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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Biscoito da Sorte

Se não és capaz de encontrar Deus nas montanhas, no mar, no azul do céu, no cheiro do jasmim, no sorriso dos infantes ou no gorjeio do bem-te-vi, olhe para dentro de ti. E torça para enxergar o bem. Não aquele que podes receber, e sim aquele que podes dar.

Se você tem em casa “Teoria das Comunicações de Massa”, de Mauro Wolf, e não é seu: Devolva-o! Que coisa feia!

Chame duas amigas para tomar chá, comer bolo e pão caseiros. Se uma delas (ou as duas) chorar, chore junto. Quando rirem, dê gargalhadas, mesmo que a piada seja sua. Não se importe com calorias. Converse sobre a vida. Reclame só um pouquinho. Ouça. Agradeça. Coma mais bolo e mais pão. Amigas como elas acalmam. Revelam seu lado mais sereno.

Convide para sua casa uma amiga que tenha filhos. E, além de bolo (formigueiro feito pela “avó”), tem que ter refrigerante preto e sorvete para acompanhar. E, quando a caçula falar mil e quatrocentas vezes a mesma coisa com a mãe, sinta invejinha branca daquela paciência toda e sonhe em um dia ser igual.

Compre um sapato novo. Uma bolsa nova. E um porta-retrato para colocar a foto de vocês dois. Se tiver paciência para esperar as promoções de janeiro, melhor ainda.

Se tiver um sonho estranho com um cara rastafari que tinha sete filhos, estava apaixonado por você e, quando beijava, tinha língua de lagarto, quando acordar, olhe pro lado, respire aliviada ao constatar que era só um sonho.

Para ser inteligente não é necessário ser artista, criativo, cientifico ou rico. É primordialmente necessário ser probo consigo mesmo, no equilíbrio de ser também com os outros: colocar-se em outro lugar que não seu próprio umbigo. Se não sentir, ao menos enxergar a dor e as falhas alheias.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS TUAS LÁGRIMAS"


É de salgado o som que desce dos teus olhos
e bem baixinho o gosto vindo do teu choro.
Teus chororôres te visitam, se cansada.
E se tocada por quem amas, lacrimejas.

Choras por tudo: por um verso e por um cão.
Choras no não — ponto final do que era amor.
E quando amor, choras do choro de quem amas
— choro de osmose, dizes tu, e eu me calo.

Me apraz teu choro: muito íntimo e discreto
(meu predileto e, cá pra nós, o meu igual).
Choras e sabes que o teu choro é de quem vive.

Só não convide a mim a um duo lacrimoso,
para a mistura não tornar doce o que é sal
ou, menos mal, em vez de dor, sentir-se gozo.


Antoniel Campos


Esse poema foi escrito em 22 de dezembro de 2005 pelo poeta Antoniel Campos. Amanhã ele fará aniversário, portanto. Ler um poema é sempre revelador. Para mim é como se fora a primeira vez. Antoniel, muito grata pela sua inspiração. Sinta-se abraçado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Como nasce um micro-conto

Pode o vento bater mais forte e abalar as certezas. E a chuva molhar o medo, causando frio na alma. Lâmina cortando a ponta de verdades gastas.

Pode a casa ficar escura e fechar os olhos para as estrelas que o jardim esculpe na copa das árvores.

Pode até o livro cessar a voz que canta nos ouvidos das teclas. Os dedos estão duros, vazios de ideias.

Aí, transformo a falta na queixa, dela extraio uma simples frase e entrego para meu amor, que aberto e generoso me responde:

"Caracas, isso é um micro-conto"

Ei-lo:

Tudo o que tento ganha condição inútil o suficiente para se tornar página em branco...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cabeça no travesseiro

É profundamente lamentável que esteja se arraigando uma cultura, na vida das pessoas, de que elas só devem se envergonhar de alguma coisa que denote seu caráter egoísta, corrrupto, desrespeitoso, criminoso ou as quatro situações juntas, caso sejam incontestavelmente flagradas ou posteriormente descobertas. Foi-se o tempo em que a cabeça no travesseiro deflagrava algum tipo de peso na consciência. A velha máxima salve-se quem puder tem se transformado no safe-se quem puder. E tanto mais esperto e competente é aquele que conseguir ludibriar, extorquir e roubar o direito à dignidade do outro, conseguindo manter-se no anonimato dos olhares alheios e na redoma da cumplicidade dos seus comparsas.

Acertou quem pensa que me refiro aos últimos acontecimentos, alardeados pelos noticiários de mais um escândalo político, envolvendo suborno de dinheiro. Dessa vez nos bolsos dos paletós, nas meias e ainda com direito a oração de agradecimento. Vejam só, eu suplico aos que têm fé e creem em Deus: deixem Ele em paz! Deus não tem nada a ver com isso.

Choque, espanto, indignação, desânimo são alguns dos primeiros sintomas facilmente identificados na população que literalmente assiste a mais um entre muitos escândalos envolvendo o PT e o PSDB (vide mensalões e mensalinhos), só lembrando de dois, sendo agora a vez dos protagonistas Democratas, com os coadjuvantes do PMDB. Pois bem, mais do que os sintomas acima citados, a indiferença e o descrédito com a política são um cancro ainda mais nefasto para a saúde da democracia.
Diante dos fatos incontestes de corrupção, não dá para simplesmente fazermos muxoxos e meneios de cabeça como se nada pudesse ser feito, e acreditar que bom mesmo é tornar-se adepto do umbiguismo e o resto que se dane. Precisamos entender que essa premissa só funciona bem para os mais degradados ética e moralmente, ou facilmente cooptados para favorecimentos individuais.


Ao invés da resignação aos fatos ou do inconformismo que não passa da sala de estar, que tal começar a pensar sobre em quem votar? Por que não exigir, por exemplo, que seja aprovado o projeto que proíbe a candidatura de pessoas que tenham ficha suja na Justiça? Há muitas coisas que podem ser feitas. A democracia pede participação.


Esse artigo foi publicado no Novo Jornal na sexta-feira, 4 de dezembro. E, num súbito exibicionismo que, garanto, será breve publico-o na minha esquisitice.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Coisas que eu teria feito I


Teria me recostado no sofá de veludo vinho por mais vezes e com mais vontade. E deixaria de lado o impulso de levantar e bater a porta sem olhar para trás. Ou quem sabe, ali sentada, somente tivesse olhado para o lado. O lado onde estava seu corpo, recostado e quente, mirando o quadro na parede. Impassível e livre como um gato. E deixado que esse movimento puxasse seu olhar para o meu. E depois, depois saberíamos.


Teria dito mais vezes e mais alto e mais claro quanto fosse preciso, sim eu te amo! Nós nos amamos desde o dia em que eu nasci! E daí se você vai morrer? Enquanto isso não acontecer, deixe que eu pinte as suas unhas! Penteie seus cabelos pretos retintos de tinta, escolha o mais belo anel e limpe seus brincos com aquela substância que você chama de "caó" e que eu nunca mais encontrei igual para lustrar as minhas alegrias promovidas pelo desejo de deixar tudo limpo. De esperar chegar de tardinha para você me fazer cachos nos cabelos e depois ouvir suas histórias de trancoso, e de aprender com seu modo particular e fiel de ver o mundo, vó.

Teria comprado aquele sapato preto, estilo boneca, salto médio. Mas o cara da loja queria me dar aula de economia e não o desconto que amealhei. Fui embora, pisando tênis.

Teria insistido mais no risco e menos no traço.

E teria tido mais tempo para desenhar com o vento.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O post dos abraços


Quando eu era pequena era mais fácil. Abraçava até perna de outra mãe. Explico: naquele tempo, minha mãe e meu pai eram bem grandes e, quando me desgarrava deles e voltava, abraçava a primeira perna de calça jeans que aparecia na frente, com preguiça de olhar para cima. Os vizinhos, amigos e até estranhos achavam engraçado ver aquela menininha de olhos grandes e cabelinhos cacheados abraçando com força sua perna. Quando eu olhava para cima para confirmar o engano, não pedia desculpas, convidava a sorrisos. E dava tudo certo. Era um tempo que em que estranhos aceitavam abraços.

Aí o tempo passou. A vida foi escasseando os cabelos ao vento e os joelhos foram cedendo o espaço dos arranhões para as nódoas das cicatrizes. Tenho acumulado recomeços. E tenho inclinações para não guardar mágoas por mais de duas horas. Tendência à seca de ressentimentos. Em compensação os olhos vivem mareados d'água. Não sei o que causa isso: talvez pancadas rápidas de lembranças.

Hoje eu me detive por 15 minutos para abraçar a primeira calça jeans que me apareceu pela frente na imaginação. Resultou nesse post, uma junção dos meus suspiros, dos vazios e lapsos de memória, dos tropeços nas palavras, da gargalhada no meio do almoço; na beijoca com poucos braços na despedida dentro do carro, há poucas horas e da imensa vontade de abraçar alguém que eu amo. Nunca quis abraçar o mundo. O propósito é abraçar um por um. *Sintam-se abraçados.
(*meus amores, meus poucos amigos, meu gato, e meia-dúzia de beija-flores, joaninhas e outra sorte de nove-horas que moram no meu jardim)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Bicho esquisito fala

o Bicho não está solto. Está preso em dias brancos. Acorrentado à mesa da escrivanhinha, uiva para a poesia que dorme na estante.

Bicho não sabe esconder coisas de si, nem dos outros. O Bicho chora quando cansado. Reclama do calor. Odeia supermercado. Vai ao veterinário. Perde a fome. Dorme cedo para dar mais tempo aos pesadelos recorrentes. Sonha com lobos famintos e uma das três irmães górgones que transforma tudo o que vê em merda.

Sorry, Bicho não aprendeu a ser luxo.

Bicho sabe quando é guerra porque fareja quem quer lhe tirar a couraça, vestes dadas pelo tempo e pela selva. Honra sem orgulho. Gente de alma bem pequena que tenta legitimar a falta de humanidade na sua própria fraqueza de caráter. Bicho tem caráter e não tem medo de correr riscos e de ficar nu e frágil e de segurar o peso dos olhos de quem só vê depois que aniquila o olhar do outro. Vaidade.

Bicho tem medo de gente. Confissão. Bicho não aprendeu a mentir. Toda vez que mente, cabelo arrepia, os dentes rangem, bate angústia, o olho denuncia. Engasga. Pede desculpas. Falar a verdade não é prêmio ou deferência é antítodo contra a hipocrisia.

Bicho não é camaleão. Bicho é esquisito.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A cor do dia

melhor construir gestos que cultivar palavras vazias.

minha avó parava o vento com os quadris e fazia ele dar meia-volta. e eu pensava que era só o balanço da rede e cantiga de ninar. deixa que não, era sabedoria.

quando o vento voltava, geralmente trazia recado do jasmineiro do vizinho: anunciando o cair da tarde, a despedida dos passarinhos e a madorna do córrego que, ao meio-dia, tinha mania de fotografar as nuvens e de exibi-las no chão do leito. e eu pensava que era só luz. deixa que não, era magia.

todas essas coisas só porque hoje eu vi um beija-flor beijando uma plantinha lilás, trepadeira e bailarina, tendo como palco um muro todo despedaçado no meio da rua, ali perto da Junta Comercial. e eu pensando que o dia seria de comezinho a chato. deixa que não, o dia me presenteou com um passarinho beijando a flor que eu ganhei da rua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vagamundo

Para experimentar o alívio da dor lancinante na fronte e por trás da nuca são necessários a aspirina e o descanso. Assim como entender que para que os acordes despertem os mais doces sentimentos ouvidos adentro, seria necessário antes o exercício das cordas paradas, o piano fechado, os olhos miúdos pela paz do silêncio. Por isso, até hoje, silencio quando um bem-te-vi gorjeia pedindo passagem para um bom dia de verão.

Mesmo que esse dia seja mais um entre tantos outros nessa travessia pelo deserto.

(E os teus olhos que me falam de paraíso apenas incidem o inferno dos meus, deitados à espera do pesadelo. Esse emblema da garganta seca e da pele murcha pelo cansaço da chuva que nunca chega, e que nunca mancha essa terra de índios dizimados)

Para que a curiosidade se descortine em descoberta, a dúvida chegou primeiro. Antes das nuvens desenharem respostas no céu, o vasto e ininterrupto azul se recusa a dar explicações. A ciência não salva o homem da imagem no espelho.

(A imensidão traz coragem de seguir adiante ou revela o abandono).


Só é um lugar dentro da alma.

Moram nestes versos decaídos certas estrofes que me pertencem e que jamais me libertarão dessa coisa que alguns dão nomes.

(Angústia. Solidão. Desânimo. Melancolia. Cansaço. Pedaços. Sede. Abismo)

Sou a ausência de nomes. Me valho da leitura dessa terra seca para redescobrir o pesadelo dos índios. Durmo o sono despedaçado dos abismos da noite. Tenho curiosidade pelo que já passou. Sou artífice de uma ciência que não tem espelho. (Só dúvidas). Não sou eu mesma nem os olhos do outro.

Nômade na minha própria casa. Esse deserto que me atravessa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Confissões

Aos 19 anos qualquer embarcação miúda é segura. Minha avó, nos mais de 70, já não aceitava qualquer coisa. Desejara um navio, de preferência com muita gente no cais a se despedir dela na hora da partida. E assim se foi. Ontem foi o dia dos mortos. Dentro de mim jazem alguns deles. Antes eram cadáveres. Mas já os icei à condição de almas e agora aprendo com eles sobre a inexorável caminhada. Talvez ainda me restem algumas braçadas nesse mar ora silente ora ruidoso. Que tem me transformado num corsário avesso à patifaria humana.

Nada como um dia atrás do outro

Era chegada a hora.
Antes, passara uns dias mantendo o diário atualizado. Nau em calmaria.
Agora a tempestade chegou junto com o calor. E o silêncio toma sua forma mais sublime e chama a boca para uma dança que não tem música para acabar.
Falando em hora, sem tempo para colecionar clichês alheios e misericórdias vazias nos semáforos.

No mesmo dia um gato morto. Os olhos, pelo estarrecimento de olhar direto na cara da morte, enegreceram, guardando toda a sabedoria do mundo. Um casal deitado na calçada, interditando o meio-fio. Mais que o gato, é fato, que morrera esticado bem no meio da calçada. Eles não. Eram um pouco calçada e um pouco asfalto. Ambos de camisa preta numa infeliz coincidência (ou seria mimetismo de amor?). A cidade não entende aquele sono. Sorry, os burgueses ocupados demais com seus cartões de crédito. Aquela cena me enterneceu. Tenho inclinações para conjunções urbanas. O que está ao meu redor também sou eu. Não sei somente assistir. Queria acorda-los ou, quem sabe, experimentar do mesmo sono que torna absurdos e inconvenientes a explosão de luz solar, o barulho dos motores, o bailado monotemático dos semáforos, um ou outro pensamento que escapa goela afora dos que passam. Gentilmente, ele emprestava a mão esquerda como travesseiro para a cabeça embriagada de sol da mulher. Percebam, não era a extensão do braço que dava apoio à quietude mortal da moça. Era a palma da mão que fazia fronteira com os ladrilhos e, assim, separava seu rosto já surrado das marcas da rua. Aquilo caíra-me como um canto, como quando ouço The Canals of our City, foi como abrir o mapa do mundo e achar o caminho de volta para casa. (Decerto, que deve existir um pouco disso nas mãos de outras pessoas?). Sorry, não estou aqui para trazer respostas. Tenho inclinações para as hesitações das mais diversas espécies.

Mas era a rua. Nove da manhã. E era chegada a hora. E sabia exatamente por onde começar. Mas isso não gera frutos literários. Isso é tão prosaico quanto acordar cedo, escovar dentes, enfiar pão com manteiga na boca da xícara de café e amolecer alguns segundos antes para deglutir o gosto de sempre das manhãs.

A vida prosaica é mesmo um esquecimento. O que não dá para perdoar, melhor esquecer, não é mesmo?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Duas estações


Criança brincando na rua. Pássaro fazendo ultrapassagem de fio de alta-tensão. Um formiga desgarrada da turma e, sei lá, talvez até um pé de vento hoje, me farão chorar. Não é só tristeza. É ensaio de melancolia. Treino passos para não despencar do céu. O meio-fio nunca me exigiu equilíbrio. Pelo contrário, quando era pequena adorava quando trocava as pernas, os passos tropeçavam na ânsia de alcançar mais alguns metros nos caminhos de paralelepípedo, antes de ir ao chão. Esse inexorável companheiro de caminhada.
Minhas pálpebras fazem um balé para dentro. Se encontram com as memórias, com as alegrias da infância e os jarros vazios das roseiras que eu ainda não plantei. E fico assim meio sem jeito. Quando me dou conta, as vidraças do olhar estão embaçadas pela teimosia das lágrimas.

Hoje, definitivamente, acordei e vi que era um dia para chorar.

Insisto, treino o olhar, puxo a atenção para uma outra coisa que não seja por dentro, em vão. O porão do silêncio fica acolhedor. Prescindo de explicações. Tampouco as tenho para dar. Hoje não me sinto generosa de palavras. As veias estão fininhas de tanto se espremer, para deixar a alma passar.

É outono nos meus cabelos.

Meu endereço único endereço que posso ter hoje: a distração. Se alguém chegar junto e quiser me distrair já está meio caminho andado para me seduzir. Se não tiver medo dessa tristeza toda que nunca experimentou cocaína poderá até chorar junto. Basta estar desatento e franco, como as crianças.

Ardo. Não finjo. Choro. Não disfarço. Brinco com o meu cansaço como quem se entrega às férias do final de ano. Mas nem é verão ainda.
É outono. E as árvores choram as folhas que fugiram para o chão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Particularidades

Para Moacy, Carito, Tácito, Nivaldete, Marcinha e Nonato.

No fim do dia sobram-me alguns suspiros. As migalhas das buzinas, os gritos das máquinas e os ruídos da pequena revolução cotidiana ficam para trás. Vão para um canto qualquer de página.

No fim do dia transpiro pensamentos e absorvo lembranças. Deixo que Borges me conte as ilíadas que eu não estava lá e Akhmátova me ensine a vibrar as cortinas vermelhas do amor que ela desaprendeu. E assim, o súbito descontentamento é substituído pela sensação de que a derrota do dia grava dignidade nos atos, que só os dias diluídos nos anos serão capazes de revelar.

O tempo é bom para desaprender; abrir ciclos; redescobrir substâncias; despertar o arrepio da fala: sussurro. O tempo é bom para modificar o olhar. Quando a gente consegue desabotoar a noite, com todas aquelas estrelas, que não passam de botões na enorme lona parda que esconde a aurora.

Essa noite eu sonhei com uma mulher que queimava na fogueira e eu a consegui salvar. Sobrevivemos. Ela nunca saberá mas, foi indo em sua direção que fui ao encontro de mim mesma. Era tempo de recolher. As amarguras; as discrepâncias; o ranço da raiva e a vacina anti-rábica ficaram no meio do caminho.

Bonita é a vida. Talvez porque não só vida, nela também habita a morte. Bonita e honesta. Nada escapa, nada está imune à irrepreensível pureza da morte. Essa verdade que nos sonda e que nos expia da culpa que vai desbotando a medida em que nos revestimos da poeira, desse incerto deserto que é o futuro.

Sim, e honestos também são os bigodes do meu gato. Fazem-me cócegas ao amanhecer. Para no instante seguinte, trocarem-me pelo amor que dorme ao lado, num triscar de dedos por debaixo do lençol. (Mesmo que este amor durma do outro lado da cidade). Roça a língua crespa na superfície dos meus sonhos. Desdenha minha vigília e a instância dos meus desejos. Imploro carinho. Ele goza da independência dos inocentes.

Sim, é boa a vida. Boa e inocente, quando desaprendemos todos os dias.

A Mulher de Lot

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar


as rubras torres de tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde deste filhos ao homem bem-amado".


Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converteu-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão se enraizaram.


Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.



24 de fevereiro de 1924
Anna Akhmátova (Poesia 1912 - 1964).

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Coisas para se fazer com o sono

Ser fiel à mudez das pálpebras

Desenhar sonhos com a ponta do ressono nas paredes da garganta

Ler os bilhetes que o dia deixou atrás da porta do inconsciente

Estimular a liberdade dos dedos pelas brechas das meias furadas

E estimular a amizade entre a raiz dos cabelos e o travesseiro

Rodopiar os olhos (fechados) pelo salão da preguiça

Contar beija-flores ao invés de carneirinhos

Esquecer tudo

E depois fotografar o que escorregou pela memória

Descortinar a noite com os ponteiros

Para deixar a luz entrar



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Quais são seus medos?

os meus:

de dor de dente

de perder o dente da frente

de me perder no quarto escuro da vaidade

e de pentear os cabelos na mesmice do espelho


de não mais ouvir os bem-te-vis pela manhã e

descobrir o que é azia.

do 16o. andar da carruagem

De esquecer que a fome não está na falta do que comer, está no que se come

De, de repente, ter medo de ficar sozinha

Da mentira disfarçada de sobrevivência

De cometer injustiças.


De mandar flores para o inimigo e ser mal-interpretada.

De picada de agulha nas costas da mão

De mordida de morcego

De falar rápido demais e atropelar a língua

De que meus livros saiam voando pela janela

E deixem o salão abarrotado de vazios

Que Os Trapalhões ressucitem - e cantem "A véia debaixo da cama"


De porta de guarda-roupa entreaberta

De tropeçar nas certezas e não mais dançar com as dúvidas.


De ficar imóvel no segundo, esperando o próximo minuto.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Maria Tereza Horta tem razão...

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca

b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarja vermelha têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos

f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que emudece primeiro

etc

etc

etc

Desaprender oito horas por dia ensina princípios

(Manoel de Barros, em O livro das Ignorãnças)


... Um mundo que é capaz de ter poetas, de gente que faz da realidade cotidiana matéria-prima para poesia, então esse mundo tem salvação.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Teve uma época que todos os problemas do mundo cessavam



Não é quando nos abraçamos como se fizesse séculos, depois que eu chego da viagem do dia amanhecido para o dia que se deita por detrás do sol.

Tampouco quando - mais uma vez e pra variar - é arroz com cenoura e fritada de abobrinha no jantar.

Nem é quando eu me irrito com as perguntas bobas do tipo "já vai?", quando eu já disse "tchau" e estou com a chave cutucando o ouvido da porta.

Descartada a hipótese de ser quando ela parece um trem descarrilhado na madrugada, roncando os motores por sobre as pedras e acordando a todos que moravam lá no Surrão, num tempo que já passou, mas que sempre volta na memória dormida dos sonhos dela.

Nem poderia ser quando ela me manda colocar batom e me olha como se eu fosse um soldado de Esparta.

Ou então quando fazemos sanduíche de abraço com o Fellini e tentamos fazer com que ele entenda que carinho e afeto pelos bichos é algo genético.

Não deve ser por nada disso que eu a amo tanto.


Deve ser só porque ela é minha mãe. E porque teve uma época que todos os problemas do mundo cessavam quando ela fazia massagem na minha barriga.

E é nesse amor que eu me reivento pro mundo: coloco batom, sombra, depois saímos fazendo fotos no celular; escuto Cassandra Wilson e ela dança como se estivesse entendendo tudo; mando e-mail e ela acha incrível e pede para eu mandar um pro primo que mora em Portugal; faço bolo de aniversário diet; seguro a sua mão por cinco segundos para relembrar que carinho, afeto e laços podem se fazer com dedos; fico triste com seu eterno olhar triste a ponto de minha garganta fazer nó de marinheiro e meus olhos imitarem o oceano por pura disposição de ficar no mesmo estado de ânimo dela, sem que ela sequer cogite o que está se passando na minha cabeça, enquanto assistimos o último capítulo da novela, no mesmo dia em que ela faz 66 anos.

PS.: mim, "songamongamordaweb" não consegui "virar" a foto... vai assim mesmo então.

Dia de presente

Lápis Virtual desenhou para mim!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Minha bolsa quer pedir aposentadoria

Minha bolsa de couro amanheceu meio amarela e bocejando muito hoje. Abriu sua enorme boca, mesmo quando eu insistia, em vão, para ela manter a mesma discrição dos seus bolsos. Os riscos de lápis, as manchas de chuva, os vincos desenhados pelos meus ombros, tudo, pareciam inscrever um poema se não de despedida, de aposentadoria. Entrei em pânico.

Insisto com essa bolsa porque nela guardo lembranças de trabalhos antigos, papéis, rabiscos de desenhos de criança, pingos de chuvas que escaparam das asas do guarda-chuva, beijos na boca dados nas ruas, um baile de máscaras em Petrópolis, confissões regadas a cerveja e respingadas por farinha de paçoca, elogios de bolsa bonita, receita de pão caseiro, poemas dos outros, um convite inesperado para ser feliz, e tantas outras sortes de coisas com cara de pote de ouro no fim de arco-íris.

Aí, eu olhei bem para ela, disfarcei meu fastio matinal pelas coisinhas cotidianas e suspirei profundamente. Daí fechei o zíper como se passasse batom em seus lábios, aconcheguei-a debaixo do braço, ensaiei um carinho espremido e pedi um pouco mais de paciência.

É que embora ela esteja enamorada pelo ócio, ela precisa entender que não se acaba assim uma amizade de tanto tempo. E que os amigos só são amigos mesmo quando conseguem ver do lado de dentro dos nossos remendos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Um dos meus talentos


Tenho ojeriza a baratas.

Especialmente as brancas. Imaturas. Descascadas. Fadadas a moléstias, antes mesmo de nascer. Desconheço qualquer ser humano que se contente com uma barata rondando seus corredores por muito tempo. Cedo ou tarde elas são exorcismadas das nossas latrinas que, aliás, são muito mais enlameadas pelas patas de um barata que propriamente pelo material a que elas se destinam recepcionar.

A sina de uma barata é sempre trágica: a escória inevitável dos esgotos; o esguicho certeiro de um inseticida ou no máximo da indulgência que uma barata é capaz de ter, receber uma boa chinelada em suas carnes moles. Tenho repulsa de baratas. Mas nunca tive medo. Muito pelo contrário, não me falta talento para aniquilar baratas que tentam entrar na minha casa.

É setembro. Não deveria começar falando em baratas. Mas é que a moça talentosa que escreve em
Parece que foi assim... foi lá e arrasou com um texto que falava de setembro, de tristeza, e também de baratas. Não resisti em acompanhá-la no mote, já que no estilo nem tento porque ela é única.

Está dado o recado. É setembro e as baratas continuarão bem distantes da minha casa.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bons sonhos e paquera na seção de sapatos

É quando a gente sonha, não se lembra mas, mesmo assim, o sonho faz todo sentido do mundo. Acordei assim hoje: com sonho que nasceu, se desenvolveu e terminou no baú do esquecimento. Nele não cabem angústias, notas promissórias ou palavras remoídas. Chave do cadeado jogada fora.

Há anos tento me reconciliar com os sonhos. No princípio só tinha sonhos cinza ou despencados no cair da tarde ou madrugada, o que dá no mesmo. Depois fui deixando, gradativamente, de babar na fronha, acordar sobressaltada ou o que era aterrorizante, acordar com medo.

Vou contar dois segredos:

Não caí mais na fraqueza dos sonhos mal-resolvidos depois que aprendi a sonhar acordada. Esqueço dos noturnos para abrir espaços aos mais oportunos.

Bom, já o outro segredo não tem nada a ver com sonhos. Ao menos diretamente. Tem a ver com os cachos. Escrevi anteriormente da angústia de viver um cabelo que está sem jeito e com um balanço de 76 rotações. Pois bem, depois de algumas manifestações solidárias a respeito do que é ou não beleza, de dicas de cremes e até texto-poema do Carito essa angústia, vamos combinar - absolutamente inútil - escorreu ralo abaixo.
E, já conto a culminância da minha busca incessante de sempre buscar uma lavagem de roupa mais interessante que orbitar em torno do meu umbigo, do meu cabelo ou de qualquer outro tipo de escapismo barato que esteja fora da vida que circula além das minhas pestanas: estava eu hoje adentrando pela C&A, para fugir um pouco do calor no quengo do calçadão da João Pessoa quando, encontro na minha frente um olhar encorajador de sorrisos. Um senhor sentado na seção de sapatos. Oitenta. Oitenta e cinco anos, talvez. Parecia mais abandonado aos próprios gestos que descansando as pernas, mas essa não é uma crônica sobre o abandono de gestos dos nossos idosos. Muito pelo contrário. Suas mãos não se continham em lugar algum. Dançavam e dançavam, desobedecendo a calmaria dos ombros, dos joelhos e da cabeça abaixada pelo peso da memória. Nos olhamos umas duas vezes e já iniciamos a paquera. Não sei quem sorriu primeiro. Só sei que em certo momento ele me chamou, irresistível, e falou baixinho, quase como quando os anjos nos sussurram preces ao ouvido, perguntando: "seu cabelo é natural?" Digo que sim! E ele replica: "Legal!", levantando o polegar.

Segundos depois, após prender-lhe as mãos brincalhonas em um pequeno beijo de despedida, sigo meu caminho, pensando em qual sonho eu devo me ocupar hoje.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sobre feiura, beleza e cabelo que balança em bloco

Um rosto cavoucado pelo desterro da piedade divina. A mandíbula saliente inibia um traço que lembrava lábios, cercado por dentes disformes. Enormes cílios tocavam a bochecha ressequida, escondendo um dos olhos. O outro, parecia compensar a falta daquele. Saltado, quase nas órbitas do meio da testa. Um rosto que despertava horror e susto. Ao ver aquele homem, cujas mãos eram um pedaço que mal lembravam o todo que segura copos, chaves ou levanta o polegar, uma criança sentada no colo da mãe escondeu o rosto em seus ombros. Inevitável o constrangimento.

Inevitável a compaixão. Ele olhou para trás como quem queria evitar o susto do infante ou a angústia de mais uma vez ver revelada no rosto das pessoas sua feiura inconteste. Encontrou meus olhos sonolentos, que há poucos instantes buscava o outro lado do mundo na janela do ônibus. Sorri para ele, como quem pede desculpas em disfarçar meu espanto. Mas acho que ele entendeu que meu olhar dizia que nem sempre as coisas acontecem como planejamos, nossos pais, o Governo, Santo Agostinho, os anjos. Eu mesma, se pudesse ter planejado melhor, teria nascido com outra cara.


Acho que é assim com a maioria dos que não confundem o brilho ofuscante do anel com a utilidade dos dedos. A beleza só serve quando vem agregada à ignorância do seu impacto. Se o belo sabe que é belo, torna-se enfadonho, óbvio. Como doce que passa do ponto. Arripuna os olhos.

Falando em ignorantes, dia desses, no aniversário da minha amiga Anna, conheci uma mulher absolutamente linda tanto quanto é indiferente à sua beleza. E não por que queira, é porque ela não sabe - ou ao menos não nutre o egotismo ou qualquer coisa que possa descambar para o velho e bom ditado de "cagar na pia". Tem coisas mais importantes para fazer na vida além de cultuar o espelho. E como é bom olhar para o belo inocente. Para o belo que nos presenteia com a simplicidade, com a poesia revelada num sorriso tímido, quase de discórdia, quase que pedindo desculpas por ser belo e desconhecer isso. "Help" é assim: bela por esquecimento.

Não sei como encaixar nesse texto o fato de que meu cabelo cacheado cresce desordenadamente. Saio da fase poodle e entro na fase leoa dia-a-dia. Ele não voa, balança em bloco. O brilho do negro se esconde nas curvas dos cachos. Molhado é pouco, seco é uma alegoria. Definitivamente, está difícil lidar com o novelo de gato que ele se transformou. Para quem tem cabelo crespo e rebelde, no melhor português: pixaim!, duas palavras resumem meu momento: paciência e resignação. É o preço de ser eu mesma: um intermédio entre a compreensão do feio e do belo, principalmente quando a moldura é o meu cabelo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sobre a poesia do TS Eliot que o Pablo me enviou e outros temas


Com o post anterior descobri que Moacy, Pablo (além de mim) e outros mais tímidos que não quiseram se pronunciar temos desencontros entre nossos nomes e os nomes que os outros nos dão. O Pablo me confessou que é no "Capistrano" onde mora o espanto e o engano de algumas pessoas. Moacy é no seu "y" também. Enfim, talvez os erros estejam aí para nos lembrarmos de quem somos. Melhor seria se fôssemos todos gatos e tivéssemos três nomes (o poema abaixo explica-se bem melhor que esse enunciado fajuto).

Pablo, obrigada pelo poema alheio. Obrigada pela visita também. Mi casa es su casa!



O Nome dos Gatos


Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,
E não um jogo que entretenha os indolentes;
Podes julgar-me louco como um chapeleiro,
Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,
Como Pedro, Agusto, Belarmino ou Tomás,
Como Vítor ou Jonas, Alonso ou Clemente
- Enfim, nomes discretos e bastante usuais.

Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,
Uns para damas, outros para cavalheiros,
Como Platão, Deméter, Ésquilo, Menadro,
Mas são todos discretos e assaz corriqueiros.

Mas a um gato cabe dar um nome especial,
Um que lhe seja próprio e menos correntio:
Se não, como manter a calda em vertical,
Distender os bigodes e afagar o brio?
Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,
Como Quaxo, Munkustrap, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellyjorum...
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,
Este de que ninguém jamais cogitaria,
O nome que nenhuma ciência exata atesta
- SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.

Se um gato surpreenderes com um ar meditabundo,
Saibas a origem do deleite que o consome:
Sua mente entrega-se ao êxtase profundo
De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:
Seu inefável afável
Inefanefável
Abismal, inviolável e singelo Nome.


Tradução do Ivan Junqueira.
Retirado de: O Livro do velho gambá sobre gatos travessos.
ps : o “inefanefável” é assim mesmo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Identidade interditada

Meu nome se escreve com "y". Tem gente que esmaga a letrinha e tranforma a consoante na vogal "i". (Aliás, Y é consoante ou vogal estrangeira?) Fico sem saber se é distração, esquecimento ou, simplesmente, se sou eu mesma a quem o outro queria falar. Sem o Y sou estrangeira do meu nome.
- Sheila está?
- Desculpe, foi engano.

Se me chamasse Maria, Dulce, Ana, Flor, talvez estreitasse as margens da troca de letras.
Mas tem dias que não me importo muito com isso. Repouso a contrariedade num suspiro profundo. Abro a garrafa e tomo mais um cafezinho. Circulo o olhar por entre as órbitas do pensamento. Olho a paisagem. A janela ergue meu olhar para fora de mim. E é fora de mim onde mais decifro pedaços. Em poucos segundos refaço o caminho das letras, costuro a boca com reticências, me encontro no engano do outro, sem ressentimentos.

Talvez só eu mesma tenha que respirar meu nome a plenos pulmões e com todas as letras que lhe cabem. Ninguém mais é obrigado a isso. Talvez.

Mas, algumas coisas interditam essa afirmação: é com e nos outros que eu consigo completar minha autoria; sozinha me basto mas não sou suficiente. Preciso do meu Y, mas também necessito do erro dos outros para fazer funcionar as letras da minha humanidade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O clichê ambulante

Era para ser um almoço qualquer aquele. A idéia central era nos poupar da cozinha num sábado ensolarado e primaveril. Quase em linha reta, seguimos para um shopping que, em certo momento, se bifurca com uma universidade. Ou seria o contrário? Bom, a conclusão dessa sentença pouco importa. Verdade é que a grande praça de alimentação, no momento, está murcha e oferece apenas duas opções de restaurante. E não é preciso sair da garrafa ou colocar para funcionar uma pequena parte do cérebro para perceber que germinavam duas grandes filas. Resguardando as sexagenárias pernas de minha mãe, sugeri que ficasse ali sentadinha em alguma mesa e eu cumpriria a via crucis por nós duas.

Era para ser uma fila qualquer aquela. Filas são chatas. Não há nenhum charme ou reflexão que mereça a estada em uma fila. Mas ali, sob a única condição de esperar minuto a minuto – e foram em torno de 30 - não pude deixar de observar o burburinho. Os matizes daquela massa de gente ora amorfa ora indulgente com a espera. Os blá blá blá intermináveis e circulares sobre o mesmo tema. Um deles, infelizmente próximo demais a mim, me impedia de dar-lhe o desprezo do meu testemunho. Uma moça bonita dentro dos padrãos clichês de uma barbie girl alardeava com uma naturalidade de candidata a miss – a uma platéia muito mais invejosa que atenta - qual o shampoo, os cremes e a maquiagem que ela usava para se tornar o ser perfeitamente impecável que ela acreditava ser. Tudo tão desproporcional e afetado à simplicidade que ela tentava imprimir no discurso, que mais parecia um paquiderme patinando por sobre uma pista de gelo. E, a qualquer momento, alguém poderia desvendar que o que ela mais queria convencer é de que ela era feliz.
E tudo nela: sua beleza, seu palavrório ensaiado, a tez translúcida de creme importado, as horas a fio no “dermo” era falso, forçado. Bom, sem mais firulas adjetivas, ela era patética. E, ao invés de sorrir ou de me divertir com aquela cena esdrúxula, senti pena. (No dicionário, patético quer dizer "que comove alma, despertando um sentimento de piedade ou tristeza"). Não é nada bonito assistir a alguém patinando na maionese da auto-referência, implorando para ser amado.

Na boa, sem grandes reflexões psicanalíticas, sempre que ouvires uma mulher alardeando sua própria beleza, como algo irresistivelmente natural e ao alcance de todas, pode apostar que, na verdade ela queria mesmo era fazer sucesso vendendo livros de auto-ajuda com fórmulas mágicas de como agarrar um homem. Ou para sua glória e sucesso: agarrar vários homens sem regra alguma sobre intervalo e respeito aos sentimentos. Pode não parecer, mas uma coisa tem tudo a ver com a outra. E mulheres que pôem sua "beleza" a serviço de agarrar - e de manter - homem não merecem muito de nosotras, a não ser pena ou desprezo.

E como se não bastasse ser obrigada a assistir aquele teatrinho de ventríloquos de comercial de cosméticos, ainda tive a experiência de observar três jovens senhoras furarem a fila no velho padrão burguês-sai-da-frente-que-chegou-a-minha-vez de ser. Quem não entendeu nada foi a moça do restaurante, quando sugeri que ela colocasse como acompanhamento um pouco de óleo de peroba.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

antes do abismo dos dias

Sinto-me entre vírgulas.
As noites estão mais curtas, é fato. Porém, os dias ficaram mais longos. Mas isso não é nenhuma reclamação óbvia. Não quero fazer reclamações óbvias. O óbvio não me distrái. No máximo dá preguiça.

Enquanto isso outras coisas orbitam entre minhas vírgulas:

ardência nos olhos
fome na metade do dia
sonhos no meio da noite
garganta seca, rinite, alergia
chulé de gato
pão caseiro
o choro por um fio
o risco de um arame no pé
nós em pingos d'água
mãos nômadas passeando pelo corpo no banho
esquecimentos
cor de batom
interrogações
a distância do ponto final

PS.: agora volto para o abismo, nem totalmente sã, nem salva.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Blog de Ouro - Indicação





Gente, o Bicho Esquisito foi indicado por Nivaldete Ferreira em seu Lápis Virtual para fazer parte do selo Blog de Ouro. Fiquei feliz, surpresa e muito grata, claro! Pela surpresa, dou-me ao luxo de dizer que Nivaldete é uma mulher com alma de estrela e uma romancista que faz a literatura valer a pena. Mais uma vez, deixo aqui meus agradecimentos, querida.
As regras dizem que temos de indicar mais quatro blogs para o Selo.



Pois vão os meus:


Potiguarando, do José Correia Torres Neto, porque ele é único

Balaio Porreta, do Moacy Cirne, pela generosidade que me faz crescer

Cidade dos Reis, do Mário Ivo, pelo inconfudível charme

Os Poetas Elétricos, do Carito, pela poesia que ilumina meus dias


Só mais uma coisa, preciso publicar as regrinhas também:
1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs entre os de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Contemplação

Escuto o tempo. E descubro que dentro do silêncio cabem coisas que não ocupam espaços:

o abraço dos cílios na orla dos teus olhos;

b) que a pausa pode ser mais intensa que o aplauso;

c) que a beleza quase sempre pode ser fotografada pela memória. (Quando a beleza borra o papel, não foi digna dos instantes);

d) o meu um fica tão largado que, às vezes, me espalho em mil;

quando vejo o mar, seco as lágrimas e penduro a esperança na linha do horizonte.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Confissões de segunda

Dormi praticamente o trajeto inteiro do ônibus hoje. Entre a pracinha de acolá e as esquinas daqui, eu ali presa a um sono cheio de saudades de travesseiro. A ausência de silêncio em ciranda com o ronco do motor me embalava num sono tumultuado por um sonho de travessia. Um sonho que não deixa pegadas. Um sonho que fica preso nas pálpebras quando a luz invade os olhos.

O dia correndo e minha mente pedindo trégua. Pedindo para alguém apagar a luz.

O dia já passa da metade. E embora já esteja em passadas largas não sinto os pés. Despertei do sono do ônibus, mas Plutão caminha por sobre o sol. Faço turismo por sobre as cicatrizes. Quase me lembro de algumas dores. Busco o receituário do esquecimento.

Sinto necessidade de franqueza mais que de generosidade.

Ainda bem que ainda tem outro pedaço do dia para, quem sabe, eu ainda possa arrancar silêncios da paisagem.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Lapso

E foi assim que ela o encontrou na memória. Como quem folheia com displicência as páginas de um livro e redescobre uma coisa rara: a assinatura de um antigo dono; um bilhete alheio cujo teor é mais importante agora pelo envelhecimento das revelações; ou o enlevo pelo reencontro de uma rosa seca e espremida, herança da efemeridade das belezas vermelhas.

Minutos antes perdida, assentou as lembranças num canto arejado da mente. Como quem busca o melhor ângulo da janela aberta para guardar melhor o olhar do lugar. Pensou se havia deixado para trás alguma palavra esquecida (e se ainda haveria necessidade de reedita-las no presente e dizer-lhe em voz alta), mas sucumbiu à indiferença desse desejo porque as palavras só têm significâncias quando deixam de ser só palavras.

Mas até mesmo ele ali no canto arejado da mente já não se mostrava o mesmo. Era uma espécie de silêncio e contemplação. (O que combinava com as palavras só palavras). Era ele mas diferente. Não havia como negar a existência de uma fina poeira que tornava as coisas (ela quer dizer as lembranças) duvidosas e disformes. Ou, ao menos, cansadas demais para trazerem certezas e alegrias como uma canção. Nas canções, as palavras dançam, digrediu.

Foi quando levantou o olhar para cima e depois para a esquerda e depois para a direita, suspirou e pensou se havia destinado rumo correto para aquela lembrança que perdia os movimentos, tornando-se uma estática página amarela. Aquilo estava se tornando um desprazer! afinal se pudera nele se encontrar, como não consegue fazer quando está apenas com os pensamentos amarrados pelas correntes da razão, então que pudessem sair novamente para dançar, que ele lhe mostrasse um novo poema, que fossem à feira comprar manjericão ou então que esboçassem um beijo desajeitado e limpo debaixo do luar. (Mas a razão já lhe sacudia as cortinas do devaneio e começava a dar, excessivamente, nomes aos sentimentos. E as palavras, bem, elas simplesmente se revestiam de dicionários, compêndios, teorias, análises, tornando-se sílabas rigorosamente agrupadas).

E assim, a lembrança passou de insólita a corriqueira. Fora só mais uma entre as 306.009.875.456,3 que percorreram sua casa íntima naquele dia. Decidiu não acabar o dia de mau humor por causa daquilo. Ainda daria tempo de ver o por do sol e de dar algumas pedaladas.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Adoro a moral dessa história

O Mujique e os Pepinos
Liev Tolstói


Uma vez um mujique foi a uma horta roubar pepinos. Chegou-se aos pepinos, pensando: "Bem, eu levo um saco de pepinos, vendo; com esse dinheiro eu compro uma galinha. A galinha me bota ovos, choca os ovos, me dá de cria pintos. Eu dou de comer aos pintos, vendo, compro uma porca; a porca me dá de cria muitos porquinhos. Vendo os porquinhos, compro uma égua; a égua me dá de cria uns potrinhos. Dou de comer aos potrinhos, vendo; compro uma casa e boto uma horta. Monto a horta, planto pepinos, não deixo roubar, fico vigiando com firmeza. Contrato vigias, boto pra tomar conta dos pepinos, depois chego pé ante pé e grito: Ei, vocês aí, vigiem isso com mais firmeza!". O mujique estava tão concentrado em seus pensamentos que se esqueceu completamente de que estava em horta alheia e começou a berrar. Os vigias ouviram, chegaram correndo e deram uma surra nele.


Tradução: Paulo Bezerra (para Revista Cult 40, novembro de 2000)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cartas IV

Outono de 2009
Minhas pálpebras começam a anoitecer. Já é tarde. A quarta-feira já chegou. Gosto de te escrever nessa sonolência que me leva a um estado de adesão às confissões. O sono nos torna puros como as crianças. Mas nem eu nem você podemos nos dar ao luxo de nos considerarmos puros. E nossa infância esconde-se agora no crepúsculo dos nossos dias. Não pretendo me desculpar pela demora em te escrever. Você demorou muito mais em outras ocasiões. E demora, Tibério, quase sempre é prenúncio de esvaziamento, indiferença, desistência. E não foi isso que você me fez passar e sentir inúmeras vezes, Tibério?

Ainda está fumando cachimbo? Ainda senta-se diante da taça de vinho e da mesa da escrivaninha como quem reverencia a própria existência? Deus, quantas vezes fiquei eu a te esperar em silêncio do outro lado do corredor. Quantas vezes não sacralizei aquele momento que era só seu e do vinho e seus livros e escrivaninha e deitei-me encolhida debaixo dos lençóis tentando me lembrar como se fazia uma prece. Tentando distrair o frio que assola os ossos na escuridão da tortura. Porque o pior tipo de tortura, Tibério, é aquele que silencia. Que não traz respostas. Que demora a nos mostrar a face de Hades.

Na última carta que você me enviou pensei ter lido a palavra arrependimento? Você sequer fez uso dos seus conhecidos emissários cifrados: termos científicos, alusões à psicanálise e navalhas de cinismo cortando minha carne. Foi direto, claro, certeiro. Perdão, Martina!Como nunca esperara. “Demasiado tarde”, pois não. Lembra disso, Tibério? Você me emprestou o livro Ana Terra. Eu tinha 17. Havia essa frase lá. E ainda nem sonhávamos que um dia caminharíamos juntos pelas terras férteis da paixão e da loucura. Estrada que se encerrou em deserto.

Durante tantos anos, minha vida fora pura energia e você o fio condutor. Literalmente a vida por um fio. Agora, estamos velhos Tibério. Nossos corpos represam temperança porque já não conseguem sustentar arrebatamentos. Mas minhas lembranças permanecem intactas. E esse é o meu fardo. Jamais esquecer. Isso a velhice não me presenteou: a miséria da carne se intimidando diante da vastidão da memória. Antes pudesse esquecer. Talvez viesse o perdão. Mas se ainda me lembrasse ou me importasse com preces, saberia que a consumição do perdão só acontece na inocência.

Hoje não dormirei com pílulas. Tampouco me importarei se não dormirei. Minhas pálpebras pesam pelas lembranças. Agora posso confessar. Faz anos que não sei o que é dormir. Talvez a última vez em que dormi realmente fora naquela noite depois que você me trouxe do hospital. No seu costumeiro silêncio, regado a jazz e cheiro de cachimbo. Eu não chorei, você lembra? Naquela noite eu não queria despertar nem mesmo dos pesadelos. Era como se eles me fossem mais familiares que nossos muitos anos de casamento regado a distância e cheiro de chuva.

Tibério, moram em mim certas visões e vozes que eu não consigo apagar. Tenho mais abismos que flores. “Mãos mágicas”. “Sereia dos beija-flores”. Você me chamava assim, referindo-se à minha destreza em cultivar plantas e borboletas no jardim. E eu acreditava. Agora, às vezes, no afã de encontrar conforto em alguns segundos de lucidez, de despertar da angústia dos conflitos, imagino que fomos num só o encontro e o desencontro. O desejo e o deserto. A culpa e a redenção. A libertação e a descoberta do escuro.

Tibério não podia ter sido diferente?
Faço isso não por nostalgia. Mas por vingança mesmo. Esse tipo de pergunta você jamais esteve pronto para responder não é? Quero desesperadamente conhecer Deus. Depois de velha quero o inatingível.Rita já me deu a resposta. Ela disse que eu não sou vazia. Nosso filho é que nasceu para dentro.

Cartas III

Cara Zanze,

Ainda é terça-feira aqui. Aí também. Mas deve estar mais frio. Gosto do frio. Fico cheia de paciência no frio. Estava pensando no quanto você me faz falta. Enquanto ficou fora por 12 anos era mais fácil lidar. Depois, a sua volta, os apenas dois meses e de novo sua partida me pegaram de sobressalto. Entre nós não há espaço para queixas. Não me tome como uma amiga queixosa ou lamuriosa. Para ser sincera entendo mais sua partida que sua chegada ulterior. Mas, eu queria ter chorado na nossa despedida. Guardei o choro como quem guarda relíquia dentro das páginas dos livros. De vez em quando revisito sua ausência e choro algumas lágrimas. Não se preocupe, elas são tão discretas quanto você..

Mas vamos enfim deixar nossa despedida para trás e partir para o que está diante dos meus olhos agora: uma pilha de livros se amontoam em um dos lados da cama; meus tênis ainda estão molhados da chuva de ontem e descansam no pé da parede e comprei um guarda-chuva primaveril que divide espaço com os outros mil objetos espalhados. É outro guarda-chuva, sim, foi isso mesmo que você leu. Perdi o outro. Nunca pretendi fazer coleção de coisa alguma. Afora os cartões postais, os espirros e alguns livros, nunca pretendi colecionar guarda-chuvas. Não ria!


Na próxima carta não seja tão econômica nos detalhes. Preciso saber mais sobre sua nova morada. A quantos metros do chão? Se tem varanda. Se você vai querer mesmo a receita daquela torta e quando vai me mandar cartões postais. Está bem está bem está bem se não tem muito tempo para mim. Só não suma por meses a fio. Você sabe que minha saudade não é pétrea. Pelo contrário é solar e folhetinesca.

Sinto falta do nosso entendimento sem palavras. Já passamos daquela fase livresca e palavrosa de descrever em mil e um detalhes o que nos aflige para que encontremos correspondência no olhar. Obrigada. Acho que preciso agradecer não é? Embora não veja nossa amizade como uma dádiva e sim como um espiral de tolerância e respeito. Sinto falta do nosso olhar acolhedor uma para a outra. Mas estou feliz porque partiu. Só lamento que as meninas não tenham conhecido o mar.
Diga a Sophia, a Yasmim e a Jade que eu as amo, com quase amor de mãe.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Cartas II

Arturo, saudades.

As cortinas de nuvem cobrem o céu úmido. Parece que o inverno chegou. Os móveis suam. As plantas ficam sonolentas. Crescem musgos por trás dos porta-retratos. E você nunca me mandou qualquer fotografia da sua nova paisagem. Às vezes sinto medo de esquecer como são teus olhos. E acho que está ficando turva a memória das linhas de tuas mãos. Gostava tanto de passear os dedos sobre elas. Um sulco convidativo ao toque. Caminhos que eu nunca me cansava de percorrer, muito embora jamais soubesse para onde eles me levariam. Se eram pontos de partida ou de chegada.

Já disse em outras cartas, inúmeras, que não temos mais a algazarra dos peros? Sim, claro que já disse. Saudades, Arturo. Eles se foram logo após sua partida. Como se prenunciassem meu desejo de ficar sozinha. De cultivar musgos junto com as velhas fotografias. Lembro da alegria febril e avermelhada dos dois contrastando com nosso silêncio. Com nossos cafés-da-manhã regados a um café tisnado e meio amargo, dois ou três nacos de pão. Meia-dúzia de palavras, disfarçando a selvageria do desejo de silenciar e assistir a obscenidade azul daquele céu dezembrino.

Às vezes - em pensamento - ainda respiro aquele ar impregnado de sal, roubado do mar à nossa frente. E ainda me pego tentando adivinhar o que os seus dedos me sussurravam ao tamborilar a mesa da cozinha. Não havia uma única linha no rosto que denotasse impaciência. Mas a mão espalmada que passeava pelos cabelos me diziam que a hora estava por chegar.

Nos mesmos rastros do silêncio que nos conduzia ao café, seguíamos pelo corredor até chegar no quarto, já envolvido pela vertigem dos nossos desejos. Como se suas paredes conhecessem o ritual e guardassem nas manchas e nos pedaços arrancados a prova da nossa refrega. Peleja que traria o indulto de paz. Mesmo que para ambos soasse tão distinto. Eu queria o olhar imponderável. Você, libertar a fera. Para mim, era muito mais gracioso e erótico quando me penetravas com teu olhar, Arturo. Mas você queria se esculpir em mim com costelas e sêmem. Esquecia completamente do barro. Da argamassa que nos unira no início. Passados alguns anos daquele ritual, parei minhas apostas. Você se voltou para suas arqueologias. Eu cruzei palavras, bordei sentidos, costurei versos e esfriei a dor como quem abana uma queimadura de verão, enquanto soprava verdades em teus ouvidos.

Saudades, Arturo. Saudades agora sem culpa. Saudades alicerçadas na verdade que só aparece depois que se esquece a barbárie. Saudade que não sente falta de civilidade. Saudade que sequer sente falta. Nem do que passou, nem do que virá. Saudade sem emissão de dor. Saudade metafísica.

Arturo, jamais voltarei a te amar. Quero apenas a tua distância.

PS.: só está faltando a fotografia, mande-a na próxima carta. Para que, enfim, ela descanse por entre os musgos.

Sempre saudades, Arturo, S.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cartas

Minha cara Alice,

Finalmente reservo uma fatia do meu tempo para responder sua carta. Não será grande, admito. Mas prometo que vou me esforçar para que suas mãos sejam agarradas pelas lembranças do gosto levemente ácido e açucarado daquele bolo de laranja que você tanto gostava quando criança e pedia sempre para repetir e repetir e eu ía diminuindo cada vez mais a espessura das fatias, até ficarem tão finas que se esfarelavam no caminho entre os dedos e a boca.

Porra. Porra. Porra. Foi o que você cadenciou para mim, referindo-se a si mesma. Senão por completo, ao menos a uma parte de você que não está sabendo lidar com o que se descortina diante dos olhos. De cá penso que seus olhos ainda estão vendados. Mas sua alma, minha sempre menina, é que toma ares. Abre as janelas. Respira o ar que passa além daqueles que entram nos seus pulmões.

Alice, as escolhas não são definitivas, meu bem. Elas são, geralmente, um ponto de partida. o que você vai fazer depois delas é que darão o teor, o valor e o peso das coisas, dos outros e de você mesma. Mas, principalmente, isso não se teoriza, se sente e se vive, e você sabe muito bem. E sabe também que assim como você, eu não suporto muito frases prontas; os períodos copiados das enciclopédias e as páginas encharcadas de tédio e repetição. Sorry dear. Talvez não tenha muito a dizer. Você deve estar rindo agora. Quase triunfante. Pensando que estou balançando as mãos efusivamente enquanto falo essas coisas, quase bradando e com o cenho aparentemente severo. E repetindo, mais uma vez que, por mil olhos de gatos, prefiro muitas vezes pedras soltas a palavras vãs.

Pois bem, você se enganou dessa vez. E se enganou novamente se acreditar que me distraio de você. Muito embora ache que seu sonho é deveras incauto. Não a condeno por isso. Ao menos ele não está morto. Você não deve ter entendido. Isso é o que eu chamaria de uma piadinha coeva e infame.

Querida preciso ir agora me acorrentar a outros afazeres. Ou quem sabe me permitir a momentos de contemplação do inverno esquizóide dessa cidade. Mas antes queria lhe dizer que talvez fosse interessante que ao invés de querer adentrar pela porta da frente, você procure os porões das respostas. Livre-se também desse arsenal mercadológico que impõe uma máscara bifronte de carnaval na cara das pessoas, impedindo que elas respirem realidade, não se vanglorie dos clichês que determinam o que é felicidade e, outra coisa, se os dias passarem vagarosos, lembre-se que não é você que tem controle sobre o tempo. Definitivamente. Afora isso, nada mais é definitivo.

Não leia minha carta com os olhos sobre linhas cartesianas porque elas sequer existem para mim. Deixei-as na 8a série. Leia com o vagar e o distanciamento de quem já aprendeu a amar ao outro com a certeza de que o outro não é o que você quer que ele seja. Vou terminar com uma citação daquele nosso escritor preferido e que sempre lemos em voz alta quando estamos perto uma da outra. “Não há encanto em manipular conceitos, deixando o coração deserto”.

Com amor, S.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Poeminhas Ordinários

Ainda na sessão nostalgia, pesquei esses poeminhas ordinários mais uma vez! Sim, porque eu tenho uma "lêve" impressão de que já o fiz antes... Vá lá, vou postar novamente. E o jeito? Se estou dada a silêncios, né Moacy?

Incertezas
Se penso que sei
Logo me calo
Porque me enganei


Ménage
Um mais um às vezes é bom
Ou eu
Ou ela
Ou nenhum de nós dois
Um mais um às vezes é três.


O mar
Quando ele abriu os braços
Imenso e azul
Qual Netuno
Ela pensou em fugir
Mas sucumbiu


Deadly
Amor
Não é bem
Maior que tudo
Posto que cabe
Na palma da mão
No silêncio
No corpo
Na saliva
Na corda bamba
Na escuridão


Aparências
Os jarros estavam repletos
De flores.
Rubras, vibrantes.
O cheiro comovia.
Estavam mortas


Publicados originalmente em setembro de 2007, no Entremundos

Há quase três anos...

... escrevi esse texto no extinto "Entremundos". De repente me pareceu tão atual. Decidi postar aqui no Bicho. Talvez por pura nostalgia, não sei.

Nada sobre coisa alguma

Da janela da minha alma vem uma melodia que não consigo divisar as notas. (Mas eu sei que ela está lá). E é um pouco de mim. Talvez um pedaço bem grande. Depois que o menino que soltava pipas, tocava flauta doce e era exímio jogador de peladas cresceu, agora ele vive olhando sobre as frestas das persianas enquanto visto minhas asas. Às vezes eu penso que a melodia pode vir de um pedaço dele. Talvez um pedaço bem grande. Talvez um pedaço de mim.

Certa vez, perguntei à minha avó se podia caminhar por entre as folhas secas que choviam em cima da minha cama (adorava a melodia delas sucumbindo aos meus pés de Golias). E ela, num tom de reprovação disse que aquilo não eram folhas. Eram cascas das velhas arvores genealógicas da família. “Agora vá dormir, que amanhã é dia de branco”.
Brancos eram os olhos do defunto, que morrera sem dar descanso às pálpebras injetadas de solidão. Amarelas as rosas que tentavam disfarçar o cheiro de morte espalhado pelas pessoas, cadeiras, cortinas e telhas da casa. Lilases as flores de plástico das coroas que reinam no cemitério. Negros eram os olhos da rasga-mortalha que piou na noite anterior, bem debaixo daquela casa.


A casa ruiu certo dia. Sobrou só a janela e essa estranha melodia. Que insiste em me fazer em pedaços. Pedi ao menino que me ajudasse a me arrumar e ele disse que não podia. Não tinha mais o barbante da pipa. A flauta doce quebrara. E seus joelhos apodreceram.

Naquela época -
Quincas comentou:
Provisoriamente vestido de metáforas, o homem é um animal que re/cita: "Inscrita nas tuas forças uma noite desleal cresce"


Carito comentou:
Belíssimo texto! Tudo sobre tanta coisa..


* Publicado em Entremundos no dia 27 de junho de 2006, às 18h27.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

No meio do Caminho

Sempre quis ser mais velha do que era. O auge foi quando completei 28 e sonhava já em chegar aos 30. A maturidade sempre teve um lado que me fascina. Talvez seja a falta de pressa, a ausência de soberba sobre o que já se sabe ou o olhar sereno sobre as coisas do mundo. Um filósofo francês – que não lembro agora o nome, sorry – disse que a velhice era incrível, o que tornava o homem “miserável” nessa fase eram as enfermidades. Concordo com ele. Se olharmos para alguém mais velho, e tirarmos as artrites, doenças sistêmicas, catarata, osteoporose, cardiopatias e outras mazelas, habita ali um ser pleno de natureza humana. Dito isso, acho que já é hora de reproduzir uma das frases que mais me chamaram a atenção. É do Otto Lara Resende, em sua crônica “Bom dia para nascer”, publicada em maio de 1991: “Mas juventude tem cura. Eu também já fui jovem. É só esperar”.

Talvez eu esteja no meio do caminho. E isso para mim já é muito bom. Mas eu quero mais. Ops! Olha aí a pressa, a ansiedade, “a vontade de” se confundindo com “o desejo de”. Mas tem cura, né? Enquanto isso, vou bebendo de outras fontes. A minha mãe é a primeira da fila. Seu olhar já me diz tanto que às vezes até preciso desviar. Na quinta-feira passada, tive a honra de ouvir numa palestra o professor Manoel Carlos Chaparro. Ele é jornalista desde 1957. Professor da Escola de Comunicação e Arte da USP e Doutor em Ciências da Comunicação. Ganhou quatro Prêmios Esso, dos quais três foram quando escrevia no jornal A Ordem, no início dos anos 1960, quando foi convidado pelo então arcebispo de Natal, dom Eugênio Sales.

Tranqüilo. Seguro. Loquaz. Só para citar algumas características do meu interlocutor. Uma de suas primeiras afirmações fora a de que nós, jornalistas, nunca fomos o centro do mundo, nem nunca seremos. Bingo! Sempre achei isso, mas é bom ouvir de alguém infinitamente mais sábio e vivido que você. Somos apenas narradores, observadores do cotidiano. Falamos sobre o que ocorre com os outros. Logo, dependemos desse outro. A palestra era bem específica e não dá para falar sobre os conceitos aqui sem correr o risco de ficar enfadonha, o que seria de uma grande injustiça com o professor Chaparro já que ele comandou durante mais de uma hora uma platéia atenta e grata pelas suas investidas certeiras nos conceitos jornalísticos, no trabalho e na vida. Tive vontade de dizer a ele, mas a juventude ainda me intimida: - Obrigada, professor, hoje aprendi que é possível ser velho e sábio em apenas uma hora e alguns minutos. E lhe devo isso.

Portanto, mesmo que eu não chegue lá na casa dos 80, fique num meio termo. A cada dia, em cada movimento do mais delicado lufar de velhice que se for apropriando dos meus poros, ficarei viva, grata e atenta.

*

DESCULPAS
Na quinta-feira passada no texto “A biblioteca dos meus sonhos”, no qual falei sobre a Biblioteca Pública Câmara Cascudo, deixei a promessa de que daria continuidade ao assunto. E não o fiz ontem. Portanto, o título dessa notinha só poderia ser esse. E repito, desculpas sinceras ao leitor que, por ventura, esperou.

A BIBLIOTECA
O que faltou dizer é que a obra que já deve estar em andamento nesse final de semana não vai impedir, inicialmente, a presença dos usuários naquela Casa do Saber. Porém, a reforma que vai reparar infiltrações na laje, nas vigas frontais e danos na instalação elétrica não vai resolver todos os problemas. O diretor, Márcio Rodrigues, quer sensibilizar deputados, autoridades e a sociedade em geral para que seja trocado também o piso da Biblioteca Câmara Cascudo. Visivelmente esburacado e indigno.

MAIS
Faltou dizer também que a Biblioteca Câmara Cascudo faz registro de obras e é responsável por orientar toda e qualquer biblioteca pública que seja criada nos 166 municípios do Estado. E com apenas cinco bibliotecários para dar conta do recado, é absolutamente impossível. O diretor, Márcio Rodrigues, me disse que o Ministério da Cultura tem um projeto chamado Livro Aberto, no qual oferece desde os exemplares, passando por mobiliário e equipamentos eletrônicos para que as prefeituras criem suas bibliotecas públicas. O projeto é lindo, ninguém duvida. Porém, sem um bibliotecário para tomar conta, a biblioteca até pode ser montada, mas funcionar, aí já são outros 500.Vai um apelo: prefeitos, não basta montar uma salinha com livros nas prateleiras, contratem bibliotecários. Ainda não acabou: Governo do Estado, realizem concurso público para bibliotecários. Os que existem na mais importante biblioteca pública do Estado tentam, mas não conseguem dar conta de tantas demandas.

PS.: A crônica e algumas notinhas foram publicadas no JH 1a. Edição do sábado passado, 23 de maio. Coloquei algumas notinhas também porque elas dão continuidade e encerram o assunto da crônica "A biblioteca dos meus sonhos", que também foi para o jornal e que eu postei aqui há alguns dias. Cheiro Moacy! Cheiro a todos, aliás. Obrigada por estarem sempre aqui, me fazendo companhia.




sexta-feira, 22 de maio de 2009

PARA FALAR DE AMIZADE *

Não raro ouvimos das bocas mais próximas ou longínquas que a amizade traduz a parte mais genuína do amor. Um amor mais puro, mais sereno, mais ameno, mais inteligente. Poderia até ser. Mas não é. O amor da amizade pode ser mais fácil, mas não é o maior ou o melhor que os outros tipos de amor. E olhe, que o amor da amizade só é mais fácil se não existir uma convivência diária de ao menos duas horas. Porque se a gente fica perto de outra pessoa por mais tempo que isso, todos os dias, e diz por ela nutrir algum sentimento simpático e parassimpático, pode ter certeza de que vai rolar conflito. E só quando esse danado aparece é que dá para medir a real dimensão do amor.

Troca de afeto, carinho, confiança e respeito têm sido muito confundidos com outras coisas: posse, servidão, ausência de opinião contrária, falar demais, não saber a hora de calar, ciúmes. O leitor quer um exemplo? Conselho de amigo é muito bom, mas só quando ele já vem com as cores e o formato que a gente tem desenhado na cabeça. Será que a sinceridade do amigo só é bem-vinda, se ela vem com concordância, compreensão, pena e solidariedade? Senão, pode não ter serventia? Portanto, tome muito cuidado na próxima vez que fizer a perguntinha: “posso ser sincera(o)?”. Pode ser fatal. Assim como também pode não ser a melhor hora. Às vezes, ser amigo é esconder a verdade dura e que só vai ferir naquele momento; é deixar para lá o sermão que só vai aborrecer o outro surdo, momentaneamente, de bom senso e, saber que, conselho de amigo, de médico, de guru espiritual ou até dos anagramas cifrados dos nossos analistas são fundamentais, mas é preciso estar atento. É preciso querer ouvir mais que escutar.

E para querer é preciso estar aberto para perceber com igual intensidade nossos próprios defeitos, com a rapidez com que identificamos os defeitos alheios. Sim, porque, não raro, diante da percepção dos defeitos alheios, podemos ter a ilusão de que somos melhores ou mais evoluídos. Mas, ser – ou se tornar - a melhor pessoa do mundo não reside em comparar-se com os outros naquilo que eles têm de pior.

O amor da amizade é bom, mas não é perfeito. Descobri a pólvora? Dã! Claro que não. Só descobri que o amor da amizade é o mais próximo daquilo que se pode chamar de redução de danos. E, se amar é, essencialmente tolerar, como diz a minha própria analista, então é bom que a gente exercite isso com os amigos e com todo o resto também.

* Pronto, Tácito, você pediu ei-la! Aliás, está postada e dedicada à toda sua delicadeza. Um beijo, S.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

"A biblioteca dos meus sonhos"

1988. Fazia pouco mais de um ano que eu chegara para estudar na capital e tinha deixado para trás a Biblioteca Pública de “Bonja” (Bom Jesus, para os íntimos), onde eu fui apresentada à obra de autores como Edgar Alan Poe, Machado de Assis e Monteiro Lobato. Vá lá, também li daquelas prateleiras O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry e Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. Este segundo por indicação de que “era melhor” que o primeiro do aviador francês. A constatação de que nem um, nem o outro livro mudariam a minha vida, não arrefeceu minha avidez por leituras. Mas, o que é mais estranho é que nenhum livro muda a vida de ninguém. Ao menos um livro bem intencionado, é claro. Mas, junte todos os lidos e, certamente, eles serão responsáveis por grande parte do movimento da vida de uma pessoa. Ao menos as pessoas como eu, é claro. Que desde sempre fui apegada aos silêncios e sussurros das bibliotecas. Pois bem, era o ano de 1988 e entrei pela primeira vez na Biblioteca Pública Câmara Cascudo. Devidamente cadastrada com direito a foto em carteirinha, peguei emprestado Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Depois vieram outros e mais outros.

Perdi a conta dos livros. E ontem, ao subir novamente aquelas escadas que dão para o primeiro pavimento, me apercebi que perdera também a conta dos anos em que não fora mais aquele lugar que é mais velho que eu. Em fevereiro desse ano completou 40 anos. Meu intento era encontrar o diretor Márcio Rodrigues Farias. Recém operado do joelho, segurando charmosamente uma bengala, mesmo licenciado, o diretor tem comparecido à Biblioteca Câmara Cascudo, por um motivo que estimulou seus passos durante os quatro anos em que está à frente da instituição: uma reforma no prédio, que está visivelmente deteriorado, com estrutura física precária e só podendo atender aos usuários até as 16h30, quando ainda há luz natural. Depois disso, fica impraticável devido a instalação elétrica estar com sérios problemas. Portanto, é preferível fechar as portas da casa do saber no final da tarde, que colocar em risco seu acervo por conta de um curto circuito, já que poderia desencadear um incêndio, uma vez que os livros têm as páginas muito ressecadas porque não são acondicionados como mereciam, em temperatura que garantisse sua preservação. Tudo isso ele conta sem medo e sem ressentimentos, ciente de que a biblioteca dos seus sonhos seria “uma biblioteca em que os usuários chegassem e encontrassem as respostas para os seus questionamentos”. Pergunto então a ele se não é assim que acontece? “Não. Porque só somos cinco bibliotecários para dar conta de todos os serviços e, nem sempre é possível dar a orientação ao usuários e suas pesquisas”, explica, sonhando também com um concurso público e a aquisição de mais oito bibliotecários para dar conta do recado.

Segundo ele, os engenheiros da Secretaria Estadual de Infra-Estrutura, que têm visitado o local confirmaram que a restauração começa semana que vem. Não é o que ele sonhava em termos de melhoria, mas já é um começo. Aliás, começo que custou mais de um ano e meio para acontecer porque, depois de passar por todos os tramites oficiais e pedidos e solicitações junto ao seu superior, e ao superior do superior (leia-se Fundação José Augusto), foi em outubro de 2007, que o bibliotecário Márcio Rodrigues ouviu um “sim” da governadora Wilma de Faria, uma vez tendo sido ela interpelada por ele, num evento qualquer. “Fui me achegando devagarzinho, precisava falar com ela. Não podia perder aquela oportunidade e falei como estava a Biblioteca. Naquele dia ela afirmou que iria fazer alguma coisa e, depois das burocracias e trâmites, a reforma vai acontecer”, conforma-se.

Mas nem tanto. Os recursos conseguidos garantirão reparos na laje – cheias de infiltrações -, nas vigas da fachada frontal que estão literalmente carcomidas pela ferrugem e na instalação elétrica. Falta olhar para o piso de taco translúcido de tão velho, quando não ausente, deixando de fora buracos ao longo do salão e das salas dos funcionários. “Vou continuar batalhando para conseguirmos o piso”, insiste ele. Computador? Tem um. E não está disponível para pesquisas. Aliás, esse é um capítulo à parte. O próprio perfil do usuário tem mudado. Segundo Rodrigues, os pesquisadores têm escasseado mais e dado espaço a alunos de ensino fundamental e médio que, chegam na Biblioteca e querem “achar” o assunto a ser pesquisado e apresentado na escola completamente “mastigado”. “Nosso usuário é o aluno que vem procurar o trabalho pronto, uma das primeiras coisas que eles perguntam é onde se faz fotocópia”, desabafa.

Já que eu falei em capítulos à parte, e o espaço está ficando pequeno *, continuarei falando da Biblioteca Câmara Cascudo na próxima coluna.


* pequeno, quer dizer porque esse texto foi publicado na coluna do Mário Ivo, no JH 1 Edição. É isso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Quando a rua é um palco e o sorriso aplauso

Quando saí de casa naquele dia não havia qualquer indício de que ocorreria algo diferente no próximo círculo que o relógio faria. Nenhuma previsão de catástrofe fora detectada pela caixinha preta da sala, fosse de chuva, vento ou sol. Mas era só o começo do dia, então alguém pudesse pensar ser precipitado chegar à conclusão qualquer, quando o dia ainda está só começando. É verdade. Do movimento circular das horas só temos controle sobre o ar que respiramos. E mesmo assim é involuntário esse movimento. Portanto, a sobrevivência é quem faz contorno para a vida seguir seu rumo.

Final do expediente. Eu e Anninha sentamos num pequeno quiosque nos arredores de um shopping em Ponta Negra. Queríamos comer uma pizza. Eram 19h, mas a moça do quiosque da pizza disse, sentada em uma das cadeiras vendo a brisa passar, que a casa só abriria lá para as 19h15, 19h20, nem mais nem menos. Ainda insistimos um pouco, se não daria para abrir uma exceção. Ela intransponível. Regra é regra e tem mais razão que o freguês. Nos levantamentos solenemente e seguimos um pouco mais à frente onde fomos prontamente e muitíssimo bem tratadas por um outro rapaz que, à moda francesa, chamamos de garçom.

Durante o dia podemos até nos julgar efêmeros e contingentes.

Mas é à noite em que nos descobrimos eternos, ou ao menos inesquecíveis. A conversa ia tranqüila, seguia a ondulação natural das digressões femininas quando, de repente, fomos arrebatadas por uma moça-mais-que- perfeita. Daquelas cujo sorriso é mais largo que as orelhas, os cabelos mais lilases que o crepúsculo, a roupa mais brilhosa que o manto de Nossa Senhora; que faz da rua um palco e a palavra que sai da boca é um convite para os holofotes. O nome não era muito glamouroso: “Broa Preta”, as piadas, ela repetiu uma ou duas vezes e riu-se de si mesma, já se sentindo a vontade para explicar aquela profusão de sorrisos e rabiçacas nos brincos postiços, presos na peruca. Não é travesti, foi logo corrigindo. “Travesti é quem coloca peito e bunda de silicone. (ah, ta! E eu pensando que era mulher quem fazia isso hoje em dia). Eu sou transformista”. Vai de rua em rua, de quiosque em quiosque, bar em bar, fazendo mini-apresentações, transformando o sorriso discreto de uns, as gargalhadas de outros e a indiferença de muitos em aplauso e impulso para conseguir seu intento: arrecadar fundos para chegar até São Paulo, onde vai tentar se apresentar num talk-show desses da vida, que pode consagrar um humorista cearense em 20 minutos.

Não demorou muito e já quase éramos amigos de infância daquele menino de 28 anos que se chama Fábio Lima, é gay com todas as letras e o peso da palavra HOMOSSEXUAL, e que não reproduz frases feitas do tipo, “nunca desisto do meu sonho”. Mas guarda no olhar uma certa reverência para a esperança de que tudo vai dar certo no final. Pois bem, se eu tivesse nascido Drummond, tinha dito p’rele, vai menino vai ser gauche na vida! Mas, tímida demais para adivinhar futuros, reservei-me à efusividade do sorriso, das gargalhadas para ser sincera. Afinal, o dia já não era mais o mesmo e merecia aqueles aplausos.

PS.: quem encontrar Broa Preta na rua, fazer o favor de ouvir as piadas. Se gostar, pode até ajuda-lo a viajar para São Paulo.



Meus queridos leitores, estou escrevendo crônicas diárias na coluna do Mário Ivo (Cidade dos Reis e Embrulhando o Peixe) no jornal matutino JH 1a. Edição. Não tá sendo fácil não. O cara é um herói, por isso. Mas até heróis tiram dias de folga. Essa é a segunda crônica que eu escrevi no jornal... Moacy, Carito, eu citei vocês dois na minha primeira vez na coluna, pelo menos umas três vezes (risos), prova do meu amor. Saiu segunda-feira. Quem quiser me mandar notícias de cultura, fique à vontade azevedo.sheyla@gmail.com, ficarei muito grata. E to ficando maluca!!!