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segunda-feira, 23 de março de 2009

A viagem

8h30

Passo no blog da Elis. sinto-me como seu nome sugere, assim, num estado de coisas suspensas "
antes da chuva". Lá, ela fala numa ida à feira. Mas é uma ida mágica à feira. Sim, porque tudo fica mágico quando Elis pôe os olhos. Acho que o tudo de Elis é sempre mágico, porque seus olhos enxergam atentos o que os ouvidos ouvem, na mesma fração de tempo. Dá para entender né? Harmonia. Então, antes de dar uma passadinha no blog da Elis, eu vinha para meu trabalho. Prosaicamente, como faria se rezasse um terço ou catasse feijão. Pés atentos à infantaria das pedras no meio do caminho e uma barricada de pensamentos cai aqui cai acolá, distraindo-se pelo simples assobio de um pardal ou de um gracejo sem graça de um peão de obra.

Tem uma hora na vida que nós quem obedecemos às nossas pernas. E não o contrário. Um homem distraía-se com uma enxada, revolvendo o chão do jardim. Ele nem cavava, nem limpava, nem recolhia as folhas. Ele só revolvia a terra, como eu revolvia os pensamentos. Sem nenhuma utilidade ou praticidade nesse gesto. Enquanto isso, minha pernas me levavam ao destino da manhã e eu, distraidamente, me aproximava dele. Cheguei perto o suficiente para ele levantar o olhar e buscar uma cumplicidade nos meus, que não estavam lá. "Ei, você, quer fazer uma viagem?", disse assim, de repente, como alguém que tem a confiança que nos convém olhar ou escutar. Foi quando, também de repente, me dei conta do caminho, da manhã, dos pensamentos, da enxada, da terra inutilmente revolvida, da camisa verde dele, da pergunta e respondi: "Não".

Desacreditado com a resposta. Melhor dizendo, inconformado com a resposta, ele duvidou do que tinha ouvido e repetiu a palavra, como quem negocia a última palavra "Não?". Como já me tinha feito entendida, continuei meu caminho e senti seu meneio de cabeça e sorriso de desdém. Como se dissesse: "É uma tola".

Respondi de pronto e resoluta, como teria respondido a pergunta: "Quer matar alguém, só para ver como é que é?", ou qualquer coisa que o valha e que não deixa margem para nem sim, nem talvez, nem quem sabe. Mas, depois de algumas passadas, fiquei pensando, a o que danado ele se referia? Que tipo de viagem iria me propor? Seria, por acaso, a apresentação de alguma seita religiosa que me levaria à luz e à verdade? À única e possível verdade? Aquela que redime até mesmo os nossos pecados e faltas? Ele tinha cara disso. Era bem possível que fosse isso. Em sendo outra coisa, também não importa. Fiquemos com essa opção primeira. Talvez devesse lhe ter respondido: "Não. Não quero. Mil vezes não quero fazer viagem alguma. Porque já parti". Seria uma boa resposta, pois não?

É isso, caros. Já parti para algum lugar que me leva para dentro. E, todas as vezes, que tento fugir, escapar ou esquecer, algo revolve a terra, mesmo que inutilmente, e me aconchego na umidez dessa pequena epifania. E assim, sigo tropeçando pelas pedras e me distraindo com o cantar dos passarinhos, esperando a chuva chegar.

domingo, 22 de março de 2009

Um pouco de JLB

I
Já não é mágico o mundo. Te deixaram

lua que não seja espelho do passado

cristal de solidão, sol de agonias.

Adeus às mútuas mãos e as têmporas

que aproximavam no amor. Hoje só tens

a fiel memória e os desertos dias.

Ninguém perde (repetes em vão)

senão quem não tem e que não teve

nunca, mas não basta ser valente

para aprender a arte do olvido.

um símbolo, uma rosa te desgarra

e te pode matar uma guitarra



II

Já não serei feliz. Talvez não importe.

Há tantas outras coisas no mundo;

um instante qualquer é mais profundo

e diverso que o mar. A vida é curta

e ainda que as horas sejam tão longas uma,

escura maravilha nos ronda,

a morte, esse outro mar, essa outra flecha

que nos livra do sol e da lua

e do amor. A sorte que me deste

e me tiraste deve ser apagada;

o que era tudo tem que ser nada

Só me resta o gozo de estar triste

esse inútil costume que me inclina

ao sul, a certa porta, a certa esquina.

De Jorge Luiz Borges, tradução de Alice Ruiz.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Banho de Chuva (Para Flávio e para a criança que um dia fomos)

Era assim todas as vezes que chovia: um monte de meninos e meninas corria para presenciar o despudor do encontro entre a chuva e o vento. A água dava contorno à brincadeira. A brincadeira se estendia em outras diversões como matar a sede do cabelo de ser lavado com xampu de jojoba no meio da rua, naquela água doce e limpinha. Parecia que o cabelo ficava mais fino. Mais agradecido pelo carinho.

A tarefa de se entregar ao banho de chuva tinha outros desdobramentos, claro. Nossas mães, muitas vezes, vinham junto para ver se conseguiam também matar a sede das jarras de barro e suas bocas secas. Nós todos ajudávamos. Quanto mais cedo enchêssemos aqueles reservatórios improvisados, que podiam chegar aos requintes das panelas, mais cedo poderíamos de novo observar o flerte do vento e da chuva, consumindo-se em nossos poros, nas roupas encharcadas e nos pés extasiados e entregues ao acolhimento fofo da terra.

Banho de chuva era presente de Deus. Só tínhamos que tomar cuidado com os relâmpagos. Porém, eu não entendia o porquê, uma vez que tinha muito mais medo do ribombar dos trovões. Ameaça ruidosa que invocava a proteção dos anjos. Mas se eram eles mesmos em festa nos céus, a fazer aquele barulho, como eu haveria de contar com sua proteção? Indagações pequenas e que logo se afogavam no desvario da minha cabeça, braços, pernas e todo o resto, em busca da bica mais grossa e que mais jorrasse generosa o veio d’água mais forte. Lança úmida, golpeando nossas gargalhadas.

O que eu acho interessante daquela época é que, enquanto as comportas do céu estivessem abertas e as pesadas nuvens anunciassem que a festa estava longe de se acabar, ninguém brigava ou disputava tempo debaixo daquelas bicas. Todo mundo tinha o direito de se molhar, de ficar com a cabeça pênsil de tanta água por alguns segundos. E logo em seguida, a fila andava. Éramos quase como passarinhos peregrinos em busca da ocasião certa de encontrar o seu lugar.

Por esses dias tem chovido nas madrugadas. E, acordada, penso naquelas tardes de chuva da minha querida Bom Jesus. No quanto era boa a liberdade de molhar o corpo e a alma sem toda essa roupa que me reveste agora. No quanto a nudez de ressentimentos, lembranças e rimas da minha infância me protegiam do mundo e de mim mesma. Meu amigo Flávio me disse um domingo desses que viu o irmão e o filho, seu sobrinho, tomando banho de chuva. E, embora existisse uma vontade imensa de ser passarinho de novo, negou-se, por achar que aquele era um “momento só deles”. Mas ficou o desejo de desnudar-se de novo. De voltar a conviver com os despudores da água tornando-o molhado e susceptível à sabedoria de aproveitar o dia com o que ele nos traz, como só as crianças sabem fazer. Fica a dica a Flávio e a quem mais quiser: tomar banho de chuva faz bem ao mistério de viver.

domingo, 15 de março de 2009

fim de tarde de domingo

Uma vontade imensa de não ser. Enquanto todos, ou a imensa maioria, gostariam de se achar, de buscar sentido ou de tomar alguma decisão que vai além dos biscoitos do café-da-manhã, entardeço com uma vontade imensa de ser confundida com uma parede. Nem jarros, ou copos, ou livros ou sapatos. Nada que carregue em si a possibilidade de guardar, de deter, de manter, de juntar. Nada mais além que uma parede. Uma superfície lisa, despretensiosa, cuja função primordial é separar o corredor dos quartos, da sala, a sala da cozinha. A cozinha do vento lá fora. Uma parede. Pronto. A intersecção entre uma coisa e outra. Mas que não é nem coisa nem outra. Simplesmente não é.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Tristeza

Quem disse que é ruim?
Limpa os olhos
E lava a alma

Loucura

Quem nunca foi pedra
jamais soube
o que é se atirar na lua

quarta-feira, 11 de março de 2009

For You

A briga

É quando a frase se esquece do diálogo. E o grito fala mais alto que o arrependimento do grito. Um deles joga a rede, espreita o cardume de repetições de erros, negligências, esquecimentos, silêncios, birras e arrasta junto, espuma de ressentimento. O outro arruma a lança que revela mais motivos, abre frestas que nem se imaginava que existissem. Tampouco aquele rio caudaloso de mágoas. Alguém sobe no trapézio e focifera uma ofensa ao vento. A culpa é do tempo, é dos outros, está dentro. Ninguém nem sabe mais qual fora o primeiro motivo.


O vazio

Fica o silêncio amargando a boca. Frases e frases dependuradas na garganta, superlotando a saída do desabafo. O estômago revirado de suspiros. Os olhos fixos no nada buscam algum detalhe que não se parece com sonho, mas fica bem próximo daqueles momentos em que ambos se reconheciam na escuridão do toque. Vontade de voltar no tempo. Roubar-lhe um minuto, quem sabe até um pouco mais, e desenhá-lo em perdão. Mas o vazio só é vazio porque nele, o tempo fica suspenso.


Tempo

Você acorda e começa a se importar de novo com o outro. Imagina como ele está. Se dormiu, comeu, pensou. Se será feliz, mesmo que sem você. Caem as folhas da explicação e nasce a raiz do entendimento.


Conclusão

Eu entendo que você tem medo. Eu também já tive muito medo. E ainda tenho. Eu entendo que o grito só esclarece a dor, mas não cura a mágoa. Eu entendo que o que sinto é verdadeiro, daí as queixas também serem verdadeiras. Eu entendo que abandonar a discussão é dar chance para se despedir da raiva. Meu amor não me estraga, nem me despedaça. Não dou porque recebo. Recebo, porque já sou inteiro. Meu amor não quer o impossível. Só quer o possível, desde que do seu lado.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Um momento apenas

Eu queria assegurar que se anunciava uma hora dentro de mim pra falar aqui nesse blogue o quanto é duro, doloroso e maravilhoso ser mulher. Até escrevi uma croniquinha bobinha no meu ex-Diário de Natal sobre como é bom ser mulher. E deverá sair no próximo domingo.

Mas aqui, eu pensei em fazer ainda mais. Sei lá, algo mais mirabolantemente feminino. Cheio de idiossincrasias, de porquês, de TPM, de pernas para depilar, dúvidas, e uma vontade enorme de ser compreendida e de compartilhar tudo com os outros. Até mesmo aqueles desejos e pedidos que a gente faz quando alguém perde um cílio e o coloca delicadamente na ponta do indicador e junta com o indicador de uma outra pessoa, para ver quem é que vai ganhar o direito de realização do desejo. Teve um tempo em que eu perdia mais cílios. É fato. Agora, meus olhos estão mais pacatos no meio da minha carinha escancarada de espanto e emoção sempre que vê uma borboleta.

Até tem a vontade, mas os dedos não acompanham. Estão ocupados demais com outras coisas. É conta do condomínio. Um telefonema do chefe. Um e-mail do outro. A caixa de entrada precisando ser acessada. O macarrão que não pode esperar. E a plantinha que está crescendo e escapando pelas bordas do jarro. O dia que se aproxima, a noite que nunca acaba. O livro de poemas me esperando no quarto. Um homem no pensamento. O corpo que ora é brisa, ora quer vento. Ventania. Tempestade.

Será que toda mulher é assim meu Deus? Divaga, divaga e divaga, enquanto anda bem depressa? Enquanto penteia o cabelo, arruma a blusa, olha se a bunda tá muito mole, escolhe sutiã na loja, bota vestido longo, curtinho, pinta unha, quer um dermatologista, viaja para poder voltar, volta mas num chega nunca onde quer chegar, sente mais e acaba se antecipando, tem ânsias se ser calminha, calminha como dona Carminha, a velhinha de 93 anos e pantufinhas rotas, tão andarilha a danadinha, do quarto para a sala, da sala para o banheiro, do banheiro para o corredor, do corredor para a cozinha, da cozinha para o quarto e assim ela ía se arrastando pelas brechas da minha infância?

Bom, desculpem-me senhoras mais resolvidas e senhores mais resolutos. No momento, não consigo escrever cartas; descobrir desenhos nas nuvens ou que um pêssego tem a função primordial de adoçar o olhar dos passarinhos. Também não consigo encontrar uma metáfora que pudesse descrever o que penso sobre a vagina, sem parecer que essa metáfora findaria em pormenorizar a vagina ou transformá-la em outra coisa que não seja uma vagina e sua incrível função secundária: a de carregar o mundo nas costas.

O poeta e o verificador de palavras

PALAVRAS PALAVRAS PALAVRAS

Muitos blogues teem verificadores de palavras em seus comentários, às vezes chateando seus leitores com solicitações esdrúxulas para desnecessárias confirmações. E haja consoantes, e haja vogais, e haja números, e haja palavras sem o menor sentido. Ora irritantes, ora ridículas, nada dizem e nada provam. A não ser, talvez, a nossa capacidade de encarar com paciência todo um jogo de vocábulos vazios. E inúteis. E atoleimados.

Nos últimos meses, contudo, os verificadores de palavras passaram a ficar interessantes, abrindo expectativas para viagens imaginárias e/ou poemas paraconcretos. Alguns exemplos ao acaso, devidamente anotados: flosm, em Maria Maria; glythie, em Fernando Cisco Zappa; cleyium, em Adriana Monteiro de Barros; strundes, em Mariana Botelho; dismeb, em Marco Santos. Outros exemplos poderiam ser citados, como xessonic, em Douglas D.

Mas é no blogue Bicho Esquisito, de Sheyla Azevedo, entre aqueles que visitamos com frequência, que o Verificador de Palavras assume uma "personalidade" inesperada, muitas vezes se "identificando" com a própria autora das postagens. Ou não seriam doces, extremamente doces, com sua sonoridade afrancesada, os vocábulos blonisse, oflesse, phiesse? Aliás, com um toque literário em proustr, em busca de tempos perdidos.

É o caso de perguntar, a partir de seu (hoje) poético Verificador de Palavras: será que Sheyla Azevedo reside em Trizinga, com seus castelos medievais? Ou em Mismont, com suas montanhas geladas? No segundo caso, para cobrir seus sonhos, além da pessoa amada, que decerto a embalaria com suavidade, nada melhor do que um lonshol. Depois, ao acordar, poderia beber um suco de vochug, com seu sabor lembrando um mastag.

Haverá sempre a possibilidade, para a natalense Sheyla, de encontrar o seu amigo Carito, que para ela - por que não? - poderá compor uma poesia elétrica a partir de sons onomatopaicos, como phicloc. Enfim, em se tratando de um Verificador de Palavras criativo - como criativa é a Sheyla, com seus ternuramentos e alumbramentos - tudo é possível: até mesmo vocábulos obscuros como shair e mession, com seu francesismo.

Sim, sim, eu sei, vou forçar a barra, mas diria que que o Verificador de Palavras do Bicho Esquisito, retomando o título brasileiro de um conhecido bangue-bangue (Os brutos também amam), resolveu parafraseá-lo, como se estivéssemos num conto de ficção científica: As máquinas também amam. Ou seja, será que a nossa querida Sheyla Azevedo já percebeu que o seu sensível Verificador está apaixonado por ela?

esse texto foi originalmente postado no blog do Moacy Cirne, o Balaio Porreta, eu achei o máximo e já deixei lá a minha teoria sobre o verificador de palavras.