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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Dê-me asas!

Quoted from: http://kristianaparn.com/drawings.htm


Tem dias que é possível tocar em nossas asas. Noutros, elas permanecem emprestadas à discrição do silêncio. Hoje é uma segunda-feira e, como é de praxe, nasce sob a expectação dos dias mornos, cansados, brancos feito vela de sete dias. Um belo dia para se nascer sem asas. Não fossem as memórias e as pequenas variantes do cotidiano, esses presentes que se somam ao encantamento de estar vivo.

Teve um dia desses que nasceu sob o signo da brancura insípida. Todos em casa lutávamos contra a modorra da segunda-feira. Até que, subitamente, um passarinho - talvez um pardal ou uma lavadeira - invadiu nosso ninho particular, janela adentro. A princípio a invasão bucólica fora capaz de enternecer até mesmo as samambaias. Prendi a respiração exultante, afinal sempre fui afeita a visitas inesperadas de passarinhos. Vez em quando um beija-flor minúsculo exibe seu voo estático próximo ao jasmineiro das minhas paisagens íntimas e tenho vontade de me emanar em açúcar para que ele permaneça por mais tempo nessa empreitada. Tudo quase perfeito como num comercial de comedores de margarina, até que um dos meus gatos quis dar cabo à biografia daquele momento.

Ele acompanhava com os bigodes cada movimento do alado, dilatou as pupilas e - contrariando seu charme discreto e silencioso - pôs-se a miar e miar e miar, num desespero que nunca havia presenciado. Olhava-me absorto numa ideia fixa. Reivindicando suas asas! Cobrando-me (quiçá culpando-me) a infame inexistência delas. Entrelaçando seu direito de caçador ao direito do outro voar e invadir seu território.

Quis rir. Desisti. O momento era solene. Mas me confundia toda sobre a quem deveria ajudar. A qual das naturezas servir? Minhas próprias asas coçavam as costas, me incomodava o conforto dos pés rentes ao chão. E meus bigodes faziam dançar minhas convicções. Foi quando começou a chover dentro de casa pingos de luz que escapavam da janela e o passarinho se deixou inundar pelo mesmo caminho que o trouxe. Num instante éramos só a lembrança da cena e algumas penugens que cortavam a lucidez do vento.

Meu gatinho filtrou a fúria dos instintos num suspiro longo e preguiçoso. Compensou a súbita fome de asas em boas mastigadas de sua ração mais que disponível e, sublimando a memória de elefante dos gatos, dirigiu-se placidamente até o lugar mais aconchegante dos tantos lugares que lhe pertencem e dormiu.

E eu, bom voltei a viver aquele dia, simplesmente.
Mas, a casa estava diferente. Era como se tocasse, ao fundo, dentro de algum armário ou por entre as fendas de nossa imaginação, o toque suave de uma caixinha de música.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

17 de novembro


http://www.pcwatch.com/Wallpapers/Wallpaper_Info.aspx?id=2534


tem dias que o corpo amanhece vazio. ou, como diriam os esperançosos, como um copo pronto para receber algum líquido. é tão generosa a disposição dos copos. tem dias que isso é possível sim. mas há outros em que se acorda como um guarda-chuva fechado. pênsil por sobre as paredes. quase inútil a menos que chova. e há sempre alguém a espera de uma chuva, por mais passageira que seja. mas, às vezes, é melhor deixar o guarda-chuva onde está, pelo risco de chuva ácida. pessoas cuspindo palavras àsperas, com olhos que roubam nossa tranquilidade.

teve uma vez que um olhar desses quebrou o meu copo. o estardalhaço pode ser ouvido longe. saíram uma imensidão de grunhidos e gritos e palavras de dentro do corpo. sem muita alternativa, sai correndo daquele lugar. numa noite em que tinha esquecido o guarda-chuva em casa. deixei que os córregos do alfalto lavassem a minha raiva, angústia, tristeza, pedaços de mim. mas não costumo achar ruim chegar perto dos meus escombros. pior é sempre a bagunça feita pelos outros. encarar de frente um não atravessado, como bebida amarga. o silêncio do outro lado da cidade, depois de uma tentativa de retomar o interesse pelas coisas que se perderam nos dias e meses do calendário.

acho que hoje eu teria gostado de escrever um poema sobre a estranheza da vida. dessa minha absoluta predisposição para abrigar o imponderável e, num outro gesto irmão, lutar freneticamente contra o óbvio, o comezinho, o risco reto. tremo de medo da palavra vencida pelo gesto cansado. a minha alma é labiríntica. meu pessoal é poder me despir das conformidades e covardias que o tempo for capaz de esculpir. que venha o minotauro. e depois de chegar ao centro, quero voltar ao ponto de partida e erguer a taça. o copo. o corpo.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Beirut - Elephant Gun

Elogio à Culpa




Pessoas deveriam pedir desculpas em altos brados. Com o mesmo furor e empolgação de quando brigam, esbravejando e cuspindo razões. Mas, geralmente, pessoas pedem desculpas quase sussurrando. Discretas. Não sei ao certo se envergonhadas pela sanha de outrora ou se pela insegurança causada pela recusa do interlocutor, a quem se espera compreensão e tolerância.

Se não encontro caminhos retos para defender a fúria – muito embora acredite que seja matéria-prima de sobrevivência nesse mundo de órfãos – também não encontro conforto na timidez dos arrependidos. Se um casal briga alto, grita impropérios e acusações que atravessam as paredes dos apartamentos, nós, os vizinhos, ficamos presos no limbo dos ouvintes e, confesso que se sou obrigada a presenciar – mesmo que seja apenas com os ouvidos – uma briga, logo torço para que nela surja a reconciliação. Fantasio sobre como é que eles vão chegar a um acordo novamente. Quase os imagino desapertando o cinto que segura as verdades contidas nos dedos em riste, suspirando aliviados pela redescoberta da unidade.


Mas não são só os vizinhos que merecem atenção na atitude contida de fazerem as pazes no fechar das cortinas, depois da hora do jantar ou após o término da novela das nove. No palco da vida pública, por exemplo, políticos também deveriam se envergonhar em cadeia nacional ou promover carreatas e discursos em cima de palanques, tanto pelo que fizeram, quanto pelo que também não fizeram no seu ofício de tomar conta da coisa pública, do que é bem comum. Já pensou, como seria apoteótico? “Minhas senhoras e meus senhores, peço desculpas a todos porque roubei”. Ou, se a expressão não é muito condizente com os eufemismos tão particulares nos discursos políticos, seria aceitável algo do tipo: “Povo sofrido, trabalhador e honrado dessa minha terra querida, dentro da construção do processo democrático, da soberania nacional e da consolidação da justiça social, eu peço minhas sinceras escusas porque afanei. Usei de expedientes espúrios e desviei dinheiro público para engordar a minha já estufada e estrangeira conta bancária”. Isso sim é que seria um dos melhores pedidos de desculpa que ouviríamos nesses tempos insanos de descoberta dos velhos truques dos mágicos da administracão pública.


Mas a mim me parece que o arrependimento - que já foi matéria contida nas epopeias agora longínquas dos poetas - não é mais um ato de contrição; é apenas um elogio à culpa.



Esse texto foi publicado no Novo Jornal, no dia 12 de novembro. E, por sugestão do meu colega editor,de Cidades, Moura Neto, mudei o título ao publica-lo aqui.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

frase que não quer calar


hoje me senti como uma pipoca prestes a estourar em óleo quente.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sonhos

Breguinha-chic na voz dessa moça (Laura López Castro). O sotaque é tão charmosinho que não resisti.
Eis ai uma musiquinha que gruda na mente feito suco de mangaba nos lábios para quebrar o jejum do brogsson.

"tenho sonhos. amanhã será um novo dia. e certamente eu vou ser feliz"... grande Peninha!