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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Do monociclo à corda bamba

Foto: Ney Douglas


Primeiro, alguém me fabricou.
A espuma que me compõe é como os ossos que sustentam o seu corpo. E minha pele nunca vai ter brotoejas. Mas sou capaz de sentir o calor que emana das mãos de quem me afaga. Disso eu sou capaz.


Depois, eu conheci o garotinho.
Ele me olhou e logo apontou para o pai, insistindo para que me comprasse. Lá eu me mudei da prateleira do homem para a casa do garotinho. Ganhei muitos outros companheiros de quarto, entre ursinhos, robôs, alienígenas. Tinha até dinossauro. Fizemos muitas farras. Vez em quando até algumas formigas aproveitavam o final da festa e levavam suprimentos de restos de pipoca, bolo, chocolate, mingau de aveia. Era como se vivesse pendurado nas cores do arco-íris. Pertinho de mim vivia uma bailarina por quem, certa vez, pensei estar apaixonado. Mas, depois de um certo tempo, olhando-a bem de pertinho, percebi que nosso amor era impossível porque ela estava mesmo era arrastando asa para um pato de pelúcia lavável que ficava do outro lado do quarto e só pensava em tomar banho de banheira.


Depois da visita da prima mimada, tudo mudou.
Era uma tarde carregada de silêncios. As visitas resolveram nos deixar quietos e foram tomar banho de piscina. A menina de olhos grandes e cabelo escorrido aproveitou a casa vazia e entrou no quarto com quilos de inveja e solidão escondidas nas intenções brancas. Deu um chute no pato, mordeu a pata do tiranossauro, pisou em cima das teclas coloridas do piano e veio pra cima de mim. Fiquei todo estropiado. Perdi um pé, uma mão, minhas articulações na cintura ficaram comprometidas e ninguém nunca mais soube onde foi parar meu monociclo.

Passadas umas ralas investigações. Os choramingos do meu garotinho. A falinha miada e dissimulada da menininha negando tudo, achando ela mesma outros culpados pela sua própria maldade, decidiram fazer uma limpeza e, junto com os escombros, esquecer o que aconteceu.


Esqueceram tão bem que nem sequer o garotinho se despediu de mim quando me jogaram no tambor do lixo. Naquele lugar escuro e, não posso negar, não muito cheiroso, os objetos me trataram com brandura. Era difícil ali, me atrapalhando todo para falar e explicar que com um pouco de carinho e paciência eu ainda poderia funcionar. A saudade me escorrendo pela gravata. O chapéu necessitando de asas para exercitar a liberdade. Foi quando uma flor se abriu dentro de mim e senti uma mão me puxando. Como se eu pudera mesmo virar um cravo ou um jasmim e conseguir atrair alguém com alma de borboleta.


Agora, estou em franca recuperação.
Tiraram meu retrato. E ouvi dizer que há até fila de espera para ver quem é que fica comigo. Como não tenho mais meu monociclo, sigo equilibrando meus sonhos na corda bamba que é essa vida.

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