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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cronologia sucinta de uma moça de pés descalços

# http://harlequiin.tumblr.com/page/4



Aos três anos o irmão caçula morreu. (E descobriu o purê de batatas)

Aos cinco teve o primeiro aniversário.

Aos sete uma goiaba despencou do alto do pé bem em cima do seu olho. Passou para a primeira série e contava histórias com desenhos.

Aos oito tinha asma.

Aos nove também. E a mãe e ela fugiram de casa, depois do carnaval e da fantasia de Emília.

Aos 10 fazia a quarta série e apaixonou-se pelo irmão de uma coleguinha, de 17.

Aos 11 ganhou um estojo de madeira da faber castell e escreveu o primeiro bilhete de amor.

Nos quase 13 conheceu a Avenida 2, 7 e 8. E sentia saudades da sua cachorrinha cor de barro.

Aos 14 decidiu deixar os cabelos crescerem.

Aos 15 sonhava em chegar aos 20.

Aos 17 descobriu que o amor pode ter muitos véus como na dança do ventre.

Aos 18 já perdera a conta de quantos sonos perdera à noite.

Aos 25 não se tornara médica, empresária, embaixatriz, rica, puta ou assistente de palco.

Aos 28 morreu pela primeira vez quando morava numa casa amarela de dois andares.

Aos 30 percebeu que a felicidade às vezes só é apercebida depois que passa. Daí essa estranha nostalgia pelo que ainda não chegou.

Aos 35 não tinha mais medo dos seus abismos.

Aos 40 despencou das suas certezas e reaprendeu a ler e escrever.

Aos 42 fugiu de casa novamente.

Aos 45 desejou.

Aos 50 relembrou a infância no desejo dos filhos dos filhos.

Aos 60 quase morreu, mas foi só um susto.

Aos 64 o susto passou a ser um fato.

Aos 70 as paredes mais sólidas que a cercavam só podiam ser tocadas na memória.

Aos 75 lembrou do irmão caçula que morrera sem nunca ter visto o mar.

De lá para cá, se apegou a uma firme necessidade de manter os pés nus, sentindo a obscenidade do tempo adentrando por entre os caminhos da pele.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Procura-se:


Um caderninho de anotações contendo toda sorte de pensamentos e lições sobre asas de borboleta, a coloração do ki-suco de framboeza, a (des)conjugação do verbo ser, a taboada dos sete, o cheiro de beterraba que sobe da terra molhada com as primeiras gotas de uma nuvem mal-humorada, o silêncio dos passarinhos depois das cinco da tarde, o esconderijo dos sapos-cururus por entre as folhas secas, o primeiro beijo do segundo namorado, o desespero do rabo de uma lagartixa após o golpe mortal que o separou do seu corpo, o sentimento de perda da palavra escondida por trás das entrelinhas e o som das jabuticabas batendo nos flandres nas feiras-livres.


ps.: eu nunca perco as coisas. As coisas que se perdem dentro de mim.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O casal e a chuva



O casal à espera do verde do semáforo. Sem pressa alguma. O casal no meio da neblina de uma dessas chuvas que teimam em cair em pleno prenúncio de primavera. Agarrados como se tivessem 17 anos. Mas não era bem assim. Era um casal maduro. Ele ensaiando alguns cabelos grisalhos na dança do tempo em suas têmporas. Ela decerto usava tinta. Tão abraçados e unos que passavam despercebidos pelos outros. Havia até cansaço naquela entrega serena. Os dois corpos abraçados e se apoiando. Podia sentir o peso da cabeça dela apoiando-se no ombro do homem moreno. Fazia um esforço voluntário com a ponta dos pés para ouvir o que ele dizia rente ao lóbulo da orelha. Tão absortos ao movimento de se proteger do simulacro urbano, quase invisíveis à massa de gente amorfa que não tem nome e somente, naquela hora, corria do medo da chuva molhar suas máscaras.

Talvez ele estivesse dizendo para ela: "Dê-me os livros, que eu carrego". E ela, com uma única mão fazendo de corda em seu pescoço, se negando à gentileza e dividindo com ele o peso do dia: "Não. Eu carrego. Assim você fica livre para segurar a minha mão". Porque a outra mão do amado se ocupava de uma pasta. Era por isso: ela entendia menos de matemática e mais de aconchego. Talvez eles já tivessem três filhos. O caçula com nove anos dando trabalho para aprender a regra de três; já que na casa habitam cinco, na verdade, seis com o vira-lata que acorda a vizinhança quando vê em cima do muro o gato angorá fujão da moça que mora em frente. O do meio está aprendendo a beijar na boca na escola e a mais velha fazendo cursinho pré-vestibular.

E, é possível, que naquele final de expediente, eles tenham se encontrado depois de um longo dia de afazeres e descoberto que não basta estarem juntos durante quase duas décadas. É preciso descobrir também que a vida não é feita de grandes descobertas a dois, e sim de pequenas epifanias e celebrações do cotidiano vivo e pulsante. É preciso se abraçar vez em quando. É preciso se deixar molhar pela chuva estranha de uma quase noite de setembro, que anuncia uma lua crescente tão enigmática quanto uma lua nova.

O casal e a chuva molharam meus pensamentos.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Depois da independência



Hoje acordei com o tempo represado dentro de mim e uma sonolência primeva. Poderia ouvir os cavalos selvagens trotando dentro da cabeça.

Um eco distante de compreensão sobre a vida ainda paira por sobre meus ombros cansados. O do lado direito sempre pende para o óbvio. O esquerdo para o oeste.

A brisa da manhã deixava um recado de sutilezas e urgências na minha pele. Coisinhas simples e cotidianas como respirar profundamente o silêncio da madrugada, com ânimo somente para sentir o ar da graça dos passarinhos anunciando a solidão do morro. Um morro que ladeia uma cidade cheia de casas e prédios e carros e asfaltos é sempre um morro sozinho. Seus irmãos foram mortos.

Hoje acordei sem razão alguma. Habitando-me apenas milhares de fagulhas de esquecimentos, dúvidas, incertezas, distrações. Livre para errar o passo, apagar os esboços e rabiscar no vento palavras que ainda não nasceram.

Estar vivo às vezes é um crime sem punição.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dior Homme - Un Rendez Vous (by Guy Ritchie starring Jude Law)

Chama o Samuuuu!!!
Fui lá no site a Ana Clara Garmendia - fotógrafa que eu admiro muito o trabalho e não resisti ao Jude Law... digo, ao filme produzido pelo Guy Ritchie para o perfume da Dior. Voilá!


Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera - trailer

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Transparências




Minha saudade é invisível

Não tem cor ou cheiro


Só de vez em quando escapa por entre os olhos


Em forma de gotas




Fazer o quê?

Nasci assim.

Neil Young




para Ada