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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sonho de Jorge






Definitivamente, Jorge não vive num mundo de aparências. Mas aparenta ser mais velho do que é.

Um filho de quatro anos que conhece o que é carinho todo dia. Coisa que ele aprendeu a colher anos a fio, na indiferença dos olhos do pai.

A fala entrecortada de silêncios e pausas deixa escapar timidez e resignação. Jorge não fala bem, mas sabe ouvir e guardar.

Durante o trabalho cérceo ao chão, Jorge não assobia, nem tem tempo de pular ponteiros. Concentra as atenções em catar a indiferença de uns e de vários para transformá-las em devaneios.

"Se eu tivesse estudado mais, podia estar aí, com essa roupa branca, essa balança desenhada no bolso", fala como se estivesse confessando às estrelas.

Jorge não quer ser astronauta, bombeiro ou técnico em gestão ambiental. Tem vontades que nem sabe dizer direito o nome. Nem sabe o quanto ainda tem de chances.


Mas hoje à tarde eu vi nos gestos telúricos de Jorge que ele sabe respeitar e amar os modos do tempo.

E eu aprendi com ele.


terça-feira, 22 de junho de 2010

Cheiros


mariaeugeniailustration.com



De chuva, sempre acompanhados pelos desenhos que fazia para espantar a vontade de brincar lá fora. Fazíamos também um enorme círculo simbolizando o sol e jogávamos sal para afastar a chuva. Às vezes funcionava e passarinho anunciava que a Arca de Noé dos nossos desejos de brincar amarelinha na rua encontrava terra firme e seca.


Mas o assunto é cheiro e não chuva então vamos lá. Hoje lembrei, de repente, do cheiro que emanava dos cabelos, do rosto e das mãos da minha avó. Cheiro de aconchego, de boas risadas, balanço de rede, cantiga de ninar, arroz de leite, chá de erva cidreira, hortelã, camomila, banana amassada com Toddy, queijo de manteiga derretido no tacho. Cheiro de lembrança de uma mulher que me ensinou a ser.


Na infância podia sentir de longe o cheiro das estrelas cadentes que invadiam de verrugas a ponta do meu dedo. Cheiro de bronca da professora, de pipoca doce na cantina. Cheiro de goiaba roubada da casa da vizinha.


Cheiro do primeiro encontro é diferente do cheiro de intimidade que exala bem depois. Um carece do outro.


Pra finalizar, tem também o cheiro do chulé do Fellini. É o único cheiro de chulé que eu gosto de sentir na vida. É tudo menos fedor. Cheiro que não arde ou invade, só aquece.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Divagações (daqui e de acolá)




Aspirações
Escrever como se as palavras tivessem acabado de ser inventadas. Sorrir com vontade. Chorar quando der vontade. Olhar como se fosse o último pôr-do-sol da minha vida. Respeitar cada movimento do universo. Dormir serena e acordar com o canto dos passarinhos.


Heranças
Minhas mãos estão envelhecendo mais rápido que todo o resto. Parece que tenho 84 anos. Mamãe diz que é genética. Do pai. Vem dele também pupilas de tamanhos diferentes. Tenho outras coisas dele. O olhar duro. Um certo ar cansado e uma predisposição esquerdista que às vezes as pessoas não entendem. Dela, tenho a vontade de ter a mesma paciência. O desejo de envelhecer com sabedoria. Amor pelos gatos. E algumas sardas visíveis para quem sabe olhar.

Sobre ser mulher
Nossa âncora não submerge, flutua.
Também não consigo encontrar uma metáfora que pudesse descrever o que penso sobre a vagina, sem parecer que essa metáfora findaria em pormenorizar a vagina ou transformá-la em outra coisa que não seja uma vagina e sua incrível função secundária: a de carregar o mundo nas costas.


(esses fragmentos são aleatórios. retirei-os de outras aleatoriedades: textos/blogsantigos/crônicas da minha vida [im]precisa)

Chuva





tão fina que
cortava a pele em
mil

e um sentimentos

e foi deixando a rua


com um brilho melancólico
e
um cheiro de passado

pedaços de lembranças
que escorriam em mim


publicado em Entremundos, 31 de maio de 2007

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Coisas importantes





Eu não sei nada sobre as grandes coisas do mundo,
mas sobre as pequenas eu sei menos.
(Manoel de Barros).



A gente morava quase no fim do mundo. Do quintal dava para ver o sol se deitando todos os dias lá para onde ficava o fim do mundo.

Todos os dias eu dava um jeito de assistir ao sol se deitar. Nunca acostumava o olhar com tanta belezura que era aquilo.


Pensava: e se um dia eu andar até chegar nesse lugar que é o fim do mundo? E conseguir atravessar o sol e queimar ao menos essa curiosidade que sinto pelas coisas que não têm nome, mas que reverberam no meu peito, como se ele fosse um sino? O que será que tem depois do fim do mundo?


Mas ali, no encontro do sol com o fim do mundo, não era tempo de perguntas. Perguntas fazem parte do desespero. Que é a mesma coisa de não saber esperar as respostas chegarem. E elas chegam, nem que venham do fim do mundo.


Naquele tempo eu não tinha máquina de fotografar. (Ainda não tinha ganhado de presente da minha tia a Love. Tias são seres originados do pote no fim do arco-íris né?). Então fotografava na memória. Deixei aquelas imagens em tom amareluz no vagão das coisas importantes: ou seja, as coisas que não podem ser medidas com fita métrica, tensiômetro, dinheiro, escrituras, etc. Importante mais ou menos assim como é a descoberta de um suculento naco de peixe fresco para um gato, do que se ele encontrasse uma pérola recém parida do ventre de uma concha.


Quando por trás da minha casa dava para ver o fim do mundo, dava também para desejar ser pedra atravessada pelo silêncio de mil anos (outra coisa importante: a idade das pedras). Dava para segurar com a mão o canto das andorinhas e convidar calango para ouvir o som que os nossos sonhos produziam horas depois da passagem do ocaso.




sábado, 5 de junho de 2010

Dia Mundial do Meio Ambiente - (Custa nada refletir)

Ô, lá em casa!


Otto(s)!
O segundo deu origem ao nome do primeiro (da foto). Detalhe para a semelhança dos dois...
É isso. É tudo de bom! Não sei qual dos dois gosto mais.





quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tom Zé - O Amor é um rock


Tom Zé é uma das nossas expressões máximas da música brasileira. Tenho profunda admiração por ele e pelo seu trabalho.
Por coincidência ontem estava cantando essa música (só o refrão, craro) e eis que hoje assisto ao clipe. Acho que é um sinal: já está mais do que na hora de colocar algo desse artista completo da música brasileira e porque não dizer da música universal.
Divirtam-se! Porque o amor é um rock, e a personalidade dele é um pagode.