Google+ Followers

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Um estranho gosto

Gostava de lamber lágrimas. No começo tinha nojo de ver aquele líquido meio mar, meio leite, escorrendo por entre as planícies da face. Mas, depois, ao experimentar pela primeira vez, não quis mais parar. Gostava de ver o a tristeza se decantando em sal. Ás vezes, aqueles rostos traziam outros gostos: de emoção, de paixão, verdade, grito, desejo. Lamber lágrimas era seu esporte predileto. Talvez porque delas extraísse as histórias que nunca fora capaz de viver. Não por incompetência, mas porque não sabia chorar.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Leitura



O tempo lê os dias


Deitando fora as páginas,
Sobram poucas palavras
E muitas vírgulas,

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Ping-Pong

Filme que vem à cabeça: A felicidade não se Compra

Televisão: Dona Beija

Cinema: Nas quartas é mais barato, mas quase nunca vou por falta de tempo.

Livro: Esse Ofício do Verso, JLBorges

Uma mulher: Todas

Um homem: que sabe que gentileza não é servidão

A dor se alivia com: tempo

Cantada: duas situações distintas, de dois desconhecidos no meio da rua. Um adolescente e um sexagenário. perfeitas!

Gafe: fazem parte do meu currículo

Sexo: vixi, é melhor que farinha!

Aprendizado: ouvir as crianças

Família: afora no Natal, na maior parte das vezes, são a minha verdade.

Filhos: quero!

Debaixo dos lençóis: pele nua

Amor: o intangível que mais me toca

Milagre: uma rosa se abrindo

Tristeza: convivo bem, mas não em jarros com água.

Bebida: água, vinho, cerveja, tequila, uísque cowboy, ressaca, amnésia.

Vício: a imperfeição me deslimita

Incontinência: literária

Intolerância a: dois pólos: burrice e à pessoas que se pensam especiais demais. argh!

Perfume: pulsos, pescoço, no meio dos seios.

Raiva: tenho menos do que parece

Deus: quando a rosa vira um jardim

Perdão: prefiro o esquecimento

Viagem: Santa Catarina

Natureza: sou uma joaninha

Diversão: uma boa conversa; uma tigela de pipoca; brincar com Fellini

Música: companhia para meus pensamentos

PS.: Quem quiser responder também, fique à vontade. Se achar grande todos os tópicos, seleciona os que quiser responder, cria outros e coloca lá nos comments que depois eu migro para cá!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Para Moacy

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.


(Adélia Prado)


Amanheci lendo esse poeminha, que um amigo que vive em terras distantes me mandou. Como sei que as coisas boas devem ser compartilhadas e redistribuídas, dedico-o agora ao meu amigo Moacy, que sente a minha falta por aqui. E digo mais: Moacy, também sinto falta, de quase tudo. Inclusive de atender aos apelos das estações. Me inverno um pouco e incubo as palavras, como quem colhe sementes para dentro do ventre. Um beijo, S.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Estações

Há maneiras de descobrir o amor sem que ele seja anunciado. Como quando sabemos que vai chover sem ter caído ainda um único pingo de chuva. Você pode ainda não ter sido obrigado a abrir o guarda-chuva, ou tentar se livrar das poças que encharcam os sapatos, nem estar sentindo ainda a roupa se acomodando à pele, pedindo arrego, calor. Mas, sabe que a qualquer momento, uma ou outra coisa acontecerá.

Há várias maneiras de ouvir o tambor da angústia, antes mesmo de a catástrofe acontecer. Mesmo quando os noticiários não anunciam aos nossos ouvidos nada sobre terremotos, guerras, enchentes, traições. Mesmo quando nada desaba sobre nossas cabeças, dá para sentir o chão fugindo dos pés. E dá no mesmo. Não se percebe claramente as mudanças de estação. Não tem hora marcada para o inverno se anunciar. Um sol quente lá fora, e chovendo cântaros dentro de você.

Mas não há nada mais aterrador que o brilho falso de um olhar que se pensava amigo. Quando os olhos se desterram da alma, as mãos se levantam para cima, como se se rendessem à ausência de solidariedade, de compreensão, de cumplicidade. Acabaram os olhares cúmplices, as mãos que se atam, as histórias, confissões, sorrisos, choros. Nenhuma memória consegue abordar a esperança que deu as costas, bateu asas e voou. Deixando para trás só galhos podres, sem vida e sem sustentação.

Desconfie, caro leitor, de amizades frondosas. (Aquelas que se distanciam das pequenas coisas e dos pequenos gestos do dia-a-dia). Que só se importam com as festas e os gracejos de ocasião. E que têm a incauta mania de apequenar os detalhes. De desprezar o silêncio das descobertas que ficaram lá na raiz, ou de doar sombra quando o chapéu não cabe na cabeça; de incendiar pequenas confissões, enquanto embaralham as cinzas daquilo que não compreendem.

Qualquer demonstração de carinho: um cão que lambe a mão; um botão de rosa que se apressa na alvorada; um purê de batatas com arroz na hora do jantar; um cartão postal que chega de Buenos Aires, sem dedicatória, mas com o endereço certeiro; qualquer coisa é mais aconchegante que a efusão de uma amizade que tem a profundidade superficial de um ovo frito.

Ao invernar com essas constatações, um lugar dentro de mim me conforta. É sentir-me diferente. Um alienígena de emoções e espectativas que sempre, sempre primará pela solidariedade; pela preocupação que vence o cansaço, a dor de cabeça, a falta de tempo. Pela memória que se esquece das mágoas de verão e primavera. Páro e ouço a falta de palavra e, ao atravessá-las, escuto o mundo e aprendo a olhar em volta e ver que, do mundo ainda tem muita coisa boa. E, às vezes, a gente precisa de uma grande decepção de alguém bem perto, para perceber que o que está longe nem sempre está distante.


Bom, como eu mesma, esse texto está em processo de construção. Estou postando-o pela mais pura e ingênua vontade de não deixar vocês que me visitam sem uma xícara de chá, um vinho, ou simplesmente um copo de água. Acho que ainda virei aqui e ruminarei mais essas palavras. Mas, por enquanto, é o que me é possível.