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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Uma epifania de Natal *




Nem me lembro quando começou esse sentimento penoso que me toma no período natalino. Talvez bem cedo, quando ainda era miúda e meus sonhos eram azuis. Moram nessas lembranças algumas imagens como um desenho animado feito para a televisão, do Maurício de Souza, que eu assistia. Sentia vontade de chorar, me envergonhava e disfarçava os pedacinhos cristalizados da minha tristeza deslizando pelo rosto, enquanto meus amiguinhos tinham outras preocupações na vida, como se ocupar com as coisas do infinito. E antes que alguém pense que eu fui uma criança depressiva – e estava longe disso - moram nessa confissão abismos que eu só vim escalar na vida adulta. Bem depois de descobrir que apontar estrelas no céu não dava verrugas nos dedos.

Continuo me entristecendo e nunca sei o que me espera na manhã do dia 25. Teve uma dessas manhãs em que Papai Noel pisou no chão de cimento queimado lá da minha infância e me deixou um presente debaixo da cama. Nem na minha mais doce imaginação poderia experimentar chocolates tão saborosos como aqueles. Dividi a caixa com toda família, inclusive com minha tia que, coincidentemente, deve ter vindo de carona no trenó do Papai Noel e nos visitava naquela época.



Dei uma trégua à melancolia natalina, mas certa de que ocorrera um mal-entendido, ou uma troca de cartas, já que meu pedido era, na verdade, uma bicicleta. Ela só chegou anos depois, de segunda mão, e com os pneus furados, quando meu pai ganhou numa rifa. As câmaras de ar nunca foram substituídas e a bicicleta envelheceu num canto do quintal. Só não envelheço as ocasiões em que posso correr e deixar o vento embaraçar meus cabelos, seja de bicicleta, de carona ou simplesmente vislumbrando a distância entre o possível e o esperado.



Dia desses, quando voltava para casa, no meio de um engarrafamento babélico que os natalenses estão se acostumando a viver, vi uma mulher e dois filhos no meio-fio da avenida movimentada. O pequeno se escondia num emaranhado de panos, aconchegado ao peito da mãe. O segundo, caminhava logo atrás dela, segurando o cajado e o peso do primogênito, mirando através das costas da mulher a responsabilidade de ser inteiro, enquanto catava pedaços que os outros desprezavam ao longo da rua. O menino me olhou de relance e, naquele momento, me ocorreu uma “sinapse”, ou quem sabe, uma epifania sobre o sentimento de Natal: de que outras pessoas têm muito mais motivos para estarem tristes.


* texto publicado na minha coluna semanal do Novo Jornal na terça, 20 de dezembro.


(essa foto não tem nada a ver com o texto, mas só aparentemente, porque minha tristeza intrínseca do Natal esse ano terá um motivo concreto. há uma semana meu Otto teve de partir. estava muito doente e foi inevitável a despedida. sinto muita saudade dele. enquanto estivemos juntos, aprendi bastante com ele. era doce, educado, cheio de dignidade muito resiliente. um animalzinho muito especial)



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os 10 filmes que me fizeram chorar




Domingo desses aceitei o convite do Marcos Sá de Paula e fiz os 10+ da Coluna dele no Novo Jornal sobre os filmes que me fizeram chorar... Não sou cinéfila, nem crítica, muito menos quero a pecha de me tornar referência para qualquer tipo de lista. Mas, vá lá, os filmes que eu matutei e escolhi são bem legais e até valem algumas lagriminhas: Ei-los:

A Felicidade não se compra
(It's a Wonderful Life - 1946)
Direção: Frank Capra

É um belo “conto de Natal”, inclusive recomendo para essa época do ano. Nos faz refletir sobre as escolhas que fazemos e a reverberação delas na vida de outras pessoas. É um filme que trata da dicotomia dificuldades e esperança. Atuação impecável de James Stewart, no papel do protagonista, George Bailey.

Amores Brutos
(Amores Perros - 2000)
Direção: Alejandro González-Iñárritu

Escolhi esse filme pela força da atuação dos atores e de momentos marcantes em algumas cenas que eu não recomendo para quem tem problemas cardíacos. São três histórias independentes que têm num acidente automobilístico o ponto de intersecção. Gael García Bernal faz um adolescente que se apaixona pela mulher do irmão e usa seu cão “Cofi” para conseguir fugir com ela. E Goya Toledo faz uma modelo voluntariosa que, de repente, vê seu mundo virado do avesso e precisa se reinventar.

Casa de Areira (2005)
Direção: Andrucha Waddington

É uma história sobre a força feminina. Os homens são meros coadjuvantes nessa saga de três gerações de mulheres interpretadas por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, que intercalam vários personagens e lutam para sobreviver numa terra árida e sem perspectivas. O mito da terra prometida se funde com o pesadelo dos sonhos frustrados. Saí do cinema num estado visível de perturbação pois o filme me levou à percepção de que apesar dos conflitos, das dificuldades e de desentendimentos entre as pessoas, principalmente em relações de parentesco, quando há amor, sempre é possível a reconciliação e o respeito sobre quem somos e de onde viemos.

Magnolia (1999)
Direção: Paul Thomas Anderson

Assisti Magnólia sem nenhuma referência anterior ou recomendação de amigos. É no estilo várias tramas que se entrelaçam, cujo fio condutor é um programa de televisão ao vivo chamado “O Que as Crianças Sabem". À medida em que a complexidade dos personagens vai se descortinando, algumas atitudes aparentemente sem sentido vão se justificando. Para mim é a melhor atuação de Tom Cruise. E Philip Seymour Hoffman dá um show como sempre. Mas, o motivo que me fez chorar, foi bem específico: a grande metáfora do filme, que vem através de uma chuva absurda e inusitada. E eu não vou revelar que chuva é essa. Tem de assistir ao filme.

Encantadora de Baleias
(Whale Rider - 2003)
Direção: Niki Caro

Um filme sobre o esforço de ser quem é e encarar o peso dessa responsabilidade com muita determinação. A história fala da perda de tradição e das crenças da tribo Maori, do leste da Nova Zelândia, que acredita que seu ascendente e líder espiritual, “Paikea”, era domador de baleias. Só que o único e possível líder quebra a tradição porque é uma menina. Portanto, “Pai” (Keisha Castle-Hughes) tem que provar para seu avô – e para os demais - que é tão capaz quanto os líderes anteriores. Um filme que retrata também muita perseverança. A diretora trabalhou com nativos e descendentes da própria tribo e a garotinha protagonista é tão danada que foi, merecidamente, indicada ao Oscar de melhor atriz.

Mar Adentro (2004)

Direção: Alejandro Amenábar

Na minha opinião, uma grande atuação do espanhol Javier Bardem, fazendo Ramón Sampedro, um homem que luta pelo direito de decidir os rumos de sua vida, após sofrer um trágico acidente e ficar tetraplégico, preso a uma cama por 28 anos, dependendo dos outros. Extremamente inteligente, ele luta na Justiça, com argumentos lúcidos e profundos, pelo direito de não mais viver. Minha leitura é de que é uma película sobre respeito.

Meninos não choram
(Boys Don't Cry - 1999)

Direção: Kimberly Peirce

Se engana quem acha que a atriz Hillary Swank foi sucesso de crítica e ganhadora de prêmios somente pelo filme “Menina de Ouro”, dirigido por Clint Eastwood. Nesse filme, Swank faz uma homossexual que se transforma de Teena Brandon para Brandon Teena e se esforça para construir uma identidade masculina, numa cidade do interior do EUA, cheia de preconceito. E se alguém pensar que o preconceito e a intolerância à orientação sexual dos outros vai levar a uma violência de tirar o fôlego, acertou.

O homem elefante
(The Elephant Man - 1980)

Direção: David Lynch

Só o olhar do ator Anthony Hopkins em determinada cena desse filme já merece cântaros de lágrimas. Mas a história de John Merrick (interpretado por John Hurt) é daqueles momentos em que a gente percebe o quanto o ser humano pode ser cruel e asqueroso. Merrick nasceu com cerca de 90% do corpo comprometido por neurofibromatose. Por isso, é criado como um bicho, denominado o “homem elefante” e exibido em circos como se fora um monstro ou uma aberração, na Inglaterra Vitoriana. É como se a doença deformadora desse jovem inglês legitimasse as maiores atrocidades cometidas contra ele. Por outro lado, o rapaz que não conseguia mirar a própria face, vítima de tantos maustratos, é um ser humano grato, sensível e inteligente. Nesse filme, a gente pensa que a maior doença está nos olhos de quem vê.

O Palhaço Direção: Selton Mello

O palhaço Benjamim (Selton Mello) é triste e cansado. Filho do dono do Circo Esperança (interpretado por Paulo José), ele vive um conflito sobre quem é e o que quer fazer da vida. A película é repleta de simbologias, mas é preciso estar atento. O roteiro é leve e dá para adulto e criança se divertir. Mas, quem foi ao cinema e saiu com a cara amassada como eu, é porque de certa maneira se identifica com alguns conflitos e escolhas tratadas na trama. É um filme também muito nostálgico para mim, porque me lembrou os velhos circos que passavam pela minha cidade, quando eu era criança.


Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera...

(Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom, 2003)

Direção: Ki-duk Kim

Já assisti algumas vezes esse filme e sempre há um elemento novo a ser notado. Conta a relação entre um mestre que vive em um templo flutuante, no meio de um lago, e um jovem aprendiz, criado por ele desde a tenra infância. As estações do ano simbolizam também as estações na vida do pupilo. Quando ele se torna jovem surge uma vontade urgente de viver o “verão” dos seus dias e sentimentos como paixão, ciúme e ira vão aparecendo e levando-os a caminhos distantes daqueles ensinados pelo mestre. É um filme sobre honra e a secular lei do retorno.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um livro que atravessa histórias



Coletânea com vários nomes compõe o livro “Travessa da Alfândega” que será lançado sábado que vem.


Como um bom pescador que se põe entre a atenção e a paciência, o editor José Correia Torres Neto, lança no próximo sábado, 17 de dezembro, a coletânea de crônicas, Travessa da Alfândega (Caravela Selo Cultural), no Nalva Melo Café Salão, a partir das 20h. Nesse título ele conseguiu arregimentar textos dos mais diversos nomes de artistas, escritores, poetas, pessoas ligadas a cinema, pesquisas, arquitetura, produção cultural e jornalistas da cidade, tais como: Adriano de Sousa, Alexis Peixoto, Alex Nascimento, Ana Cristina Tinoco, Eliade Pimentel, Franklin Jorge, Lívio Oliveira, Michelle Ferret, Petit das Virgens, Rostand Medeiros, dentre muitos outros. O lançamento vai contar com show do Catita Choro & Gafieira.


Segundo apresentação do livro, Travessa da Alfândega apresenta ao leitor textos distintos entre si, mas que guardam em sua essência, reflexões sensíveis que transitam na literatura, na crítica e na experiência artística e profissional de cada um dos convidados. “Para compor o livro, foram convidadas pessoas de diversos segmentos: escritores, artistas plásticos, jornalistas, fotógrafos, cordelistas, arquitetos, produtores culturais, cineastas e intelectuais. Cada um utilizou de sua liberdade artística para compor uma crônica – ou algo além – que demonstrasse o que lhe sensibiliza, apraz ou até mesmo aquilo que pode deixar um amargor diferente no paladar”, explica o organizador.


A escolha do título do livro guarda certas particularidades que valem ser expressadas. Talvez muita gente não saiba que “Travessa da Alfândega” foi o nome de uma das mais movimentadas e famosas ruas da Ribeira, a “Rua Chile”. Nos idos de 1888 que a Câmara Municipal de Natal publicou resolução que dava novas denominações às ruas da velha Ribeira e, de acordo com o pesquisador Itamar Souza (Nova História de Natal – 2008) a Rua da Alfândega, passara a ser chamada de Travessa da Alfândega. E, em 1902, uma nova resolução dava a denominação preservada até os tempos atuais. “Afeição exagerada ou resgate memorialista” são algumas das razões explicadas por José Correia que o levaram à escolha desse nome. “E todas essas pessoas (os colaboradores) são pedras, são trilhos, são portas e janelas arqueadas como se compusessem a rua de todas as moradas”, arrisca.


Sendo assim, Travessa da Alfândega é mais uma tentativa de dar voz, corpo e sentido às palavras. Aquelas que habitam o universo de quem lê e de quem escreve. Passando pelo meio, atravessando, como o próprio nome sugere, um dos gêneros “mais brasileiros” de que se tem notícia – a crônica – cujo surgimento, alguns arriscam dizer que foi no século XIX, nas páginas dos jornais. E que chega no século XXI com frescor ou fúria de um gênero que cada vez mais se firma e galga as escadarias da literatura.



Travessa da Alfândega - Lançamento
Dia: 17/12
Hora: 20h
Local: Nalva Melo Café Salão, Ribeira
Preço: R$ 30,00


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um convite


Não é que a gente precise controlar a primavera ou tampouco ter visões sobre o secreto futuro. Mas às vezes, moço, por distração, medo ou cansaço a gente corta o destino e desfaz possibilidades em pedaços tão pequenininhos que se perdem no pó dos nossos passos.


Um café às vezes é só um café, moço. Mas também pode ser o começo de uma boa conversa. E uma conversa pode ser o entrelaçamento de ideias e de descobertas. E, de repente o olho pode brilhar e algumas faíscas podem até chegar ao coração que, por sua vez, fica aquecido. E a gente, moço, pode até ficar assim, com cara de bobo. Mas com o coração aquecido.


Se você me perguntar exatamente quem eu sou e exatamente o que eu quero, moço, eu não terei tanta precisão. Não ofereço muitas garantias e já me disseram que tenho uma certa predisposição para errar nas contas matemáticas. E nem sei se minhas palavras um dia poderiam soar grandiosas.


A verdade é que eu prefiro escutar os passarinhos. E tenho por predileção o silêncio das rosas flertando com o azul das minhas ilusões. Mas isso é outra história. Que eu só conto quando bebo café.




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

hoje



Leio um livro longo e cheio de revelações sobre um homem. E, como eu já sei o final, reluto para chegar ao lugar de onde parti.


A gente sempre quer chegar a outros lugares. Voltar para o ponto de partida parece perda de tempo. Mas, nunca é. Como aquela coisa do rio e do homem que nunca são o mesmo rio e o mesmo homem. Então, mesmo quando a gente volta para dentro, é sempre diferente.


Bateu uma saudade mas eu não saberia explicar exatamente do que ou de quem. Mas, como diz o poeta, "saudade é pra quem tem". Então, eu tenho saudades e só.


Pareço uma moça na janela vendo o mundo girar bem devagar. Ou uma moça que só tece e depois se esquece do que era para fazer com aquele pano e desfaz tudo e volta para o começo.

Clarice Falcão - Qualquer Negócio



Vai mais umaê!

Uma canção sobre amor, ah o amor...



A Clarice Falcão até que lembra uma outra cantora de vozinha doce que despontou na internet e que também é muito boa e coisa e tal. Mas o humor das músicas é único. Virei fã!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Fragmentos de um dia estranho: 11/11/11

Cali Rezo






Pode parecer senso comum. E é, não resta dúvida. Mas, a gente nunca pode perder o que não tem. Não é preciso ver os frutos nas árvores. Basta o florescimento e eles estão por lá. Se perco as horas do dia é porque, ao menos uma vez, já me embrenhei no anonimato dos seus ponteiros. Só para sentir o abandono dos segundos, saindo de folga, após constatar minha terrível prisão ao que já foi e ao que ainda será.

Nunca confundi abundância com bens; jactâncias com confissões; beleza com espelhos; cotejos com singularidade; pele de seda com os caminhos secretos dos póros.

Me perco porque é assim, sem gestos medidos ou discursos com prazo de validade que aprendo a admirar e a respeitar o abandono e o perdimento dos outros. Neles encontro caráter humano e a mais pura dignidade de ser falível para não perder tempo em ser soberbo; ingênuo para que o sofrimento com a dissimulação alheia seja redimido por uma certa poesia que habita a inocência. Os felizes que me perdoem, mas a dor tropeça por entre as flores. E os fartos também: mas guardo fidelidade ao olho do abismo.



Os Poetas Elétricos - OBJETOS CORTANTES (Videoclipe Oficial)



Sou fã!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Palhaço e uma confissão





Teve uma vez, ou uns bons pares de vezes, que eu quis fazer parte do circo. Na primeira, foi porque me apaixonei pelo palhaço e devia ter uns cinco anos. A paixão e vontade de ir embora durou umas doze horas. Quando o vi sem a pintura, desisti. Pra completar, ele ficou enrabichado por uma amiga da irmã da minha amiga.


Eu não gostava muito dos circos que tinham animais. E morria de pena do leão domado. Achava aquilo um absurdo sem tamanho. Como é que pode um rei preso? Um rei sem dentes e unhas aparadas? Um rei que se curva diante de um tampinha com um tamborete pintado na cor dourada? Faça-me o favor! No Brasil nem é lugar de leão, pensava.




Depois, eu me deixei seduzir pelas peripécias dos trapezistas e não me apaixonei por algum deles. Eu queria mesmo era ter contato com aquelas asas invisíveis que eles carregavam. As asas, ou então a mão de Deus, suspendia-os pelo ar, permitindo aqueles volteios e toda aquela graça.




Foi tendo contato com os circos que pela minha cidade passavam que eu quis ser mágica, cigana, vendedora de pipoca, mulher do palhaço, filha do dono, amiga do bilheteiro. Fora das imagens e da magia que ficavam em mim dos circos que pela minha cidade passavam que surgiu o empreendimento de montar um circo sem lonas na garagem da minha casa. Tinha palhaço, mágico, cantoras. E daqueles momentos, nasceu minha absoluta inabilidade em tocar gaita. Quase estraguei a noite numa dessas tentativas. Teve um tempo, que o circo se fundou em mim e nunca mais saiu.



- Assisti ao filme do Selton Mello "O Palhaço" nesse sábado. Um poético registro sobre as dúvidas sobre quem somos e para onde vamos. Um filme sobre identidade, amor, busca. E, claro, uma belíssima homenagem ao universo circense.

domingo, 23 de outubro de 2011

Manuscritos

Encontrei meu amigo Carito dia desses e, entre um dedo e outro de prosa, o artista que ele é me sai com essa: "às vezes é preciso mudar tudo para ficar tudo igual". Falávamos dos silêncios que às vezes nos arrebata, dos hiatos de criatividade, das angústias que nos envolve quando entramos nos labirintos de nossas próprias (re)criações e da necessidade de mudança que nos leva ao espiral de nós mesmos.



Meses e meses de um silêncio que povoa a minha solidão quieta. Meses que sinto Van Gogh, mas não consigo enxergar seus girassois, embora saiba que em algum lugar ele é e sempre será.



Moram neste texto certas desilusões, dores que me pertencem e que já não sei mais se têm mais sentido olhar para marcas de feridas expostas. Mora nesse texto um domingo absolutamente prosaico, sem revelações de futuro e com muitas incursões pelo passado. Lembrei da beleza encarnada das unhas da minha avó e das inúmeras histórias cheias de bom humor, que ela distribuía gratuitamente, sempre que alguém olhava para dentro da tristeza. A alegria da minha avó era como um trunfo que a vida lhe dera em compensação aos próprios dissabores. Vovó tinha gosto de mel de furo e farinha de gergelim: era doce e tinha sustança.


Gosto de mudança, assim como também procuro respeitar o tempo da inércia. Sou capaz de deixar durante meses o jarro, o relógio ou o quadro na hibernação. Mas sou eu em quem governo o desassossego. Não o contrário.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Revista Preá # 24 será lançada hoje, na FJA, a partir das 19h








* Além das Sombras

Regina, 68. Maria, 67. Conceição, 60. Três irmãs e uma história de vida desenhada nas sombras – da privação, da dor, do sofrimento. Cegas de nascença, desde pequenas levadas pelo pai, Manoel de Souza, cidade acima, cidade abaixo, cruzando os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco e Alagoas, para cantar nas feiras e conseguir as esmolas que garantiriam o sustento de toda a família, formada por mais três irmãos, que não nasceram sob a condição de não reconhecer a própria sombra.

Regina, 68. Maria, 67. Conceição, 60. Três irmãs e uma história de vida desenhada nas sombras – da sinceridade, da ingenuidade, da alegria. Já nos primeiros segundos de contato com essas três senhoras, a limitação física imposta pelas origens congênitas se descortina em um novo mundo, paradoxalmente iluminado – e mais próximo ao universo das crianças – e recriado por elas nos mais simples gestos. Recentemente elas estiveram em Natal, onde se apresentaram dentro do Programa Agosto da Alegria, na mostra Cultura Popular no Cinema, no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel.

“Maroca” (Maria), “Poroca” (Regina) e “Indaiá” (Conceição) tornaram-se conhecidas pelo Brasil, como “as ceguinhas de Campina Grande”, quando o diretor Roberto Berliner lançou em 2004 o documentário A pessoa é para o que nasce. O título vem de uma frase de Maroca – espécie de portavoz das irmãs, um pouco mais tímidas para falar – e que ela explica de outra maneira quando provocada: “Cada pessoa nasce com um destino. A gente não vê mas passa a mão”, diz, emendando com uma boa risada sem dentes, seguida pelas outras irmãs, num mimetismo de cumplicidade constante entre elas.

“A vida é boa”. “A pior vida do mundo é melhor do que morrer”. “É!”. As frases são ditas em cadência, praticamente ao mesmo tempo, primeiro por Poroca, depois por Maroca e por fim, Indaiá, concisa. São as respostas à pergunta se elas são felizes.

São. Apesar das sombras. Por conta das sombras. “Nosso pai era agricultor. Mas não plantava muito porque a gente vivia viajando pra cantar nas feiras. E ele não se aprumava nunca porque bebia muito. Nossa mãe [Maria Oliveira] era boa e não era. A gente já sofreu muito, Afe Maria, tinha muita gente ruim pelas feiras, botava papel e pedras na nossa bacia [o recipiente para recolher as esmolas], pisava na gente”, diz Maroca, novamente reiterada por Indaiá: “É!”.

A pessoa é para o que nasce inicialmente seria um curta de seis minutos, para uma série de TV chamada “Som da Rua”, feito em 1997. Berliner ficou tão impressionado com o que viu e ouviu que decidiu fazer o filme com elas, estreando como diretor de longa metragem. No documentário, as ceguinhas de Campina Grande cantam com Gilberto Gil, num Festival de Música em Salvador – Poroca: “O povo diz que ele é um dos maiores cantores do Brasil e que ele sabe das coisas.” Naquele período, os convites para festivais e programas de TV lhes rendeu cerca de R$ 40 mil. Com esse dinheiro, a moça que as acompanhava e que aparece no filme, Valneide, comprou uma casa para o filho dela. Regina, Maria e Conceição vivem até hoje de aluguel e moram na casa da única filha de Maria, que se chama Maria Dalva, no bairro Jardim Paulistano, em Campina Grande (PB). “Hem Heim... a Justiça que eu quero é a de Deus. Depois que a gente ganhou o dinheiro e ela comprou a casa para o filho, ela vivia aborrecida com a gente, sem paciência. Morreu de câncer de mama. E a gente também não tem como tomar a casa do menino dela, ele é de menor”, resigna-se Maroca.

Depois do filme, elas contam que passaram três meses “só andando”, tocando seus ganzás e cantando as emboladas de coco Brasil afora. Depois, os convites rarearam mais. E não negam a satisfação de sair de casa para se apresentar, quando convidadas. “Aqui foi bom demais. Tudo é bom. As pessoas são boas. O hotel era bom. Os cantos que a gente vai é melhor do que em casa, que tem muito barulho de menino”, diz Maroca.

Sempre unidas, as irmãs vez ou outra se procuram para trocar carinhos durante a entrevista. Estão novamente juntas há um ano, pois estiveram separadas nos últimos cinco anos, entre 2005 e 2010. Maroca foi morar com a filha, por conta de um acidente vascular cerebral. Quando relembram a separação, as três choram, sem reservas. “A gente não arenga não. Negócio de arengar presta não”, diz Indaiá, num raro momento de intervenção na conversa.Maroca foi a única que se casou das três: “O primeiro marido era muito ciumento, morreu de uma carne de porco que comeu. O segundo era bom, mas foi assassinado pelo meu irmão. Uma briga besta por conta de um sofá. Não tenho coragem de perdoar meu irmão. Eu amava demais o segundo.” Ele também era cego e foi assassinado pelas costas.

“Matar um cego é o mesmo que tirar a vida de uma criança”, sentencia Indaiá, continuando, mais desenvolta enquanto as outras ouvem atentamente: “Sou adulta, mas me acho uma criança.”

A mais velha, Poroca, é a única que vai sozinha ao banheiro. E Maroca diz que antes do AVC que lhe roubou alguns movimentos de perna e braço, lavava pratos e cuidava dos netos. Gostam de ouvir as novelas. “Uma novela boa é essa Cordel Encantado. Uma boa fofoca também é bom”, brinca Poroca, botando a mão na boca, numa autoreprimenda.

A conversa já está muito boa e todas se sentem à vontade. Maroca provoca a repórter a questionar Poroca sobre o que é “tetramizó”. E Indaiá se mete na conversa: “Você morre danada, e o tetramizó fica”. Poroca bota a mão na boca mais uma vez e desata a gargalhar. Unidas na escuridão, no ganzá e nas cantorias elas têm uma espécie de código para falar umas com as outras – conseguimos desvendar alguns: Vinte é “homem branco”; Treze é “carinho em mulher morena”; fun é “gente branca”, Zinho é “dinheiro” e Tetramizó é “bebida alcoólica”.Já está na hora de partir para Campina Grande. Antes, porém, Valquíria, a moça que agora toma conta delas, recomenda que todas devem ir ao banheiro. Cada uma tem de ser conduzida pela mão até o lugar. Indaiá é a primeira a entrar. Enquanto a repórter e Poroca ficam sozinhas no corredor, esta cochicha: “Eu gosto de um tetramizozinho [cerveja], mas só tomo dois copos. Porque elas não gostam que eu beba. Mas não tenho uma dor numa unha. Só tomo remédio para dor de cabeça, mas é muito difícil.”Na despedida, a repórter pede licença para dar um cheiro em cada uma. O consentimento e a retribuição vêm em forma de dois carinhos muito comuns entre elas: pegar na minha “caixa de fósforo” [orelha] e fazer o “treze” [aparar o meu queixo com a palma das mãos].

* Esse texto faz parte da publicação da Revista Preá # 24, que será lançada hoje na FJA, a partir das 19h, durante o projeto Privado é Público. A distribuição é gratuita. E, sim, o texto é meu. E a foto é do meu celular...)


sábado, 15 de outubro de 2011

Charlotte Gainsbourg - The Songs That We Sing



Ela é filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, o casal que eternizou Je t'aime, moi non plus... Como se não bastasse é queridinha de Lars Von Trier e está no desconcertante "Anticristo" e no polêmico "Melancolia". Pena que a canção não é em francês. Voilá!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

"Ainda Bem" Marisa Monte - Clipe Oficial



"Nan-nan-nan-nan" - Breguinha gruda como chiclete. E a plástica desses dois, afff!
Não resisti!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma carta que nunca será entregue

Caro F, tenho pensado em você mais vezes que o previsível. Lembrado de algumas coisas essenciais no nosso convívio como comer cenoura crua, limpar o molho do macarrão no prato com pão e ouvir o som da minha voz cantarolando alguma coisa só porque você pedia.



É fato que já faz algum tempo que ultrapassei a ponte da saudade e mergulhei no rio das memórias. Todas tão doces e com a cor dos teus olhos. Tem vezes que até nem sei se o que estou lembrando, como o calor das tuas mãos amalgamadas nas minhas enquanto caminhávamos pela praia, tuas brincadeiras com os cachorros, os livros de poema na cabeceira da mesa e a luz do banheiro acesa na madrgada porque você não gostava de dormir no escuro, são memórias reais ou evocações da minha imaginação.



Tem gente que escreve porque quer descobrir o fim. Eu te escrevo porque quero descobrir meu meio. Ou talvez encontrar as margens de um rio esquecido, mas que ainda abre córregos no meu espírito. Tem vezes que o amor abre fendas que não precisam ser fechadas. Elas convivem serenamente com nossas cicatrizes, nossas novas descobertas e o misterioso porvir.




Portanto meu querido e inesquecível F, enquanto penso em você, sigo compondo esse enredo das horas com alegria, um pouco de devaneio e alguns cristais de melancolia no canto dos olhos porque não guardo vocações eternas - e nem acredito - na supremacia da felicidade. Sublime é viver e não precisar esquecer.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O silêncio de Juliana







- A Juliana está?



- Não. Não mora ninguém aqui com este nome viu? Desculpe. - Assim mesmo. A senhora atende ao telefone e, ao perceber que é engano, pede desculpas por não poder ajudar.
No dia seguinte, o telefone toca.


- A Juliana está? - A mesma voz com a fingida displicência de quem mantém esperanças de a própria Juliana atender.


- Não meu filho. Não mora nenhuma Juliana aqui, meu amor! - Fala, trocando o pedido de desculpas por um carinho inacreditável para qualquer pessoa que recebe insistentemente uma ligação do outro lado da linha.


A cena se repete por vários dias. Sempre a mesma voz masculina. Depois de alguns dias solitário, ele arrumou companhia na busca pela moça e passou a alternar com uma voz feminina, a infindável esperança de encontrar Juliana. A senhora continua simpática ao dizer que "não, nesta casa não mora nenhuma Juliana. Quem dera morasse, e eu acabasse com sua busca ageográfica".


Será que Juliana deu o número errado? Será que ele ouviu o número errado? Será que, ao pedir a amiga para ligar, ele não pensa driblar uma "mãe possessiva" que não quer que a filha tenha encontros amorosos? Será que, de tanto ligar para o número daquela casa, Juliana não se materializará e, qualquer dia em qualquer hora dessas, ele não ouvirá a sua voz do outro lado da linha? Talvez ele nunca mais veja Juliana. Talvez tenha sido só uma confusão imaginativa do desejo profundo que nasceu dentro do peito de reencontrar uma moça que só mora por trás dos muros dos seus sonhos.


Bernardo. É preciso dar um nome ao rapaz que insiste em encontrar Juliana. Aquela moça gentil que fixou-se nos seus quereres como flor nove horas que brota no canto da calçada. Bernardo sente saudades. Toma sopa de feijão à noite e espera o dia seguinte chegar até discar de novo aquele número e ouvir a voz da doce e paciente senhora que nega como quem promete algo melhor. Que não dá palpites contrários à sua vontade e ouve a pergunta como se fora a primeira vez, como fazem os gatos cheirando e observando os mesmos cantos do jardim. Bernardo quer dar uma rosa para Juliana. Quer tornar-se o homem romântico como não se aprende nas novelas. Quer até aprender a fazer versos de amor. Bernardo quer um retrato de Juliana e seus olhos de santaputa. Quem sabe, olhando para aqueles olhos, não se contentaria com tanto silêncio de Juliana.



quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pausa na letargia




Meses e meses esperando a letargia passar. Aguardando placidamente o barco das boas novas arribar às margens da minha face perdida, meu coração em flor, a alma mole em revés ao corpo de pedra. O paraíso e inferno no silêncio dos meus dedos. Mas ela ainda não foi embora. Habita meus membros e insiste no amarelo de sentimentos arranhados.


Nessa brecha em que me escondo, antes dos dedos retornarem a me falar coisas e sonhos que possa compartilhar, um passarinho morreu na minha mão. A perplexidade de sua morte, o corpo pequeno e inerte ainda quente, fez meu tato pulsar. Nenhuma tentativa era possível. Só o guardei na caverna das minhas mãos para ter um pouco mais de tempo para lamentar a fatalidade e selvageria dos dias. Lembrei daquela outra história do passarinho morto e o milagre do palestino. Mas era sábado e talvez fosse sua hora de descanso. O passarinho foi um presente que eu não desejei ganhar. Há presentes com essa natureza.


Ontem sonhei com emissários. Eles trazem girassois, pergaminhos e bem-te-vis. Talvez um pouco de esperança porque não me acordaram bruscamente do sono. Sonho também com longas cartas, parentes distantes e um homem sem rosto, ao mesmo tempo tão familiar e acolhedor. Decerto seja um barqueiro, que trará o azul e a brancura de volta.


O que eu poderia dizer? Se não há espaços para mentiras, também não há espaço para o clandestino e o supérfluo. Mergulho nas minhas águas profundas, revolvo a terra que decanta os dias, o trabalho, as outras pessoas, os sentimentos, os rumores, as palavras e também a escuridão.


O manancial a que me entrego é libertador.


Mafalda...



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Músicas que não saem da cabeça









Magamalabares


Acqua Marã

Um barquinho oxaiê
Quem esteve aqui

Viu barquinho de gazeta

Ancorar no mistério
Notas musicais

Dentre bolas de sabão

que de nossas serenatas vieram




Nascente



Clareia manhã

O sol vai esconder a clara estrela

Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos

A luz do dia a contemplar teu corpo

Sedento, louco de prazer e desejos

Ardentes






Clara e Ana


Um coração

De mel, de melão

De sim e de não

É feito um bichinho
No Sol de manhã

Novelo de lã

No ventre da mãe

Bate um coração
De Clara, Ana

E quem mais chegar

Água, terra, fogo e ar


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Cumpleaños feliz! (metade "diário" metade crônica)







Domingo passado a primeira coisa que minha amiga fez quando chegamos à livraria para um inocente café com bolo foi apontar o livro na estante: Borges uma vida, biografia de um dos meus escritores preferidos, Jorge Luis Borges, escrita pelo autor Edwin Williamson.



Tomamos café, conversamos, encontramos outra amiga, sorrimos, nos distraímos e eu lá, pensando no livro. Absorta na ideia fixa de coloca-lo na prateleira dedicada ao autor. Foi né? Estou lendo em doses homeopáticas. Junto com Fazes-me Falta, de Inez Pedroza.




O doido é que eu não lembrava que HOJE é data de aniversário de Borges. Ele nasceu em 24 de agosto de 1899. E é muito mágico isso porque minha ignorância foi trabalhando e evocando Borges por esses dias em vários momentos. Primeiro foi na crônica que fiz para o Novo Jornal sobre a cegueira e encontros e, lá estava Borges. Depois a referência direta que todos meus amigos íntimos fazem a mim quando veem a literatura de Borges, como foi o caso de domingo passado na livraria. E eis que de repente, dando uma espiadinha agora à noite no Substantivo Plural do Tácito Costa, entendo claramente os caminhos do acaso.






* Luz que me alumia


Tive a chance de conhecer, recentemente, as “Ceguinhas de Campina Grande”. Elas ficaram famosas depois que viraram personagem principal do documentário “A Pessoa é para o que nasce”, dirigido por Roberto Berliner, e lançado em 2004. Elas vieram a Natal dentro do Programa Agosto da Alegria e se apresentaram no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, numa terça-feira chuvosa.



Disse “a chance” porque embora pareça um super clichê, estar diante delas, ouvir suas cantorias e histórias, me deram a clara percepção de que a vida vale muito à pena. E que todos os problemas que se nos apresentam têm a dimensão do tamanho do nosso olhar. Regina (Poroca), Maria (Maroca) e Conceição (Indaiá) são donas daquela sinceridade desconcertante que deixa o interlocutor sem palavras e só com sede de ouvir. Talvez porque sejam desprovidas de rebuscamentos e ricas em simplicidade, tornam tão substantivas suas histórias. Cegas de nascença, me contaram – sem qualquer resquício de autopiedade – que os pais as levavam pelas feiras-livres, para que elas cantassem e, assim, garantissem o sustento da família composta por oito pessoas. Não foi uma vida fácil na infância. Todas agora sexagenárias, ainda não têm uma vida fácil. Mas e daí? Quando pergunto o inevitável, a resposta é rápida: A vida é boa.



Apesar de todas as dificuldades que ouvi, em nenhum momento, senti escuridão nelas. Talvez a escuridão habite muito mais nas pessoas que as enxergam, do que o que elas “enxergam” no mundo e em nosotros.



Falando em portenho, um dos meus escritores preferidos, Jorge Luis Borges, no livro Sete Noites, na conferência sobre “A Cegueira”, aquela que o acometia, em certo trecho confessa: “O mundo dos cegos não é a noite que as pessoas supõem. Em todo o caso, estou falando em meu nome e em nome de meu pai e de minha avó, que morreram cegos; cegos, sorridentes e corajosos, como eu também espero morrer. Herdam-se muitas coisas (a cegueira por exemplo), mas não se herda a coragem. Sei que eles foram valentes”.



Poderia ter sido escrito para elas. E também para minha avó, Eutaciana de Azevedo Cruz que, durante parte da minha infância desconhecia meu rosto, pela visão acortinada por uma catarata precoce. Nunca fomos tão próximas uma da outra como naquela época. Ela estava sempre cantando, me balançando na rede, contando-me histórias e me beijando como se, com os lábios, pudesse sentir o meu sorriso sempre escancarado para ela. Nesse mundo de tantos outros tipos de cegueira lembrar e estar diante dessas pessoas foi realmente iluminador.

* Crônica publicada ontem no Novo Jornal




Delicado gesto

Foto: Demis Roussos





A vida é toda desenhada de cheiros, gestos, sons e lembranças. Peço licença ao vácuo da hibernação imposta pelo inverno das horas ocupadas para contar um episódio que me ocorreu ontem pela manhã. Estava diante de um homem velho e sábio, erudito e popular, sério e engraçado, loquaz e silencioso. Um homem que revelou ter dentro de si duas personagens: "Tem dentro de mim eu mesmo e um velho cabuloso chamado Ariano Suassuna".



Um velho que carrega a leveza do saber em cada lento movimento do corpo em contraposição à agilidade da alma espirituosa e sabida que abre caminhos quando fala das coisas apreendidas ao longo de 84 anos. Um velho com cara de velho. Um homem que sabe manusear bem as cordas das palavras e enlaçar gente, cotovia, pirilampo.
Um velho que, alguns dizem "chato", que adora rir-se de si mesmo e desdenhar das vaidades que lhes são dadas como dádiva ou dívida. Um velho que só quer ter mais tempo para ler e escrever. E que "namora" a mulher há 64 anos. A voz mansa e rala não faz questão de ser ouvida. As mãos encenam as histórias no ar com a mesma destreza da boca certeira a cada sílaba.



Assim é esse homem a quem tive a honra de abordar e ter dele um fino gesto de delicadeza: beijar-me a mão. Um gesto, aparentemente, tão simples e que vem se esvaindo a cada década vivida. Um gesto que enlaçou minhas horas exaustivas de trabalho em alguns segundos de puro encantamento. De saudades de uma época que eu nunca vivi. De vontade de delírio. De encantamento pelos caminhos percorridos em outras épocas e em outros tempos.



O meu tempo é curto. O tempo dos outros também. Não se para mais para beijar a mão de ninguém. E essa é uma triste rima que eu nem pensei que poderia surgir por aqui.
Não lamento pelo tempo vivido dos outros. Só tenho inclinações para abrir caixinhas de músicas que não se ouve na rádio; sentir cheiro de papel amarelado dos livros; me encantar por um gesto delicado e simples no dorso da minha mão e me lembrar disso pelo resto da minha existência.

domingo, 14 de agosto de 2011

Poema do Bukowisk




The Laughing Heart



Sua vida é a sua vida.


Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.


Esteja atento.Existem outros caminhos.


E em algum lugar, ainda existe luz.


Pode não ser muita luz, mas ela vence a escuridão.


Esteja atento.


Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.


Conheça-as. Agarre-as.


Você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.


E quanto mais você aprender a fazer isso, mais luz vai existir.


Sua vida é a sua vida.


Conheça-a enquanto ela ainda é sua.


Você é maravilhoso, os deuses esperam para se deliciar em você.


Charles Bukowski



Tava precisando de um poema desses para sobreviver neste domingo... Catei lá no Don't Touch.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O fantástico mundo do consumo *





Li o texto do psicanalista, Contardo Calligaris, na coluna da Folha de São Paulo, sobre sua experiência, dentro de casa, com o impacto que a morte da cantora Amy Winehouse causou na enteada de 11 anos e do quanto ela ficou impressionada com a morte precoce de uma cantora que na opinião de muita gente, parecia promissora pela força da voz e talento nas composições.


Relatando o fato de que a garota acordou no meio da noite e precisou ser consolada para compreender aquilo que ocorria, como todo bom psicanalista, Calligaris fez uma associação sutil, porém relevante, do sentimento de consternação que tomou conta de muita gente com a morte da Amy ao consumo exacerbado de produtos e imagens inalcançáveis de beleza, riqueza e felicidade que a mídia de modo geral nos enfia goela abaixo. Transformando-nos numa massa amorfa de desejos fúteis, inúteis e irrealizáveis. E quando falo em mídia, peço licença para explicar que não se tratam somente dos meios formais e tradicionais de comunicação como jornais impressos, televisivos e rádio, como muita gente resume. Mídia é toda a complexa rede de informações e formas de comunicar, contar histórias e "vender" ideias, conceitos e produtos, passando pelos livros, revistas, cinema, novelas, difusão de música e, nos últimos 15, 10 anos, conta com a grande rede mundial de computadores que, se por um lado deu um salto na chamada convergência de mídias e na disseminação e acesso às informações, por outro permite com igual espaço e com o salvo conduto da democratização e direito à informação toda sorte de futilidades, apelo ao consumo, desserviços e histerias que levam ao consumismo e aos vazios existenciais de crianças, adolescentes e adultos.


Calligaris lança mão de um questionamento a partir do que ele chama do "paradoxo de Amy" e faz a provocação: "o que você prefere, uma filha que se perca tragicamente nos excessos do desejo ou uma filha que chegue à vida adulta sem ter conhecido outros desejos do que os que surgem nas conversas sobre marcas de mochilas e sapatos?".


Se é que se pode encontrar ironia na tragicidade precoce da morte de alguém, especificamente dessa moça aparentemente tão promissora na arte musical, o irônico é que ela parecia a antítese da sua imagem vendida pela mídia. Nem fama, nem riqueza, nem tornar-se ícone da moda com o cabelo em formato de bolo de noiva, as sapatilhas de bailarina e o inconfundível delineador nos olhos, foram capazes de preencher seus vazios que, pelo visto, nada tinham a ver com a imagem da perfeição que alguns insistem em querer nos ludibriar.



* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Só não vale a indiferença *




Uma das coisas que aprendi com meus pais foi ter respeito aos outros e aí incluam-se os animais e plantas. Num exemplo que ficou cravado na memória, eu devia ter uns quatro anos e estava com uma mania de atravessar cães e gatos como se fossem os pneus fincados na areia do parquinho. Numa dessas vezes, pisei no rabo do cachorrinho e ele devolveu com uma mordida na canela. No meio dos primeiros-socorros levei uma bronca de ambos, me explicando que não podia fazer aquilo porque machucaria o animal e, assim como eu sentia dor, eles também sentiam dor.

Cresci, desenvolvi minhas próprias ideias e teorias sobre a vida: certo e errado, imoral, ilegal ou engorda, discordei deles em muitas coisas, mas não me desvencilhei do senso de preocupação e consideração pela dor alheia, e ai incluam-se os animais também. Sentimento esse que passa ao largo da indiferença que vejo tão de perto em vários pontos da cidade, quando o assunto é o abandono e maustratos de cães e gatos espalhados pelas ruas de Natal.

É muito fácil ver pessoas estranhando e reclamando do fato de poucas almas sensíveis alimentarem os animais de rua. É muito mais fácil ainda encontrar pessoas que se prestam a maltratar, que têm preconceitos, desinformação e, sobretudo, que teimam em ignorar o fato de que temos uma infinidade de animais abandonados, sujeitos a pegar doenças, a proliferar doenças e a se submeter a todo tipo de humilhação, dor e fome, na tentativa de sobreviver.

E fique claro que esses animais que nascem e crescem e morrem nas ruas têm em sua raiz o abandono dos seres humanos. A equação é simples e o resultado é desastroso: se alguém abandona um gato ou um cachorro à própria sorte, eles vão procriar com suas espécies, sem nenhum controle. E é isso que tem ocorrido como uma bola de neve.

Sei que algumas pessoas se compadecem e se responsabilizam, de maneira individual ou coletiva, adotando um animal, criando ONGs de proteção e sites de informação e adoção na internet, na tentativa de ajudar esses bichos. Mas o problema está longe de ser resolvido. Primeiro porque a maioria de nós é firme na indiferença ou no preconceito. E segundo, porque tem muita gente que acha que os problemas do mundo só têm a ver com as pessoas. Sei também que o Poder Público tem obrigação administrativa de recolher esses animais. De fazer algum tipo de campanha de castração coletiva e de desenvolver campanhas de sensibilização sobre a importância de não se abandonar e de se adotar os já abandonados. Mas sei também que isso pode ser uma grande falácia. E se o dileto leitor não tem vontade ou disposição para adotar um animal que carece de respeito e proteção, sem problemas. Não é obrigado a isso. Só não vale tanta indiferença.


* Publiquei no Novo Jornal ontem esse texto. Evito ao máximo cabotinagens e me colocar como exemplo de alguma coisa, então, o texto abaixo é correlato com o tema que abordo neste aqui. Mas no "brogsson" me sinto mais à vontade para expor os dois.

Lições de vida *

Otto, "beu pintinho abarelinho"



Fellini, o "Tatu Bola"






Dollores, a "Tartaruga Ninja"






Sempre tive muita atração por bichos. Pouco medo também. Às vezes até penso que deveria ter sido veterinária. Em reportagens que tive a oportunidade de fazer já peguei em cobra, jacaré, filhotes de leão e onça. Bom, mas eu quero mesmo é falar da experiência gratificante de preservar essa amizade e de criar vínculos com os outros seres que não sejam humanos.


Desde sempre cultivamos o convívio com animais domésticos em casa. A primeira foi uma cadelinha SRD+pequinês cor de tijolo chamada "Xuxa" (ok, ok, confesso que um dia eu quis ser paquita). Ela morreu velhinha. E, um mês depois, seu "companheiro" Kiko, um gato bochechudo (ok, ok, mais uma influência midiática, dessa vez vinda do seriado mexicano "Chaves"), que já tinha 12 anos de convivência pacífica com ela, morreu de saudades. Depois deles, sendo um de cada vez, passaram por casa, Mingo; Nina Lucy Fredericka e a Mel. Todos eles morreram de morte trágica, alguns vítimas da maldade humana.


Quando a Mel morreu percebi que mamãe estava muito carente e de vez em quando batendo uns papos com as samambaias e até com a geladeira. Ela resistia à idéia de ter novamente bichos em casa. Mas insisti e minha amiga Waleska disse que ía providenciar "uma gatinha" para a gente, que viria de uma ninhada de siameses. Não fazemos restrição de sexo, não temos preferência por machos ou fêmeas, não implicamos com cor ou raça e também sob hipótese alguma compramos animais. Dois dias depois chegou o Fellini (sim, um gato, até hoje não entendi esse mistério, nem questionamos nada com ela) em nosso lar. Cerca de dois meses, meio assustadinho e muito educado. A primeira coisa que fez foi fazer as necessidades fisiológicas na bacia higiênica que já havíamos preparado para ele. Ganhou mamãe na hora! Fellini é um dos animais mais inteligentes que já convivi. Aprende fácil as coisas, tem uma capacidade incrível de se comunicar, e se adaptou bem ao banho, a passear com guia, é manso, muito contemplativo, não dá trabalho para tomar remédio, o comportamento pacato conquistou o veterinário (que admitiu que preferia cachorros) e seus esportes prediletos são, nessa ordem, dormir, brincar de esconde-esconde, dar lambidas na gente e fazer dois passeios diários por dia. E ninguém estranho ao nosso lar jamais vai poder presenciar as coisas incríveis que ele faz, como tentar abrir a porta puxando o trinco, rolar no tapete e dar cambalhotas no ar com mosquitos imaginários. Porque ele é o gato mais matuto e recluso do mundo e, basta ouvir a voz ou sentir o cheiro de alguém estranho, que se esconde debaixo da cama ou em cima do guarda-roupa. Eu podia fazer mil parágrafos sobre as coisas que aprendo com Fellini, sobre o prazer que é ter um serzinho tão amoroso na minha vida. Mas tenho outras histórias para contar.

Dollores apareceu da noite para o dia perto de casa. Estava tão maltratada, tão cheia de sarna e feridas que causava repugnância em alguns e, muita angústia em mim. Precisávamos matar um pouco de sua fome desesperada. Mas era pouco. Passei uma noite pensando que precisava fazer alguma coisa. No dia seguinte, Dollores tomava seu primeiro banho. Deu um pití ameaçador para tentar me intimidar a não passar o sarnicida, mas não funcionou. Com o tratamento contínuo e diário, em uma semana as feridas já tinham sarado e ela parava gradativamente de se coçar. Os pelos começaram a crescer e ganhou peso. Fiz uma foto dela, botei num cartaz, levei para o trabalho e fiz uma campanha para arrecadar uma grana para a cirurgia de castração. Algumas pessoas torciam o nariz, outras riam de mim, outras ajudaram. Consegui a metade da grana e bancamos o resto. Foi um presente que me dei poucos dias antes do meu aniversário no ano passado. O veterinário disse que ela deveria ter uns seis meses mas, estava tão desnutrida e debilitada que ainda não tinha chegado à maturação para entrar no cio. Depois disso pedi ajuda ao Marcelo para a gente conseguir um lar definitivo para ela aqui no bichinhos precisam de lar, mas ninguém apareceu. Teve até uma amiga que desistiu na última hora de leva-la para casa, porque no meio do caminho, quando vinha buscá-la encontrou uma gatinha filhote atropelada. Não dava para competir né?


Desisti de dá-la para adoção. Começava o processo de adaptação com o Fellini que, nessa altura do campeonato, estava arredio, ciumento, agressivo e irredutível com a presença de um novo ente na família. O processo foi longo. Primeiro arrumei um "barraco" para ela na varanda, onde ela dormia e comia. Sem contato físico com ele. Mas isso a deixava exposta e me incomodava. Até que um dia chovia muito e ela saiu da varanda e foi bater na janela do meu quarto. Botei-a para dentro e assumi as consequências da ciumeira do primeiro. Posso dizer que até hoje ainda rolam umas rusgas entre os dois que ora parece briga, ora parece brincadeira. Eles não se bicam muito bem. Mas Dollores está definitivamente na minha casa e no meu coração. Depois que ela se recuperou dos maus tratos e das enfermidades se transformou num belo animal. Onde lhe faltavam pelos hoje tem em excesso. Ela é muito bonita mesmo, não é exagero de protetora. Eu sou absolutamente apaixonada por ela. Embora ela me esnobe e reclame das minhas abordagens digamos, exageradas, de dar cheiro e botar no braço. Dollores tem personalidade forte, não gosta de ser contrariada e é muito independente. Tem dificuldades em lidar com contato físico. Acho que apanhou muito e foi maltratada porque às vezes, do nada, ela se esquiva quando nos aproximamos como se estivesse se defendendo. Mas, no geral ela é relaxada e despachada e já mudou bastante. E dá umas cabeçadas na gente como demonstração de afeto e reverência. A última vez que a pesamos estava com 4,5 kg. Ela é a prova viva de que com amor, paciência e cuidados a gente pode reverter um quadro de dor e abandono.


Também falaria muito mais sobre ela, mas, ainda tem o Otto. Ele perambulava pelas redondezas desde que chegamos no nosso lar atual. É um gato de porte grande, castrado, parecia que tinha dono. Mas não tinha. Passamos a alimentá-lo (ração e água) escondidos das pessoas que tinham muito preconceito com ele. Ele era muito sujinho e maltratado e, infelizmente, nem todo mundo se sente responsável por esse tipo de crueldade e abandono que fazem com os animais, especialmente os gatos. Mas foi ele quem foi me conquistando. Como eu não o repelia, ele passou a me seguir para onde ia e me dava umas arranhadas nos pés, como se tivesse querendo chamar a minha atenção. Passei a acariciá-lo, conversar um pouco com ele e ganhando confiança. Aos poucos fui trazendo ele para comer dentro de casa porque as vasilhinhas que eu espalhava pelo condomínio para alimentá-lo desapareciam praticamente todos os dias, por algum vizinho incomodado. O primeiro banho que eu dei nele foi incrível. Otto demonstrou muita tolerância àquele estresse e mudança de sua rotina, ganhou uma cor laranja viva e brilhante e dormiu por cerca de umas oito horas seguidas, como se estivesse aliviado. Mas continuava dormindo fora. Daí, no Natal do ano passado, minha mãe arrefeceu e aumentamos a família e o número de vasilhas fixas de gatos espalhadas pela cozinha da casa. Ele está velhinho. Dorme e ronca muito. Tem mania de ficar em cima da minha escrivaninha. Se não tomar banho com uma certa periodicidade fica fedorento pra caramba, por conta dos dentes estragados, e ainda por cima é babão, e ainda não aprendeu a fazer as necessidades na bacia higiênica e faz no ralo do banheiro. E eu o amo e tento compensar todos os anos que ele passou sem um lar e sem carinho. E quando ele me olha, eu sinto que ele entende que agora não está mais sozinho. É o mais obediente da casa.


Daí, todos os dias de manhã cedo eu saio para passear com o Fellini, na guia porque é condicionado desde pequeno, e o Otto e a Dollores saem juntos. Embora eles não estejam presos a mim por uma coleira, nenhum deles sai de perto. E, quando eu volto para casa, todos eles vêm atrás, sabendo que ali é o seu lar, que ali ninguém vai bater neles, que eles têm cama mesa, banho e um sono tranquilo longe dos carros, da chuva, do sol quente e de gente que não tem vergonha de ignorar ou maltratar os animais. E eu, quando me apercebo que tenho em casa uma "ruma" de gato, penso no quanto eu sou feliz nesse exercício cotidiano de sair da zona de conforto; de aprender com eles a exercitar amor, cuidado e preocupação. Meus gatos me melhoram. Quero finalizar falando uma frase da Clarice Lispector que nos faz lembrar da nossa "selvageria" intrínseca: "Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias".


* Publiquei esse texto no Bichinhos Precisam de Lar, em 26 de maio deste ano e replico hoje.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Saudades de mim



Um afeto pelas coisas miúdas e invisíveis de repente se instalou em mim. A mulher dura que sorri uma vez por dia. A outra que afaga uma vez por mês. As mãos já tão conhecidas que alisam minhas costas e me falam de coisas corriqueiras e me dão conselhos que eu não posso seguir porque são fáceis demais para dar certo. Às vezes a vida é tão complicadinha.


Acho que estou com saudades de mim e me perco nas horas, sempre tão escassas. Saudades de palavras que não saem para passear e ganhar o mundo. Nesse exato momento, não teria muita coisa para falar. Só para sentir, como quase sempre nas horas escassas ou abundantes. Às vezes eu me pergunto: será que vale a pena? Melhor não ter tantas certezas. Às vezes a pergunta vale mais a pena que a resposta.



Oi: Tetê, Ada, Carito, Débora, Cacau... vixi, não chego a meia dúzia de leitores assíduos... me desculpem a demora e a falta de coisas mais interessante para dizer. Mas tenho andado bem depressa nos afazeres de outras letras e elas têm engolido os passos mais lentos dos meus devaneios. Beijos, com um buquê de afetos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Não somos amostras grátis *




No próximo sábado, 23, às 14h, haverá em Natal a “Marcha das Vadias”. Evento igual, aqui no Brasil, já ocorreu em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Recife. No mundo, várias pessoas aderiram e foram às ruas protestar contra a desigualdade de gênero e violência sexual. No site oficial há informações de que a Marcha das Vadias já ocorreu em Los Angeles e Chicago (EUA), Edmonton (Canadá), Edinburgo (Escócia) e Estocolmo (Suécia), além de outros países com Holanda, Dinamarca e Austrália. O nome pode parecer forte para alguns, mas a ideia é chamar atenção para um paradigma machista que, infelizmente, ainda povoa o ideário de homens que tentam legitimar o estupro como algo que foi provocado pela vítima.


O movimento original SlutWalk começou em maio deste ano, no Canadá, depois que um policial sugeriu que estudantes mulheres de uma universidade deveriam evitar se vestir como “vagabundas”, para assim, não correrem o risco de abuso sexual ou estupro. Eu nem deveria entrar no mérito desse argumento machista para justificar um estupro mas, sabendo que ele pode ser usado contra o direito das mulheres de se vestirem como bem quiserem, é bom lembrar que não são só as mulheres que se vestem como “vadias” ou de maneira provocativa aos “instintos” masculinos que são vítimas de estupro: crianças, gays, presidiários e freiras também o são, só para citar alguns.


Ao saber de um ato de violência sexual contra mulheres, precisamos abolir as perguntas: o que ela estava vestindo? Que horas eram e onde estavam? Andar de minissaia, ousar no decote e nas transparências são atitudes que não justificam desrespeito, assédio, agressão, invasão ou a tara de ninguém. O corpo feminino já pertenceu à Igreja, ao pai e ao marido. Mas pertencer a estupradores é passar de todos os limites. Infelizmente não só aquele policial equivocado do Canadá pensa assim. Aqui no Brasil, apesar de termos leis modernas ainda existem operadores do Direito, por exemplo, que usam a legítima defesa da honra como argumento de defesa para homens que mataram suas parceiras. É um negócio medieval. A honra de ninguém pode servir como espada para ferir e matar.


Logo, a Marcha das Vadias pretende reunir pessoas – independente de gênero – que defendam o direito de escolha e o direito das mulheres de não serem culpadas por violências cometidas contra elas pela vestimenta. A concentração será na Engenheiro Roberto Freire, próximo ao Posto 7.


* Texto originalmente publicado no Novo Jornal, dia 19 de julho de 2011.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pessoas são mais importantes





Teve uma vez que eu estava indo fazer uma matéria na Comunidade do Salgado, lá no Km 6. No caminho, no cruzamento da Olinto Meira com a Alexandrino de Alencar, paramos no sinal vermelho e, tudo aconteceu muito rápido. Ouvimos um estrondo muito forte que vinha do posto de combustíveis da esquina. A primeira coisa que pensei era de que o posto estava indo pelos ares. E nós, a fotógrafa, o motorista do jornal e eu estávamos a menos de três metros do lugar. Não pensei duas vezes, abri a porta do carro e gritei para que todos corrêssemos na direção contrária do fogo. Eu não queria morrer.

Naquelas pequenas frações de tempo em que o pensamento corre mil léguas à frente dos passos, eu imaginava que, se estivesse fazendo a cobertura de uma guerra não tinha como evitar a queda de uma bomba em cima da minha cabeça. Naquele momento, eu tinha essa escolha. Queria me salvar e salvar meus companheiros de trabalho. Passado o primeiro impacto da explosão ensurdecedora, antes mesmo de chegar do outro lado da esquina, olhei para trás e tentei compreender o que se passava porque eu já não tinha tanta certeza de que o posto todo estava explodindo. Na verdade, o que explodiu foi um botijão de gás dentro da lanchonete do local. Por sorte, destino ou acaso, um dos frentistas havia acabado de desligar a bomba que abastecia um carro. O impacto fora tão forte que o carro mudou de posição com o motorista dentro, estatelado de medo.

Na iminência da morte, medo e coragem se confundem. A fotógrafa, Ana Amaral, mais destemida, foi a primeira a se aproximar. Parte do teto do posto desabou. Vidros dos carros, do outro lado da rua, quebraram com o impacto. Pessoas gritavam desesperadas. Duas delas ficaram gravemente feridas. Uma morreu dias depois no hospital. A terceira, que trabalhava no local, se safou porque tinha ido ao supermercado comprar um frango. Foi uma reportagem e tanto aquela. Saíra da condição de ouvinte - e de só chegar depois - para ser parte do fato. Lutei para produzir a notícia sem cabotinagem. Página inteira. Mas o chefe queria que eu relatasse minha experiência. Achei que era pertinente.

No relato em primeira pessoa fui fiel aos meus medos. Às minhas limitações. Revelei o impulso inicial de fugir da explosão. Tempos depois, descobri que alguns colegas de um outro jornal zombaram da minha sinceridade. Confesso que até hoje não entendo o motivo da graça. Naquele dia, como em nenhum outro, pulsava dentro de mim a certeza de que a vida das pessoas é mais importantes do que as matérias.


Esse texto foi publicado hoje, no Novo Jornal.

domingo, 10 de julho de 2011

Projeto #EuSouGay



sou de áries, sou de lua, sou assim, sou assado e apoio esse projeto!
e você? compartilhe nas suas redes sociais. viva a paz!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Vai trabalhar, Rosa?


Todos os dias em que cruzamos os caminhos ele sempre me faz a mesma pergunta. Seja segunda, quinta, sábado. Dia de branco, dia de preto: "Vai trabalhar, Rosa"? Sorrio, afirmo ou afirmo, porque para ele pouco importa a resposta. Ele só quer falar comigo. É sempre educado e está sempre acompanhado de um sorriso e um de seus cães poodles brancos que eu nunca sei se é "Belinha" ou "Bolinha", companheiros inseparáveis.



Perdi o par de vezes em que já lhe falei meu nome. Não sou Cleide, Francis, Rita, Amora. Mas hoje, para ele, eu era Rosa. Também pouco importa o meu nome. Ele só quer falar comigo, ser educado e ouvido. Quase sempre me faz a mesma pergunta e replica se acertou. Assinto e ele sorri de novo. E, como um novelo que não se deixar desenrolar, volta a perguntar. Às vezes, com uma solidariedade quase senil, me aconselha a voltar para casa. "Se eu fosse você não ía não". Aí é minha vez de sorrir e lamentar não poder seguir sua recomendação.


Sigo.


Ele me segue ainda alguns passos. Fala mais um pouco. Puxa conversa. Insiste. "Acertei?"


Sempre acerta. Deixa meu dia mais raso de problemas. Fico um pouco maluquinha. Sorrio sozinha. Penso abobrinha. Faço rimas bobinhas. Engulo brisas e nem ligo se mais adiante sou obrigada a abrir a sombrinha. Depois de conversar um pouquinho com ele é como se deixasse a janela aberta para deixar a chuva entrar.





Jeff Buckley-Last Goodbye



Jeff Buckley Yuhuuuuuuuu! Caramba, ainda gosto muito desse cara. Tem coisas que o tempo não apaga. Compartilho com vocês!