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segunda-feira, 30 de agosto de 2010



"Não ter nascido bicho parece ter sido uma de minhas secretas nostalgias" - Clarice Lispector.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um pouco de Alice Ruiz


entre a terra e a lua
minha alma
tua







fico feliz
quando me encontro comigo
mas é tão ambíguo





p.66 - Dois em Um - Iluminuras

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lugares

by paul stefan

A rede da minha avó. O castelo de areia feitos por mim e os primos. A piscina da Apurn. As estantes da Da Vinci. Aquele hotel em Pipa. Aquela casa em Cotovelo. A fazenda da Tia Dalvinha. O ovo de páscoa escondido debaixo da escrivaninha. A grama perto da caixa d´água. O sofá-cama mais quentinho do mundo a caminho de Campos do Jordão. O mezanino na Ribeira. O colorido das flores em Pomerode. Um apartamento em Petrópolis. A caixinha de areia dos bichanos. Os jarros e as roseiras sentimentais. Atrás da porta para brincar de esconde-esconde. A biblioteca do Nonato e uma conversa de pessoas do interior. A mesa do mall e o café no fim de tarde. O olhar da menina aprendendo a olhar. O banco de pracinha e o futebol das crianças. A estrada que dá para Bonja. Meu quarto de criança. Os sapatos do meu pai. O colo da minha mãe. O pneu-balanço no pomar. O doce do araçá na minha língua. Memórias no seu devido lugar.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Segunda-feira


Moço, tem vitamina?

Qual? Vitamina C?

Té que pode ser sim, essa tal aí. Mas eu to falando de outra vitamina.

Qualquié?

Aquela que escorre pelos cabelos e poros dos pequenos durante o intervalo nos jardins da infância. Aqueloutra que esbarra no ímpeto e nas certezas adolescentes de que a palavra urgência define o mundo de dentro e de fora. Aquilo que anima a fome da onça ao beber água. E a mesma que arrasta a presa para bem longe da morte. Tem?

Tem, mas tá faltando.


Ok. Volto amanhã.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quarto de aluguel

Quoted from: http://leloveimage.blogspot.com/2010/01/unknown.html




Os(as) amigos(as) sempre aparecem na vida da gente com a mesma predisposição de moeda jogada no poço: dão sorte e carregam consigo uma esperança no viver. Tenho algumas dessas pessoas guardadas no bolso da afeição. Não são muitas nem baratas. Custaram-me, no mínimo, um olhar de admiração e empatia desde o primeiro momento, ou no segundo, va lá, porque nunca fui de me deixar levar por primeiras impressões. Aliás, conselho dado, e acatado, por um amigo que tenho há mais de 20 anos e que percebo que ainda nutrimos o mesmo frescor e o mesmo tremor das descobertas que nos encantavam na adolescência.

Com cada uma dessas pessoas é possível montar um histórico de momentos bem vividos. Nunca me sinto totalmente sozinha quando vasculho essas lembranças.

Agora há pouco, Anna, que faz parte da melodia desses meus dias às vezes silenciosos, me ligou para compartilhar um momento singelo da sua tarde e que reverbera em mim até agora. Aliás, no caso dela, momento que norteia seu modo de ser, generosa e doce como é, dona de uma primaverilidade capaz de gelar o coração de qualquer dragão enfurecido e de fazer florescer até o Deserto do Atacama. Mas isso não é sinônimo de ser bobinha não. É leonina e cria gatos.

Amigos sempre estão dispostos a dividir o peso de nossas bagagens. Seja na leveza de uma cesta de pic-nic, seja nas agruras de um dia mal-ajambrado que se desnuda em lágrimas. Amigos são os que mais se consentem de carregar lágrimas alheias. De certa maneira até gostam de carregar as tristezas e de dividir um pouco os momentos em que o peso do mundo se concentra nos ombros e nas ideias da gente.

Para sobreviver aos dias difíceis sempre recorro à flexibilidade infantil, às imagens de qualquer época e de qualquer infância, lugar povoado de amigos. Para se ter amigos sinceros é preciso manter-se obstinadamente criança, singelo, aberto. Amigos abraçam e beijam até mesmo por correspondência. Mas amigo não é o mesmo que disque-denúncia, disque-pizza ou disque-qualquer-coisa-a-qualquer-hora. Amigos têm direito à instabilidades temporais e pancadas de chuva podem ocorrer entre uma ou duas semanas. Desconfie de um amigo que nunca discordou de você. Nesse exercício de amar os outros cabe encontrar humor e rima até mesmo na falta de humor e na ausência de poesia.

Por isso que na minha casa interna, sempre há um quarto no qual eu reservo para alugar a um amigo. Com direito a lençois limpos, vasinho de flores, xícara de chá e uma boa e longa conversa. E, quando qualquer um ou uma chega, vou logo avisando: a forma de pagamento de preferência deve ser em suaves prestações de admiração mútua, carinho, respeito e essa coisa chamada amizade, para toda a vida se assim tiver de ser.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um pouco de Ada Lima



Oliver Jeffers




Via barcos e peixes
alvos
felpudos
a navegarem o vento
velas e escamas
refletindo o sol

e pensava

não faz sentido
esse mar
cobrindo tudo.





Ada Lima é uma das poetas mais maduras que conheço, neste árduo ofício de escrever poemas. Não faz rima besta. Não é sentimentalóide, tampouco gratuita. Já publicou Menina Gauche, pela Flor do Sal. E tem um segundo livro no forno para sair. Esse poema é um dos seus inéditos, que tenho a honra de publicar em primeira mão aqui no Bicho. Sou louca de admiração por ela. É inteligente, gostosa, sensível, doce, tem refluxo, tá vivendo o momento esmalte é o novo batom e além de tudo é minha amiga!


(Dá série Mulheres que fazem poesia)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mulheres que fazem poesia




A série "Mulheres que fazem poesia" que eu acabei de criar é um apanhadode poemas de mulheres que eu cato em mim todos os dias. Mulheres inspiradoras que fazem da morte cotidiana um encantamento de viver. Por isso tenho-as, guardo-as, libero-as para você. De agora em diante vai ser assim: toda vez que a vida me soprar alguma bem-aventurança trarei uma poesia de mulher para minha esquisitice. Não pedi licença a elas para publicar porque quando se ama e se admira não se pede licença. É isso.
Hoje foi só o começo. Ainda tem muitas outras que virão por aí.

Um pouco de Nivaldete Ferreira



silêncio
1

o som do silêncio
-de si cansado
vai crescendo em sussurro
como o do ventre cortado
da laranja

até que se gera o grito
e se alonga
ao infinito
onde tudo se torna
silêncio de novo

2

a vida começa e termina
em silêncio

por isso falamos
(far)falhamos
no intervalo

(da série Mulheres que fazem poesia)

Um pouco de Marize Castro



Descalça

Estou descalça e tenho sono.
Os pássaros daqui não me acordam.
Sou acordada por aves de outras castas.

Outras esferas.


(da série Mulheres que fazem poesia)

Um pouco de Anna Akhmatova


Portrait by Nathan Altman of Anna Akhmatova, 1914


DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"

"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.

Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.

Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria.

(da série Mulheres que fazem poesia)

Um pouco de Orides Fontela





AXIOMA


Sempre é melhor
saber
que não saber.

Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer

Sempre é melhor
desfazer
que tecer


(da série Mulheres que fazem poesia)

Maquiagem é tudo de bom!




Adoro um pozinho aqui, um batonzinho cá, creminhos "ui ui". Tem gente que não sai de casa sem e não tenho nada contra. Sou filha de uma senhora linda e vaidosa cujo primeiro "pai nosso" quando acorda é colocar pó, blush e batom, mania já herdada da minha avó. Maquiagem faz verdadeiros milagres e, com os devidos cuidados pode até dispensar ou protelar uma boa plástica para dar um tapa no visual. Pena que maquiagem não faz milagres em outros setores da vida ou da persona de uma pessoa.

Se fizesse muita gente dispensaria os rivotril e os roacutan da vida. Também dispensaria os inimidores de apetite e disfarçaria a egolatria, os quilos a mais que nenhum pretinho básico é capaz de esconder, a falta de caráter, a dissimulação, a histeria, a vaidade tola e fútil, o desequilíbrio emocional e intelectual, os desajustes domésticos, a deslealdade, a inaptidão para falar a verdade, a incapacidade de colocar-se no lugar do outro e a mais absoluta falta de sentido para a vida, a ponto de achar que uma camada de pó a mais ou a menos vai torná-la um ser menos abjeto e dispensável. Não é à toa que vemos tanta gente por aí confundindo beleza e simplicidade com auto-exposição e confissões de adolescentes tardias. Uma peninha desse tipo de gente.

Mas para mim como pena é um sentimento tão forte e importante quanto minha predisposição para entender de futebol, vamos nos divertir porque a vida é curta. O Portal Terra fez um apanhado de celebridades com e sem maquiagem. Tem cada coisa bisonha, assim como tem algumas que tirando o reboco até parecem mais lindas e frescas. Quem estiver afim de dar uma olhada, é só tocar com o mouse na seta e ver o antes e depois.

Voilá!

domingo, 1 de agosto de 2010

Um pouco de Rimbaud



Fome


Se tenho gosto, é quase só
pela terra e pelas pedras.
Meu almoço é sempre o ar,
a rocha, o carvão, o ferro.

Minhas fomes, girem, girem,
atravessem os trigais,
atraiam o alegre veneno
da flor-de-pau.

("Uma Temporada no Inferno" L&PM - Tradução de Paulo Hecker Filho)

Li em Férias no Inferno, do jornalista Carlos de Souza, algo sobre Rimbaud e sobre o filme Total Eclipse (1995) de Taylor Hackford, estrelado por Leonardo DiCaprio e David Thewlis (que meu amor disse que era cara de Ciro Gomes. E é!). Tinha o filme na minha estante há pelo menos uns dois anos. Estava lá quieto. Acho que o péssimo título em português "Eclipse de uma paixão" não me encorajava muito. Pois bem, as poucas considerações de Carlão me deixaram, no mínimo, curiosa. Assisti.

Há algum tempo atrás li até onde achei que deveria ler uma biografia do Arthur Rimbaud, capa azul, não me lembro do título. Não cheguei ao final. Para ser sincera, passados os trechos nos quais tratavam de sua literatura e a relação com Paul Verlaine, pouco me interessava saber o que ele fez na África.

Tenho também Uma temporada no Inferno.

Esse post não é um post conclusivo.

Sinto fome, de perguntas. Não de respostas.