Google+ Followers

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Olho de peixe

foto minha



Difícil é não tocar no tempo. Não sentir a tessitura que vem se construindo, ao longo dos dedos, da pele da mão, nos ombros, joelhos, costas, cabelo, ventre. Nem sempre seguindo linhas retas.

Tem dias que tudo é o tempo planando nas horas.

A primeira vez que olhei para o tempo que nunca muda, mas faz todo o resto mudar deve ter sido quando nasceu a consciência da primeira ferida. Com medo que o tempo curasse tudo muito rápido, voltava a cutucar, arrancar, desvendar a carne.

Teve aquela outra vez que amadureci nos olhos da minha genitora. Muito embora ela negasse minha idade com zelos e mimos dos meus tempos de ciranda, dava para ver o reflexo do crepúsculo que meus cachos faziam em seu olhar. Um brilho distante de quem observa o mar ou um grande carvalho. Deve ser isso, minha mãe está ficando com um olhar de carvalho. De quem observa o incomensurável.

Os gatos, os cachorros e os peixes têm um olhar parecido. Muito embora isso contrarie sua genealogia e a crença dos vazios de olhar para dentro.

Difícil é não olhar para dentro.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

The Elephant Man Trailer - Recomendo

Um dos filmes mais incríveis que vi até hoje na vida. Mostra a face da crueldade humana de uma maneira que angustia e envergonha. Porém o mais incrível é descobrir que os aleijões não residem na pele e sim na alma. O personagem é incrivelmente belo, apesar da anomalia genética.
Direção de David Lynch. Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft...
Recomendo!


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Apontamentos sobre um dia de ensinamentos importantes



Como diria meu mestre dos nadas, hoje despertei com "desapetites" de sentir. Não havia muita fome no meu querer também. Somente sementes de chão e algumas gotas de vento para não dizer que não falei das flores.

Durante o dia aboli a chuva de "quês" dos bilhetes que escrevo com a boca e vou distribuindo por entre os ouvidos dos outros. E permiti a passagem de alguns hiatos, que é para não dizer que não falei de silêncios.

De manhã bem cedo, dei para imitar passarinhos e arrulhar alguns sonhos renitentes que dialogam com minha preguiça de viver acordada. Dormir é enfeitar a realidade de infância. É desmaiar o tempo.

Agora, com a boca da noite escancarada e pronta para engolir de novo a marcha dos ponteiros cansados, dei para desaprender das coisas úteis. Me sou chegada a perdimentos.



PS.: Se meus poucos e queridos leitores sentirem cheiro de Manoel de Barros nas entrelinhas desse fragmento, podem consentir (e evocar) sua presença e meu total descaramento.



domingo, 10 de outubro de 2010

Pequeno tratado sobre minha casa


Minha casa, às vezes, é tão pequena que sequer comporta minha armadura. Em outras vezes, nem mesmo casa é. Só um amontoado de livros, canções esquecidas, quadros dos outros, fotografias de paisagens, gatos dormindo, azuis de uma manhã que ainda não chegou.

Tem vez que minha casa é reconhecida pelos outros. Num olhar, numa frase, até mesmo em singelos elogios. Minha casa não espera muita coisa da rua. Porque a rua já é um outro tipo de morada, onde habitam meus crepúsculos favoritos e o perfume enigmático das nuvens e, por trás das nuvens, da escuridão.

Minha casa tem poucos espelhos. E às vezes é um universo por dentro, praticamente inabitado. A não ser pelas formigas que serpenteando estradas por entre as paredes, se dirigem aos seus escritórios e empresas subterrâneas. Sempre tão disciplinadas as formigas.


Minha casa, às vezes, é um rio onde não permito o aprisionamento de peixes, passarinhos, ou toda sorte de sutilezas que a natureza é capaz de empreender. Tenho sede só de quimeras e das chuvas de estrelas que banhavam meu olhar quando eu morava em outras casas e ainda nem sabia o significado de quimeras.

Minha casa pouco importa. O que me salva mesmo é esse nomadismo absoluto que prescinde de asas. Só de silêncio e às vezes, de distância.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sobre o amor


Não sabia exatamente que era amor. Esse que trata da liga entre duas pessoas. Homem, mulher; dois seres, duas almas. Essa coisa que ata nós invisíveis de cumplicidade e, sobretudo, de planos. Pano feito de retalhos de dois tecidos vivos. Patchwork de sentimentos trocados a olho nu. Era como se toda vez que tentasse enxergar o desenho do amor, faziam-se míope as lentes. O amor lhe era uma imagem embaciada, como de um rio fino que serpenteia e preenche as veias. Sabe-se que ele existe, mas é melhor que fique lá, guardado, invisível.

O amor às vezes se apresentava com vestes idílicas e embriagadas aos borbotões de uma coisa chamada paixão. Mas, sentia que não era exatamente amor. E choviam perguntas. E desperdiçava muitas luas arrancando do peito aquele sentimento, como quem cavouca a terra em busca de pequenos matos, ervas sem dono e sem cheiro que só atrapalham o manto da terra.

Até que desistiu de buscar nomes e classificações. E parou de se emocionar com os beijos das novelas e de ler poemas provençais. Também não quis mais entender a estranha assinatura que algumas pessoas insistem em circunscrever nos outros: desenho de mera posse, repositório de solidão, quimeras de amor-perfeito.

E descobriu que, sem tipificações e fórmulas e buscas e comparações e sem um par de outras coisas inúteis e alegóricas o amor sempre estivera por perto. E dentro pois, o amor não é só humano. Tampouco espelho.