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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

David Gray - The Other Side





The Other Side (Tradução)

Encontre-me do outro lado
encontre-me do outro lado
eu a verei do outro lado
eu a verei do outro lado


meu bem, para ser sincero
ainda não sei o que é o amor

mais uma miragem some na névoa do tempo
as represas não são fortes o bastante
podemos correr o quanto quisermos

não vamos desfazer o que foi feito
nem mudar o momento que já passou
encontre-me do outro lado

encontre-me do outro lado
eu a verei do outro lado
eu a verei do outro lado

sei que seria um absurdo
fingir que sou corajoso
e lhe oferecer a minha mão
para puxá-la para a terra
quando só tenho areia movediça

isso não vale o tempo que me compra
me cansei de ouvir minhas próprias mentiras

se o amor é um corvo, quando voa

encontre-me do outro lado
encontre-me do outro lado
eu a verei do outro lado
eu a verei do outro lado
meu bem, para ser sincero
ainda não sei o que é o amor

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Coisas Invisíveis

Lakhsmita Indira - Ilustration


A menina tinha uma saia rodada e uns cachinhos no cabelo. Poderia se chamar Olga, Virgínia, Sara ou qualquer outro nome que coubesse no papel. A menina tinha braços fininhos como cabelo de espiga de milho. E sua avó dizia que ela cheirava a flor de maracujá. A menina, desde muito cedo, chorava por qualquer besteirinha. Ela lembra que chorou muito quando ouviu, pela primeira vez, Love of my Life, do Queen, e ela mesma não entendia nada dessa estranha alquimia de forma e substância que compõe a música. Mas essa menina bobinha e lunar sentia as emoções - o terceiro e mais profundo elemento da música. E naquela noite em que viu a cor da música invisível ela dormiu e sonhou.


A menina, a música e os sonhos são invisíveis a olho nu. É preciso olhos de sentir e pele de perfurar para que todos possam ser imaginados. E não adiantam palavras em balões, em cartas ou acompanhando notas musicais. Para que se veja essas coisas que estão por ai escondidas por trás da luz dos dias, é preciso aprender palavras que falam o dialeto da vida.


E mesmo nesses dias, em que penso que são bastardos, tento enxergar essa menina, a música e os sonhos. Imaginar sua saia varrendo a ventania, que por sua vez compõe uma estranha sinfonia por entre as nuvens, que por sua vez descarregam pingos de chuva furando a tarde, que por sua vez embalam os sonhos da terra, desejosa das sementes que ainda dormem debaixo do chão.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

* O valor de um sebo


Estarrecimento e tristeza foram os sentimentos que me tomaram quando quarta-feira passada, ainda bem cedinho, passava pela Xavier da Silveira e vi o fumaceiro que fugia céu acima das entranhas do galpão do Sebo Cata-Livros. Para um leitor, a imagem de livros queimando é sempre aterradora. Ainda mais quando se trata de um lugar que abriga livros pertencentes a uma atmosfera ao mesmo tempo poeirente e acolhedora, convidativa ao olhar, ao toque, às descobertas. Livros que, geralmente, guardam histórias em suas páginas e nas páginas da vida de quem já os teve. Histórias que tendem a se desdobrar e ganhar novos capítulos a cada mão que os arrebata do retiro silencioso das prateleiras.
Não é que não goste de livrarias convencionais assépticas e preços estratosféricos. Mas, a tarefa da qual nos incumbimos de garimpo em um sebo é algo que vai muito além de simplesmente ser atraído por um objeto. Estar num sebo é, sobretudo, uma entrega ao inusitado; à grata surpresa de se deparar com um autor antes desconhecido ou com um outro que julgamos íntimo e necessário. É poder encontrar gentes como as gentes. Ou figuras estranhas, úmidas, com sede no olhar.
Essa trajédia vivida por Jácio e Vera me lembrou uma das últimas relações estreitas que vivi em um sebo. Rio de Janeiro. Duas horas caminhando no centro daquela capital - perdida e ao mesmo tempo cheia de esperanças – de encontrar o sebo Berinjela, que fica na mesma galeria da Livraria Leonardo da Vinci, um lugar mágico, frequentado por escritores como Carlos Drummond de Andrade que até poema fez para o lugar.
A primeira vez que eu fui ao Berinjela, foi na companhia do casal Pablo e Ana Cláudia Capistrano, em 2005. Ocasião em que eu também conheci a Da Vinci. Desde então, sempre que vou ao Rio tenho por obrigação passar nesses dois lugares. Pois bem, naquela última vez, como dizia, perdida e com os cariocas naquela simpatia atrapalhada, me dando informações atravessadas, demorei para chegar ao endereço da Avenida Rio Branco, 185. Quando cheguei, fui logo anunciando minha aventura, como que entoando a música do Cidade Negra: “Você não sabe o quanto eu caminhei, para chegar até aqui”. Imediatamente passei ao garimpo. Tanto livro desnorteia. A vida fica curta diante de tantas páginas. Um senhor octagenário circulava por entre as prateleiras e me olhava como se tivéssemos muito em comum: a certeza desse encurtamento.
Passado um tempo, perguntei a um dos ajudantes se não havia alguma exemplar da Clarice Lispector. Discretamente vi que um moço bonito, meia-idade – parecia o proprietário – entregou um livro a ele sussurrando: "para ela é cinco reais". Fingi distração. O rapaz me entregou O Lustre, 3ª edição, 1967, José Álvaro Editora. Capinha verde, carcomida nas extremidades. Um verdadeiro achado. Um tesouro de valor inestimável. Generosidades e desprendimentos que só se vê em sebos. Aqui, como no Cata-Livros, ou em qualquer outro lugar.

* Esse texto foi publicado, originalmente na minha coluna, na sexta-feira, 18, no Novo Jornal.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Do monociclo à corda bamba

Foto: Ney Douglas


Primeiro, alguém me fabricou.
A espuma que me compõe é como os ossos que sustentam o seu corpo. E minha pele nunca vai ter brotoejas. Mas sou capaz de sentir o calor que emana das mãos de quem me afaga. Disso eu sou capaz.


Depois, eu conheci o garotinho.
Ele me olhou e logo apontou para o pai, insistindo para que me comprasse. Lá eu me mudei da prateleira do homem para a casa do garotinho. Ganhei muitos outros companheiros de quarto, entre ursinhos, robôs, alienígenas. Tinha até dinossauro. Fizemos muitas farras. Vez em quando até algumas formigas aproveitavam o final da festa e levavam suprimentos de restos de pipoca, bolo, chocolate, mingau de aveia. Era como se vivesse pendurado nas cores do arco-íris. Pertinho de mim vivia uma bailarina por quem, certa vez, pensei estar apaixonado. Mas, depois de um certo tempo, olhando-a bem de pertinho, percebi que nosso amor era impossível porque ela estava mesmo era arrastando asa para um pato de pelúcia lavável que ficava do outro lado do quarto e só pensava em tomar banho de banheira.


Depois da visita da prima mimada, tudo mudou.
Era uma tarde carregada de silêncios. As visitas resolveram nos deixar quietos e foram tomar banho de piscina. A menina de olhos grandes e cabelo escorrido aproveitou a casa vazia e entrou no quarto com quilos de inveja e solidão escondidas nas intenções brancas. Deu um chute no pato, mordeu a pata do tiranossauro, pisou em cima das teclas coloridas do piano e veio pra cima de mim. Fiquei todo estropiado. Perdi um pé, uma mão, minhas articulações na cintura ficaram comprometidas e ninguém nunca mais soube onde foi parar meu monociclo.

Passadas umas ralas investigações. Os choramingos do meu garotinho. A falinha miada e dissimulada da menininha negando tudo, achando ela mesma outros culpados pela sua própria maldade, decidiram fazer uma limpeza e, junto com os escombros, esquecer o que aconteceu.


Esqueceram tão bem que nem sequer o garotinho se despediu de mim quando me jogaram no tambor do lixo. Naquele lugar escuro e, não posso negar, não muito cheiroso, os objetos me trataram com brandura. Era difícil ali, me atrapalhando todo para falar e explicar que com um pouco de carinho e paciência eu ainda poderia funcionar. A saudade me escorrendo pela gravata. O chapéu necessitando de asas para exercitar a liberdade. Foi quando uma flor se abriu dentro de mim e senti uma mão me puxando. Como se eu pudera mesmo virar um cravo ou um jasmim e conseguir atrair alguém com alma de borboleta.


Agora, estou em franca recuperação.
Tiraram meu retrato. E ouvi dizer que há até fila de espera para ver quem é que fica comigo. Como não tenho mais meu monociclo, sigo equilibrando meus sonhos na corda bamba que é essa vida.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Precisando...


... relaxar
fazer coisas fora de hora, sem hora para começar ou acabar
quem sabe comer algodão doce
ler um poema de Manoel de Barros
comer "tacha" (pistache) com o Théo
ler uma historinha para Bárbara
passear mais de 15 minutos com meus gatos pelos prados do condomínio
visitar mais vezes a lua lá fora
chorar um pouquinho para

lavar a alma

faxinar as angústias
dançar
dormir um bocadinho mais
fazer uma viagem
andar de pés descalços (isso eu faço!)
encontrar um desenho colorido com um jacaré com cara de pastel e uma menina com cara de menina (ops! encontrei!)


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Otto - Pra Ser Só Minha Mulher



A mistura inusitada dos puteiros da Augusta, o inigualável Xico Sá e o xará do meu gato número 3 dá nessa pérola do cancioneiro brasileiro. Resumindo: massa! Risos

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Uma ida à infância


- Os sapos têm uma forma tão primitiva de andar. Diz ela.

- É porque eles estão na interface da evolução. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Explica ele.

A interface da angústia: à tarde a moça tem uma esperança e à noite ela sonha tanto e tanto que acorda com os olhos esvaziados pelo desalento. Queria apenas ter sonhado com uma sabedoria sem mistérios ou labirintos. NUnca teve pretensão de compreender ou controlar os sonhos. Talvez esse tenha sido seu erro. Mas só talvez.

Alinhava o leite num pedaço de pão e dá um nó frouxo na fome, que parece que é tão funda quanto um poço sem moedas. Subitamente lembra do ar triste de um casarão que cruzava seu caminho nas tardes crepusculares dos seus oito anos. Oito anos é uma idade boa, fértil. Idade em que as rezas são frescas como o orvalho e a fé se concretiza num pedaço de biscoito de chocolate ou num gibi comprado na banca. Personagens só os dos desenhos animados. As meninas têm medo do casarão. Ela não. Cultiva curiosidade e mastiga o desejo de desbravar toda aquela escuridão que escapa daquelas frestas.

- Depois da escuridão, vem o quê? Perguntava para o pai, com curiosidade caleidoscópica. E insistia: - Quando eu fecho os olhos eu vejo coisas que estão por dentro, papai.
E o pai suspirava segundos de silêncio. Engolia e cuspia aquela fumaça fétida e a liberava para brincar com as amiguinhas que tinham medo do casarão sombrio e solitário.

Ir à infância é bom. Ruim é ter de voltar e encarar as horas surdas e o desalinho dos pés no firmamento da corda bamba da vida caduca.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Um pensamento errante

Estreiteza de imaginação é mais insuportável que enxergar a futilidade das coisas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre perda e esperança

Foto: José Correia Torres Neto


Perdi um livro.Gavetas, armários, prateleiras, recantos, não está em lugar algum que já não tenha sido revistado, fria ou desesparadoramente averiguado. Perdi um livro. A última vez que o vi estava em companhia de outros: Uma solidão ruidosa (Bohumil Hrabal); Saudades do Paraíso (Marco Lucchesi); A Menina sem Estrela (Nelson Rodrigues); Manuscritos de Felipa (Adélia Prado); O Diário da Guerra do Porco (Bioy Casares); Larrousse do Gato e do Gatinho e Complexo de Portnoy (Philip Roth). É fato que eu o já tinha lido mas, sua presença física, latente, era ainda necessária no canto da cabeceira. Não me lembro de ter feito nada que o emulasse ou o desabonasse.


Como num amor que ainda não se cansou de vezencuando lembrar que ama e quer continuar a ser amado e, por alguma contingência não está sob o controle das mãos, do tato, do cheiro, da descoberta e do encanto, sinto muita falta dele. Rogo por sua volta. Que a qualquer momento ele surja num canto do armário, um lugar que pelo acaso acabei deixando escapar do minucioso exame que me ocupo.


Perdi um livro e se tiver sido um roubo foi um crime perfeito. Mas não acredito em crimes perfeitos ou em qualquer coisa que cante perfeição. A verdade sempre vem à tona. Não foi roubo. Tenho meus instintos por testemunha. Talvez um arroubo. Um livro aventureiro ou tímido. Ainda tinha muita coisa para encontrar nele. Perdi um livro e isso deixa em desalento.