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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O mundo possível

Deveria ser uma manhã azul e cheia de calor como muitas manhãs em Natal. Chegamos ao local indicado, em Ponta Negra, por volta das 9h. Dois mil e dois, acho... É que sou dada a esquecimentos de datas, rótulos e notas de rodapé. O que me interessa é a essência, não o reboco. Eu aguardava a visão daquela mulher com um misto de admiração e preocupação, afinal como é que se entrevista alguém que parece ser tão especial? A gente está tão acostumado a entrevistar pessoas, a constatar fatos e buscar as inúmeras verdades sob a perspectiva da violência, do descaso, da hipocrisia, ingerência e mal-caratismo dos políticos, dirigentes, judiciário, falsos salvadores da pátria e toda sorte de charlatões e ególatras por aí que, quando nos deparamos com algo cristalino, damos lugar a uma perplexidade quase pueril.

Era assim que eu estava aguardando Zilda Arns e a coletiva que daria para a imprensa. Logo que chegou na sala, os gestos comedidos e a voz serena me acalmaram e senti de imediato que jamais aquela mulher teria tempo - ou desperdiçaria o nosso - com afetações, exibicionismos e auto-referência. Cá para nó, três coisas que dão preguiça até mesmo ao bicho preguiça.

Falou sobre o trabalho à frente das Pastorais da Criança e do Idoso, de como medidas simples como higiene, alimentação balanceada - que pode ser encontrada no quintal - e carinho são antídotos contra a fome, a desnutrição, a mortalidade infantil e, sobretudo, pilares para o direito à informação, à cidadania e à vida. Perguntei linhas, ouvi parágrafos. Dona Zilda Arns possuía o dom de dar sabor às palavras. Quanto mais falava, mais fome delas sentíamos. Suas ideias altruístas estavam longe de cheirar a oportunismo. Aliás, é bom lembrar que senso de oportunidade não lhe faltava. Mas só se fosse para falar sobre a importância de se evitar que crianças morressem, que mães não tivessem acesso à saúde e velhos não fossem vistos com o devido respeito às suas lembranças e experiências.

Saí da coletiva com o bloquinho recheado de informações, a certeza de que cumprira meu papel e de que tinha uma boa chance de escrever algo que valia à pena ser degustado por outras pessoas. E saí de lá também com a sensação de que Zilda Arns era alguém que mostrava aos outros de maneira simples e tranquila que o mundo melhor não era só um sonho, mas uma possibilidade.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O mundo perde um pedaço






Fim do mundo, para minha avó, era nos depararmos com realidades como o homem chegar à lua. Ou então, no seu modo de pensar, era o homem dizer que chegara à lua e alguém acreditar! Numa esfera mais terrena, as dançarinas do Chacrinha, com seus biquínis cavados e ancas rebolativas, também prenunciavam o fim dos tempos. E olhe que ela nem sonhou em conhecer dançarinas decumbentes à mira da boca de uma garrafa, tremulando seus atributos físicos e apresentando-os ao público como uma espécie de cesta básica hortifruti.


Lembrei da minha avó nessa semana estranha em que a terra espreguiçou suas entranhas. Naquele meio-dia, quando percebi no trabalho a tela do computador tremular e senti uma espécie de torpor lento e discreto zumbindo uma sinfonia surda nos ouvidos, pensei que poderia ser o fim propalado pela minha avó. E não tive ímpetos de sair correndo, pedir perdão, fazer oração ou acender uma vela. Diante da iminência de um fim – fosse ele definitivo ou apenas um lembrete geofísico de que somos frágeis e efêmeros – calei e esperei.

Às vezes não há muito o que fazer, a não ser esperar. Deixar que o estarrecimento da perda e o desespero da tristeza decantem e se transformem numa cortina de memórias que comporão os tons da saudade e da admiração. Foi assim que me senti quando o tempo acabou para a minha avó. E ela não teve tempo de ver o fim do mundo.

Outras vezes, o fim é só um ponto de partida. A possibilidade de a gente se aperceber de que, embora não nos seja dado todo o tempo do mundo para alcançar o seu fim, é possível deixar uma marca indelével. Foi assim com a médica sanitarista Zilda Arns, que partiu – numa coincidência desconcertante – num tremor de terra no Haiti, em plena atividade humanitária, aos 75 anos, após quase trinta anos combatendo a desnutrição de crianças e proporcionando o direito à informação como instrumento transformador de vidas e de almas. Claro que sabia muito mais sobre seu trabalho à frente da Pastoral da Criança, do que sobre ela própria. Mas essa falta de intimidade não descredencia minha tristeza por sua morte. O mundo perde um pedaço quando morre alguém que trabalha para que cinco mil crianças saiam da desnutrição por ano.

Mas ainda não é o fim do mundo. E a maior e melhor multimistura de Arns permanecerá alimentando o ideário de um mundo melhor: amor, compreensão, esforço contínuo e coletivo por uma cultura de paz.


Publicado no Novo Jornal em 15 de janeiro de 2010.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Saudades do futuro


Como a nuestro parecer, cualquiera tiempo pasado, fue mejor. (Coplas. Jorge Marinque).


Amanheço com 80 anos. Como se ao dormir pudesse envelhecer para trás. Aos poucos, enquanto acostumo o olhar àquela estranha geografia compreendida em tudo que existe entre o brilho do céu e a proeza das formigas insisto no bocejo, distraio tímidas dores nas dobradiças dos dedos, extravio pensamentos e busco a segurança de tudo não ter passado de um equívoco, quiçá de um mero sonho, esse lugar que precede a história contada nos livros. Aquela mesma segurança que sentimos quando estamos diante da inexorável beleza do mar (ou seria simplesmente de sua imensidão?) e nos vem a revelação do quanto podem ser limitados nosso gestos. O mar não é para entender ou abraçar, o mar é abandono.

E quando vejo é só mais um dia que chega. O amanhecer despe-se da espera do que ainda não aconteceu: esse vento que chamamos de futuro, que está sempre se exaurindo, escorrendo pelos nossos dedos e partindo para nossas memórias. Dançarinas dos nossos sonhos, donas das nossas epopeias noturnas.

Então, quando o sol já subiu alguns palmos da medida do meu olhar, visto alguma coisa com cor de esperança e sigo. Não sei se em vão. Talvez. Algumas vezes, decerto, outras não. Vou para além de fevereiro, de agosto, de qualquer mês. Esqueço que o novo ano chegou. Esqueço de contar os dias nos calendários. Até esqueço da nostalgia que Adão e Eva deixaram em nós. Dessa imensa saudade do paraíso que não pedimos para ter.

Depois que eu cresci, só queria um instante para passar das rosas para os girassóis; daquelas cultivadas no quintal da minha infância, onde também tinha araçá, jasmineiros e sabugueiros para as outras pinceladas da memória de algum pintor, quiçá um gênio. E antes que tudo o que for fantasia e imaginação proscreva nesta estranha carpintaria, digo que sim, sinto saudades do futuro. Esse lugar onde não sou matéria substancial ou quimera de borboleta. Onde não sou, nem fui.