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domingo, 25 de julho de 2010

Quando a morte acontece




primeiro, a gente começa uma contagem regressiva esperando a dor aguda e funda passar.


segundo, a gente tenta guiar o monstro da pergunta "porquê agora"?


terceiro, a gente pensa em inventar coisas inesquecíveis com o teu nome, como escreve-lo no mar ou vê-lo desenhado por entre as nuvens.

quarto, você ressurge nas sombras dos corredores, por detrás da porta, no desfolhar de uma roseira, no olhar azul do gato, na sucata que ganhou utilidade de coisa guardada.

e, quinto, só não há maior abandono com a tua perda porque nesse tempo que não volta mais permanecem os cheiros, a memória e o amor.

quando a morte acontece,
participam em mim paradoxos.
perda. verdade. poesia.

sábado, 17 de julho de 2010

Porta pra alma *


Antes dessa camada de pele, tempo e vento que me veste a alma - ora aflita ora calma, sempre viva - habita-me um corpo cheio de panos, tramas, cores, tecidos. Coisas que têm nome e, sobretudo, herança. Daquela que carregamos não só dos nossos avós e que estão aí desde muito: das folhas de parreira de Adão e Eva.


Perdoe-me cara editora, mas não posso falar apenas de uma peça de roupa. Seria como tentar desenhar com grafite o despudor de um amanhecer. E também tem outra coisa, sou apegada aos defeitos de nascença: nasci com olhos de muito sentir, traduzidos numa estranha mania de ver coisas nas pessoas e humanidade nas coisas. As roupas compuseram meus pedaços mais evidentes. E sem eles não conseguiria costurar essa colcha de retalhos chamada memória.

A primeira delas pego emprestado das lembranças da minha mãe pois, vivia a idade do presente sem passado. Era um vestidinho branco de bolinhas azuis, de alcinhas e dois saiotes. O apego era tanto que ela tinha de me esperar dormir - depois de um dia inteiro de muitas negociações infrutíferas - para poder desvencilhar meu corpinho franzino da peça. Naquela época o vestidinho de bolinha "zu" estava para minhas preferências fashionitas como meu estômago estava para o purée de batatinha inglesa.

Tive uma saia godet cor pêssego que quando mamãe se distraía, acreditem, virava um colant tomara-que-caia (sou anterior ao body). Uma vez, voltando de viagem fui esperá-la na estação vestida com calça jeans e aquela peça inusitada que triplicava minha cintura ao ser ensacada para baixo da calça. Naquela tarde ela vestiu minha fantasia e nada disse. Mas na semana seguinte eu tinha dois colants no armário.

Tem outra peça também da qual não consigo esquecer porque teve vida curta: um vestido pink, cheio de babados (eram anos 80, gente) que o cachorro da vizinha - sofrendo uma espécie de daltonismo sem noção - raptou do varal, rasgou, mastigou e estraçalhou saiotes, mangas e babados. Uma atrocidade nunca vista nem em páginas policiais. Como roupa não vira sucata, com o que sobrou fiz vestidinhos pink para as bonecas durante duas estações.

Agora estou às voltas a pensar com qual blusa vou usar com uma linda saia que ganhei de uma amiga. Preta, longa, com algumas flores charmosas pinceladas aqui e acolá. Posso até imaginar como seria essa peça: uma blusa com um decote em "V", talvez. Por enquanto, sem essa blusa, a saia é só uma promessa.

Mas, em geral, minhas roupas não me prometem nada. Pelo contrário, elas vivem me negando a mesmive e modismos que pasteurizam o olhar. Minhas roupas são portas, e não espelhos.


* Esse texto foi escrito originalmente para a Revista Salto Agulha da consultora de moda Gladis Vivane. A revista já está circulando por aí e dando o que falar de tão boa. E eu publico-o agora também no meu espaçinho. PS.: Esse link acima é do blog que originou a revista. Já o produto editorial pode ser encontrado aqui em Natal lá no salão da Nalva Melo, na Ribeira
.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Não sei artes marciais



Acordo bem cedo ora mal-humorada, ora fazendo uma prece porque acabei de ter um sonho bom. Eu pago minhas contas em dia. Às vezes pago adiantado, esqueço que paguei e cismo que tenho de pagar de novo (medo de mim!). Lavo meus cabelos todos os dias. Mantenho também a depilação aparentável. Checo meus e-mails. Sei fazer bem uma faxina. Não saio alardeando por aí os livros que já li e os que estou lendo. Comento brevemente sobre esse tema com quem me pergunta por boa educação ou por afinidade. Indico muito e empresto poucos livros. Tenho fases mais poemas. Tenho investido meu tempo também em leituras de revistas cheias de letrinhas e sem editoriais de moda. Nutro carinho e admiração distante por cadernos de anotações. Exerço meus deveres de amiga sempre que posso, com direito a visitas, conversas no G-Talk, mensagens de celular, aconselhamento via e-mail, uma cerveja no meio da semana, troca de figurinhas (e de petiscos) sobre gatos e outros seres afins; entendo de esmaltes, batons, sombras, bases, tenho obsessão por perfumes, acho delineador coisa dispensável, fico louca com uma boa promoção e presenteio minhas amigas com filtro solar livre de óleo (não forço a barra forjando erudição em terminhos "tchipo assim" oil free só para parecer especialista), não dispenso um bom papo sobre receita de bolo, pão caseiro, homem, política, economia, vida saudável, direito a orgia e gozar no final. Sempre peço por favor à secretaria para ela me fazer uma ligação e disfarço minha preguiça ou meu tédio quando o assunto está recorrente e sem criatividade. E por falar em direitos, tenho direito a surtar de vez em quando. De não entender um filme do Jean-Luc Godard. Direito de me indignar com político corrupto, de me divertir com as pataquadas de algumas dondocas "muita caca pra pouco penico" desocupadas que têm receitas para tudo, inclusive para justificar suas "futilezas"; me dou ao luxo de pensar e repensar minha vida quando o ônibus atrasa 40 minutos e me irritar com algumas notícias recorrentes da mídia e opiniões machistas e infelizes que justificam atrocidades cometidas contra as mulheres em pleno século 21. E tem mais: sou monoglota, heterosexual, com algumas incursões mundo afora mais para currículo que para fazer linha, vacinada, desigual, falível, estressada, meiguinha, conselheira. Não sei nenhum tipo de arte marcial, mas no sábado passado entendi o sentido basilar do judô. Sair no tapa, acho difícil, mas se preciso for, só com alguém de mãos limpas. Odeio erros de português. Atenção analfabetos de plantão: ansioso é com "s" e "corram" do imperativo correr, não é com a+o+til. Sou favorável ao direito à informação, mas falar e escrever merda é só o que tem por aí na blogosfera e tem horas que tem de ter muito saco para aturar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mentira


A ordem das pétalas

Não altera teus espinhos