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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Bicho esquisito fala

o Bicho não está solto. Está preso em dias brancos. Acorrentado à mesa da escrivanhinha, uiva para a poesia que dorme na estante.

Bicho não sabe esconder coisas de si, nem dos outros. O Bicho chora quando cansado. Reclama do calor. Odeia supermercado. Vai ao veterinário. Perde a fome. Dorme cedo para dar mais tempo aos pesadelos recorrentes. Sonha com lobos famintos e uma das três irmães górgones que transforma tudo o que vê em merda.

Sorry, Bicho não aprendeu a ser luxo.

Bicho sabe quando é guerra porque fareja quem quer lhe tirar a couraça, vestes dadas pelo tempo e pela selva. Honra sem orgulho. Gente de alma bem pequena que tenta legitimar a falta de humanidade na sua própria fraqueza de caráter. Bicho tem caráter e não tem medo de correr riscos e de ficar nu e frágil e de segurar o peso dos olhos de quem só vê depois que aniquila o olhar do outro. Vaidade.

Bicho tem medo de gente. Confissão. Bicho não aprendeu a mentir. Toda vez que mente, cabelo arrepia, os dentes rangem, bate angústia, o olho denuncia. Engasga. Pede desculpas. Falar a verdade não é prêmio ou deferência é antítodo contra a hipocrisia.

Bicho não é camaleão. Bicho é esquisito.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A cor do dia

melhor construir gestos que cultivar palavras vazias.

minha avó parava o vento com os quadris e fazia ele dar meia-volta. e eu pensava que era só o balanço da rede e cantiga de ninar. deixa que não, era sabedoria.

quando o vento voltava, geralmente trazia recado do jasmineiro do vizinho: anunciando o cair da tarde, a despedida dos passarinhos e a madorna do córrego que, ao meio-dia, tinha mania de fotografar as nuvens e de exibi-las no chão do leito. e eu pensava que era só luz. deixa que não, era magia.

todas essas coisas só porque hoje eu vi um beija-flor beijando uma plantinha lilás, trepadeira e bailarina, tendo como palco um muro todo despedaçado no meio da rua, ali perto da Junta Comercial. e eu pensando que o dia seria de comezinho a chato. deixa que não, o dia me presenteou com um passarinho beijando a flor que eu ganhei da rua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vagamundo

Para experimentar o alívio da dor lancinante na fronte e por trás da nuca são necessários a aspirina e o descanso. Assim como entender que para que os acordes despertem os mais doces sentimentos ouvidos adentro, seria necessário antes o exercício das cordas paradas, o piano fechado, os olhos miúdos pela paz do silêncio. Por isso, até hoje, silencio quando um bem-te-vi gorjeia pedindo passagem para um bom dia de verão.

Mesmo que esse dia seja mais um entre tantos outros nessa travessia pelo deserto.

(E os teus olhos que me falam de paraíso apenas incidem o inferno dos meus, deitados à espera do pesadelo. Esse emblema da garganta seca e da pele murcha pelo cansaço da chuva que nunca chega, e que nunca mancha essa terra de índios dizimados)

Para que a curiosidade se descortine em descoberta, a dúvida chegou primeiro. Antes das nuvens desenharem respostas no céu, o vasto e ininterrupto azul se recusa a dar explicações. A ciência não salva o homem da imagem no espelho.

(A imensidão traz coragem de seguir adiante ou revela o abandono).


Só é um lugar dentro da alma.

Moram nestes versos decaídos certas estrofes que me pertencem e que jamais me libertarão dessa coisa que alguns dão nomes.

(Angústia. Solidão. Desânimo. Melancolia. Cansaço. Pedaços. Sede. Abismo)

Sou a ausência de nomes. Me valho da leitura dessa terra seca para redescobrir o pesadelo dos índios. Durmo o sono despedaçado dos abismos da noite. Tenho curiosidade pelo que já passou. Sou artífice de uma ciência que não tem espelho. (Só dúvidas). Não sou eu mesma nem os olhos do outro.

Nômade na minha própria casa. Esse deserto que me atravessa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Confissões

Aos 19 anos qualquer embarcação miúda é segura. Minha avó, nos mais de 70, já não aceitava qualquer coisa. Desejara um navio, de preferência com muita gente no cais a se despedir dela na hora da partida. E assim se foi. Ontem foi o dia dos mortos. Dentro de mim jazem alguns deles. Antes eram cadáveres. Mas já os icei à condição de almas e agora aprendo com eles sobre a inexorável caminhada. Talvez ainda me restem algumas braçadas nesse mar ora silente ora ruidoso. Que tem me transformado num corsário avesso à patifaria humana.

Nada como um dia atrás do outro

Era chegada a hora.
Antes, passara uns dias mantendo o diário atualizado. Nau em calmaria.
Agora a tempestade chegou junto com o calor. E o silêncio toma sua forma mais sublime e chama a boca para uma dança que não tem música para acabar.
Falando em hora, sem tempo para colecionar clichês alheios e misericórdias vazias nos semáforos.

No mesmo dia um gato morto. Os olhos, pelo estarrecimento de olhar direto na cara da morte, enegreceram, guardando toda a sabedoria do mundo. Um casal deitado na calçada, interditando o meio-fio. Mais que o gato, é fato, que morrera esticado bem no meio da calçada. Eles não. Eram um pouco calçada e um pouco asfalto. Ambos de camisa preta numa infeliz coincidência (ou seria mimetismo de amor?). A cidade não entende aquele sono. Sorry, os burgueses ocupados demais com seus cartões de crédito. Aquela cena me enterneceu. Tenho inclinações para conjunções urbanas. O que está ao meu redor também sou eu. Não sei somente assistir. Queria acorda-los ou, quem sabe, experimentar do mesmo sono que torna absurdos e inconvenientes a explosão de luz solar, o barulho dos motores, o bailado monotemático dos semáforos, um ou outro pensamento que escapa goela afora dos que passam. Gentilmente, ele emprestava a mão esquerda como travesseiro para a cabeça embriagada de sol da mulher. Percebam, não era a extensão do braço que dava apoio à quietude mortal da moça. Era a palma da mão que fazia fronteira com os ladrilhos e, assim, separava seu rosto já surrado das marcas da rua. Aquilo caíra-me como um canto, como quando ouço The Canals of our City, foi como abrir o mapa do mundo e achar o caminho de volta para casa. (Decerto, que deve existir um pouco disso nas mãos de outras pessoas?). Sorry, não estou aqui para trazer respostas. Tenho inclinações para as hesitações das mais diversas espécies.

Mas era a rua. Nove da manhã. E era chegada a hora. E sabia exatamente por onde começar. Mas isso não gera frutos literários. Isso é tão prosaico quanto acordar cedo, escovar dentes, enfiar pão com manteiga na boca da xícara de café e amolecer alguns segundos antes para deglutir o gosto de sempre das manhãs.

A vida prosaica é mesmo um esquecimento. O que não dá para perdoar, melhor esquecer, não é mesmo?