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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sem ter a mínima ideia de mim


Mircea Ciurel - Visualize us



Férias são um momento especial na vida de quem trabalha. Para compreender o significado dessa palavra que de tão ampla já foi inventada no plural é preciso que se passem doze meses. Ou mais que isso em alguns casos. É uma das mais longas gestações que tenho conhecimento. Na minha vida escolar essa fatia mágica de tempo era dividida entre a euforia de passar algumas semanas na casa dos meus tios, ir à praia, brincar com meus primos e estudarmos os planetas, fazer amizades com garotas e garotos da rua e, sobretudo, aos domingos, tomar banho de piscina na Apurn: o pote de ouro no fim do arco-íris (nesse momento peço férias do novo acordo ortográfico. Para mim, arco-íris só reflete os raios solares sobre as nuvens se tiver hífen).

Nas férias até mesmo a chuva é companheira da sombra e do sol que também tem seu direito ao descanso. É um momento em que ninguém sente vergonha de dormir até tarde e de dormir no meio da tarde. E o ócio é quase uma obrigação. Também dá para ler uma porção de livros, passear com os gatos três vezes por dia e regar as plantas sempre que bater um vazio ou uma saudade de qualquer coisa que lembre escritório. Só não tenho mais saco para a sessão da tarde porque nunca mais eles reprisaram “Curtindo a vida adoidado”.

Nas férias, teve momentos em que me dei ao luxo de não ter a mínima ideia de mim. E como é bom às vezes não ser. Não se avizinhar dos problemas insolúveis ou trocar palavras com gente que não sabe ouvir.

Tirar férias é dar importância extrema ao ato de descascar batatas. Não forçar o enlace entre a casa e o botão. Viajar para dentro de si sem hora para voltar. Vale também uma pequena viagem. É bom sentir-se um desertor dos próprios cobertores. Nem que seja para depois festejar a volta para a intimidade da sua casa.

Nessa vida em que vivemos tão ocupados e quase sempre descumprindo promessas de encontrar os amigos, tomar uma sopa, um café, um cálice de vinho, é bom vez em quando deixar o nada acontecer. E que do nada floresça alguma ideia, uma esperança; um pensamento disposto a virar uma boa ação; inventar um sentimento que ainda não se sentiu; viver uma história que não foi pensada pelo destino do criador; afundar uma mágoa dentro do esquecimento; ignorar as razões só um pouquinho e em doses diárias. Pular a linha do tempo e mergulhar para o outro lado.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sonho de um vaso que queria girassóis



Noite dessas sonhei um enredo de uma quase história. O protagonista era um vaso. E o algoz uma moça. É fato que não fora um sonho qualquer já que a opressão das descobertas entrecortava minha respiração. Acordei com a impressão momentânea que só os pesadelos nos deixam.

Ela tinha um vaso que passeava pelos móveis da casa. Um jarro de rosas desertoras. Inimigo dos jardins. Toda e qualquer rosa que lá pousasse fatalmente um dia ia mofar. Cumprindo sua missão inútil de enfeitar os olhos entediados dos outros.

Tinha também uma vizinha dividida entre a inveja e a aversão por aquele vaso e suas funções. Ela dizia: "Cuidado que esse jarro pode quebrar". E a moça dona do vaso, insuficiente em si mesma, mascarava sua inquietude de não conseguir plantar ou colher qualquer coisa que fosse, que ensaiasse um dia ter vida própria, com início, meio e fim e agradecia, envaidecida, encarando o desgosto alheio como um elogio. Retribuindo com um sorriso de meia lua o que as orelhas eram incapazes de distinguir.

Na verdade, ela tinha muito medo. Um medo que nascera antes dela. Um medo que esbarrava nas rosas de plástico, escolhidas com tanto zelo, que os outros percebessem que não tinham cheiro ou textura de flor. Como a vida dela. "Eu sou sortuda. Eu sou sortuda", bradava para a vizinha, abrindo os braços e rodopiando num pé só como se fosse um enorme espantalho no meio do milharal, disfarçando uma grande culpa que carregava. A culpa de não acreditar no que sua boca dizia. A culpa de não conseguir ser inteira, de arrancar para longe de si tudo o que pudesse ter raízes, umidade, fungos, existência. A culpa de ter medo, abismada com sua própria mentira.

O que ela não sabia era que o vaso sonhava. Estivesse na mesa de centro, na prateleira da estante ou em qualquer outro canto correspondendo aos anseios volúveis de sua verduga, ele sonhava (dentro do meu sonho) com os Girassóis de Vincent van Gogh. Queria a libertação e a sinceridade prováveis longe dali e daquele assombro todo de estar sempre fingindo ser um vaso feliz e enfeitado. Nem que isso só fosse possível quando ele se tornasse cacos ou pedaços espalhados em algum monturo.

Ai eu acordei.
E descobri aliviada que era só um pesadelo. E o vaso morava muito distante de mim.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Silêncio



A melhor recordação de uma viagem é a mente livre e o coração aberto para deixar entrar o vento no rosto e as cores, sons e sabores diferentes. O retorno é sempre reconfortante também. Os cheiros e texturas familiares acolhem bem o ex-viajante. Na estrada sinto saudades do que não vivi naqueles lugares. De volta à casa, descubro que agora eles me pertencem de alguma maneira. Alguns deles, antes mesmo de nascer. Encrustrados em mim através da poeira que lavou tantas vezes os veios dos pés dos meus pais e seus ascendentes.

Quando pequena, minha avó costumava ir à feira - aos sábados - de Itabaiana; meu avô trazia bonecas de pano para minha mãe do Galante. Conheci a doçura do araçá em Serra Redonda, no pomar que tínhamos depois que passávamos da porta da cozinha. No Ingá comi pela primeira vez cuscuz doce e não gostei. Foi lá naquelas terras que senti o amargo da primeira separação que meus olhos presenciaram. Nasci na Campina, me criei no mundo. As distâncias agora parecem menores do que quando era pequena e uma, duas horas, poderiam ser tão extensas quanto a eternidade de todas as coisas que eu ainda queria ver, sentir, ouvir, experimentar. No meu passado mora uma infância multicor, com coreto e pracinha, Igreja com torre alta, amarelinha, catecismo, lápis colorido, tapioca, cachos no cabelo, cartas de amor para o garotinho da sétima série.

Diante de um emaranhado de recordações na estrada, a gente silencia. Entra numa teia onde não é mais preciso desfazer nós. Todos afrouxados pelas convicções que se desintegraram com o tempo e com a quilometragem rodada túnel após túnel que a vida vai nos apresentando.

De volta à estrada e de volta ao silêncio.


terça-feira, 11 de janeiro de 2011