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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Cartas II

Arturo, saudades.

As cortinas de nuvem cobrem o céu úmido. Parece que o inverno chegou. Os móveis suam. As plantas ficam sonolentas. Crescem musgos por trás dos porta-retratos. E você nunca me mandou qualquer fotografia da sua nova paisagem. Às vezes sinto medo de esquecer como são teus olhos. E acho que está ficando turva a memória das linhas de tuas mãos. Gostava tanto de passear os dedos sobre elas. Um sulco convidativo ao toque. Caminhos que eu nunca me cansava de percorrer, muito embora jamais soubesse para onde eles me levariam. Se eram pontos de partida ou de chegada.

Já disse em outras cartas, inúmeras, que não temos mais a algazarra dos peros? Sim, claro que já disse. Saudades, Arturo. Eles se foram logo após sua partida. Como se prenunciassem meu desejo de ficar sozinha. De cultivar musgos junto com as velhas fotografias. Lembro da alegria febril e avermelhada dos dois contrastando com nosso silêncio. Com nossos cafés-da-manhã regados a um café tisnado e meio amargo, dois ou três nacos de pão. Meia-dúzia de palavras, disfarçando a selvageria do desejo de silenciar e assistir a obscenidade azul daquele céu dezembrino.

Às vezes - em pensamento - ainda respiro aquele ar impregnado de sal, roubado do mar à nossa frente. E ainda me pego tentando adivinhar o que os seus dedos me sussurravam ao tamborilar a mesa da cozinha. Não havia uma única linha no rosto que denotasse impaciência. Mas a mão espalmada que passeava pelos cabelos me diziam que a hora estava por chegar.

Nos mesmos rastros do silêncio que nos conduzia ao café, seguíamos pelo corredor até chegar no quarto, já envolvido pela vertigem dos nossos desejos. Como se suas paredes conhecessem o ritual e guardassem nas manchas e nos pedaços arrancados a prova da nossa refrega. Peleja que traria o indulto de paz. Mesmo que para ambos soasse tão distinto. Eu queria o olhar imponderável. Você, libertar a fera. Para mim, era muito mais gracioso e erótico quando me penetravas com teu olhar, Arturo. Mas você queria se esculpir em mim com costelas e sêmem. Esquecia completamente do barro. Da argamassa que nos unira no início. Passados alguns anos daquele ritual, parei minhas apostas. Você se voltou para suas arqueologias. Eu cruzei palavras, bordei sentidos, costurei versos e esfriei a dor como quem abana uma queimadura de verão, enquanto soprava verdades em teus ouvidos.

Saudades, Arturo. Saudades agora sem culpa. Saudades alicerçadas na verdade que só aparece depois que se esquece a barbárie. Saudade que não sente falta de civilidade. Saudade que sequer sente falta. Nem do que passou, nem do que virá. Saudade sem emissão de dor. Saudade metafísica.

Arturo, jamais voltarei a te amar. Quero apenas a tua distância.

PS.: só está faltando a fotografia, mande-a na próxima carta. Para que, enfim, ela descanse por entre os musgos.

Sempre saudades, Arturo, S.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Cartas

Minha cara Alice,

Finalmente reservo uma fatia do meu tempo para responder sua carta. Não será grande, admito. Mas prometo que vou me esforçar para que suas mãos sejam agarradas pelas lembranças do gosto levemente ácido e açucarado daquele bolo de laranja que você tanto gostava quando criança e pedia sempre para repetir e repetir e eu ía diminuindo cada vez mais a espessura das fatias, até ficarem tão finas que se esfarelavam no caminho entre os dedos e a boca.

Porra. Porra. Porra. Foi o que você cadenciou para mim, referindo-se a si mesma. Senão por completo, ao menos a uma parte de você que não está sabendo lidar com o que se descortina diante dos olhos. De cá penso que seus olhos ainda estão vendados. Mas sua alma, minha sempre menina, é que toma ares. Abre as janelas. Respira o ar que passa além daqueles que entram nos seus pulmões.

Alice, as escolhas não são definitivas, meu bem. Elas são, geralmente, um ponto de partida. o que você vai fazer depois delas é que darão o teor, o valor e o peso das coisas, dos outros e de você mesma. Mas, principalmente, isso não se teoriza, se sente e se vive, e você sabe muito bem. E sabe também que assim como você, eu não suporto muito frases prontas; os períodos copiados das enciclopédias e as páginas encharcadas de tédio e repetição. Sorry dear. Talvez não tenha muito a dizer. Você deve estar rindo agora. Quase triunfante. Pensando que estou balançando as mãos efusivamente enquanto falo essas coisas, quase bradando e com o cenho aparentemente severo. E repetindo, mais uma vez que, por mil olhos de gatos, prefiro muitas vezes pedras soltas a palavras vãs.

Pois bem, você se enganou dessa vez. E se enganou novamente se acreditar que me distraio de você. Muito embora ache que seu sonho é deveras incauto. Não a condeno por isso. Ao menos ele não está morto. Você não deve ter entendido. Isso é o que eu chamaria de uma piadinha coeva e infame.

Querida preciso ir agora me acorrentar a outros afazeres. Ou quem sabe me permitir a momentos de contemplação do inverno esquizóide dessa cidade. Mas antes queria lhe dizer que talvez fosse interessante que ao invés de querer adentrar pela porta da frente, você procure os porões das respostas. Livre-se também desse arsenal mercadológico que impõe uma máscara bifronte de carnaval na cara das pessoas, impedindo que elas respirem realidade, não se vanglorie dos clichês que determinam o que é felicidade e, outra coisa, se os dias passarem vagarosos, lembre-se que não é você que tem controle sobre o tempo. Definitivamente. Afora isso, nada mais é definitivo.

Não leia minha carta com os olhos sobre linhas cartesianas porque elas sequer existem para mim. Deixei-as na 8a série. Leia com o vagar e o distanciamento de quem já aprendeu a amar ao outro com a certeza de que o outro não é o que você quer que ele seja. Vou terminar com uma citação daquele nosso escritor preferido e que sempre lemos em voz alta quando estamos perto uma da outra. “Não há encanto em manipular conceitos, deixando o coração deserto”.

Com amor, S.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Poeminhas Ordinários

Ainda na sessão nostalgia, pesquei esses poeminhas ordinários mais uma vez! Sim, porque eu tenho uma "lêve" impressão de que já o fiz antes... Vá lá, vou postar novamente. E o jeito? Se estou dada a silêncios, né Moacy?

Incertezas
Se penso que sei
Logo me calo
Porque me enganei


Ménage
Um mais um às vezes é bom
Ou eu
Ou ela
Ou nenhum de nós dois
Um mais um às vezes é três.


O mar
Quando ele abriu os braços
Imenso e azul
Qual Netuno
Ela pensou em fugir
Mas sucumbiu


Deadly
Amor
Não é bem
Maior que tudo
Posto que cabe
Na palma da mão
No silêncio
No corpo
Na saliva
Na corda bamba
Na escuridão


Aparências
Os jarros estavam repletos
De flores.
Rubras, vibrantes.
O cheiro comovia.
Estavam mortas


Publicados originalmente em setembro de 2007, no Entremundos

Há quase três anos...

... escrevi esse texto no extinto "Entremundos". De repente me pareceu tão atual. Decidi postar aqui no Bicho. Talvez por pura nostalgia, não sei.

Nada sobre coisa alguma

Da janela da minha alma vem uma melodia que não consigo divisar as notas. (Mas eu sei que ela está lá). E é um pouco de mim. Talvez um pedaço bem grande. Depois que o menino que soltava pipas, tocava flauta doce e era exímio jogador de peladas cresceu, agora ele vive olhando sobre as frestas das persianas enquanto visto minhas asas. Às vezes eu penso que a melodia pode vir de um pedaço dele. Talvez um pedaço bem grande. Talvez um pedaço de mim.

Certa vez, perguntei à minha avó se podia caminhar por entre as folhas secas que choviam em cima da minha cama (adorava a melodia delas sucumbindo aos meus pés de Golias). E ela, num tom de reprovação disse que aquilo não eram folhas. Eram cascas das velhas arvores genealógicas da família. “Agora vá dormir, que amanhã é dia de branco”.
Brancos eram os olhos do defunto, que morrera sem dar descanso às pálpebras injetadas de solidão. Amarelas as rosas que tentavam disfarçar o cheiro de morte espalhado pelas pessoas, cadeiras, cortinas e telhas da casa. Lilases as flores de plástico das coroas que reinam no cemitério. Negros eram os olhos da rasga-mortalha que piou na noite anterior, bem debaixo daquela casa.


A casa ruiu certo dia. Sobrou só a janela e essa estranha melodia. Que insiste em me fazer em pedaços. Pedi ao menino que me ajudasse a me arrumar e ele disse que não podia. Não tinha mais o barbante da pipa. A flauta doce quebrara. E seus joelhos apodreceram.

Naquela época -
Quincas comentou:
Provisoriamente vestido de metáforas, o homem é um animal que re/cita: "Inscrita nas tuas forças uma noite desleal cresce"


Carito comentou:
Belíssimo texto! Tudo sobre tanta coisa..


* Publicado em Entremundos no dia 27 de junho de 2006, às 18h27.