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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bons sonhos e paquera na seção de sapatos

É quando a gente sonha, não se lembra mas, mesmo assim, o sonho faz todo sentido do mundo. Acordei assim hoje: com sonho que nasceu, se desenvolveu e terminou no baú do esquecimento. Nele não cabem angústias, notas promissórias ou palavras remoídas. Chave do cadeado jogada fora.

Há anos tento me reconciliar com os sonhos. No princípio só tinha sonhos cinza ou despencados no cair da tarde ou madrugada, o que dá no mesmo. Depois fui deixando, gradativamente, de babar na fronha, acordar sobressaltada ou o que era aterrorizante, acordar com medo.

Vou contar dois segredos:

Não caí mais na fraqueza dos sonhos mal-resolvidos depois que aprendi a sonhar acordada. Esqueço dos noturnos para abrir espaços aos mais oportunos.

Bom, já o outro segredo não tem nada a ver com sonhos. Ao menos diretamente. Tem a ver com os cachos. Escrevi anteriormente da angústia de viver um cabelo que está sem jeito e com um balanço de 76 rotações. Pois bem, depois de algumas manifestações solidárias a respeito do que é ou não beleza, de dicas de cremes e até texto-poema do Carito essa angústia, vamos combinar - absolutamente inútil - escorreu ralo abaixo.
E, já conto a culminância da minha busca incessante de sempre buscar uma lavagem de roupa mais interessante que orbitar em torno do meu umbigo, do meu cabelo ou de qualquer outro tipo de escapismo barato que esteja fora da vida que circula além das minhas pestanas: estava eu hoje adentrando pela C&A, para fugir um pouco do calor no quengo do calçadão da João Pessoa quando, encontro na minha frente um olhar encorajador de sorrisos. Um senhor sentado na seção de sapatos. Oitenta. Oitenta e cinco anos, talvez. Parecia mais abandonado aos próprios gestos que descansando as pernas, mas essa não é uma crônica sobre o abandono de gestos dos nossos idosos. Muito pelo contrário. Suas mãos não se continham em lugar algum. Dançavam e dançavam, desobedecendo a calmaria dos ombros, dos joelhos e da cabeça abaixada pelo peso da memória. Nos olhamos umas duas vezes e já iniciamos a paquera. Não sei quem sorriu primeiro. Só sei que em certo momento ele me chamou, irresistível, e falou baixinho, quase como quando os anjos nos sussurram preces ao ouvido, perguntando: "seu cabelo é natural?" Digo que sim! E ele replica: "Legal!", levantando o polegar.

Segundos depois, após prender-lhe as mãos brincalhonas em um pequeno beijo de despedida, sigo meu caminho, pensando em qual sonho eu devo me ocupar hoje.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sobre feiura, beleza e cabelo que balança em bloco

Um rosto cavoucado pelo desterro da piedade divina. A mandíbula saliente inibia um traço que lembrava lábios, cercado por dentes disformes. Enormes cílios tocavam a bochecha ressequida, escondendo um dos olhos. O outro, parecia compensar a falta daquele. Saltado, quase nas órbitas do meio da testa. Um rosto que despertava horror e susto. Ao ver aquele homem, cujas mãos eram um pedaço que mal lembravam o todo que segura copos, chaves ou levanta o polegar, uma criança sentada no colo da mãe escondeu o rosto em seus ombros. Inevitável o constrangimento.

Inevitável a compaixão. Ele olhou para trás como quem queria evitar o susto do infante ou a angústia de mais uma vez ver revelada no rosto das pessoas sua feiura inconteste. Encontrou meus olhos sonolentos, que há poucos instantes buscava o outro lado do mundo na janela do ônibus. Sorri para ele, como quem pede desculpas em disfarçar meu espanto. Mas acho que ele entendeu que meu olhar dizia que nem sempre as coisas acontecem como planejamos, nossos pais, o Governo, Santo Agostinho, os anjos. Eu mesma, se pudesse ter planejado melhor, teria nascido com outra cara.


Acho que é assim com a maioria dos que não confundem o brilho ofuscante do anel com a utilidade dos dedos. A beleza só serve quando vem agregada à ignorância do seu impacto. Se o belo sabe que é belo, torna-se enfadonho, óbvio. Como doce que passa do ponto. Arripuna os olhos.

Falando em ignorantes, dia desses, no aniversário da minha amiga Anna, conheci uma mulher absolutamente linda tanto quanto é indiferente à sua beleza. E não por que queira, é porque ela não sabe - ou ao menos não nutre o egotismo ou qualquer coisa que possa descambar para o velho e bom ditado de "cagar na pia". Tem coisas mais importantes para fazer na vida além de cultuar o espelho. E como é bom olhar para o belo inocente. Para o belo que nos presenteia com a simplicidade, com a poesia revelada num sorriso tímido, quase de discórdia, quase que pedindo desculpas por ser belo e desconhecer isso. "Help" é assim: bela por esquecimento.

Não sei como encaixar nesse texto o fato de que meu cabelo cacheado cresce desordenadamente. Saio da fase poodle e entro na fase leoa dia-a-dia. Ele não voa, balança em bloco. O brilho do negro se esconde nas curvas dos cachos. Molhado é pouco, seco é uma alegoria. Definitivamente, está difícil lidar com o novelo de gato que ele se transformou. Para quem tem cabelo crespo e rebelde, no melhor português: pixaim!, duas palavras resumem meu momento: paciência e resignação. É o preço de ser eu mesma: um intermédio entre a compreensão do feio e do belo, principalmente quando a moldura é o meu cabelo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sobre a poesia do TS Eliot que o Pablo me enviou e outros temas


Com o post anterior descobri que Moacy, Pablo (além de mim) e outros mais tímidos que não quiseram se pronunciar temos desencontros entre nossos nomes e os nomes que os outros nos dão. O Pablo me confessou que é no "Capistrano" onde mora o espanto e o engano de algumas pessoas. Moacy é no seu "y" também. Enfim, talvez os erros estejam aí para nos lembrarmos de quem somos. Melhor seria se fôssemos todos gatos e tivéssemos três nomes (o poema abaixo explica-se bem melhor que esse enunciado fajuto).

Pablo, obrigada pelo poema alheio. Obrigada pela visita também. Mi casa es su casa!



O Nome dos Gatos


Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,
E não um jogo que entretenha os indolentes;
Podes julgar-me louco como um chapeleiro,
Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,
Como Pedro, Agusto, Belarmino ou Tomás,
Como Vítor ou Jonas, Alonso ou Clemente
- Enfim, nomes discretos e bastante usuais.

Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,
Uns para damas, outros para cavalheiros,
Como Platão, Deméter, Ésquilo, Menadro,
Mas são todos discretos e assaz corriqueiros.

Mas a um gato cabe dar um nome especial,
Um que lhe seja próprio e menos correntio:
Se não, como manter a calda em vertical,
Distender os bigodes e afagar o brio?
Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,
Como Quaxo, Munkustrap, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellyjorum...
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,
Este de que ninguém jamais cogitaria,
O nome que nenhuma ciência exata atesta
- SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.

Se um gato surpreenderes com um ar meditabundo,
Saibas a origem do deleite que o consome:
Sua mente entrega-se ao êxtase profundo
De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:
Seu inefável afável
Inefanefável
Abismal, inviolável e singelo Nome.


Tradução do Ivan Junqueira.
Retirado de: O Livro do velho gambá sobre gatos travessos.
ps : o “inefanefável” é assim mesmo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Identidade interditada

Meu nome se escreve com "y". Tem gente que esmaga a letrinha e tranforma a consoante na vogal "i". (Aliás, Y é consoante ou vogal estrangeira?) Fico sem saber se é distração, esquecimento ou, simplesmente, se sou eu mesma a quem o outro queria falar. Sem o Y sou estrangeira do meu nome.
- Sheila está?
- Desculpe, foi engano.

Se me chamasse Maria, Dulce, Ana, Flor, talvez estreitasse as margens da troca de letras.
Mas tem dias que não me importo muito com isso. Repouso a contrariedade num suspiro profundo. Abro a garrafa e tomo mais um cafezinho. Circulo o olhar por entre as órbitas do pensamento. Olho a paisagem. A janela ergue meu olhar para fora de mim. E é fora de mim onde mais decifro pedaços. Em poucos segundos refaço o caminho das letras, costuro a boca com reticências, me encontro no engano do outro, sem ressentimentos.

Talvez só eu mesma tenha que respirar meu nome a plenos pulmões e com todas as letras que lhe cabem. Ninguém mais é obrigado a isso. Talvez.

Mas, algumas coisas interditam essa afirmação: é com e nos outros que eu consigo completar minha autoria; sozinha me basto mas não sou suficiente. Preciso do meu Y, mas também necessito do erro dos outros para fazer funcionar as letras da minha humanidade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O clichê ambulante

Era para ser um almoço qualquer aquele. A idéia central era nos poupar da cozinha num sábado ensolarado e primaveril. Quase em linha reta, seguimos para um shopping que, em certo momento, se bifurca com uma universidade. Ou seria o contrário? Bom, a conclusão dessa sentença pouco importa. Verdade é que a grande praça de alimentação, no momento, está murcha e oferece apenas duas opções de restaurante. E não é preciso sair da garrafa ou colocar para funcionar uma pequena parte do cérebro para perceber que germinavam duas grandes filas. Resguardando as sexagenárias pernas de minha mãe, sugeri que ficasse ali sentadinha em alguma mesa e eu cumpriria a via crucis por nós duas.

Era para ser uma fila qualquer aquela. Filas são chatas. Não há nenhum charme ou reflexão que mereça a estada em uma fila. Mas ali, sob a única condição de esperar minuto a minuto – e foram em torno de 30 - não pude deixar de observar o burburinho. Os matizes daquela massa de gente ora amorfa ora indulgente com a espera. Os blá blá blá intermináveis e circulares sobre o mesmo tema. Um deles, infelizmente próximo demais a mim, me impedia de dar-lhe o desprezo do meu testemunho. Uma moça bonita dentro dos padrãos clichês de uma barbie girl alardeava com uma naturalidade de candidata a miss – a uma platéia muito mais invejosa que atenta - qual o shampoo, os cremes e a maquiagem que ela usava para se tornar o ser perfeitamente impecável que ela acreditava ser. Tudo tão desproporcional e afetado à simplicidade que ela tentava imprimir no discurso, que mais parecia um paquiderme patinando por sobre uma pista de gelo. E, a qualquer momento, alguém poderia desvendar que o que ela mais queria convencer é de que ela era feliz.
E tudo nela: sua beleza, seu palavrório ensaiado, a tez translúcida de creme importado, as horas a fio no “dermo” era falso, forçado. Bom, sem mais firulas adjetivas, ela era patética. E, ao invés de sorrir ou de me divertir com aquela cena esdrúxula, senti pena. (No dicionário, patético quer dizer "que comove alma, despertando um sentimento de piedade ou tristeza"). Não é nada bonito assistir a alguém patinando na maionese da auto-referência, implorando para ser amado.

Na boa, sem grandes reflexões psicanalíticas, sempre que ouvires uma mulher alardeando sua própria beleza, como algo irresistivelmente natural e ao alcance de todas, pode apostar que, na verdade ela queria mesmo era fazer sucesso vendendo livros de auto-ajuda com fórmulas mágicas de como agarrar um homem. Ou para sua glória e sucesso: agarrar vários homens sem regra alguma sobre intervalo e respeito aos sentimentos. Pode não parecer, mas uma coisa tem tudo a ver com a outra. E mulheres que pôem sua "beleza" a serviço de agarrar - e de manter - homem não merecem muito de nosotras, a não ser pena ou desprezo.

E como se não bastasse ser obrigada a assistir aquele teatrinho de ventríloquos de comercial de cosméticos, ainda tive a experiência de observar três jovens senhoras furarem a fila no velho padrão burguês-sai-da-frente-que-chegou-a-minha-vez de ser. Quem não entendeu nada foi a moça do restaurante, quando sugeri que ela colocasse como acompanhamento um pouco de óleo de peroba.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

antes do abismo dos dias

Sinto-me entre vírgulas.
As noites estão mais curtas, é fato. Porém, os dias ficaram mais longos. Mas isso não é nenhuma reclamação óbvia. Não quero fazer reclamações óbvias. O óbvio não me distrái. No máximo dá preguiça.

Enquanto isso outras coisas orbitam entre minhas vírgulas:

ardência nos olhos
fome na metade do dia
sonhos no meio da noite
garganta seca, rinite, alergia
chulé de gato
pão caseiro
o choro por um fio
o risco de um arame no pé
nós em pingos d'água
mãos nômadas passeando pelo corpo no banho
esquecimentos
cor de batom
interrogações
a distância do ponto final

PS.: agora volto para o abismo, nem totalmente sã, nem salva.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Blog de Ouro - Indicação





Gente, o Bicho Esquisito foi indicado por Nivaldete Ferreira em seu Lápis Virtual para fazer parte do selo Blog de Ouro. Fiquei feliz, surpresa e muito grata, claro! Pela surpresa, dou-me ao luxo de dizer que Nivaldete é uma mulher com alma de estrela e uma romancista que faz a literatura valer a pena. Mais uma vez, deixo aqui meus agradecimentos, querida.
As regras dizem que temos de indicar mais quatro blogs para o Selo.



Pois vão os meus:


Potiguarando, do José Correia Torres Neto, porque ele é único

Balaio Porreta, do Moacy Cirne, pela generosidade que me faz crescer

Cidade dos Reis, do Mário Ivo, pelo inconfudível charme

Os Poetas Elétricos, do Carito, pela poesia que ilumina meus dias


Só mais uma coisa, preciso publicar as regrinhas também:
1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs entre os de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.