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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Julie London- Perfidia



(...)

JULIE LONDON - CRY ME A RIVER



Diana Krall que me perdoe mas, Cry Me a River é da Julie!
Eita coisa boa!

Blue Moon.Billie Holiday



Silêncio... Falar para quê? Vamos ouvir e viver!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Leitura do poema "No meio do caminho"



A Elis Galvão me mandou por e-mail esse vídeo. Achei tão lindo e tão universal que quero compartilhar aqui na minha esquisitice que anda silenciosa e serena.

Feliz Natal a todas as pessoas.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sedução em pequenos gestos


Subitamente ele se agachou e refez o nó e o laço do tênis dela, afrouxado pela longa caminhada daquela tarde. Não fora um gesto servil como o dos vendedores de sapato. Era mais um carinho, um cuidado com a moça que ele ainda sequer tivera coragem de tocar-lhe a mão. Embora a procura de seus olhos por alguma correspondência fosse solar de tão evidente.

Se tinha algum propósito de preencher a lacuna das dúvidas sobre o que ela sentia por ele naquele momento, seu intento foi certeiro. A sedução do pequeno gesto tornara-se o lume do pavio. Prendeu a respiração, abraçou-se forte aos cadernos que carregava junto às curvas simétricas dos seios e deixou-se ser tocada tão sutilmente pelo rapaz alto e magro, de sorriso limpo, olhos meio mortos e dedos longos de jogador de basquete. Ele não foi mais além de simplesmente pegar os lados do cadarço, cambalhotea-los por entre os dedos e aperta-los num laço simétrico e firme. Nada mais que isso e a moça imaginou-se nua, fragmentada em sensações de desejos, fomes, sedes, tremores, suores, beijos.

Conheciam-se desde a época em que o mais provável era meninos e meninas não se reconhecerem como seres afins. Agora, mais crescidos, a fase primaveril da idade abrira seus botões, deixando as rosas exalarem o perfume do desejo. O primeiro beijo não foi naquele dia. Mas ela já estava invadida por uma urgência de que cedo ou tarde seria inevitável que eles se beijassem. Dias depois aconteceu.

Desde então, aquela moça prefere as seduções esculpidas na sutileza. Quanto mais surpreendente, inevidente ou despreocupado melhor. Antes a promessa de mil luas que a promessa de muitos anos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O comentário que virou post



ode ao bigode que se desantena
imaginário de um armário que se encanta
música de caixa pequena

texto de asas que me espanta

com tantas fendas não finda
de pingos que tem fome

na luz que desvenda o ainda

do jeito que vem some.



PS.: quando a poesia (do Carito) invade esse lugar, ela entra pela porta da frente.
Carito, essa rosa é para você! obrigada por existir aqui e acolá.
obrigada pelo poema que paira suas asas sobre mim.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Dê-me asas!

Quoted from: http://kristianaparn.com/drawings.htm


Tem dias que é possível tocar em nossas asas. Noutros, elas permanecem emprestadas à discrição do silêncio. Hoje é uma segunda-feira e, como é de praxe, nasce sob a expectação dos dias mornos, cansados, brancos feito vela de sete dias. Um belo dia para se nascer sem asas. Não fossem as memórias e as pequenas variantes do cotidiano, esses presentes que se somam ao encantamento de estar vivo.

Teve um dia desses que nasceu sob o signo da brancura insípida. Todos em casa lutávamos contra a modorra da segunda-feira. Até que, subitamente, um passarinho - talvez um pardal ou uma lavadeira - invadiu nosso ninho particular, janela adentro. A princípio a invasão bucólica fora capaz de enternecer até mesmo as samambaias. Prendi a respiração exultante, afinal sempre fui afeita a visitas inesperadas de passarinhos. Vez em quando um beija-flor minúsculo exibe seu voo estático próximo ao jasmineiro das minhas paisagens íntimas e tenho vontade de me emanar em açúcar para que ele permaneça por mais tempo nessa empreitada. Tudo quase perfeito como num comercial de comedores de margarina, até que um dos meus gatos quis dar cabo à biografia daquele momento.

Ele acompanhava com os bigodes cada movimento do alado, dilatou as pupilas e - contrariando seu charme discreto e silencioso - pôs-se a miar e miar e miar, num desespero que nunca havia presenciado. Olhava-me absorto numa ideia fixa. Reivindicando suas asas! Cobrando-me (quiçá culpando-me) a infame inexistência delas. Entrelaçando seu direito de caçador ao direito do outro voar e invadir seu território.

Quis rir. Desisti. O momento era solene. Mas me confundia toda sobre a quem deveria ajudar. A qual das naturezas servir? Minhas próprias asas coçavam as costas, me incomodava o conforto dos pés rentes ao chão. E meus bigodes faziam dançar minhas convicções. Foi quando começou a chover dentro de casa pingos de luz que escapavam da janela e o passarinho se deixou inundar pelo mesmo caminho que o trouxe. Num instante éramos só a lembrança da cena e algumas penugens que cortavam a lucidez do vento.

Meu gatinho filtrou a fúria dos instintos num suspiro longo e preguiçoso. Compensou a súbita fome de asas em boas mastigadas de sua ração mais que disponível e, sublimando a memória de elefante dos gatos, dirigiu-se placidamente até o lugar mais aconchegante dos tantos lugares que lhe pertencem e dormiu.

E eu, bom voltei a viver aquele dia, simplesmente.
Mas, a casa estava diferente. Era como se tocasse, ao fundo, dentro de algum armário ou por entre as fendas de nossa imaginação, o toque suave de uma caixinha de música.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

17 de novembro


http://www.pcwatch.com/Wallpapers/Wallpaper_Info.aspx?id=2534


tem dias que o corpo amanhece vazio. ou, como diriam os esperançosos, como um copo pronto para receber algum líquido. é tão generosa a disposição dos copos. tem dias que isso é possível sim. mas há outros em que se acorda como um guarda-chuva fechado. pênsil por sobre as paredes. quase inútil a menos que chova. e há sempre alguém a espera de uma chuva, por mais passageira que seja. mas, às vezes, é melhor deixar o guarda-chuva onde está, pelo risco de chuva ácida. pessoas cuspindo palavras àsperas, com olhos que roubam nossa tranquilidade.

teve uma vez que um olhar desses quebrou o meu copo. o estardalhaço pode ser ouvido longe. saíram uma imensidão de grunhidos e gritos e palavras de dentro do corpo. sem muita alternativa, sai correndo daquele lugar. numa noite em que tinha esquecido o guarda-chuva em casa. deixei que os córregos do alfalto lavassem a minha raiva, angústia, tristeza, pedaços de mim. mas não costumo achar ruim chegar perto dos meus escombros. pior é sempre a bagunça feita pelos outros. encarar de frente um não atravessado, como bebida amarga. o silêncio do outro lado da cidade, depois de uma tentativa de retomar o interesse pelas coisas que se perderam nos dias e meses do calendário.

acho que hoje eu teria gostado de escrever um poema sobre a estranheza da vida. dessa minha absoluta predisposição para abrigar o imponderável e, num outro gesto irmão, lutar freneticamente contra o óbvio, o comezinho, o risco reto. tremo de medo da palavra vencida pelo gesto cansado. a minha alma é labiríntica. meu pessoal é poder me despir das conformidades e covardias que o tempo for capaz de esculpir. que venha o minotauro. e depois de chegar ao centro, quero voltar ao ponto de partida e erguer a taça. o copo. o corpo.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Beirut - Elephant Gun

Elogio à Culpa




Pessoas deveriam pedir desculpas em altos brados. Com o mesmo furor e empolgação de quando brigam, esbravejando e cuspindo razões. Mas, geralmente, pessoas pedem desculpas quase sussurrando. Discretas. Não sei ao certo se envergonhadas pela sanha de outrora ou se pela insegurança causada pela recusa do interlocutor, a quem se espera compreensão e tolerância.

Se não encontro caminhos retos para defender a fúria – muito embora acredite que seja matéria-prima de sobrevivência nesse mundo de órfãos – também não encontro conforto na timidez dos arrependidos. Se um casal briga alto, grita impropérios e acusações que atravessam as paredes dos apartamentos, nós, os vizinhos, ficamos presos no limbo dos ouvintes e, confesso que se sou obrigada a presenciar – mesmo que seja apenas com os ouvidos – uma briga, logo torço para que nela surja a reconciliação. Fantasio sobre como é que eles vão chegar a um acordo novamente. Quase os imagino desapertando o cinto que segura as verdades contidas nos dedos em riste, suspirando aliviados pela redescoberta da unidade.


Mas não são só os vizinhos que merecem atenção na atitude contida de fazerem as pazes no fechar das cortinas, depois da hora do jantar ou após o término da novela das nove. No palco da vida pública, por exemplo, políticos também deveriam se envergonhar em cadeia nacional ou promover carreatas e discursos em cima de palanques, tanto pelo que fizeram, quanto pelo que também não fizeram no seu ofício de tomar conta da coisa pública, do que é bem comum. Já pensou, como seria apoteótico? “Minhas senhoras e meus senhores, peço desculpas a todos porque roubei”. Ou, se a expressão não é muito condizente com os eufemismos tão particulares nos discursos políticos, seria aceitável algo do tipo: “Povo sofrido, trabalhador e honrado dessa minha terra querida, dentro da construção do processo democrático, da soberania nacional e da consolidação da justiça social, eu peço minhas sinceras escusas porque afanei. Usei de expedientes espúrios e desviei dinheiro público para engordar a minha já estufada e estrangeira conta bancária”. Isso sim é que seria um dos melhores pedidos de desculpa que ouviríamos nesses tempos insanos de descoberta dos velhos truques dos mágicos da administracão pública.


Mas a mim me parece que o arrependimento - que já foi matéria contida nas epopeias agora longínquas dos poetas - não é mais um ato de contrição; é apenas um elogio à culpa.



Esse texto foi publicado no Novo Jornal, no dia 12 de novembro. E, por sugestão do meu colega editor,de Cidades, Moura Neto, mudei o título ao publica-lo aqui.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

frase que não quer calar


hoje me senti como uma pipoca prestes a estourar em óleo quente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sonhos

Breguinha-chic na voz dessa moça (Laura López Castro). O sotaque é tão charmosinho que não resisti.
Eis ai uma musiquinha que gruda na mente feito suco de mangaba nos lábios para quebrar o jejum do brogsson.

"tenho sonhos. amanhã será um novo dia. e certamente eu vou ser feliz"... grande Peninha!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Olho de peixe

foto minha



Difícil é não tocar no tempo. Não sentir a tessitura que vem se construindo, ao longo dos dedos, da pele da mão, nos ombros, joelhos, costas, cabelo, ventre. Nem sempre seguindo linhas retas.

Tem dias que tudo é o tempo planando nas horas.

A primeira vez que olhei para o tempo que nunca muda, mas faz todo o resto mudar deve ter sido quando nasceu a consciência da primeira ferida. Com medo que o tempo curasse tudo muito rápido, voltava a cutucar, arrancar, desvendar a carne.

Teve aquela outra vez que amadureci nos olhos da minha genitora. Muito embora ela negasse minha idade com zelos e mimos dos meus tempos de ciranda, dava para ver o reflexo do crepúsculo que meus cachos faziam em seu olhar. Um brilho distante de quem observa o mar ou um grande carvalho. Deve ser isso, minha mãe está ficando com um olhar de carvalho. De quem observa o incomensurável.

Os gatos, os cachorros e os peixes têm um olhar parecido. Muito embora isso contrarie sua genealogia e a crença dos vazios de olhar para dentro.

Difícil é não olhar para dentro.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

The Elephant Man Trailer - Recomendo

Um dos filmes mais incríveis que vi até hoje na vida. Mostra a face da crueldade humana de uma maneira que angustia e envergonha. Porém o mais incrível é descobrir que os aleijões não residem na pele e sim na alma. O personagem é incrivelmente belo, apesar da anomalia genética.
Direção de David Lynch. Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft...
Recomendo!


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Apontamentos sobre um dia de ensinamentos importantes



Como diria meu mestre dos nadas, hoje despertei com "desapetites" de sentir. Não havia muita fome no meu querer também. Somente sementes de chão e algumas gotas de vento para não dizer que não falei das flores.

Durante o dia aboli a chuva de "quês" dos bilhetes que escrevo com a boca e vou distribuindo por entre os ouvidos dos outros. E permiti a passagem de alguns hiatos, que é para não dizer que não falei de silêncios.

De manhã bem cedo, dei para imitar passarinhos e arrulhar alguns sonhos renitentes que dialogam com minha preguiça de viver acordada. Dormir é enfeitar a realidade de infância. É desmaiar o tempo.

Agora, com a boca da noite escancarada e pronta para engolir de novo a marcha dos ponteiros cansados, dei para desaprender das coisas úteis. Me sou chegada a perdimentos.



PS.: Se meus poucos e queridos leitores sentirem cheiro de Manoel de Barros nas entrelinhas desse fragmento, podem consentir (e evocar) sua presença e meu total descaramento.



domingo, 10 de outubro de 2010

Pequeno tratado sobre minha casa


Minha casa, às vezes, é tão pequena que sequer comporta minha armadura. Em outras vezes, nem mesmo casa é. Só um amontoado de livros, canções esquecidas, quadros dos outros, fotografias de paisagens, gatos dormindo, azuis de uma manhã que ainda não chegou.

Tem vez que minha casa é reconhecida pelos outros. Num olhar, numa frase, até mesmo em singelos elogios. Minha casa não espera muita coisa da rua. Porque a rua já é um outro tipo de morada, onde habitam meus crepúsculos favoritos e o perfume enigmático das nuvens e, por trás das nuvens, da escuridão.

Minha casa tem poucos espelhos. E às vezes é um universo por dentro, praticamente inabitado. A não ser pelas formigas que serpenteando estradas por entre as paredes, se dirigem aos seus escritórios e empresas subterrâneas. Sempre tão disciplinadas as formigas.


Minha casa, às vezes, é um rio onde não permito o aprisionamento de peixes, passarinhos, ou toda sorte de sutilezas que a natureza é capaz de empreender. Tenho sede só de quimeras e das chuvas de estrelas que banhavam meu olhar quando eu morava em outras casas e ainda nem sabia o significado de quimeras.

Minha casa pouco importa. O que me salva mesmo é esse nomadismo absoluto que prescinde de asas. Só de silêncio e às vezes, de distância.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sobre o amor


Não sabia exatamente que era amor. Esse que trata da liga entre duas pessoas. Homem, mulher; dois seres, duas almas. Essa coisa que ata nós invisíveis de cumplicidade e, sobretudo, de planos. Pano feito de retalhos de dois tecidos vivos. Patchwork de sentimentos trocados a olho nu. Era como se toda vez que tentasse enxergar o desenho do amor, faziam-se míope as lentes. O amor lhe era uma imagem embaciada, como de um rio fino que serpenteia e preenche as veias. Sabe-se que ele existe, mas é melhor que fique lá, guardado, invisível.

O amor às vezes se apresentava com vestes idílicas e embriagadas aos borbotões de uma coisa chamada paixão. Mas, sentia que não era exatamente amor. E choviam perguntas. E desperdiçava muitas luas arrancando do peito aquele sentimento, como quem cavouca a terra em busca de pequenos matos, ervas sem dono e sem cheiro que só atrapalham o manto da terra.

Até que desistiu de buscar nomes e classificações. E parou de se emocionar com os beijos das novelas e de ler poemas provençais. Também não quis mais entender a estranha assinatura que algumas pessoas insistem em circunscrever nos outros: desenho de mera posse, repositório de solidão, quimeras de amor-perfeito.

E descobriu que, sem tipificações e fórmulas e buscas e comparações e sem um par de outras coisas inúteis e alegóricas o amor sempre estivera por perto. E dentro pois, o amor não é só humano. Tampouco espelho.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cronologia sucinta de uma moça de pés descalços

# http://harlequiin.tumblr.com/page/4



Aos três anos o irmão caçula morreu. (E descobriu o purê de batatas)

Aos cinco teve o primeiro aniversário.

Aos sete uma goiaba despencou do alto do pé bem em cima do seu olho. Passou para a primeira série e contava histórias com desenhos.

Aos oito tinha asma.

Aos nove também. E a mãe e ela fugiram de casa, depois do carnaval e da fantasia de Emília.

Aos 10 fazia a quarta série e apaixonou-se pelo irmão de uma coleguinha, de 17.

Aos 11 ganhou um estojo de madeira da faber castell e escreveu o primeiro bilhete de amor.

Nos quase 13 conheceu a Avenida 2, 7 e 8. E sentia saudades da sua cachorrinha cor de barro.

Aos 14 decidiu deixar os cabelos crescerem.

Aos 15 sonhava em chegar aos 20.

Aos 17 descobriu que o amor pode ter muitos véus como na dança do ventre.

Aos 18 já perdera a conta de quantos sonos perdera à noite.

Aos 25 não se tornara médica, empresária, embaixatriz, rica, puta ou assistente de palco.

Aos 28 morreu pela primeira vez quando morava numa casa amarela de dois andares.

Aos 30 percebeu que a felicidade às vezes só é apercebida depois que passa. Daí essa estranha nostalgia pelo que ainda não chegou.

Aos 35 não tinha mais medo dos seus abismos.

Aos 40 despencou das suas certezas e reaprendeu a ler e escrever.

Aos 42 fugiu de casa novamente.

Aos 45 desejou.

Aos 50 relembrou a infância no desejo dos filhos dos filhos.

Aos 60 quase morreu, mas foi só um susto.

Aos 64 o susto passou a ser um fato.

Aos 70 as paredes mais sólidas que a cercavam só podiam ser tocadas na memória.

Aos 75 lembrou do irmão caçula que morrera sem nunca ter visto o mar.

De lá para cá, se apegou a uma firme necessidade de manter os pés nus, sentindo a obscenidade do tempo adentrando por entre os caminhos da pele.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Procura-se:


Um caderninho de anotações contendo toda sorte de pensamentos e lições sobre asas de borboleta, a coloração do ki-suco de framboeza, a (des)conjugação do verbo ser, a taboada dos sete, o cheiro de beterraba que sobe da terra molhada com as primeiras gotas de uma nuvem mal-humorada, o silêncio dos passarinhos depois das cinco da tarde, o esconderijo dos sapos-cururus por entre as folhas secas, o primeiro beijo do segundo namorado, o desespero do rabo de uma lagartixa após o golpe mortal que o separou do seu corpo, o sentimento de perda da palavra escondida por trás das entrelinhas e o som das jabuticabas batendo nos flandres nas feiras-livres.


ps.: eu nunca perco as coisas. As coisas que se perdem dentro de mim.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O casal e a chuva



O casal à espera do verde do semáforo. Sem pressa alguma. O casal no meio da neblina de uma dessas chuvas que teimam em cair em pleno prenúncio de primavera. Agarrados como se tivessem 17 anos. Mas não era bem assim. Era um casal maduro. Ele ensaiando alguns cabelos grisalhos na dança do tempo em suas têmporas. Ela decerto usava tinta. Tão abraçados e unos que passavam despercebidos pelos outros. Havia até cansaço naquela entrega serena. Os dois corpos abraçados e se apoiando. Podia sentir o peso da cabeça dela apoiando-se no ombro do homem moreno. Fazia um esforço voluntário com a ponta dos pés para ouvir o que ele dizia rente ao lóbulo da orelha. Tão absortos ao movimento de se proteger do simulacro urbano, quase invisíveis à massa de gente amorfa que não tem nome e somente, naquela hora, corria do medo da chuva molhar suas máscaras.

Talvez ele estivesse dizendo para ela: "Dê-me os livros, que eu carrego". E ela, com uma única mão fazendo de corda em seu pescoço, se negando à gentileza e dividindo com ele o peso do dia: "Não. Eu carrego. Assim você fica livre para segurar a minha mão". Porque a outra mão do amado se ocupava de uma pasta. Era por isso: ela entendia menos de matemática e mais de aconchego. Talvez eles já tivessem três filhos. O caçula com nove anos dando trabalho para aprender a regra de três; já que na casa habitam cinco, na verdade, seis com o vira-lata que acorda a vizinhança quando vê em cima do muro o gato angorá fujão da moça que mora em frente. O do meio está aprendendo a beijar na boca na escola e a mais velha fazendo cursinho pré-vestibular.

E, é possível, que naquele final de expediente, eles tenham se encontrado depois de um longo dia de afazeres e descoberto que não basta estarem juntos durante quase duas décadas. É preciso descobrir também que a vida não é feita de grandes descobertas a dois, e sim de pequenas epifanias e celebrações do cotidiano vivo e pulsante. É preciso se abraçar vez em quando. É preciso se deixar molhar pela chuva estranha de uma quase noite de setembro, que anuncia uma lua crescente tão enigmática quanto uma lua nova.

O casal e a chuva molharam meus pensamentos.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Depois da independência



Hoje acordei com o tempo represado dentro de mim e uma sonolência primeva. Poderia ouvir os cavalos selvagens trotando dentro da cabeça.

Um eco distante de compreensão sobre a vida ainda paira por sobre meus ombros cansados. O do lado direito sempre pende para o óbvio. O esquerdo para o oeste.

A brisa da manhã deixava um recado de sutilezas e urgências na minha pele. Coisinhas simples e cotidianas como respirar profundamente o silêncio da madrugada, com ânimo somente para sentir o ar da graça dos passarinhos anunciando a solidão do morro. Um morro que ladeia uma cidade cheia de casas e prédios e carros e asfaltos é sempre um morro sozinho. Seus irmãos foram mortos.

Hoje acordei sem razão alguma. Habitando-me apenas milhares de fagulhas de esquecimentos, dúvidas, incertezas, distrações. Livre para errar o passo, apagar os esboços e rabiscar no vento palavras que ainda não nasceram.

Estar vivo às vezes é um crime sem punição.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dior Homme - Un Rendez Vous (by Guy Ritchie starring Jude Law)

Chama o Samuuuu!!!
Fui lá no site a Ana Clara Garmendia - fotógrafa que eu admiro muito o trabalho e não resisti ao Jude Law... digo, ao filme produzido pelo Guy Ritchie para o perfume da Dior. Voilá!


Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera - trailer

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Transparências




Minha saudade é invisível

Não tem cor ou cheiro


Só de vez em quando escapa por entre os olhos


Em forma de gotas




Fazer o quê?

Nasci assim.

Neil Young




para Ada

segunda-feira, 30 de agosto de 2010



"Não ter nascido bicho parece ter sido uma de minhas secretas nostalgias" - Clarice Lispector.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um pouco de Alice Ruiz


entre a terra e a lua
minha alma
tua







fico feliz
quando me encontro comigo
mas é tão ambíguo





p.66 - Dois em Um - Iluminuras

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lugares

by paul stefan

A rede da minha avó. O castelo de areia feitos por mim e os primos. A piscina da Apurn. As estantes da Da Vinci. Aquele hotel em Pipa. Aquela casa em Cotovelo. A fazenda da Tia Dalvinha. O ovo de páscoa escondido debaixo da escrivaninha. A grama perto da caixa d´água. O sofá-cama mais quentinho do mundo a caminho de Campos do Jordão. O mezanino na Ribeira. O colorido das flores em Pomerode. Um apartamento em Petrópolis. A caixinha de areia dos bichanos. Os jarros e as roseiras sentimentais. Atrás da porta para brincar de esconde-esconde. A biblioteca do Nonato e uma conversa de pessoas do interior. A mesa do mall e o café no fim de tarde. O olhar da menina aprendendo a olhar. O banco de pracinha e o futebol das crianças. A estrada que dá para Bonja. Meu quarto de criança. Os sapatos do meu pai. O colo da minha mãe. O pneu-balanço no pomar. O doce do araçá na minha língua. Memórias no seu devido lugar.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Segunda-feira


Moço, tem vitamina?

Qual? Vitamina C?

Té que pode ser sim, essa tal aí. Mas eu to falando de outra vitamina.

Qualquié?

Aquela que escorre pelos cabelos e poros dos pequenos durante o intervalo nos jardins da infância. Aqueloutra que esbarra no ímpeto e nas certezas adolescentes de que a palavra urgência define o mundo de dentro e de fora. Aquilo que anima a fome da onça ao beber água. E a mesma que arrasta a presa para bem longe da morte. Tem?

Tem, mas tá faltando.


Ok. Volto amanhã.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quarto de aluguel

Quoted from: http://leloveimage.blogspot.com/2010/01/unknown.html




Os(as) amigos(as) sempre aparecem na vida da gente com a mesma predisposição de moeda jogada no poço: dão sorte e carregam consigo uma esperança no viver. Tenho algumas dessas pessoas guardadas no bolso da afeição. Não são muitas nem baratas. Custaram-me, no mínimo, um olhar de admiração e empatia desde o primeiro momento, ou no segundo, va lá, porque nunca fui de me deixar levar por primeiras impressões. Aliás, conselho dado, e acatado, por um amigo que tenho há mais de 20 anos e que percebo que ainda nutrimos o mesmo frescor e o mesmo tremor das descobertas que nos encantavam na adolescência.

Com cada uma dessas pessoas é possível montar um histórico de momentos bem vividos. Nunca me sinto totalmente sozinha quando vasculho essas lembranças.

Agora há pouco, Anna, que faz parte da melodia desses meus dias às vezes silenciosos, me ligou para compartilhar um momento singelo da sua tarde e que reverbera em mim até agora. Aliás, no caso dela, momento que norteia seu modo de ser, generosa e doce como é, dona de uma primaverilidade capaz de gelar o coração de qualquer dragão enfurecido e de fazer florescer até o Deserto do Atacama. Mas isso não é sinônimo de ser bobinha não. É leonina e cria gatos.

Amigos sempre estão dispostos a dividir o peso de nossas bagagens. Seja na leveza de uma cesta de pic-nic, seja nas agruras de um dia mal-ajambrado que se desnuda em lágrimas. Amigos são os que mais se consentem de carregar lágrimas alheias. De certa maneira até gostam de carregar as tristezas e de dividir um pouco os momentos em que o peso do mundo se concentra nos ombros e nas ideias da gente.

Para sobreviver aos dias difíceis sempre recorro à flexibilidade infantil, às imagens de qualquer época e de qualquer infância, lugar povoado de amigos. Para se ter amigos sinceros é preciso manter-se obstinadamente criança, singelo, aberto. Amigos abraçam e beijam até mesmo por correspondência. Mas amigo não é o mesmo que disque-denúncia, disque-pizza ou disque-qualquer-coisa-a-qualquer-hora. Amigos têm direito à instabilidades temporais e pancadas de chuva podem ocorrer entre uma ou duas semanas. Desconfie de um amigo que nunca discordou de você. Nesse exercício de amar os outros cabe encontrar humor e rima até mesmo na falta de humor e na ausência de poesia.

Por isso que na minha casa interna, sempre há um quarto no qual eu reservo para alugar a um amigo. Com direito a lençois limpos, vasinho de flores, xícara de chá e uma boa e longa conversa. E, quando qualquer um ou uma chega, vou logo avisando: a forma de pagamento de preferência deve ser em suaves prestações de admiração mútua, carinho, respeito e essa coisa chamada amizade, para toda a vida se assim tiver de ser.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um pouco de Ada Lima



Oliver Jeffers




Via barcos e peixes
alvos
felpudos
a navegarem o vento
velas e escamas
refletindo o sol

e pensava

não faz sentido
esse mar
cobrindo tudo.





Ada Lima é uma das poetas mais maduras que conheço, neste árduo ofício de escrever poemas. Não faz rima besta. Não é sentimentalóide, tampouco gratuita. Já publicou Menina Gauche, pela Flor do Sal. E tem um segundo livro no forno para sair. Esse poema é um dos seus inéditos, que tenho a honra de publicar em primeira mão aqui no Bicho. Sou louca de admiração por ela. É inteligente, gostosa, sensível, doce, tem refluxo, tá vivendo o momento esmalte é o novo batom e além de tudo é minha amiga!


(Dá série Mulheres que fazem poesia)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mulheres que fazem poesia




A série "Mulheres que fazem poesia" que eu acabei de criar é um apanhadode poemas de mulheres que eu cato em mim todos os dias. Mulheres inspiradoras que fazem da morte cotidiana um encantamento de viver. Por isso tenho-as, guardo-as, libero-as para você. De agora em diante vai ser assim: toda vez que a vida me soprar alguma bem-aventurança trarei uma poesia de mulher para minha esquisitice. Não pedi licença a elas para publicar porque quando se ama e se admira não se pede licença. É isso.
Hoje foi só o começo. Ainda tem muitas outras que virão por aí.

Um pouco de Nivaldete Ferreira



silêncio
1

o som do silêncio
-de si cansado
vai crescendo em sussurro
como o do ventre cortado
da laranja

até que se gera o grito
e se alonga
ao infinito
onde tudo se torna
silêncio de novo

2

a vida começa e termina
em silêncio

por isso falamos
(far)falhamos
no intervalo

(da série Mulheres que fazem poesia)

Um pouco de Marize Castro



Descalça

Estou descalça e tenho sono.
Os pássaros daqui não me acordam.
Sou acordada por aves de outras castas.

Outras esferas.


(da série Mulheres que fazem poesia)

Um pouco de Anna Akhmatova


Portrait by Nathan Altman of Anna Akhmatova, 1914


DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"

"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.

Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.

Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria.

(da série Mulheres que fazem poesia)

Um pouco de Orides Fontela





AXIOMA


Sempre é melhor
saber
que não saber.

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer


(da série Mulheres que fazem poesia)

Maquiagem é tudo de bom!




Adoro um pozinho aqui, um batonzinho cá, creminhos "ui ui". Tem gente que não sai de casa sem e não tenho nada contra. Sou filha de uma senhora linda e vaidosa cujo primeiro "pai nosso" quando acorda é colocar pó, blush e batom, mania já herdada da minha avó. Maquiagem faz verdadeiros milagres e, com os devidos cuidados pode até dispensar ou protelar uma boa plástica para dar um tapa no visual. Pena que maquiagem não faz milagres em outros setores da vida ou da persona de uma pessoa.

Se fizesse muita gente dispensaria os rivotril e os roacutan da vida. Também dispensaria os inimidores de apetite e disfarçaria a egolatria, os quilos a mais que nenhum pretinho básico é capaz de esconder, a falta de caráter, a dissimulação, a histeria, a vaidade tola e fútil, o desequilíbrio emocional e intelectual, os desajustes domésticos, a deslealdade, a inaptidão para falar a verdade, a incapacidade de colocar-se no lugar do outro e a mais absoluta falta de sentido para a vida, a ponto de achar que uma camada de pó a mais ou a menos vai torná-la um ser menos abjeto e dispensável. Não é à toa que vemos tanta gente por aí confundindo beleza e simplicidade com auto-exposição e confissões de adolescentes tardias. Uma peninha desse tipo de gente.

Mas para mim como pena é um sentimento tão forte e importante quanto minha predisposição para entender de futebol, vamos nos divertir porque a vida é curta. O Portal Terra fez um apanhado de celebridades com e sem maquiagem. Tem cada coisa bisonha, assim como tem algumas que tirando o reboco até parecem mais lindas e frescas. Quem estiver afim de dar uma olhada, é só tocar com o mouse na seta e ver o antes e depois.

Voilá!

domingo, 1 de agosto de 2010

Um pouco de Rimbaud



Fome


Se tenho gosto, é quase só
pela terra e pelas pedras.
Meu almoço é sempre o ar,
a rocha, o carvão, o ferro.

Minhas fomes, girem, girem,
atravessem os trigais,
atraiam o alegre veneno
da flor-de-pau.

("Uma Temporada no Inferno" L&PM - Tradução de Paulo Hecker Filho)

Li em Férias no Inferno, do jornalista Carlos de Souza, algo sobre Rimbaud e sobre o filme Total Eclipse (1995) de Taylor Hackford, estrelado por Leonardo DiCaprio e David Thewlis (que meu amor disse que era cara de Ciro Gomes. E é!). Tinha o filme na minha estante há pelo menos uns dois anos. Estava lá quieto. Acho que o péssimo título em português "Eclipse de uma paixão" não me encorajava muito. Pois bem, as poucas considerações de Carlão me deixaram, no mínimo, curiosa. Assisti.

Há algum tempo atrás li até onde achei que deveria ler uma biografia do Arthur Rimbaud, capa azul, não me lembro do título. Não cheguei ao final. Para ser sincera, passados os trechos nos quais tratavam de sua literatura e a relação com Paul Verlaine, pouco me interessava saber o que ele fez na África.

Tenho também Uma temporada no Inferno.

Esse post não é um post conclusivo.

Sinto fome, de perguntas. Não de respostas.


domingo, 25 de julho de 2010

Quando a morte acontece




primeiro, a gente começa uma contagem regressiva esperando a dor aguda e funda passar.


segundo, a gente tenta guiar o monstro da pergunta "porquê agora"?


terceiro, a gente pensa em inventar coisas inesquecíveis com o teu nome, como escreve-lo no mar ou vê-lo desenhado por entre as nuvens.

quarto, você ressurge nas sombras dos corredores, por detrás da porta, no desfolhar de uma roseira, no olhar azul do gato, na sucata que ganhou utilidade de coisa guardada.

e, quinto, só não há maior abandono com a tua perda porque nesse tempo que não volta mais permanecem os cheiros, a memória e o amor.

quando a morte acontece,
participam em mim paradoxos.
perda. verdade. poesia.

sábado, 17 de julho de 2010

Porta pra alma *


Antes dessa camada de pele, tempo e vento que me veste a alma - ora aflita ora calma, sempre viva - habita-me um corpo cheio de panos, tramas, cores, tecidos. Coisas que têm nome e, sobretudo, herança. Daquela que carregamos não só dos nossos avós e que estão aí desde muito: das folhas de parreira de Adão e Eva.


Perdoe-me cara editora, mas não posso falar apenas de uma peça de roupa. Seria como tentar desenhar com grafite o despudor de um amanhecer. E também tem outra coisa, sou apegada aos defeitos de nascença: nasci com olhos de muito sentir, traduzidos numa estranha mania de ver coisas nas pessoas e humanidade nas coisas. As roupas compuseram meus pedaços mais evidentes. E sem eles não conseguiria costurar essa colcha de retalhos chamada memória.

A primeira delas pego emprestado das lembranças da minha mãe pois, vivia a idade do presente sem passado. Era um vestidinho branco de bolinhas azuis, de alcinhas e dois saiotes. O apego era tanto que ela tinha de me esperar dormir - depois de um dia inteiro de muitas negociações infrutíferas - para poder desvencilhar meu corpinho franzino da peça. Naquela época o vestidinho de bolinha "zu" estava para minhas preferências fashionitas como meu estômago estava para o purée de batatinha inglesa.

Tive uma saia godet cor pêssego que quando mamãe se distraía, acreditem, virava um colant tomara-que-caia (sou anterior ao body). Uma vez, voltando de viagem fui esperá-la na estação vestida com calça jeans e aquela peça inusitada que triplicava minha cintura ao ser ensacada para baixo da calça. Naquela tarde ela vestiu minha fantasia e nada disse. Mas na semana seguinte eu tinha dois colants no armário.

Tem outra peça também da qual não consigo esquecer porque teve vida curta: um vestido pink, cheio de babados (eram anos 80, gente) que o cachorro da vizinha - sofrendo uma espécie de daltonismo sem noção - raptou do varal, rasgou, mastigou e estraçalhou saiotes, mangas e babados. Uma atrocidade nunca vista nem em páginas policiais. Como roupa não vira sucata, com o que sobrou fiz vestidinhos pink para as bonecas durante duas estações.

Agora estou às voltas a pensar com qual blusa vou usar com uma linda saia que ganhei de uma amiga. Preta, longa, com algumas flores charmosas pinceladas aqui e acolá. Posso até imaginar como seria essa peça: uma blusa com um decote em "V", talvez. Por enquanto, sem essa blusa, a saia é só uma promessa.

Mas, em geral, minhas roupas não me prometem nada. Pelo contrário, elas vivem me negando a mesmive e modismos que pasteurizam o olhar. Minhas roupas são portas, e não espelhos.


* Esse texto foi escrito originalmente para a Revista Salto Agulha da consultora de moda Gladis Vivane. A revista já está circulando por aí e dando o que falar de tão boa. E eu publico-o agora também no meu espaçinho. PS.: Esse link acima é do blog que originou a revista. Já o produto editorial pode ser encontrado aqui em Natal lá no salão da Nalva Melo, na Ribeira
.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Não sei artes marciais



Acordo bem cedo ora mal-humorada, ora fazendo uma prece porque acabei de ter um sonho bom. Eu pago minhas contas em dia. Às vezes pago adiantado, esqueço que paguei e cismo que tenho de pagar de novo (medo de mim!). Lavo meus cabelos todos os dias. Mantenho também a depilação aparentável. Checo meus e-mails. Sei fazer bem uma faxina. Não saio alardeando por aí os livros que já li e os que estou lendo. Comento brevemente sobre esse tema com quem me pergunta por boa educação ou por afinidade. Indico muito e empresto poucos livros. Tenho fases mais poemas. Tenho investido meu tempo também em leituras de revistas cheias de letrinhas e sem editoriais de moda. Nutro carinho e admiração distante por cadernos de anotações. Exerço meus deveres de amiga sempre que posso, com direito a visitas, conversas no G-Talk, mensagens de celular, aconselhamento via e-mail, uma cerveja no meio da semana, troca de figurinhas (e de petiscos) sobre gatos e outros seres afins; entendo de esmaltes, batons, sombras, bases, tenho obsessão por perfumes, acho delineador coisa dispensável, fico louca com uma boa promoção e presenteio minhas amigas com filtro solar livre de óleo (não forço a barra forjando erudição em terminhos "tchipo assim" oil free só para parecer especialista), não dispenso um bom papo sobre receita de bolo, pão caseiro, homem, política, economia, vida saudável, direito a orgia e gozar no final. Sempre peço por favor à secretaria para ela me fazer uma ligação e disfarço minha preguiça ou meu tédio quando o assunto está recorrente e sem criatividade. E por falar em direitos, tenho direito a surtar de vez em quando. De não entender um filme do Jean-Luc Godard. Direito de me indignar com político corrupto, de me divertir com as pataquadas de algumas dondocas "muita caca pra pouco penico" desocupadas que têm receitas para tudo, inclusive para justificar suas "futilezas"; me dou ao luxo de pensar e repensar minha vida quando o ônibus atrasa 40 minutos e me irritar com algumas notícias recorrentes da mídia e opiniões machistas e infelizes que justificam atrocidades cometidas contra as mulheres em pleno século 21. E tem mais: sou monoglota, heterosexual, com algumas incursões mundo afora mais para currículo que para fazer linha, vacinada, desigual, falível, estressada, meiguinha, conselheira. Não sei nenhum tipo de arte marcial, mas no sábado passado entendi o sentido basilar do judô. Sair no tapa, acho difícil, mas se preciso for, só com alguém de mãos limpas. Odeio erros de português. Atenção analfabetos de plantão: ansioso é com "s" e "corram" do imperativo correr, não é com a+o+til. Sou favorável ao direito à informação, mas falar e escrever merda é só o que tem por aí na blogosfera e tem horas que tem de ter muito saco para aturar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mentira


A ordem das pétalas

Não altera teus espinhos



quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sonho de Jorge






Definitivamente, Jorge não vive num mundo de aparências. Mas aparenta ser mais velho do que é.

Um filho de quatro anos que conhece o que é carinho todo dia. Coisa que ele aprendeu a colher anos a fio, na indiferença dos olhos do pai.

A fala entrecortada de silêncios e pausas deixa escapar timidez e resignação. Jorge não fala bem, mas sabe ouvir e guardar.

Durante o trabalho cérceo ao chão, Jorge não assobia, nem tem tempo de pular ponteiros. Concentra as atenções em catar a indiferença de uns e de vários para transformá-las em devaneios.

"Se eu tivesse estudado mais, podia estar aí, com essa roupa branca, essa balança desenhada no bolso", fala como se estivesse confessando às estrelas.

Jorge não quer ser astronauta, bombeiro ou técnico em gestão ambiental. Tem vontades que nem sabe dizer direito o nome. Nem sabe o quanto ainda tem de chances.


Mas hoje à tarde eu vi nos gestos telúricos de Jorge que ele sabe respeitar e amar os modos do tempo.

E eu aprendi com ele.


terça-feira, 22 de junho de 2010

Cheiros


mariaeugeniailustration.com



De chuva, sempre acompanhados pelos desenhos que fazia para espantar a vontade de brincar lá fora. Fazíamos também um enorme círculo simbolizando o sol e jogávamos sal para afastar a chuva. Às vezes funcionava e passarinho anunciava que a Arca de Noé dos nossos desejos de brincar amarelinha na rua encontrava terra firme e seca.


Mas o assunto é cheiro e não chuva então vamos lá. Hoje lembrei, de repente, do cheiro que emanava dos cabelos, do rosto e das mãos da minha avó. Cheiro de aconchego, de boas risadas, balanço de rede, cantiga de ninar, arroz de leite, chá de erva cidreira, hortelã, camomila, banana amassada com Toddy, queijo de manteiga derretido no tacho. Cheiro de lembrança de uma mulher que me ensinou a ser.


Na infância podia sentir de longe o cheiro das estrelas cadentes que invadiam de verrugas a ponta do meu dedo. Cheiro de bronca da professora, de pipoca doce na cantina. Cheiro de goiaba roubada da casa da vizinha.


Cheiro do primeiro encontro é diferente do cheiro de intimidade que exala bem depois. Um carece do outro.


Pra finalizar, tem também o cheiro do chulé do Fellini. É o único cheiro de chulé que eu gosto de sentir na vida. É tudo menos fedor. Cheiro que não arde ou invade, só aquece.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Divagações (daqui e de acolá)




Aspirações
Escrever como se as palavras tivessem acabado de ser inventadas. Sorrir com vontade. Chorar quando der vontade. Olhar como se fosse o último pôr-do-sol da minha vida. Respeitar cada movimento do universo. Dormir serena e acordar com o canto dos passarinhos.


Heranças
Minhas mãos estão envelhecendo mais rápido que todo o resto. Parece que tenho 84 anos. Mamãe diz que é genética. Do pai. Vem dele também pupilas de tamanhos diferentes. Tenho outras coisas dele. O olhar duro. Um certo ar cansado e uma predisposição esquerdista que às vezes as pessoas não entendem. Dela, tenho a vontade de ter a mesma paciência. O desejo de envelhecer com sabedoria. Amor pelos gatos. E algumas sardas visíveis para quem sabe olhar.

Sobre ser mulher
Nossa âncora não submerge, flutua.
Também não consigo encontrar uma metáfora que pudesse descrever o que penso sobre a vagina, sem parecer que essa metáfora findaria em pormenorizar a vagina ou transformá-la em outra coisa que não seja uma vagina e sua incrível função secundária: a de carregar o mundo nas costas.


(esses fragmentos são aleatórios. retirei-os de outras aleatoriedades: textos/blogsantigos/crônicas da minha vida [im]precisa)

Chuva





tão fina que
cortava a pele em
mil

e um sentimentos

e foi deixando a rua


com um brilho melancólico
e
um cheiro de passado

pedaços de lembranças
que escorriam em mim


publicado em Entremundos, 31 de maio de 2007

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Coisas importantes





Eu não sei nada sobre as grandes coisas do mundo,
mas sobre as pequenas eu sei menos.
(Manoel de Barros).



A gente morava quase no fim do mundo. Do quintal dava para ver o sol se deitando todos os dias lá para onde ficava o fim do mundo.

Todos os dias eu dava um jeito de assistir ao sol se deitar. Nunca acostumava o olhar com tanta belezura que era aquilo.


Pensava: e se um dia eu andar até chegar nesse lugar que é o fim do mundo? E conseguir atravessar o sol e queimar ao menos essa curiosidade que sinto pelas coisas que não têm nome, mas que reverberam no meu peito, como se ele fosse um sino? O que será que tem depois do fim do mundo?


Mas ali, no encontro do sol com o fim do mundo, não era tempo de perguntas. Perguntas fazem parte do desespero. Que é a mesma coisa de não saber esperar as respostas chegarem. E elas chegam, nem que venham do fim do mundo.


Naquele tempo eu não tinha máquina de fotografar. (Ainda não tinha ganhado de presente da minha tia a Love. Tias são seres originados do pote no fim do arco-íris né?). Então fotografava na memória. Deixei aquelas imagens em tom amareluz no vagão das coisas importantes: ou seja, as coisas que não podem ser medidas com fita métrica, tensiômetro, dinheiro, escrituras, etc. Importante mais ou menos assim como é a descoberta de um suculento naco de peixe fresco para um gato, do que se ele encontrasse uma pérola recém parida do ventre de uma concha.


Quando por trás da minha casa dava para ver o fim do mundo, dava também para desejar ser pedra atravessada pelo silêncio de mil anos (outra coisa importante: a idade das pedras). Dava para segurar com a mão o canto das andorinhas e convidar calango para ouvir o som que os nossos sonhos produziam horas depois da passagem do ocaso.




sábado, 5 de junho de 2010

Dia Mundial do Meio Ambiente - (Custa nada refletir)

Ô, lá em casa!


Otto(s)!
O segundo deu origem ao nome do primeiro (da foto). Detalhe para a semelhança dos dois...
É isso. É tudo de bom! Não sei qual dos dois gosto mais.





quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tom Zé - O Amor é um rock


Tom Zé é uma das nossas expressões máximas da música brasileira. Tenho profunda admiração por ele e pelo seu trabalho.
Por coincidência ontem estava cantando essa música (só o refrão, craro) e eis que hoje assisto ao clipe. Acho que é um sinal: já está mais do que na hora de colocar algo desse artista completo da música brasileira e porque não dizer da música universal.
Divirtam-se! Porque o amor é um rock, e a personalidade dele é um pagode.



domingo, 30 de maio de 2010

Domingo "simples"




Geralmente domingo é um dia meio deprimente. Decerto, tem um certo parentesco com o último dia de férias.


E, justo eu que não carrego comigo pílulas de felicidade, nem para mim, nem para os outros, vou quebrar esse paradigma hoje, neste quase fim de domingo: quem achar que a vida não é só alegria, mas que tristeza não é depressão e que para ser bonito não é preciso atingir perfeição ou banir o tempo do espelho, vai a dica: Quincas Berro D'Água é uma verdadeira ode à vida. Um viva à beleza sem retoques. À verdade que há nos gestos simples daqueles que nos amam verdadeiramente. E vale a pena ser assistido seja num domingo, numa segunda, terça ou enquanto durar o estoque de exibição nesses cinemicos daqui.

Baseado na obra de Jorge Amado, dirigido por Sérgio Machado, o filme conta com um elenco global escolhido a dedo e a palpites pelo próprio Paulo José (protagonista), brilhante como morto ao lado de estrelas como Marieta Severo (mesmo o botox não foi capaz de ofuscar seu talento), Mariana Ximenes, Vladmir Brichta, Flávio Bauraqui, Irandhir Santos, Luis Miranda e por ai vai.

"Uma coisa cê tem de concordar, minha vida de morto é mais animada do que a de muito vivo por aí", reflete o aventureiro falecido, Quincas Berro D'Água, cuja explicação para o nome é dada no filme e se dilui em tantas outras cenas corriqueiras, repletas da mais pura lealdade e cumplicidade que amigos podem ter uns com os outros.

Sem carregar nas tintas, a câmera passeia pelos suados rostos baianos e extrai o heroísmo de vidas comuns. Aliás, marca registrada de Jorge Amado. Não sou crítica de cinema, por isso não vou me delongar falando qualquer coisa só para, como diria qualquer baiano arretado, "me amostrar" ou demonstrar uma erudição cinematográfica macarrônica, justificada pelas incontáveis películas que já assisti, muito mais do que discernimento das ideias do diretor. Tenho senso de ridículo. Amém.

O que vale mesmo dizer é que o filme tirou todo o peso do domingo. Assim como, na película, tira da morte. Nas palavras sábias e despretenciosas da minha mãe, é "um filme simples", que deixou todo mundo com um ar de riso na cara, ao descobrirmos que um domingo pode ter um final, se não feliz - coisa mais clichê - ao menos com a certeza de que os dias passam para todo mundo. E que escolher como vivê-los é uma questão, muitas vezes, simples.


quinta-feira, 27 de maio de 2010

17h29





Um certo cansaço por cima dos ombros
As horas não passam
O almoço não foi lá essas coisas
A manhã antecedeu a tarde que espera lânguida pela noite
Ora tédio ora dando outra chance para os minutos
Vontade de ver o mar
Promessa de chuva avisa aos meus ouvidos que é tempo de recolher o pólen
Um feriado se aproximando
Desejo volúvel de ser pedra
Para em seguida trocar pela vontade de ser lua cheia.
(Tendo o céu como testemunha)
Estrela lembra pão.
De preferência, caseiro mergulhado na memória das mãos
Hoje pagaria adiantado para ver beija-flor se banhando em torneira de jardim.
Vi ontem. Comentei com as nuvens o quanto a cena era bonita.
Já se passaram quase 20 minutos desde que lembrei que do cansaço também podem brotar alhures, lembranças, sabores, desejos, vontades, confissões.
Divagações.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Algo sobre o amor...



e foi assim.
não sei se era tarde ou noite. mas num piscar de olhos estava eu ali despencando para dentro de ti através dos teus olhos marrons. encurtando a distância entre a procura e o alívio que se sente quando a gente encontra o que estava esperando.

e é assim.
quando a gente combina direitinho a vida que se tem com a vida paralela que se sonha. o chão tocando o céu e o céu bem perto da terra. o calor do abraço, o toque das orelhas, o coração batendo na parede do peito. o silêncio fazendo festa.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pedaços de Cotidiano *



Um dia. A visão do mar. Uns tantos cigarros. Uma ligação inesperada. Um abraço no fim da tarde. A descoberta do valor incomensurável dos olhos de uma menina que faz poesia há 20 anos.

Tanta coisa circula dentro de mim neste momento. E é óbvio que não daria para falar sobre elas sem correr o risco que escapassem pelas fendas do precioso silêncio da contemplação. Por isso, calar é preciso e viver é precioso.

É assim que me sinto. De quando em vez, olho-te dentro de mim e compartilho todas essas coisas contigo, falando baixinho como se entoasse uma canção de ninar. Vejo, que por cima do ombro, você faz aquele ar de "estou ouvindo mas, não quero falar nada". E por dentro, do teu lado, sorrio com aquele ar de que entendo seu enfado porque somos feitos do mesmo pó.

Em verdade vos digo: a vida é tanta coisa. E é só um pedacinho de dia que se perde por entre as folhas do calendário. E espero e espero e espero. O relógio escuta o meu chamado. Só meu amor não ouve. Dorme tranqüilo, dentro de mim.



* Faz quase cinco anos que escrevi esse textinho, ainda na época do Entremundos, em outubro de 2005. Originalmente chamado de "Cotas do cotidiano". Como sempre estou me reinventando, achei melhor mudar para "Pedaços". Eis-me. Uma boa semana para nosotros.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma confissão de tarde




Tentei segurar os pingos da chuva

Mas eles eram mais rápido e escorriam

pelos meus contornos

pelas fendas da rua, pelas memórias das pedras



Tentei acionar o guarda-chuva mas era tarde

Já tinha me apegado à lágrimas das nuvens

Me encharcando de sentimentos pelo azul do céu escondido

Solidária às ruas pela força do temporal que se anunciava


As chuvas desvendam verbos ocultos que jorram dos bueiros

Destampam velhas lembranças guardadas debaixo das calçadas

Aglomeram caixas, garrafas, panfletos, sacos antes distraídos

As chuvas cospem no rio.


E os pingos?

Fugiram todos.

Agarrados a um barquinho de papel.