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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Duas estações


Criança brincando na rua. Pássaro fazendo ultrapassagem de fio de alta-tensão. Um formiga desgarrada da turma e, sei lá, talvez até um pé de vento hoje, me farão chorar. Não é só tristeza. É ensaio de melancolia. Treino passos para não despencar do céu. O meio-fio nunca me exigiu equilíbrio. Pelo contrário, quando era pequena adorava quando trocava as pernas, os passos tropeçavam na ânsia de alcançar mais alguns metros nos caminhos de paralelepípedo, antes de ir ao chão. Esse inexorável companheiro de caminhada.
Minhas pálpebras fazem um balé para dentro. Se encontram com as memórias, com as alegrias da infância e os jarros vazios das roseiras que eu ainda não plantei. E fico assim meio sem jeito. Quando me dou conta, as vidraças do olhar estão embaçadas pela teimosia das lágrimas.

Hoje, definitivamente, acordei e vi que era um dia para chorar.

Insisto, treino o olhar, puxo a atenção para uma outra coisa que não seja por dentro, em vão. O porão do silêncio fica acolhedor. Prescindo de explicações. Tampouco as tenho para dar. Hoje não me sinto generosa de palavras. As veias estão fininhas de tanto se espremer, para deixar a alma passar.

É outono nos meus cabelos.

Meu endereço único endereço que posso ter hoje: a distração. Se alguém chegar junto e quiser me distrair já está meio caminho andado para me seduzir. Se não tiver medo dessa tristeza toda que nunca experimentou cocaína poderá até chorar junto. Basta estar desatento e franco, como as crianças.

Ardo. Não finjo. Choro. Não disfarço. Brinco com o meu cansaço como quem se entrega às férias do final de ano. Mas nem é verão ainda.
É outono. E as árvores choram as folhas que fugiram para o chão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009