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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Particularidades

Para Moacy, Carito, Tácito, Nivaldete, Marcinha e Nonato.

No fim do dia sobram-me alguns suspiros. As migalhas das buzinas, os gritos das máquinas e os ruídos da pequena revolução cotidiana ficam para trás. Vão para um canto qualquer de página.

No fim do dia transpiro pensamentos e absorvo lembranças. Deixo que Borges me conte as ilíadas que eu não estava lá e Akhmátova me ensine a vibrar as cortinas vermelhas do amor que ela desaprendeu. E assim, o súbito descontentamento é substituído pela sensação de que a derrota do dia grava dignidade nos atos, que só os dias diluídos nos anos serão capazes de revelar.

O tempo é bom para desaprender; abrir ciclos; redescobrir substâncias; despertar o arrepio da fala: sussurro. O tempo é bom para modificar o olhar. Quando a gente consegue desabotoar a noite, com todas aquelas estrelas, que não passam de botões na enorme lona parda que esconde a aurora.

Essa noite eu sonhei com uma mulher que queimava na fogueira e eu a consegui salvar. Sobrevivemos. Ela nunca saberá mas, foi indo em sua direção que fui ao encontro de mim mesma. Era tempo de recolher. As amarguras; as discrepâncias; o ranço da raiva e a vacina anti-rábica ficaram no meio do caminho.

Bonita é a vida. Talvez porque não só vida, nela também habita a morte. Bonita e honesta. Nada escapa, nada está imune à irrepreensível pureza da morte. Essa verdade que nos sonda e que nos expia da culpa que vai desbotando a medida em que nos revestimos da poeira, desse incerto deserto que é o futuro.

Sim, e honestos também são os bigodes do meu gato. Fazem-me cócegas ao amanhecer. Para no instante seguinte, trocarem-me pelo amor que dorme ao lado, num triscar de dedos por debaixo do lençol. (Mesmo que este amor durma do outro lado da cidade). Roça a língua crespa na superfície dos meus sonhos. Desdenha minha vigília e a instância dos meus desejos. Imploro carinho. Ele goza da independência dos inocentes.

Sim, é boa a vida. Boa e inocente, quando desaprendemos todos os dias.

A Mulher de Lot

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar


as rubras torres de tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde deste filhos ao homem bem-amado".


Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converteu-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão se enraizaram.


Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.



24 de fevereiro de 1924
Anna Akhmátova (Poesia 1912 - 1964).

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Coisas para se fazer com o sono

Ser fiel à mudez das pálpebras

Desenhar sonhos com a ponta do ressono nas paredes da garganta

Ler os bilhetes que o dia deixou atrás da porta do inconsciente

Estimular a liberdade dos dedos pelas brechas das meias furadas

E estimular a amizade entre a raiz dos cabelos e o travesseiro

Rodopiar os olhos (fechados) pelo salão da preguiça

Contar beija-flores ao invés de carneirinhos

Esquecer tudo

E depois fotografar o que escorregou pela memória

Descortinar a noite com os ponteiros

Para deixar a luz entrar



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Quais são seus medos?

os meus:

de dor de dente

de perder o dente da frente

de me perder no quarto escuro da vaidade

e de pentear os cabelos na mesmice do espelho


de não mais ouvir os bem-te-vis pela manhã e

descobrir o que é azia.

do 16o. andar da carruagem

De esquecer que a fome não está na falta do que comer, está no que se come

De, de repente, ter medo de ficar sozinha

Da mentira disfarçada de sobrevivência

De cometer injustiças.


De mandar flores para o inimigo e ser mal-interpretada.

De picada de agulha nas costas da mão

De mordida de morcego

De falar rápido demais e atropelar a língua

De que meus livros saiam voando pela janela

E deixem o salão abarrotado de vazios

Que Os Trapalhões ressucitem - e cantem "A véia debaixo da cama"


De porta de guarda-roupa entreaberta

De tropeçar nas certezas e não mais dançar com as dúvidas.


De ficar imóvel no segundo, esperando o próximo minuto.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Maria Tereza Horta tem razão...

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca

b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer

c) Por que é que as borboletas de tarja vermelha têm devoção por túmulos

d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação

e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos

f) Como pegar na voz de um peixe

g) Qual o lado da noite que emudece primeiro

etc

etc

etc

Desaprender oito horas por dia ensina princípios

(Manoel de Barros, em O livro das Ignorãnças)


... Um mundo que é capaz de ter poetas, de gente que faz da realidade cotidiana matéria-prima para poesia, então esse mundo tem salvação.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Teve uma época que todos os problemas do mundo cessavam



Não é quando nos abraçamos como se fizesse séculos, depois que eu chego da viagem do dia amanhecido para o dia que se deita por detrás do sol.

Tampouco quando - mais uma vez e pra variar - é arroz com cenoura e fritada de abobrinha no jantar.

Nem é quando eu me irrito com as perguntas bobas do tipo "já vai?", quando eu já disse "tchau" e estou com a chave cutucando o ouvido da porta.

Descartada a hipótese de ser quando ela parece um trem descarrilhado na madrugada, roncando os motores por sobre as pedras e acordando a todos que moravam lá no Surrão, num tempo que já passou, mas que sempre volta na memória dormida dos sonhos dela.

Nem poderia ser quando ela me manda colocar batom e me olha como se eu fosse um soldado de Esparta.

Ou então quando fazemos sanduíche de abraço com o Fellini e tentamos fazer com que ele entenda que carinho e afeto pelos bichos é algo genético.

Não deve ser por nada disso que eu a amo tanto.


Deve ser só porque ela é minha mãe. E porque teve uma época que todos os problemas do mundo cessavam quando ela fazia massagem na minha barriga.

E é nesse amor que eu me reivento pro mundo: coloco batom, sombra, depois saímos fazendo fotos no celular; escuto Cassandra Wilson e ela dança como se estivesse entendendo tudo; mando e-mail e ela acha incrível e pede para eu mandar um pro primo que mora em Portugal; faço bolo de aniversário diet; seguro a sua mão por cinco segundos para relembrar que carinho, afeto e laços podem se fazer com dedos; fico triste com seu eterno olhar triste a ponto de minha garganta fazer nó de marinheiro e meus olhos imitarem o oceano por pura disposição de ficar no mesmo estado de ânimo dela, sem que ela sequer cogite o que está se passando na minha cabeça, enquanto assistimos o último capítulo da novela, no mesmo dia em que ela faz 66 anos.

PS.: mim, "songamongamordaweb" não consegui "virar" a foto... vai assim mesmo então.

Dia de presente

Lápis Virtual desenhou para mim!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Minha bolsa quer pedir aposentadoria

Minha bolsa de couro amanheceu meio amarela e bocejando muito hoje. Abriu sua enorme boca, mesmo quando eu insistia, em vão, para ela manter a mesma discrição dos seus bolsos. Os riscos de lápis, as manchas de chuva, os vincos desenhados pelos meus ombros, tudo, pareciam inscrever um poema se não de despedida, de aposentadoria. Entrei em pânico.

Insisto com essa bolsa porque nela guardo lembranças de trabalhos antigos, papéis, rabiscos de desenhos de criança, pingos de chuvas que escaparam das asas do guarda-chuva, beijos na boca dados nas ruas, um baile de máscaras em Petrópolis, confissões regadas a cerveja e respingadas por farinha de paçoca, elogios de bolsa bonita, receita de pão caseiro, poemas dos outros, um convite inesperado para ser feliz, e tantas outras sortes de coisas com cara de pote de ouro no fim de arco-íris.

Aí, eu olhei bem para ela, disfarcei meu fastio matinal pelas coisinhas cotidianas e suspirei profundamente. Daí fechei o zíper como se passasse batom em seus lábios, aconcheguei-a debaixo do braço, ensaiei um carinho espremido e pedi um pouco mais de paciência.

É que embora ela esteja enamorada pelo ócio, ela precisa entender que não se acaba assim uma amizade de tanto tempo. E que os amigos só são amigos mesmo quando conseguem ver do lado de dentro dos nossos remendos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Um dos meus talentos


Tenho ojeriza a baratas.

Especialmente as brancas. Imaturas. Descascadas. Fadadas a moléstias, antes mesmo de nascer. Desconheço qualquer ser humano que se contente com uma barata rondando seus corredores por muito tempo. Cedo ou tarde elas são exorcismadas das nossas latrinas que, aliás, são muito mais enlameadas pelas patas de um barata que propriamente pelo material a que elas se destinam recepcionar.

A sina de uma barata é sempre trágica: a escória inevitável dos esgotos; o esguicho certeiro de um inseticida ou no máximo da indulgência que uma barata é capaz de ter, receber uma boa chinelada em suas carnes moles. Tenho repulsa de baratas. Mas nunca tive medo. Muito pelo contrário, não me falta talento para aniquilar baratas que tentam entrar na minha casa.

É setembro. Não deveria começar falando em baratas. Mas é que a moça talentosa que escreve em
Parece que foi assim... foi lá e arrasou com um texto que falava de setembro, de tristeza, e também de baratas. Não resisti em acompanhá-la no mote, já que no estilo nem tento porque ela é única.

Está dado o recado. É setembro e as baratas continuarão bem distantes da minha casa.