Google+ Followers

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Biscoito da Sorte

Se não és capaz de encontrar Deus nas montanhas, no mar, no azul do céu, no cheiro do jasmim, no sorriso dos infantes ou no gorjeio do bem-te-vi, olhe para dentro de ti. E torça para enxergar o bem. Não aquele que podes receber, e sim aquele que podes dar.

Se você tem em casa “Teoria das Comunicações de Massa”, de Mauro Wolf, e não é seu: Devolva-o! Que coisa feia!

Chame duas amigas para tomar chá, comer bolo e pão caseiros. Se uma delas (ou as duas) chorar, chore junto. Quando rirem, dê gargalhadas, mesmo que a piada seja sua. Não se importe com calorias. Converse sobre a vida. Reclame só um pouquinho. Ouça. Agradeça. Coma mais bolo e mais pão. Amigas como elas acalmam. Revelam seu lado mais sereno.

Convide para sua casa uma amiga que tenha filhos. E, além de bolo (formigueiro feito pela “avó”), tem que ter refrigerante preto e sorvete para acompanhar. E, quando a caçula falar mil e quatrocentas vezes a mesma coisa com a mãe, sinta invejinha branca daquela paciência toda e sonhe em um dia ser igual.

Compre um sapato novo. Uma bolsa nova. E um porta-retrato para colocar a foto de vocês dois. Se tiver paciência para esperar as promoções de janeiro, melhor ainda.

Se tiver um sonho estranho com um cara rastafari que tinha sete filhos, estava apaixonado por você e, quando beijava, tinha língua de lagarto, quando acordar, olhe pro lado, respire aliviada ao constatar que era só um sonho.

Para ser inteligente não é necessário ser artista, criativo, cientifico ou rico. É primordialmente necessário ser probo consigo mesmo, no equilíbrio de ser também com os outros: colocar-se em outro lugar que não seu próprio umbigo. Se não sentir, ao menos enxergar a dor e as falhas alheias.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS TUAS LÁGRIMAS"


É de salgado o som que desce dos teus olhos
e bem baixinho o gosto vindo do teu choro.
Teus chororôres te visitam, se cansada.
E se tocada por quem amas, lacrimejas.

Choras por tudo: por um verso e por um cão.
Choras no não — ponto final do que era amor.
E quando amor, choras do choro de quem amas
— choro de osmose, dizes tu, e eu me calo.

Me apraz teu choro: muito íntimo e discreto
(meu predileto e, cá pra nós, o meu igual).
Choras e sabes que o teu choro é de quem vive.

Só não convide a mim a um duo lacrimoso,
para a mistura não tornar doce o que é sal
ou, menos mal, em vez de dor, sentir-se gozo.


Antoniel Campos


Esse poema foi escrito em 22 de dezembro de 2005 pelo poeta Antoniel Campos. Amanhã ele fará aniversário, portanto. Ler um poema é sempre revelador. Para mim é como se fora a primeira vez. Antoniel, muito grata pela sua inspiração. Sinta-se abraçado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Como nasce um micro-conto

Pode o vento bater mais forte e abalar as certezas. E a chuva molhar o medo, causando frio na alma. Lâmina cortando a ponta de verdades gastas.

Pode a casa ficar escura e fechar os olhos para as estrelas que o jardim esculpe na copa das árvores.

Pode até o livro cessar a voz que canta nos ouvidos das teclas. Os dedos estão duros, vazios de ideias.

Aí, transformo a falta na queixa, dela extraio uma simples frase e entrego para meu amor, que aberto e generoso me responde:

"Caracas, isso é um micro-conto"

Ei-lo:

Tudo o que tento ganha condição inútil o suficiente para se tornar página em branco...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cabeça no travesseiro

É profundamente lamentável que esteja se arraigando uma cultura, na vida das pessoas, de que elas só devem se envergonhar de alguma coisa que denote seu caráter egoísta, corrrupto, desrespeitoso, criminoso ou as quatro situações juntas, caso sejam incontestavelmente flagradas ou posteriormente descobertas. Foi-se o tempo em que a cabeça no travesseiro deflagrava algum tipo de peso na consciência. A velha máxima salve-se quem puder tem se transformado no safe-se quem puder. E tanto mais esperto e competente é aquele que conseguir ludibriar, extorquir e roubar o direito à dignidade do outro, conseguindo manter-se no anonimato dos olhares alheios e na redoma da cumplicidade dos seus comparsas.

Acertou quem pensa que me refiro aos últimos acontecimentos, alardeados pelos noticiários de mais um escândalo político, envolvendo suborno de dinheiro. Dessa vez nos bolsos dos paletós, nas meias e ainda com direito a oração de agradecimento. Vejam só, eu suplico aos que têm fé e creem em Deus: deixem Ele em paz! Deus não tem nada a ver com isso.

Choque, espanto, indignação, desânimo são alguns dos primeiros sintomas facilmente identificados na população que literalmente assiste a mais um entre muitos escândalos envolvendo o PT e o PSDB (vide mensalões e mensalinhos), só lembrando de dois, sendo agora a vez dos protagonistas Democratas, com os coadjuvantes do PMDB. Pois bem, mais do que os sintomas acima citados, a indiferença e o descrédito com a política são um cancro ainda mais nefasto para a saúde da democracia.
Diante dos fatos incontestes de corrupção, não dá para simplesmente fazermos muxoxos e meneios de cabeça como se nada pudesse ser feito, e acreditar que bom mesmo é tornar-se adepto do umbiguismo e o resto que se dane. Precisamos entender que essa premissa só funciona bem para os mais degradados ética e moralmente, ou facilmente cooptados para favorecimentos individuais.


Ao invés da resignação aos fatos ou do inconformismo que não passa da sala de estar, que tal começar a pensar sobre em quem votar? Por que não exigir, por exemplo, que seja aprovado o projeto que proíbe a candidatura de pessoas que tenham ficha suja na Justiça? Há muitas coisas que podem ser feitas. A democracia pede participação.


Esse artigo foi publicado no Novo Jornal na sexta-feira, 4 de dezembro. E, num súbito exibicionismo que, garanto, será breve publico-o na minha esquisitice.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Coisas que eu teria feito I


Teria me recostado no sofá de veludo vinho por mais vezes e com mais vontade. E deixaria de lado o impulso de levantar e bater a porta sem olhar para trás. Ou quem sabe, ali sentada, somente tivesse olhado para o lado. O lado onde estava seu corpo, recostado e quente, mirando o quadro na parede. Impassível e livre como um gato. E deixado que esse movimento puxasse seu olhar para o meu. E depois, depois saberíamos.


Teria dito mais vezes e mais alto e mais claro quanto fosse preciso, sim eu te amo! Nós nos amamos desde o dia em que eu nasci! E daí se você vai morrer? Enquanto isso não acontecer, deixe que eu pinte as suas unhas! Penteie seus cabelos pretos retintos de tinta, escolha o mais belo anel e limpe seus brincos com aquela substância que você chama de "caó" e que eu nunca mais encontrei igual para lustrar as minhas alegrias promovidas pelo desejo de deixar tudo limpo. De esperar chegar de tardinha para você me fazer cachos nos cabelos e depois ouvir suas histórias de trancoso, e de aprender com seu modo particular e fiel de ver o mundo, vó.

Teria comprado aquele sapato preto, estilo boneca, salto médio. Mas o cara da loja queria me dar aula de economia e não o desconto que amealhei. Fui embora, pisando tênis.

Teria insistido mais no risco e menos no traço.

E teria tido mais tempo para desenhar com o vento.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O post dos abraços


Quando eu era pequena era mais fácil. Abraçava até perna de outra mãe. Explico: naquele tempo, minha mãe e meu pai eram bem grandes e, quando me desgarrava deles e voltava, abraçava a primeira perna de calça jeans que aparecia na frente, com preguiça de olhar para cima. Os vizinhos, amigos e até estranhos achavam engraçado ver aquela menininha de olhos grandes e cabelinhos cacheados abraçando com força sua perna. Quando eu olhava para cima para confirmar o engano, não pedia desculpas, convidava a sorrisos. E dava tudo certo. Era um tempo que em que estranhos aceitavam abraços.

Aí o tempo passou. A vida foi escasseando os cabelos ao vento e os joelhos foram cedendo o espaço dos arranhões para as nódoas das cicatrizes. Tenho acumulado recomeços. E tenho inclinações para não guardar mágoas por mais de duas horas. Tendência à seca de ressentimentos. Em compensação os olhos vivem mareados d'água. Não sei o que causa isso: talvez pancadas rápidas de lembranças.

Hoje eu me detive por 15 minutos para abraçar a primeira calça jeans que me apareceu pela frente na imaginação. Resultou nesse post, uma junção dos meus suspiros, dos vazios e lapsos de memória, dos tropeços nas palavras, da gargalhada no meio do almoço; na beijoca com poucos braços na despedida dentro do carro, há poucas horas e da imensa vontade de abraçar alguém que eu amo. Nunca quis abraçar o mundo. O propósito é abraçar um por um. *Sintam-se abraçados.
(*meus amores, meus poucos amigos, meu gato, e meia-dúzia de beija-flores, joaninhas e outra sorte de nove-horas que moram no meu jardim)