar os detalhes do presépio da pequena Igreja lá de Bom Jesus. Eu tinha um encantamento especial pelo lago. Eles colocavam um espelho, cobriam com areia, abriam largos espaços e lá acomodavam as miniaturas dos patos. Era bom demais ver tanta água cristalina e reluzente. Mergulhava naquele universo. Sentia as dores de Maria, o alumbramento de José e a inocência do Menino Deus. Era como se naquele momento, pudesse trocar umas idéias com meu anjo da guarda. Faz tempo que não converso mais com ele.

Mas, ele me deixou uma amiga. E todo dia tenho, no mínimo, uns dois dedos de prosa com a consciência. E é ela quem me avisa que chorar no período de Natal é uma coisa meio clichê sentimentalóide, mas é inevitável. Acontece. Ela também me ensina a ser mais gente e menos vitrine. Ser mais olhar e menos palavras. Ser mais formiga e menos arranha-céus. Arriscar o silêncio sempre que o grito ameaça. Ser menos apresentação e mais contemplação. Não me elevar com o despudor de uma rima, só para seduzir meia-dúzia de linhas. Ser mais rolo de lã e menos pedra de granito. Lágrima e sal. Poema e música. Alma e corpo. Um e outro. Sempre.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Coisas que dão samba

* Quando ele me toca com o olhar e eu sinto o calor do meu desejo correndo pelas veias

* Quando ele roça bem devagar o dedo no meu braço, num carinho disfarçado pra ninguém notar

* Quando ele fala baixinho, bem próximo do meu rosto coisas sem importância nenhuma - só pelo prazer de ficar perto

* Quando ele me abraça forte pouco antes de ir embora

* Quando a gente fica calado

* Quando a gente conversa

* Quando eu vejo que é melhor ser alegre que ser triste


Publicada em Entremundos, em dezembro de 2006.

Eu não valho um tostão!!!

Parei pra pensar dia desses no quanto valemos no mercado. Já que o mundo pulula de vitrines, comerciais, out-doors, revistas e anúncios com pencas e pencas de produtos que valem alguma coisa e, se fazemos parte disso, será que também temos uma etiqueta invisível pendurada no nosso pescoço anunciando nosso valor? Tudo bem que eu nasci numa sociedade capitalista e que a revolução industrial aconteceu bem, bem, bem antes disso. E eu deveria estar acostumada com esse tipo de comportamento. Mas, às vezes fico pensando se estou preparada para descobrir o meu valor. Ou ao menos o que os outros vêem e pensam de mim quando estou com minha calça jeans comprada em 1999 – que ainda cabe como uma luva – e com alguma das minhas inúmeras camisetas brancas e o meu surrado tênis acinzentado (que já foi preto!).

Para mim é tão simples. É óbvio que as roupas não falam sobre a minha profissão, os livros que já li, as cacetadas que já levei da vida ou as vitórias já conquistadas. As roupas não atestam minha honestidade ou minha incapacidade de compreender algumas posições do tipo “fulano é menos interessante que cicrano porque não tem um carro ou um celular multi-uso que paga contas e passeia com o cachorro”. Para mim, celular deve fazer e receber ligações. É para isso que ele serve, pois não?

Dia desses, uma amiga fez uma entrevista para um novo emprego. Não é porque é minha amiga que digo isso. Mas ela é muito competente. Mesmo com um currículo admirável debaixo do braço, teve que pedir um blazer emprestado e colocar um sapato, em igual situação, um número a menos que seu pé, que lhe rendeu uma boas bolhas de saldo. A “indumentária” parece que fez efeito logo de imediato, porque ela me contou que gostaram do que ela conversou e das idéias que tinha. Ela só esqueceu um pequeno detalhe: a saia! É, estava meio amassada, ou tinha um furo de cigarro, que ela nem havia notado. Querem que eu conte o resto? O emprego foi dado a uma outra pessoa. Bem menos preparada e inteligente que ela, é fato. Mas que usa uns óculos estilo Ray Ban, comprado no camelô, uma bolsa Loui Vitton, em igual situação e um blazer impecavelmente passado. E isso não vale só para trabalho não. Tem gente por aí usando esses critérios para fazer amigos; para arrumar namorado e pasmem, para dizer o sim na saúde e na doença, na tristeza e na alegria até que a morte os separem.

Sendo assim, quero deixar bem claro aqui e agora que eu não valho nada. Não valho um tostão furado que pague o tempo perdido de alguém me olhando de cima abaixo para descobrir através de etiquetas quanto custou minha calça, minha blusa, meu sapato e meu celular que cumpre com o que quero dele. Tem mais, sou um zero a esquerda no quesito status quo igual a bens materiais. As coisas as quais acumulei na vida que mais me dão orgulho de ser o que sou, não têm valor nenhum no atual mercado. São coisas do tipo, chorar num filme sensível; ter dó de um gatinho (ou qualquer outra espécie) abandonado na rua; passar horas lendo poemas; passar mais horas ouvindo o que meus amigos têm pra me dizer ao telefone; escrever cartas; regar minha samambaia; brincar com os filhos das minhas amigas e, sobretudo, ficar feliz com a felicidade alheia.

(PS.: aquela minha amiga da entrevista conseguiu sobreviver à mediocridade humana e deu a volta por cima!)


Originalmente publicada em Entremundos, em 23/10/2005.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quando o amor acaba





Tomar decisões é um dos exercícios humanos mais difíceis. Principalmente aquelas que nos obrigam a dobrar a esquina, sem saber exatamente o que terá do outro lado. E não estou falando de que roupa usar pela manhã, colocar ou não o silicone da moda ou finalmente decidir se o cinto deve ser mais fino ou acompanhar as tendências da estação. Sempre que sou impelida a tomar uma decisão, começo pelas negativas. Ou seja, se ainda não sei o que quero, ao menos tenho de saber o que não quero.


Se as decisões pudessem ser tomadas como se recolhe roupas penduradas num varal, seria muito fácil, mas não justo. Já vi muita gente que trata assim suas decisões: deixa acontecer. Num belo dia, vai no quintal dependura o egoísmo, despe-se de lealdade, e sai destilando ideais de sobrevivência para todos os lados. Como se ser demasiado humano fosse uma guerra de interesses, onde alguém, ou algo, ou um momento tão delicadamente construído pelo tempo e pela convivência, pudessem ser destruídos em nome da incompetência de ser fiel a si mesmo e, ao mesmo tempo, manter-se fiel ao outro.

Uma vez eu ouvi uma das frases mais estúpidas que alguém pôde proferir na vida. "Não ter medo de trair os outros para ser fiel a si mesmo". Fala sério! Tratam-se de duas coisas absolutamente incompatíveis. Se você é fiel a si mesmo, é óbvio e conseqüente que você será fiel aos demais. E é simples. É mais que humano. Até os cães sabem disso. E quando alguém é leal, não há espaço para o medo da reprovação. E mesmo se o medo surgir, ele é ainda melhor que a avalanche do desrespeito. Não posso, melhor não quero, acreditar que um sentimento possa ser estruturado por sobre os escombros do desrespeito a outro sentimento.

Nunca pretendi ser uma espécie de arauto das relações humanas. Deixo isso para aqueles que justificam seus erros e suas falhas lembrando dos erros e das falhas dos outros. Como se comparar fosse um mecanismo que levasse à absolvição. Assumir a falha por si só já está de bom tamanho. Pedir desculpas, dispensar faturas é muito mais digno.

Ser puro é ser autêntico até nas sombras. De que vale uma moldura bem trabalhada, cheia de rococós e besuntada com o mais fino óleo, se o quadro é um borrão que até um rabo de elefante é capaz de fazer melhor? Quando o amor acaba, ao menos precisa restar gentileza. Se não dá para ser solidário à angústia alheia, ao menos que haja delicadeza no final. Há que se perder o pudor das palavras educadas, mas não perder o cuidado. Mentira e dissimulação não combinam com amor.

Se alguém toma essa postura no fim de uma relação, melhor partir para a despedida. Fazer um Harakiri do passado. E lembrar que uma despedida não é, necessariamente, o fim de tudo. É sobretudo a possibilidade de um outro encontro.


Esse texto será publicado em O POTI/Diário de Natal, neste domingo, 14.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Mensageiras

Se pudesse entender todos esses desdobramentos de faces em meu rosto. Sinto como se minha alma usasse roupas largas. Uma coisa miúda, acanhada, aborrecida e cansada se apodera do meu ser. Sobra pele, sobra unhas, cabelo, sobre extremidades. Um caminho inteiro vazio à frente do espelho.

Não tem nada a ver com raiva ou com desespero. Antes tivesse um nome. Talvez fosse mais fácil compreender.

Mas essa não-coisa está em todo o vazio que me completa. Como se fosse um não-viver. Ou talvez um excesso de vida constante, quem sabe. Um zumbido ecoa pelas minhas veias. Numa pulsação cadenciada e lenta. Uma coisa não identificada nem classificada pelos olhos de quem vê de fora.
Talvez por isso tanta solidão. Aquela que ao invés de libertar, sufoca. Se outrora trazia luz, agora se enclausura em escuridão. Mas é uma escuridão que esclarece. Tudo está tão claro agora que o medo já não existe. Antes o medo que a desesperança.


Será que chegar a pontos tão extravagantes da alma faz bem ao ser? Ou será que a inevitável dor é o que de fato nos move?

Sinto inveja dos que se entorpecem. Eles estão mais próximos de Deus. E sinto extrema ternura por quem se enternece com uma flor morta num jarro. Provavelmente, não é deles a picada fina do espinho.

Na minha rua não há sinos. Nem padres.Só duas velhas de vozes esganiçadas anunciam o raiar, o desenrolar e o cair do dia.Elas não dizem coisas com algum nexo para os leigos.Agora, o que é mais estranho, é que mesmo mortas ou adormecidas elas desconhecem o meu nome.


Publicado em Entremundos, em 03/10/2005 23:03

Um dia

Um dia. A visão do mar. Uns 20 cigarros. Uma ligação inesperada. Um abraço no fim da tarde. A descoberta do valor incomensurável dos olhos de uma menina que faz poesia há 20 anos.
Tanta coisa circula dentro de mim neste momento. E é óbvio que não daria para falar sobre elas sem correr o risco que escapassem pelas fendas do precioso silêncio da contemplação. Por isso, calar é preciso, e viver é precioso.


É assim que me sinto. De quando em vez, olho-te dentro de mim e compartilho todas essas coisas contigo, falando baixinho como se entoasse uma canção de ninar. Vejo, que por cima do ombro, você faz aquele ar de estou ouvindo mas, não quero falar nada. E por dentro, do teu lado, sorrio com aquele ar de que entendo seu enfado porque somos feitos do mesmo pó.

Em verdade vos digo. A vida é tanta coisa. E é só um pedacinho de dia que se perde por entre as folhas do calendário. E espero e espero e espero. O relógio escuta o meu chamado. Só meu amor não ouve. Dorme tranqüilo, dentro de mim.

(Publicado, originalmente em Entremundos, em 8 de outubro de 2005)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ainda sobre o Rio e a melhor frase de efeito que consegui elaborar...

Não há recompensa maior para pés desesperançosos que uma cadeira, um banco de praça, um degrau, um filete de córrego. No meu caso, a recompensa era depois de caminhar por quase duas horas, ter achado as escadas em espiral que me levariam ao sebo e à livraria da Avenida Rio Branco, 185. Cheguei e fui logo anunciando minha aventura, quase como na música do Cidade Negra. A mulher simpática que havia me atendido ao telefone, sorriu, mesmo não compreendendo muito o que significava aquele sorriso pra mim. Insisti: "é a terceira vez que venho aqui". Um senhor octagenário circulava por entre as prateleiras e me olhava como se ele próprio superasse em mil vezes minha ida ao local. Eu tinha ligado para o Pablo naquela manhã. Pedindo socorro, porque não me lembrava do nome da Rua. Fui a primeira vez ao local com ele e Ana Cláudia, em 2005, durante a Bienal do Livro. Ele também não lembrava mais. Mas me deu as pistas possíveis: "Sheylinha, fica perto de um prédio com enormes colunas".
Não sabia por onde começar. Se pudesse, teria começado pelo esquecimento. Limpado toda a minha memória e começado do zero. Prateleira por prateleira. Tanto livro desnorteia. Deixa confuso. A vida fica curta diante de tantas páginas.

Em 1946 a Editora Agir publicou pela primeira vez
O Lustre da Clarice L. Eu estava caminhando por entre as prateleiras com o mesmo vislumbre de como quando eu era criança e me soltava da mão da mãe no supermercado, diante dos biscoitos recheados. Aí eu disse displicente ao atendente “tem algum da Clarice? Me ajuda a achar”. Aí, o outro moço bonito, meia-idade, barba farta, camisa verde, calça azul e voz suave, foi para dentro de um outro compartimento onde fica um oceano de livros mais tímidos e o entregou discretamente um livrinho verde. E sussurrou: "para ela é cinco reais". Eu ouvi tudo, mas fingi distração. O rapaz me entregou O Lustre, 3a. edição, 1967, José Álvaro Editora. Capinha verde, carcomida nas extremidades. O nome dela em cima, branco, o título em vermelho vinho, num logotipo que usávamos nos trabalhos de cartolina no colégio. As páginas amareladas.

Só aquele livro e aquele gesto do moço bonito seriam o bastante.
Trouxe sete livros para casa e apenas 46 contos a menos na carteira.

Quando me sentei no ônibus para voltar à estrada que me levaria de volta ao Congresso, abri livro por livro, senti o cheiro, catei palavras, exortei canções, enchi os olhos de alegria. Estava cheia de orgulho da minha empreitada e quis me exibir para a moça paquidérmica que me acompanhava. “Credo! Livro velho! Não gosto dessas coisas. E essa moça aí que assinou esse livro em 1968? Será que já não é um fantasma?”. E continuou tagarelando argumentos quase insuportáveis de serem ouvidos.

(...)


Engarrafei minha indignação. Pensei numa resposta adequada e retruquei no meio da sua voz esganiçada: “Jaqueline (esse é o nome da paquidérmica), todo livro tem um caminho próprio. Esse tem o seu. E eu espero que ele siga sua história um dia, sem mim, nas mãos do meu filho, ou de qualquer outra pessoa que seja”. Ela me olhou com cara de cuscuz e comecei a cochilar, exausta.


(Pavitra, na próxima vez que for ao Rio, peço socorro, tá bom? Obrigada pelo carinho)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O começo da visita

Muitas pessoas. Todas indo pra lá e pra cá. Ninguém se conhece. Ninguém se vê. Muitos santinhos e panfletos me chegam às mãos. Mas ninguém tem tempo de rezar ou de ler anúncios. Na quinta entrega, recuso educadamente. Na décima oitava, ignoro. Prédios longos e tontos. Esquinas. Muitas esquinas. Não sou daquele lugar. Guardo em mim um sopro do galo que canta a partir das três da manhã lá no quintal da casa da minha avó. Não é tempo nem hora, mas analiso as páginas do meu livro de memórias. O galo e a minha avó estão lá. Decerto para me proteger. Ninguém parece se importar, mas em mim faz um frio de porta de geladeira aberta. A primavera se despede com chuvas embaixo da linha do Equador.

Não queria fazer um diário bobo de viagem. Mas é inevitável. Fui pela terceira vez ao lugar onde meu pai sempre ía e ficava por muito tempo na minha infância. "Moça, eu estou de frente para... poderia me dizer como faço para chegar em...". As pessoas me diziam qualquer rua e qualquer direção. E, mais vinte minutos de caminhada. E o lugar não chegava nunca. O Rio é muito grande. Bem maior que o arco dos braços do meu pai. O Rio é do tamanho das informações erradas. Dadas de qualquer jeito e sem o menor jeito.

Assim, daquele jeito, sentia saudades de muita coisa. Até de umas meias surradas que já nem me lembrava mais onde as tinha guardado. Fiquei pensando se não era naquele canto do armário onde não tiro a poeira faz tempo. De onde eu venho, a gente quase pega na mão dos outros para levar até o lugar. Eu mesma já peguei na mão de perdidos umas três vezes. Até meu coração foi junto numa delas. A vida reserva surpresas nas esquinas. "Moça, você sabe onde fica..." Ela já atravessou a avenida que tem um minuto cravado no semáforo para umas 73 pessoas passarem ao mesmo tempo. Acho que não notou minha presença. O barulho é maior que os olhos.

Quase desistindo, me entrego ao labirinto das lembranças. Vou me guiando pelo cheiro das colunas, a arquitetura antiga do Rio que um dia fora capital, os prédios modernos, exibindo vitrines com 50% Off. Meus pés seguindo o tato do chão. Diante de mim a Avenida Rio Branco, número 185. Finaly, chego ao espiral de escadas que vai me levar ao lugar que não é parecido com a minha casa. Mas que tem cara de lar: o sebo Berinjela de um lado e a livraria Leonardo da Vinci do outro...

Sorry, continuo depois. A chegada ao Sebo me emocionou demais. Preciso de um tempinho para continuar.

O castelo de papel

Quando eu era pequena, meu pai quase sempre não estava em casa. Ele ía para o Rio e ficava lá por meses, anos. Nunca foi pescador. Era sim uma espécie de eletricista. Desenhava super-bem. Era inteligente e gostava de uma boa briga política. Numa de suas voltas, me trouxe um castelo. De bonecas. Chegou no meio da tarde. E disse: "Tenho uma surpresa". Não sabia ainda o que era surpresa. Depois do jantar, e eu fiquei o tempo inteiro no colo dele, desarrumou o enorme embrulho. Cortou, encaixou, colou e estava pronto o castelo. Era bonito. Maior que eu quando sentada ao seu lado. Mas eu estava confusa porque ainda queria saber qual a surpresa que ele havia trazido pra mim. "Pai, e a surpresa?". "A surpresa é o que você poderá fazer agora com oa sua imaginação".