Google+ Followers

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

* Sobre chinelos e bengalas

Andei cansada esses dias. E, quando isso acontece, bate uma preguiça danada também. Estaciono meus passos entre um degrau e outro. Uma vontade de dormir quase para sempre brigando com a minha resistência em fechar os olhos. Desânimo mesmo. Não conseguia passar para a próxima página. Um capítulo inteiro emperrado entre minhas têmporas. Os dias se repetindo em horas, minutos e segundos, numa cadência monótona. Uma vontade que não nadava, submergia. Às vezes é difícil a gente conseguir soprar os próprios moinhos. As hélices ficam pesadas. A ferrugem desenhando caminhos que desorientam mais que indicam.

Assusta-me um pouco a idéia de ter sempre de ser eloqüente; inteligente; auto-suficiente. Às vezes, tenho inclinações para ser só gente. Pingo de chuva. Grão de areia. Folha caída do pé. Pé com vontade de chinelo. Chutar a imagem, deixar só o espelho. Quando essas desvontades se instalam, sinto saudades do mar. Troco a escavadeira do dia-a-dia e me refugio na pequena pá de plástico da minha infância para afofar a terra e dela encontrar o filete de água que rapidamente inundava minhas inclinações de peixe fora d’água. É nessas horas que guardo a caneta, o bloquinho, deixo os livros fazerem rapel nas prateleiras, dou férias coletivas ao celular e ao computador portátil. Alivio os ombros. Descanso as pálpebras. Pondero sobre qual a serventia de um oceano inteiro e uma poça cavada com as molas dos meus dedos.

E assim, por alguns instantes é quando me desvencilho de julgamentos rasos e da acidez da incompreensão, para perceber que o exercício de humildade me aproxima de mim e me faz também mais próxima dos outros. Mesmo que eu não consiga atravessar paredes. Sequer cercas vivas, para ser honesta.

‘‘Moça, já está perto de chegar ao cajueiro?’’. Pergunta o senhor corpulento e aposentado, com um saquinho pendurado nas mãos que me remete a uma bengala, interrompendo essas minhas divagações dentro do ônibus, no caminho de volta para casa. Desperto da minha semi-confiança de que parei de contar os ponteiros e olho para ele firmemente. Quase fico corada pelo fato de ele ter descoberto o fundo falso no qual escondo meus pensamentos.

Volto aos efeitos imperfeitos da realidade e rapidamente penso, a parada do cajueiro foi desativada há algum tempo. ‘‘Para onde o senhor quer ir?’’, pergunto. Ele responde. Então lhe indico o local certo, já completamente refeita e ciente de que ao invés de chinelos, sapatos revestiam meus pés. No momento exato, eu mesma levanto, puxo a cordinha que faz a campanhia apitar e que avisa ao motorista que é hora de mais uma vez ele parar aquele dinossauro barulhento. Ele me olha agradecido e humilde. Entoa um ‘‘muito obrigado’’ umas duas ou três vezes. Recebo e guardo dentro dos olhos sua imagem bonita e telúrica. Poderia ser meu avô. Ou o avô de qualquer outra pessoa do mundo.

Ele parte para sua viagem para o interior. Eu sigo com a minha. Somos todos iguais.

* Definitivamente, título não é o meu forte.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Achei no silêncio:

Um estranho conhecido
Uma borboleta se espreguiçando
Um teto de estrelas
Uma palavra cheia de saudades
Um menino subindo na árvore
Um gato e o seu segredo
A música que me fez lembrar
A lembrança de uma música
Um cachecol listrado no armário
Um chapéu louco para sair na rua
Uma poesia escondida na poeira
Uma lâmpada queimada
A escuridão que ilumina
Um travesseiro com cheiro de lavanda
Um cheiro de jasmim por cima do muro
Uma folha que saiu para passear
Uma meia verde sem seu par
Um estrangeiro que veio da Paraíba
A intersecção entre dois olhares
Um vento que faz a curva no meu quarto
E sempre volta
Um caminho que me leva a mim mesma
Uma lágrima recolhida por um abraço
Uma lagartixa fazendo as malas
O sorriso banguela numa fotografia
A xícara de chá com a ponta quebrada
Uma rosa esvaziando o botão
Um sonho transparente
E uma voz dentro de mim repetindo:
Silêncio

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A tristeza é azul

Sinto saudades da chuva. E do frio que chega na madrugada. Quando criança, preferia o desenho às letras. Adorava não poder ir brincar na rua porque estava chovendo. Então eu desenhava brincadeiras no papel. Meninos brincando com pipa, meninas brincando de pular corda, amarelinha. Coloria bastante que era para constrastar com o cinza da tarde. E colocava nuvens lá em cima dos telhados. Com a chuva escondida por detrás do arco-íris. Era minha forma de prever o tempo. Um tempo que só tinha portas abertas. E a minha avó, esperando no final da tarde para me fazer cachinhos no cabelo. Vovó e os seus cachinhos no meu cabelo. Quando ela terminava, balançava-os como se fosse um prêmio: Ei, vejam o que a minha avó me deu de presentes! Exibia orgulhosa.

Atualmente, se me sobram brechas, já me contento. Esses dias não tem chovido. E é na chuva onde minhas confissões mais escorrem. Até tento fazer um pacto com o sol. Mas, por mais que tente, faz frio dentro de mim. Não tem jeito. Tenho inclinações para ser feliz compartilhando. E triste do mesmo jeito.

A mãe de uma amiga morreu. O filho de uma outra também. Tudo nesse final de semana. A primeira, se vi muito foram duas, três vezes. O segundo, vi em fotografias. Mas, impossível não me compadecer com a dor do outro. Precisei me escorar nas lembranças. Imaginar quantas vezes eu as vi sorrindo, felizes, por uma banalidade qualquer, para que pudesse suportar a idéia de que a dor delas é grande e cabe uma vida inteira lá dentro.

Viver é estar eternamente em desconfiança do até quando.Talvez fosse diferente se já soubéssemos, se já nos dessem uma pista qualquer sobre o porvir. Mas não seria a mesma coisa. Ou fatalmente viveríamos ansiosos demais por terminar. Saberíamos exatamente que palavras usar para terminar um namoro, um noivado, um casamento. Mediríamos antes mesmo de exercitar o tamanho do amor que poderíamos sentir por aquela pessoa. Viveríamos o enjôo da gravidez meses antes da concepção; nos despediríamos desde o dia em que nascemos do pôr-do-sol e dos nossos avós. Mas, como não sabemos, vivemos ansiosos em como continuar mesmo com essa desconfiança toda.

Gosto da vida. Especialmente dos amigos que ela me trouxe. Dos bem-te-vi que cantam na minha janela. E da poesia que se esconde debaixo do meu travesseiro. Mas tenho limites: uma tristeza incurável nos olhos. Grandes, eles sempre tentaram entender mundo. Mas, sobram muitas dúvidas e, vezecuando, é inevitável chorar.

Palavras tristes fazem festa dentro de mim. Por isso, estou reequilibrando meu silêncio, para que elas não consumam todo o meu olhar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Insônia

É na noite onde a clausura dos pensamentos mais nos afetam. É quando o peso da culpa, para alguns ou quase todos, ou o martelar das dúvidas se tornam ensurdecedores. Desde que nos mudamos, eu e Fellini temos dado demonstrações de que a mudança física trouxe profundas transformações, que ainda não assentaram o pó das caixas e a poeira dos nossos pés andarilhos. Ele continua disfarçando sua contemplação natural com uma indiferença sonolenta durante o dia. Mas à noite, depois que mamãe se recolhe, ficamos eu e ele a observar as paredes pardas e os mínimos barulhos. Como se, cada um, a seu modo, tentasse compreender esse estado de coisas que nos afetam o tempo inteiro. Daí não sobrar tempo para escrever poemas ou cartas de amor. As crônicas parecem que tiraram férias. Soneto é coisa de Camões. E literatura, só as dos outros e com muitíssimas restrições. Os livros ficaram tão arrumados e tão enfileirados na nova estante de vidro que, adornam meus olhos muito mais que minha disposição para interferir em sua quietude.

Enquanto deitada e quase imóvel, penso e perambulo o olhar pelas sombras que vêm de fora, imagino que em breve será dia novamente. E poderei me livrar dessa nostalgia pelo que ainda não veio. Pessoa ao contrário. É isso que sou.

Sinto vontades que não passam de necessidades vitais de puxar para dentro e deslizar para fora o ar. Como macarrão, arroz, feijão, com a mesma voracidade com que comeria musgo, asas de borboleta e cílios de pirilampos. Caminho pela desordem interna sem sentir falta do chão cuidadosamente varrido e lavado todos os dias. E planto uma árvore no jardim com inveja nos pés. Tão alados e transitórios, que nem sentem o cheiro úmido da terra.

A tristeza não me traz peso. E é a estranha condescendência à melancolia e à angústia que mais me dão asas e me permitem sobreviver, enquanto todos dormem. Solidário, Fellini se aproxima e se senta numa distância segura para que eu não esboce com toques e chamegos toda minha admiração pelo seu silêncio. Provável que ele saiba há muito mais tempo que eu, que a noite é companheira que acaba o dia, mas nunca apaga o tempo.