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segunda-feira, 25 de maio de 2009

No meio do Caminho

Sempre quis ser mais velha do que era. O auge foi quando completei 28 e sonhava já em chegar aos 30. A maturidade sempre teve um lado que me fascina. Talvez seja a falta de pressa, a ausência de soberba sobre o que já se sabe ou o olhar sereno sobre as coisas do mundo. Um filósofo francês – que não lembro agora o nome, sorry – disse que a velhice era incrível, o que tornava o homem “miserável” nessa fase eram as enfermidades. Concordo com ele. Se olharmos para alguém mais velho, e tirarmos as artrites, doenças sistêmicas, catarata, osteoporose, cardiopatias e outras mazelas, habita ali um ser pleno de natureza humana. Dito isso, acho que já é hora de reproduzir uma das frases que mais me chamaram a atenção. É do Otto Lara Resende, em sua crônica “Bom dia para nascer”, publicada em maio de 1991: “Mas juventude tem cura. Eu também já fui jovem. É só esperar”.

Talvez eu esteja no meio do caminho. E isso para mim já é muito bom. Mas eu quero mais. Ops! Olha aí a pressa, a ansiedade, “a vontade de” se confundindo com “o desejo de”. Mas tem cura, né? Enquanto isso, vou bebendo de outras fontes. A minha mãe é a primeira da fila. Seu olhar já me diz tanto que às vezes até preciso desviar. Na quinta-feira passada, tive a honra de ouvir numa palestra o professor Manoel Carlos Chaparro. Ele é jornalista desde 1957. Professor da Escola de Comunicação e Arte da USP e Doutor em Ciências da Comunicação. Ganhou quatro Prêmios Esso, dos quais três foram quando escrevia no jornal A Ordem, no início dos anos 1960, quando foi convidado pelo então arcebispo de Natal, dom Eugênio Sales.

Tranqüilo. Seguro. Loquaz. Só para citar algumas características do meu interlocutor. Uma de suas primeiras afirmações fora a de que nós, jornalistas, nunca fomos o centro do mundo, nem nunca seremos. Bingo! Sempre achei isso, mas é bom ouvir de alguém infinitamente mais sábio e vivido que você. Somos apenas narradores, observadores do cotidiano. Falamos sobre o que ocorre com os outros. Logo, dependemos desse outro. A palestra era bem específica e não dá para falar sobre os conceitos aqui sem correr o risco de ficar enfadonha, o que seria de uma grande injustiça com o professor Chaparro já que ele comandou durante mais de uma hora uma platéia atenta e grata pelas suas investidas certeiras nos conceitos jornalísticos, no trabalho e na vida. Tive vontade de dizer a ele, mas a juventude ainda me intimida: - Obrigada, professor, hoje aprendi que é possível ser velho e sábio em apenas uma hora e alguns minutos. E lhe devo isso.

Portanto, mesmo que eu não chegue lá na casa dos 80, fique num meio termo. A cada dia, em cada movimento do mais delicado lufar de velhice que se for apropriando dos meus poros, ficarei viva, grata e atenta.

*

DESCULPAS
Na quinta-feira passada no texto “A biblioteca dos meus sonhos”, no qual falei sobre a Biblioteca Pública Câmara Cascudo, deixei a promessa de que daria continuidade ao assunto. E não o fiz ontem. Portanto, o título dessa notinha só poderia ser esse. E repito, desculpas sinceras ao leitor que, por ventura, esperou.

A BIBLIOTECA
O que faltou dizer é que a obra que já deve estar em andamento nesse final de semana não vai impedir, inicialmente, a presença dos usuários naquela Casa do Saber. Porém, a reforma que vai reparar infiltrações na laje, nas vigas frontais e danos na instalação elétrica não vai resolver todos os problemas. O diretor, Márcio Rodrigues, quer sensibilizar deputados, autoridades e a sociedade em geral para que seja trocado também o piso da Biblioteca Câmara Cascudo. Visivelmente esburacado e indigno.

MAIS
Faltou dizer também que a Biblioteca Câmara Cascudo faz registro de obras e é responsável por orientar toda e qualquer biblioteca pública que seja criada nos 166 municípios do Estado. E com apenas cinco bibliotecários para dar conta do recado, é absolutamente impossível. O diretor, Márcio Rodrigues, me disse que o Ministério da Cultura tem um projeto chamado Livro Aberto, no qual oferece desde os exemplares, passando por mobiliário e equipamentos eletrônicos para que as prefeituras criem suas bibliotecas públicas. O projeto é lindo, ninguém duvida. Porém, sem um bibliotecário para tomar conta, a biblioteca até pode ser montada, mas funcionar, aí já são outros 500.Vai um apelo: prefeitos, não basta montar uma salinha com livros nas prateleiras, contratem bibliotecários. Ainda não acabou: Governo do Estado, realizem concurso público para bibliotecários. Os que existem na mais importante biblioteca pública do Estado tentam, mas não conseguem dar conta de tantas demandas.

PS.: A crônica e algumas notinhas foram publicadas no JH 1a. Edição do sábado passado, 23 de maio. Coloquei algumas notinhas também porque elas dão continuidade e encerram o assunto da crônica "A biblioteca dos meus sonhos", que também foi para o jornal e que eu postei aqui há alguns dias. Cheiro Moacy! Cheiro a todos, aliás. Obrigada por estarem sempre aqui, me fazendo companhia.




sexta-feira, 22 de maio de 2009

PARA FALAR DE AMIZADE *

Não raro ouvimos das bocas mais próximas ou longínquas que a amizade traduz a parte mais genuína do amor. Um amor mais puro, mais sereno, mais ameno, mais inteligente. Poderia até ser. Mas não é. O amor da amizade pode ser mais fácil, mas não é o maior ou o melhor que os outros tipos de amor. E olhe, que o amor da amizade só é mais fácil se não existir uma convivência diária de ao menos duas horas. Porque se a gente fica perto de outra pessoa por mais tempo que isso, todos os dias, e diz por ela nutrir algum sentimento simpático e parassimpático, pode ter certeza de que vai rolar conflito. E só quando esse danado aparece é que dá para medir a real dimensão do amor.

Troca de afeto, carinho, confiança e respeito têm sido muito confundidos com outras coisas: posse, servidão, ausência de opinião contrária, falar demais, não saber a hora de calar, ciúmes. O leitor quer um exemplo? Conselho de amigo é muito bom, mas só quando ele já vem com as cores e o formato que a gente tem desenhado na cabeça. Será que a sinceridade do amigo só é bem-vinda, se ela vem com concordância, compreensão, pena e solidariedade? Senão, pode não ter serventia? Portanto, tome muito cuidado na próxima vez que fizer a perguntinha: “posso ser sincera(o)?”. Pode ser fatal. Assim como também pode não ser a melhor hora. Às vezes, ser amigo é esconder a verdade dura e que só vai ferir naquele momento; é deixar para lá o sermão que só vai aborrecer o outro surdo, momentaneamente, de bom senso e, saber que, conselho de amigo, de médico, de guru espiritual ou até dos anagramas cifrados dos nossos analistas são fundamentais, mas é preciso estar atento. É preciso querer ouvir mais que escutar.

E para querer é preciso estar aberto para perceber com igual intensidade nossos próprios defeitos, com a rapidez com que identificamos os defeitos alheios. Sim, porque, não raro, diante da percepção dos defeitos alheios, podemos ter a ilusão de que somos melhores ou mais evoluídos. Mas, ser – ou se tornar - a melhor pessoa do mundo não reside em comparar-se com os outros naquilo que eles têm de pior.

O amor da amizade é bom, mas não é perfeito. Descobri a pólvora? Dã! Claro que não. Só descobri que o amor da amizade é o mais próximo daquilo que se pode chamar de redução de danos. E, se amar é, essencialmente tolerar, como diz a minha própria analista, então é bom que a gente exercite isso com os amigos e com todo o resto também.

* Pronto, Tácito, você pediu ei-la! Aliás, está postada e dedicada à toda sua delicadeza. Um beijo, S.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

"A biblioteca dos meus sonhos"

1988. Fazia pouco mais de um ano que eu chegara para estudar na capital e tinha deixado para trás a Biblioteca Pública de “Bonja” (Bom Jesus, para os íntimos), onde eu fui apresentada à obra de autores como Edgar Alan Poe, Machado de Assis e Monteiro Lobato. Vá lá, também li daquelas prateleiras O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry e Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. Este segundo por indicação de que “era melhor” que o primeiro do aviador francês. A constatação de que nem um, nem o outro livro mudariam a minha vida, não arrefeceu minha avidez por leituras. Mas, o que é mais estranho é que nenhum livro muda a vida de ninguém. Ao menos um livro bem intencionado, é claro. Mas, junte todos os lidos e, certamente, eles serão responsáveis por grande parte do movimento da vida de uma pessoa. Ao menos as pessoas como eu, é claro. Que desde sempre fui apegada aos silêncios e sussurros das bibliotecas. Pois bem, era o ano de 1988 e entrei pela primeira vez na Biblioteca Pública Câmara Cascudo. Devidamente cadastrada com direito a foto em carteirinha, peguei emprestado Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Depois vieram outros e mais outros.

Perdi a conta dos livros. E ontem, ao subir novamente aquelas escadas que dão para o primeiro pavimento, me apercebi que perdera também a conta dos anos em que não fora mais aquele lugar que é mais velho que eu. Em fevereiro desse ano completou 40 anos. Meu intento era encontrar o diretor Márcio Rodrigues Farias. Recém operado do joelho, segurando charmosamente uma bengala, mesmo licenciado, o diretor tem comparecido à Biblioteca Câmara Cascudo, por um motivo que estimulou seus passos durante os quatro anos em que está à frente da instituição: uma reforma no prédio, que está visivelmente deteriorado, com estrutura física precária e só podendo atender aos usuários até as 16h30, quando ainda há luz natural. Depois disso, fica impraticável devido a instalação elétrica estar com sérios problemas. Portanto, é preferível fechar as portas da casa do saber no final da tarde, que colocar em risco seu acervo por conta de um curto circuito, já que poderia desencadear um incêndio, uma vez que os livros têm as páginas muito ressecadas porque não são acondicionados como mereciam, em temperatura que garantisse sua preservação. Tudo isso ele conta sem medo e sem ressentimentos, ciente de que a biblioteca dos seus sonhos seria “uma biblioteca em que os usuários chegassem e encontrassem as respostas para os seus questionamentos”. Pergunto então a ele se não é assim que acontece? “Não. Porque só somos cinco bibliotecários para dar conta de todos os serviços e, nem sempre é possível dar a orientação ao usuários e suas pesquisas”, explica, sonhando também com um concurso público e a aquisição de mais oito bibliotecários para dar conta do recado.

Segundo ele, os engenheiros da Secretaria Estadual de Infra-Estrutura, que têm visitado o local confirmaram que a restauração começa semana que vem. Não é o que ele sonhava em termos de melhoria, mas já é um começo. Aliás, começo que custou mais de um ano e meio para acontecer porque, depois de passar por todos os tramites oficiais e pedidos e solicitações junto ao seu superior, e ao superior do superior (leia-se Fundação José Augusto), foi em outubro de 2007, que o bibliotecário Márcio Rodrigues ouviu um “sim” da governadora Wilma de Faria, uma vez tendo sido ela interpelada por ele, num evento qualquer. “Fui me achegando devagarzinho, precisava falar com ela. Não podia perder aquela oportunidade e falei como estava a Biblioteca. Naquele dia ela afirmou que iria fazer alguma coisa e, depois das burocracias e trâmites, a reforma vai acontecer”, conforma-se.

Mas nem tanto. Os recursos conseguidos garantirão reparos na laje – cheias de infiltrações -, nas vigas da fachada frontal que estão literalmente carcomidas pela ferrugem e na instalação elétrica. Falta olhar para o piso de taco translúcido de tão velho, quando não ausente, deixando de fora buracos ao longo do salão e das salas dos funcionários. “Vou continuar batalhando para conseguirmos o piso”, insiste ele. Computador? Tem um. E não está disponível para pesquisas. Aliás, esse é um capítulo à parte. O próprio perfil do usuário tem mudado. Segundo Rodrigues, os pesquisadores têm escasseado mais e dado espaço a alunos de ensino fundamental e médio que, chegam na Biblioteca e querem “achar” o assunto a ser pesquisado e apresentado na escola completamente “mastigado”. “Nosso usuário é o aluno que vem procurar o trabalho pronto, uma das primeiras coisas que eles perguntam é onde se faz fotocópia”, desabafa.

Já que eu falei em capítulos à parte, e o espaço está ficando pequeno *, continuarei falando da Biblioteca Câmara Cascudo na próxima coluna.


* pequeno, quer dizer porque esse texto foi publicado na coluna do Mário Ivo, no JH 1 Edição. É isso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Quando a rua é um palco e o sorriso aplauso

Quando saí de casa naquele dia não havia qualquer indício de que ocorreria algo diferente no próximo círculo que o relógio faria. Nenhuma previsão de catástrofe fora detectada pela caixinha preta da sala, fosse de chuva, vento ou sol. Mas era só o começo do dia, então alguém pudesse pensar ser precipitado chegar à conclusão qualquer, quando o dia ainda está só começando. É verdade. Do movimento circular das horas só temos controle sobre o ar que respiramos. E mesmo assim é involuntário esse movimento. Portanto, a sobrevivência é quem faz contorno para a vida seguir seu rumo.

Final do expediente. Eu e Anninha sentamos num pequeno quiosque nos arredores de um shopping em Ponta Negra. Queríamos comer uma pizza. Eram 19h, mas a moça do quiosque da pizza disse, sentada em uma das cadeiras vendo a brisa passar, que a casa só abriria lá para as 19h15, 19h20, nem mais nem menos. Ainda insistimos um pouco, se não daria para abrir uma exceção. Ela intransponível. Regra é regra e tem mais razão que o freguês. Nos levantamentos solenemente e seguimos um pouco mais à frente onde fomos prontamente e muitíssimo bem tratadas por um outro rapaz que, à moda francesa, chamamos de garçom.

Durante o dia podemos até nos julgar efêmeros e contingentes.

Mas é à noite em que nos descobrimos eternos, ou ao menos inesquecíveis. A conversa ia tranqüila, seguia a ondulação natural das digressões femininas quando, de repente, fomos arrebatadas por uma moça-mais-que- perfeita. Daquelas cujo sorriso é mais largo que as orelhas, os cabelos mais lilases que o crepúsculo, a roupa mais brilhosa que o manto de Nossa Senhora; que faz da rua um palco e a palavra que sai da boca é um convite para os holofotes. O nome não era muito glamouroso: “Broa Preta”, as piadas, ela repetiu uma ou duas vezes e riu-se de si mesma, já se sentindo a vontade para explicar aquela profusão de sorrisos e rabiçacas nos brincos postiços, presos na peruca. Não é travesti, foi logo corrigindo. “Travesti é quem coloca peito e bunda de silicone. (ah, ta! E eu pensando que era mulher quem fazia isso hoje em dia). Eu sou transformista”. Vai de rua em rua, de quiosque em quiosque, bar em bar, fazendo mini-apresentações, transformando o sorriso discreto de uns, as gargalhadas de outros e a indiferença de muitos em aplauso e impulso para conseguir seu intento: arrecadar fundos para chegar até São Paulo, onde vai tentar se apresentar num talk-show desses da vida, que pode consagrar um humorista cearense em 20 minutos.

Não demorou muito e já quase éramos amigos de infância daquele menino de 28 anos que se chama Fábio Lima, é gay com todas as letras e o peso da palavra HOMOSSEXUAL, e que não reproduz frases feitas do tipo, “nunca desisto do meu sonho”. Mas guarda no olhar uma certa reverência para a esperança de que tudo vai dar certo no final. Pois bem, se eu tivesse nascido Drummond, tinha dito p’rele, vai menino vai ser gauche na vida! Mas, tímida demais para adivinhar futuros, reservei-me à efusividade do sorriso, das gargalhadas para ser sincera. Afinal, o dia já não era mais o mesmo e merecia aqueles aplausos.

PS.: quem encontrar Broa Preta na rua, fazer o favor de ouvir as piadas. Se gostar, pode até ajuda-lo a viajar para São Paulo.



Meus queridos leitores, estou escrevendo crônicas diárias na coluna do Mário Ivo (Cidade dos Reis e Embrulhando o Peixe) no jornal matutino JH 1a. Edição. Não tá sendo fácil não. O cara é um herói, por isso. Mas até heróis tiram dias de folga. Essa é a segunda crônica que eu escrevi no jornal... Moacy, Carito, eu citei vocês dois na minha primeira vez na coluna, pelo menos umas três vezes (risos), prova do meu amor. Saiu segunda-feira. Quem quiser me mandar notícias de cultura, fique à vontade azevedo.sheyla@gmail.com, ficarei muito grata. E to ficando maluca!!!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Auto-retrato


essa sou eu.
quero dizer, sou eu agora e até daqui a pouco, porque mudar nem sempre é visível a olho nu.

pode não parecer, mas estou um pouco maquiada. fiz antes de sair de casa e já havia uma certa intenção no ar porque pensei que já era hora de tirar uma foto com minha nova cara. só que com as sardas mais disfarçadas no salão de festa. cortei o cabelo uns dias antes de fazer 35. já faz quase um mês que fiz 35 e mais de um mês que cortei o cabelo estilo poodle. não importa.

o fato é que essa sou eu, goste ou não.
e às vezes não gosto. às vezes fecho os olhos e fico me olhando por dentro. prefiro.
lá dentro é mais confuso e mais familiar.

bom, aí eu estava passando pelo corredor e vinha o garoto de um metro e 62 que acha que pode sair por aí dizendo o que bem pensa sobre como os outros deveriam ser para que ele ficasse mais satisfeito com o que ele vê e ele me diz: "não gostei desse seu cabelo. melhor o outro". tensão.

enquanto ele se aproximava já fiquei imaginando o que ele diria dessa vez. se o meu vestido deveria ser mais curto. minha calça mais baixa. minha blusa mais feminina. meu batom mais clarinho. minhas unhas menos vermelhas. que eu deveria ser mais bonita porque sou bonita e me escondo. putaquepariu! coisa chata a pessoa ter que ser como a pessoa quer que a gente seja sem se importar de verdade se é isso também que a gente quer.

"não gostou? que pena. eu gostei!", deveria ter respondido isso para ele. mas não foi isso que saiu. uma coisa meio grunhida assim tipo, "fala sério, desde quando te instituí meu consultor de beleza?". arrependimento. fui rude. ele ficou com cara de cuscuz e o que é pior, jamais vai entender que toda vez que ele resolvia dar palpite sobre a minha aparência, quando eu passava naquele bendito corredor, ele me deixava tensa e preocupada com a minha aparência. coisa que é tão frugal e tão desnecária, já que prefiro mil vezes me preocupar com o que vejo por dentro. e quando falei com ele daquele jeito, mostrei o lado feio de dentro.

acho que ele não vai ler isso aqui. mas quero pedir desculpas publicamente.

sorry, essa sou eu.

Pequenos desejos

35 anos e da eternidade só conheço o pó.
Matéria que, vai saber, já fora coluna de mármore ou qualquer coisa que valha a resistência circular das horas.

E como desconheço a tal, dela carrego apenas as consequências. E mesmo assim, moram em mim incertezas e visões distorcidas sobre o abismo. Esse lar incondicional.

Desconheço o amor. Salvo aquele que me guia para a mais absoluta liberdade e também a mais tenra consciência da solidão. Mas não aquela disfarçada de vazios ou ausências. Sim à que nada espera, porque nada busca.

35 anos e algums pequenos desejos:

a) ver o mundo como um peixe no aquário

b) o crepúsculo do quintal da minha infância na rua de cima

c) o canto de Borges na minha estante

d) algumas cartas amareladas pela desmemória

e) uma semana em Istambul

f) o silêncio do deserto

g) a flauta na doce almofada dos teus lábios

h) atravessar as paredes como meus gatos

i) o calor da fogueira de São João

j) O sino da Igreja do Bom Jesus das Dores, na Ribeyra

l) meu estômago trepar com a ladeira da Gustavo Cordeiro de Faria

m) compreender Ulysses ou Joyce

n) acordar e não ser mais a mesma de ontem nem a outra de amanhã

o) perder a esperança e me aventurar com a coragem

q) desejar o olhar possível sobre todas as coisas invisíveis e que estão sempre me tocando com tanta intensidade, como agora.