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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Luto literário


Nunca o vi, sempre o admirei.
Eis uma pessoa substantiva e inspiradora.
Em homenagem a José Midlin, que não quis chegar a março de 2010 e foi ter com os querubins leitores, abro um livro, e me absorvo em suas páginas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Para alguém que não gosta de ser fotografado





Não gosta de se deixar fotografar. (Por isso, Otto, o segundo gato da casa - e que eu ainda vou contar a história - está fazendo figuração nesse fragmento). É dado a profundidades e sombras. Tem timidez de passarinho livre. Mas, os olhos, esses são miúdos, de lentes que percorrem distâncias, como quem desenha no vento a poesia de uma infância simples, e um baú abarrotado de lembranças e de longas caminhadas de bicicleta na cidade dormitório. Quando era pequeno, tinha mais experiências de mar. Hoje em dia é mais chegado a navegar por entre livros.

Aprendeu a chorar ainda quando criança. E, depois que cresceu, rega as plantas só de vez em quando. Ou quando tem visita de joaninha, lagartixa, pequenos besouros e a reivindicação de um ou dois pardais.

Tem segredos guardados nos sonhos, desvendados só depois que a escuridão dos pesadelos passa.

E tem outras coisas também que vou revelar agora: mania de cutucar o canto da unha com a ponta dos dedos, ou vice-versa; recolhe lágrimas com ternura, fazendo concha com as mãos; sabe afagar nucas; dispersa o vazio do desentendimento com ajuntamentos e abraços; me atravessa com sorrisos; tem o dom de aprisionar instantes no meu coração.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Os caminhos que nos trouxeram ele...



Primeiro foi o Kiko. Era laranja, murisco, tinha umas bochechonas, daí o nome. Quando chegou em casa - por insistência da minha mãe - a Bil (minha cadelinha SRD, cor de telha que era uma peste) tinha um ano. Virou o brinquedinho dela. Até se tornarem amigos, depois numa outra fase inimigos mortais disputando o mesmo "barraco" que era uma cadeira velha de madeira que abrigava quem chegasse primeiro na área de serviço. Na velhice dos dois, faltou amizade mas sobrou respeito. Nunca vi tanto apego silencioso. Bil, morreu aos 14 anos, em maio, por conta da diabetes e dos problemas cardíacos por uns quilinhos a mais cultivados com muito macarrão e bolo de laranja (que a minha avó dava). Um mês depois, Kiko se foi, sem deixar nenhuma carta de despedida, no olhar, a escuridão da saudade.

Daí depois veio o Mingo, um murisco acinzentado, lindo de viver. Pegador geral. Não deu tempo ao tempo para envelhecer. Teve uma morte traumática, afogado na cisterna do vizinho.

Nina Lucy Fredericca me escolheu numa manhã em que eu saía para o trabalho. Tentei disfarçar meu interesse e fui embora. À noite, quando voltei, ela persistente, fraca e faminta ainda me esperava. Bom para ela, melhor para mim. No dia seguinte já tinha ração pra filhote em casa. Era pretinha e tinha uns pingos de chuva avermelhados na pelagem fininha e fofa. Os olhos eram verdes e tinha uma cara de favelada, não vou mentir. Daí o nome composto, para ela não ter traumas, nem ter sentimentos de inferioridade com os comentários de algum preconceituoso de plantão. Morava comigo e, num belo dia, segurei-a pelas orelhas para ela não despencar do mezanino enquanto tirava uma das mil e quinhentas sonecas do dia, errou o cálculo e se virou para o nada. Devia ter uns dois meses. Mamãe a recebeu de muitíssimo bom grado em casa interiorana e térrea, sem riscos de queda livre, paraquedismo, parapente ou qualquer outro tipo de aventura aérea. Cresceu, ficou linda. Eu estava em Brasília, numa viagem a trabalho, ligava para minha mãe e perguntava por Nina Lucy Fredericca: "Tá bem, minha filha. Tá bem!", disse miligundos antes de cair num pranto de me fazer querer voltar a nado do Planalto Central para o Nordeste. Nina e mais uns oito ou mais gatos haviam sido envenenados por um vizinho eunuco. Não dá para entender como alguém é capaz de fazer uma coisa dessas.

Então chegou Mel. Branquinha, olhos azuis. Linda, parecida com a Pequetita do Franklin Jorge que eu conheci dia desses. Uma vez mamãe me disse que ela estava sadia e gorda e, quando cheguei em casa, olhei e vaticinei: "Nunca vi uma pessoa (gata) engordar só na barriga, mamãe". Não deu outra: dali a alguns dias três gatinhos branquinhos como ela. Um tinha os olhos azuis, outro, deve ter puxado ao pai, tinha olhos verdes e a terceira gatinha puxou aos dois: tinha um olho de cada cor. Mel nos deu também muitas alegrias. Foi atropelada por um filho de chocadeira que passou a mil por hora numa rua estreita que só passava um carro. Não tinha uma mácula. Não sei como foi aquilo. Os olhos abertos ficaram enegrecidos e parecia que ela pedia desculpas, lamentando não poder mais comer raçãozinha pastosa, lutar judô com minhas mãos e dormir no "bucho" da minha mãe na hora da novela.

Chorei três dias. Mamãe jurava não querer mais gatos em casa. Até que começou a conversar com a geladeira e aquilo me preocupou. Vá lá, enquanto as plantas foram ganhando nome e "mimos" como casca de cenoura e pó de café eu até entendi, mas daí a achar a geladeira uma gracinha e trocar umas ideias com ela já estava demais. Minha amiga Wal, que odiava gatos, tinha recém descoberto o quanto esses seres podem ser generosos, atenciosos e comunicativos com os seres humanos. Diferente, óbvio, da servidão canina, mas com igual ou maior dedicação e respeito. Helena era a responsável por isso. Uma siamesa caramelo endiabrada que subia nas cortinas quase até o teto. Recorri à amiga para ver se ela arrumava alguma irmã da Helena para aumentar nossa família. Ela disse que ía ver e, no dia seguinte, buzinava lá em casa, com um presente no colo: "Como é linda, minha filha", disse minha mãe já completamente seduzida. Só quando deu partida no carro é que ela sorrindo e com aquele jeito maroto que só ela tem respondeu: "Mainha (ela chama minha mãe assim) é um gatinhooooo".

E foi assim que Fellini chegou em nossas vidas.
O gatinho que começou lambendo a ponta dos nossos pés e as paredes do banheiro e que agora é capaz de lamber a ponta do nariz ou as sombrancelhas, basta a gente dar bobeira. O gatinho que mia olhando no olho, e corre para o lugar onde quer que tenhamos atenção. A criatura que é incapaz de protestar quando alguém pisa na cauda dele (Mel arrancava pedaços das pernas da minha mãe), no máximo que faz é se esquivar e sair correndo. O gatinho que é matuto feito o Jeca Tatu e que corre de gente estranha que chega em casa. O gatinho bom caráter que passeia na coleira e guia e que, mesmo livre, olha para trás para saber onde eu estou, enquanto examina planta por planta, árvore por árvore, tijolo por tijolo no jardim. Dia desses, voltou do passeio e se esparramou no meio da sala. Não percebemos mas a porta ficara aberta e ele, simplesmente, permaneceu no seu canto, no lugar e perto das pessoas que ele escolheu para presentear com as lagartixas que caça (eca!), para continuar comendo pouquinho como passarinho; me acordar bem cedinho, miando fino para fazer o primeiro passeio matinal e para ouvir minhas músicas preferidas e deitar em cima dos meus livros, enquanto escrevo minhas coisas como agora.

Tem uma crônica do Vinícius de Morais que eu sempre me lembro quando penso nas pessoas e nos outros seres singulares que se instalam nas nossas vidas. Em certo trecho ele diz que a mulher dele é a junção de todas as outras mulheres que por ele passaram antes dela. Fellini é assim, como na crônica de "Para uma menina com uma flor" do Vinícius. É um presente e um aprendizado diário. Como todos os outros foram. E como ele será durante muito tempo, espero.


Vixi, que eu me empolguei. Tudo começou assim, a Tetê publicou o texto Aristogatos e foi lá no meu orkut e "caçou" uma fotinha do Fellini. Daí a Nivaldete no Lápis Virtual escreveu sobre Petit e Pat e assim, o bichinho, literalmente, do bem-querer aos nossos animais tomou conta de mim e resolvi falar mais uma vez sobre o encantamento que o encantamento de Fellini, pela existência que desconhece a morte, me causa.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Coisas que irritam pra caramba



Os apressadinhos que colocam as compras na esteira antes da gente passar as nossas


Alguém sentar em assento preferencial de idosos e pessoas com deficiência

A canção "parabéns para você, nesta data querida"....

Gente que conta final de filme ou pior:
que tece comentários imbecis a troco só de se exibir

Os "comentaristas" ou "narradores" do filme na sala do cinema. (Já não basta rir feito uma hiena?)

Gente que fala pegando na gente

Perua distribuindo penas, pensando que é pavão

Gente desocupada que vive testando coisas inúteis e depois
oferecendo como se fosse a fórmula para mudar a vida dos outros

Quem vem de surpresa e dá aqueles cutucões debaixo das costelas

Mulher com voz de gralha choca

Gentucha que falucha conosco como se fôssemos idiotuchos

Torneira pingando

Comida estragada na geladeira

Etiqueta de roupa roçando na pele

Mosca zumbindo e cantilena de muriçoca


Alguns itens foram sugeridos - e totalmente acatados - por amigos inteligentes, cultos, bem-humorado e cheios de amor à vida. Porque apesar de existirem certos seres humanos que irriiiitam e muito, a gente vai levando...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Hipocrisia

Na visão do grande mestre:

"E de certa forma, o fato de haver hipocrisia significa que existe consciência do mal, o que já é algo: aqueles que agem mal sabem que agem mal, e isso já é um avanço. Costumava-se dizer que a hipocrisia é uma homenagem que o mal faz para o bem, ou o vício para a virtude".

Borges fazendo uma pequena e profunda digressão em seu diálogo com Osvaldo Ferrari, em "Sobre a História" (p. 239). Uma pérola aos poucos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dia Estranho


na parada de ônibus uma mulher é assaltada. em poucos segundos chego perto, fico sem entender direito. muito abalada ela prende a revolta num tom verde do rosto. o neto, do lado, chora. tinha acabado de sair do banco.

uma pena. uma revolta. uma dúvida.
uma parada de ônibus. e o mundo correndo à nossa volta, alheio e quente.


gente solidária ajuda. dá carona, leva ela para longe.
fico olhando. não ouço o que me dizem ao telefone. não é medo nem angústia. desterro.

sento no ônibus e começo a ler
Camus. página 33, A queda, edição pocket. última incursão pela livraria. terceira leitura. a primeira há quase 20 anos.

calor. calor. calor. algo me exaspera de repente. penso na mulher tomada de assalto pela vilania humana. penso em Clamance. descanço o livro no colo e deito a cabeça no vidro da janela, que chacoalha meu quengo, mas me distrai e espanta os pensamentos. cochilo.


desço do ônibus no lugar de sempre. só depois é que me apercebo da perda d'A Queda. Camus não caminha mais comigo.

dia estranho.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Onde nasce a canção





Depois de sacolejar a lona dos circos da minha infância e quase me embriagar com a lembrança da alegria inocente que sentia com a aparição mambembe do palhaço, nos embalos da banda Beirute, mergulho agora nos segredos à flor da pele de Bon Iver.

Música pra mim é assim: algo que é mais fácil sentir do que falar. Carito bem o sabe. Devo-lhe até perder de vista muitos crepúsculos, algumas palavras alvissareiras sobre Estirado no Estirâncio ou Sol sem sombra de dúvidas, Edição Especial do Mada 2008, d’Os Poetas Elétricos. Disco que deveria ser apresentado aos caras do Beirute e ao artista solitário que compõe o Bon Iver, para que eles soubessem que por aqui, debaixo desse sol tropical, há música para ouvidos, olhos e pele, muito além daquela produzida pela espuma das ondas se desmanchando na areia.

Sempre que mergulho nessa caminhada sensitiva pela música, descubro hora ou outra a presença do Fellini, que se aproxima e se aconchega por cima de algum papel ou canto de livro. Geralmente, em posição de esfinge, boceja e inclina a orelha pros lados, demonstrando interesse. Para depois se entregar a um relaxamento profundo, em sonhos insondáveis. Intriga-me a curiosidade felina. Invejo a leveza dos seus gestos. Dele, só me assemelho nessa reverência pelo silêncio que guardam os gatos e os homens inteligentes.

Esse estado de sossego que me desliza por brechas invisíveis; revelando-me a poesia que há nos cantos de qualquer parede e qualquer memória; a beleza dançarina das notas que se nascem no pulmão e explodem nos metais; no namoro sonoro entre os dedos e as cordas e que prescinde de luz. Basta o olhar de dentro. E na canção que ainda vai nascer da inspiração de alguém que espera e encontra no silêncio.


Bons sonhos, Fellini.