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quarta-feira, 31 de março de 2010

Dos efeitos do tempo (em mim) II


Meu taxímetro não para de rodar. É assim desde que nascemos, eu sei. Mas a noção das estações não nasce com o tempo, nasce com o passar dos anos. E, às vezes, são coisas bem diferentes. O tempo carrega em si a característica incólume da resistência, já os anos são efêmeros, passarão. Conviver com os dois, eis um dos desafios da vida.

De que maneira escolho passar meus anos à medida em que experiencio o tempo que me é dado a cada dia? Às vezes, acordo e me encontro ingênua, perdida, criando necessidades que me são impostas por uma enxurrada de propagandas, filmes, revistas femininas que ainda desperdiçam nosso precioso tempo com receitas de "como agarrar ou manter homem". Já noutras vezes, tenho certeza: jamais assumirei uma versão caricata da minha feminilidade. Assumir minha insuficiência e minhas inabilidades em dominar o tempo é me admitir única.

Ao invés de injeções, pós, cremes, queimaduras para "fotorejuvenescimento" e cirurgias que me plastificam por dentro, primo pela libertação de ideais imaginários e inatingíveis de uma perfeição retórica, que só conseguem brotar na cabeça de gente perturbada e ególatra. Como tem nesse mundo mulher que se odeia.

Meus holofotes estão voltados para os outros. Depois que os olhares ultrapassam minhas rugas, as manchas da minha pele - gordurosa de um dia inteiro de muito trabalho -, o cabelo cheio de frizz, aí sim, poderei dizer que estou realmente sendo vista. Meus seios não são sinaleiras para decotes ou abrigam fantasias de plástico. Meus seios acalantam desejos, chamam pela proteção de mãos grandes e beijos quentes, que provoquem arrepios.

Estou aprendendo a negociar com o tempo: Ok, Você me tira o viço, mas será que pode me dar mais paciência, tolerância, discernimento, senso de ridículo, pertinácia? Então tá, negócio fechado!


Sei que nos impuseram o papel - enquanto mulheres e sempre na periferia da história - de coadjuvantes mimosas. Criadas para sermos dóceis, mansas, alheias e preocupadas com pó de arroz. E pensar que ainda tem gente que segue esse script século XIX, no desespero de congelar o rosto no espelho e no tempo. Meu foco de atração está na cara lavada e limpa, no cheiro de lavanda (de mel e outros perfumes franceses, claro), na esfoliação e limpeza facial dos joguinhos baratos e enfadonhos de sedução que acabam revelando fraqueza de espírito. Não nego a minha idade (36 daqui a pouquinho), nem minhas referências. Não digo que estou na casa dos vinte e poucos anos se já estou perto dos 40. Nunca tive vocação para ser femme fatale, nem vocação para amante da vaidade. Sou do time das amadoras. Meu principal ofício é aprender.

Quero preencher minha casa interior (cômodo que só há pouco mais de 30 anos passou a pertencer a mim mesma, a custa de muito sangue, suor, dores, torturas, sacrifícios e lágrimas de outras mulheres) com amor, compreensão, companheirismo, parceria, delicadeza, firmeza, muita conversa com as amigas(os), um bocado de erros (e tentativas de acertos) e a descoberta diária da imperfeição que me liberta da necessidade de fornos auto-limpantes, unhas postiças e pratos descatáveis. Nunca tive problemas em descascar alho, cortar cebola. Tampouco persigo a glória comprada em farmácias.


Esse texto poderia ser entitulado também assim: "Como tem mulher que se odeia".

terça-feira, 30 de março de 2010

Dos efeitos do tempo (em mim)





O tempo está passando e eu tenho entendido cada vez menos de física, equações exponenciais e sobre os índios norte-americanos (nunca fui fã de faroeste mesmo).

Daí, substituo esses conhecimentos por outros afazeres:

Observar o sol acariciando o rosto do menino que está atrasado para a escola e nem notou que uma borboleta daquelas amarelinhas abanou as asas para refrescá-lo.

Entender porque uma senhorinha de 73 anos se transforma numa menina de seis, e sorri largo para mim, enquanto descobre o doce do sorvete que eu a presenteei minutos atrás, só pelo fato de que o vendedor era um homenzinho simpático, ela era uma senhorinha gentil e eu nunca fui muito chegada a sorvetes.

Fechar o monitor; esticar braços, pernas; ir na sala ao lado; contar uma piada, ouvir uma história de final de semana; de trancoso; das descobertas dos filhos pequenos; dedicar um espaço do dia para o sorriso dos outros.

Descobrir que a solidão pode ser uma boa ouvinte no meio da multidão.

Lembrar das pessoas que amo, quando estou longe delas. Das que vivem comigo; das que moram ao lado; do outro lado do mundo; das que se perderam na oitava série; daqueloutras que me mandam cartas, e-mails, convidam para passear no calçadão; das que escrevem poemas, horóscopos e tratados sobre a vida de Chico Doido de Caicó.

Lembrar às pessoas que as amo.

Nunca, nunca, nunca esconder a alegria de uma noite bem dormida, nem da descoberta de notas desconexas de uma flautinha boba de 3 reais.

Dentre outras coisas desimportantes para a ciência, mas que são passíveis de atravessar sorrisos.

domingo, 21 de março de 2010

Outono



Tempo de colher

De capturar o cheiro da flor e o sorriso no canto da boca.

Tempo de esperar que a chuva acorde o silêncio mais profundo da terra e faça o choro brotar por entre suas fendas.

Tempo de recolher as lágrimas para enxergar a beleza que há em cada minuto da vida.

Tempo que dá mais tempo para mudar, reagir, retroagir e perdoar.


Tempo de recolher pedras e desativar campos minados de desentendimentos.

Hora de experimentar o fruto, de ultrapassar quereres e aceitar o gosto que as coisas têm.

Esquecer o caroço roído em alguma esquina para experimentar o gosto da liberdade.

As coisas são tão livres que se deixam manusear. Tentar apreender as coisas (e as pessoas) é estultice de alma vazia, sem metafísica.


Hora de acolher a cidade, de não mais desprezá-la, para o coração sentir o corpo pulsando do lado de fora. Amar as esquinas, canteiros, postes, bancos de praça, flores feridas, pétalas desgarradas, pessoas estranhas, sonidos distantes, o ronco do motor, um motivo qualquer que ainda nem surgiu que leve, simplesmente ao amor por esta cidade. A cidade tenta ser boa à sua maneira.


Tempo de colher, de garfo, de xícara, de faca, de bolo de café.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Bom motivo para o entardecer: poesia de Manoel de Barros


O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.



Da Coletânea: "Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros", Editora Planeta.

domingo, 14 de março de 2010

sábado, 13 de março de 2010

Dia de anotações




Hoje eu vou sair de casa sem hora para voltar.


E, se for o caso de ficar em casa, sem problemas, deixarei a pressa nos sapatos, que vão ficar no canto de parede, assistindo ao balé dos meus dedos por entre a poeira do chão e o mato do jardim.

Hoje eu não vou ouvir o conselho das horas.
Ensinamentos só se forem dos passarinhos fazendo telefone-sem-fio por entre os postes. Hoje quero a paciência da gestação dos ninhos.

De preferência hoje não vou prestar atenção em semáforos. E vou acreditar que a manhã, a tarde e a noite serão menos quentes. Mesmo que seja só fingimento do sol.


E por primeiro, vou anotar coisas importantíssimas do tipo: arco-íris sente cócegas ao atravessar nuvem; raios de sol atingem em cheio a alegria de um urso polar no Hemisfério Norte; duas begônias que flertavam desde o verão passado, anunciam casamento para a próxima primavera; operários da construção civil salvam pequeninas flores da ira de betoneira; a chuva mandou um e-mail via celular avisando que está num grande engarrafamento no sudeste; que dá para enxergar a beleza do mundo quando uma borboleta alça voo em direção ao nascente, dentre outras tantas coisas que agorinha mesmo eu vou descobrir e você também deve estar descobrindo neste momento.

terça-feira, 9 de março de 2010

Dentro da ilha


À minha avó



Felipa sempre dizia que era bom guardar o sono de dia para emprestar descanso à noite. Mas não. Insistia em entrecortar as horas com longas madornas. Daí pernoitava em pensamentos ao invés de sonhos.

A outra insistia que era bom acender as luzes da reflexão enquanto todos dormiam, como tolos. Era no empalidecer das nuvens que ela se encontrava com seu outro ser que vivia nas sombras da vigília. "De noite, as nuvens são sempre tão silenciosas né?", dizia a primaveril. E o outro lado respondia: "Bobagem de nuvens! Conheço a paternidade dos seus pesadelos. É a mesma mãe que de dia afaga: a vida".

Por mais que tentasse Ermita olhava em volta mas não encontrava ninguém a quem devesse perdão. De algum modo, abreviar a noite a estava tornando transparente e mordaz. Não perdia mais tempo com rosários. Se não havia contrição, não havia espaço para lamentações ou perdão. Era a vida evocando antigos sermões de Vieira, lapidando orações, exorcizando lembranças, limpando a memória para abrir espaços para novas experiências.

Tudo o que ela mais queria era abrir caminho para o sol e, duas horas depois, roubar o cheiro de algum café que escapava por entre as fendas das janelas alheias. O dia acorda azuluz.

- Não, acorda "amareluz", Ermita. Você está ficando teimosa.

E Ermita ria cinicamente para a irmã Felipa, cujo maior sonho frustrado fora nunca ter desenvolvido habilidades manuais: crochè, rococó, esculturas, dobraduras, costurar casas, botões, chuleios, colecionar dedais. Qualquer habilidade teria serventia. Mas nem violino ela foi capaz de aprender.

As duas eram muito diferentes. Isso até mesmo os vizinhos - em suas ingênuas conjecturas acerca da vida daquelas velhinhas - eram capazes de perceber. O que eles não sabiam é que ambas tinham horror à virtude das palavras. Contentavam-se com as tortas. Com o erro. O engano, a contemplação do tropeço, a lama que suja a barra da saia.

Desejavam a morte voluntária das formulinhas prontas.

Felipa diurna. Ermita noturna. Uma completando a outra.



(Qualquer semelhança com Adélia Prado, não terá sido mera coincidência)