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terça-feira, 28 de julho de 2009

Contemplação

Escuto o tempo. E descubro que dentro do silêncio cabem coisas que não ocupam espaços:

o abraço dos cílios na orla dos teus olhos;

b) que a pausa pode ser mais intensa que o aplauso;

c) que a beleza quase sempre pode ser fotografada pela memória. (Quando a beleza borra o papel, não foi digna dos instantes);

d) o meu um fica tão largado que, às vezes, me espalho em mil;

quando vejo o mar, seco as lágrimas e penduro a esperança na linha do horizonte.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Confissões de segunda

Dormi praticamente o trajeto inteiro do ônibus hoje. Entre a pracinha de acolá e as esquinas daqui, eu ali presa a um sono cheio de saudades de travesseiro. A ausência de silêncio em ciranda com o ronco do motor me embalava num sono tumultuado por um sonho de travessia. Um sonho que não deixa pegadas. Um sonho que fica preso nas pálpebras quando a luz invade os olhos.

O dia correndo e minha mente pedindo trégua. Pedindo para alguém apagar a luz.

O dia já passa da metade. E embora já esteja em passadas largas não sinto os pés. Despertei do sono do ônibus, mas Plutão caminha por sobre o sol. Faço turismo por sobre as cicatrizes. Quase me lembro de algumas dores. Busco o receituário do esquecimento.

Sinto necessidade de franqueza mais que de generosidade.

Ainda bem que ainda tem outro pedaço do dia para, quem sabe, eu ainda possa arrancar silêncios da paisagem.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Lapso

E foi assim que ela o encontrou na memória. Como quem folheia com displicência as páginas de um livro e redescobre uma coisa rara: a assinatura de um antigo dono; um bilhete alheio cujo teor é mais importante agora pelo envelhecimento das revelações; ou o enlevo pelo reencontro de uma rosa seca e espremida, herança da efemeridade das belezas vermelhas.

Minutos antes perdida, assentou as lembranças num canto arejado da mente. Como quem busca o melhor ângulo da janela aberta para guardar melhor o olhar do lugar. Pensou se havia deixado para trás alguma palavra esquecida (e se ainda haveria necessidade de reedita-las no presente e dizer-lhe em voz alta), mas sucumbiu à indiferença desse desejo porque as palavras só têm significâncias quando deixam de ser só palavras.

Mas até mesmo ele ali no canto arejado da mente já não se mostrava o mesmo. Era uma espécie de silêncio e contemplação. (O que combinava com as palavras só palavras). Era ele mas diferente. Não havia como negar a existência de uma fina poeira que tornava as coisas (ela quer dizer as lembranças) duvidosas e disformes. Ou, ao menos, cansadas demais para trazerem certezas e alegrias como uma canção. Nas canções, as palavras dançam, digrediu.

Foi quando levantou o olhar para cima e depois para a esquerda e depois para a direita, suspirou e pensou se havia destinado rumo correto para aquela lembrança que perdia os movimentos, tornando-se uma estática página amarela. Aquilo estava se tornando um desprazer! afinal se pudera nele se encontrar, como não consegue fazer quando está apenas com os pensamentos amarrados pelas correntes da razão, então que pudessem sair novamente para dançar, que ele lhe mostrasse um novo poema, que fossem à feira comprar manjericão ou então que esboçassem um beijo desajeitado e limpo debaixo do luar. (Mas a razão já lhe sacudia as cortinas do devaneio e começava a dar, excessivamente, nomes aos sentimentos. E as palavras, bem, elas simplesmente se revestiam de dicionários, compêndios, teorias, análises, tornando-se sílabas rigorosamente agrupadas).

E assim, a lembrança passou de insólita a corriqueira. Fora só mais uma entre as 306.009.875.456,3 que percorreram sua casa íntima naquele dia. Decidiu não acabar o dia de mau humor por causa daquilo. Ainda daria tempo de ver o por do sol e de dar algumas pedaladas.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Adoro a moral dessa história

O Mujique e os Pepinos
Liev Tolstói


Uma vez um mujique foi a uma horta roubar pepinos. Chegou-se aos pepinos, pensando: "Bem, eu levo um saco de pepinos, vendo; com esse dinheiro eu compro uma galinha. A galinha me bota ovos, choca os ovos, me dá de cria pintos. Eu dou de comer aos pintos, vendo, compro uma porca; a porca me dá de cria muitos porquinhos. Vendo os porquinhos, compro uma égua; a égua me dá de cria uns potrinhos. Dou de comer aos potrinhos, vendo; compro uma casa e boto uma horta. Monto a horta, planto pepinos, não deixo roubar, fico vigiando com firmeza. Contrato vigias, boto pra tomar conta dos pepinos, depois chego pé ante pé e grito: Ei, vocês aí, vigiem isso com mais firmeza!". O mujique estava tão concentrado em seus pensamentos que se esqueceu completamente de que estava em horta alheia e começou a berrar. Os vigias ouviram, chegaram correndo e deram uma surra nele.


Tradução: Paulo Bezerra (para Revista Cult 40, novembro de 2000)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cartas IV

Outono de 2009
Minhas pálpebras começam a anoitecer. Já é tarde. A quarta-feira já chegou. Gosto de te escrever nessa sonolência que me leva a um estado de adesão às confissões. O sono nos torna puros como as crianças. Mas nem eu nem você podemos nos dar ao luxo de nos considerarmos puros. E nossa infância esconde-se agora no crepúsculo dos nossos dias. Não pretendo me desculpar pela demora em te escrever. Você demorou muito mais em outras ocasiões. E demora, Tibério, quase sempre é prenúncio de esvaziamento, indiferença, desistência. E não foi isso que você me fez passar e sentir inúmeras vezes, Tibério?

Ainda está fumando cachimbo? Ainda senta-se diante da taça de vinho e da mesa da escrivaninha como quem reverencia a própria existência? Deus, quantas vezes fiquei eu a te esperar em silêncio do outro lado do corredor. Quantas vezes não sacralizei aquele momento que era só seu e do vinho e seus livros e escrivaninha e deitei-me encolhida debaixo dos lençóis tentando me lembrar como se fazia uma prece. Tentando distrair o frio que assola os ossos na escuridão da tortura. Porque o pior tipo de tortura, Tibério, é aquele que silencia. Que não traz respostas. Que demora a nos mostrar a face de Hades.

Na última carta que você me enviou pensei ter lido a palavra arrependimento? Você sequer fez uso dos seus conhecidos emissários cifrados: termos científicos, alusões à psicanálise e navalhas de cinismo cortando minha carne. Foi direto, claro, certeiro. Perdão, Martina!Como nunca esperara. “Demasiado tarde”, pois não. Lembra disso, Tibério? Você me emprestou o livro Ana Terra. Eu tinha 17. Havia essa frase lá. E ainda nem sonhávamos que um dia caminharíamos juntos pelas terras férteis da paixão e da loucura. Estrada que se encerrou em deserto.

Durante tantos anos, minha vida fora pura energia e você o fio condutor. Literalmente a vida por um fio. Agora, estamos velhos Tibério. Nossos corpos represam temperança porque já não conseguem sustentar arrebatamentos. Mas minhas lembranças permanecem intactas. E esse é o meu fardo. Jamais esquecer. Isso a velhice não me presenteou: a miséria da carne se intimidando diante da vastidão da memória. Antes pudesse esquecer. Talvez viesse o perdão. Mas se ainda me lembrasse ou me importasse com preces, saberia que a consumição do perdão só acontece na inocência.

Hoje não dormirei com pílulas. Tampouco me importarei se não dormirei. Minhas pálpebras pesam pelas lembranças. Agora posso confessar. Faz anos que não sei o que é dormir. Talvez a última vez em que dormi realmente fora naquela noite depois que você me trouxe do hospital. No seu costumeiro silêncio, regado a jazz e cheiro de cachimbo. Eu não chorei, você lembra? Naquela noite eu não queria despertar nem mesmo dos pesadelos. Era como se eles me fossem mais familiares que nossos muitos anos de casamento regado a distância e cheiro de chuva.

Tibério, moram em mim certas visões e vozes que eu não consigo apagar. Tenho mais abismos que flores. “Mãos mágicas”. “Sereia dos beija-flores”. Você me chamava assim, referindo-se à minha destreza em cultivar plantas e borboletas no jardim. E eu acreditava. Agora, às vezes, no afã de encontrar conforto em alguns segundos de lucidez, de despertar da angústia dos conflitos, imagino que fomos num só o encontro e o desencontro. O desejo e o deserto. A culpa e a redenção. A libertação e a descoberta do escuro.

Tibério não podia ter sido diferente?
Faço isso não por nostalgia. Mas por vingança mesmo. Esse tipo de pergunta você jamais esteve pronto para responder não é? Quero desesperadamente conhecer Deus. Depois de velha quero o inatingível.Rita já me deu a resposta. Ela disse que eu não sou vazia. Nosso filho é que nasceu para dentro.

Cartas III

Cara Zanze,

Ainda é terça-feira aqui. Aí também. Mas deve estar mais frio. Gosto do frio. Fico cheia de paciência no frio. Estava pensando no quanto você me faz falta. Enquanto ficou fora por 12 anos era mais fácil lidar. Depois, a sua volta, os apenas dois meses e de novo sua partida me pegaram de sobressalto. Entre nós não há espaço para queixas. Não me tome como uma amiga queixosa ou lamuriosa. Para ser sincera entendo mais sua partida que sua chegada ulterior. Mas, eu queria ter chorado na nossa despedida. Guardei o choro como quem guarda relíquia dentro das páginas dos livros. De vez em quando revisito sua ausência e choro algumas lágrimas. Não se preocupe, elas são tão discretas quanto você..

Mas vamos enfim deixar nossa despedida para trás e partir para o que está diante dos meus olhos agora: uma pilha de livros se amontoam em um dos lados da cama; meus tênis ainda estão molhados da chuva de ontem e descansam no pé da parede e comprei um guarda-chuva primaveril que divide espaço com os outros mil objetos espalhados. É outro guarda-chuva, sim, foi isso mesmo que você leu. Perdi o outro. Nunca pretendi fazer coleção de coisa alguma. Afora os cartões postais, os espirros e alguns livros, nunca pretendi colecionar guarda-chuvas. Não ria!


Na próxima carta não seja tão econômica nos detalhes. Preciso saber mais sobre sua nova morada. A quantos metros do chão? Se tem varanda. Se você vai querer mesmo a receita daquela torta e quando vai me mandar cartões postais. Está bem está bem está bem se não tem muito tempo para mim. Só não suma por meses a fio. Você sabe que minha saudade não é pétrea. Pelo contrário é solar e folhetinesca.

Sinto falta do nosso entendimento sem palavras. Já passamos daquela fase livresca e palavrosa de descrever em mil e um detalhes o que nos aflige para que encontremos correspondência no olhar. Obrigada. Acho que preciso agradecer não é? Embora não veja nossa amizade como uma dádiva e sim como um espiral de tolerância e respeito. Sinto falta do nosso olhar acolhedor uma para a outra. Mas estou feliz porque partiu. Só lamento que as meninas não tenham conhecido o mar.
Diga a Sophia, a Yasmim e a Jade que eu as amo, com quase amor de mãe.