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sábado, 12 de março de 2011

Para o dia da poesia



Fiz uma pequena seleção de pétalas e estrelas que povoam o jardim do céu dos meus encantamentos pela vida e pelos versos. Já é dia da poesia para mim. Feliz dia(s) da(s) poesia(s).


Raízes

E me perguntam onde estou
E me perguntam onde moro
Tornaram-se enfim questões delicadas
Estou morando nas minhas palavras
Às vezes sede, às vezes navalha
Às vezes também girassois e asas

Iracema Macedo (Poemas Inéditos e outros escolhidos)


Para pescar enguia elétrica

Para pescar enguia elétrica:
Faísca de peixe!

(Carito - http://www.carito.art.br)


A velhice

um pé
vacila no passeio
irregular

outro pé
tropeça nas peças
da memória

Theo G. Alves (pequeno manual prático de coisas inúteis)




Interlúdio
As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois tudo é demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

Cecília Meireles (Antologia Poética)



quero fazer um verso
com todos os elementos
meus encantos
meus lamentos
que atravesse
ares e mares
e te alcance
e te arranque
de todos os pensamentos


Alice Ruiz S - (dois em um)


tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço,
ter um preço é necessário
e nada disso é preciso

Paulo Leminski (la vie en close...)


Tudo

Verdade é
uma mentira
sem imaginação,
disse o anão
do alto dos seus
cem metros.

Fausto Wolff (Cem poemas de amor)



a N.V.N

Dentro de cada ser há um segredo
a quem nem a paixão consegue acesso,
inda que os lábios fundam-se num beijo
e o coração de amor se despedace.

Os anos de amizade incapazes
são de obter a ventura calcinante,
quando a alma liberta é estrangeira
à lenta lassidão voluptuosa.

Os que a procuram já são quase loucos.
Os que a alcançam, mata-os a tristeza...
Agora tu entenderás por que
meu coração não pulsa em tuas mãos.

Anna Akhmátova (Poesia 1912-1964)


DO ECLESIASTES

Há um tempo para
desarmar os presságios

há um tempo para
desarmar os frutos

há um tempo para
desviver
o tempo.

Orides Fontela (Poesia Reunida)



Um poema
é o coração
a pulsar fora do corpo

Ada Lima (Águas - livro inédito)



AUTOBIOGRAFIA SUMÁRIA DE ADÍLIA LOPES

Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas

Adília Lopes (Antologia)



Antes soubesse eu
o que fazer com estrelas na mão.
Se dilacerar-lhes a ponta
ou simplesmente não tocá-las.
Se estão perto cegam meus olhos.
Se estão longe as desejo.

Antes soubesse eu
o que fazer com estrelas na mão

Hilda Hilst (Baladas)



A TARTARUGA

Desde a tartaruga nada não era veloz.
Depois é que veio o forde 22.
E o asa-dura (máquina avoadora que imita os
pássaros, e tem por alcunha avião).
Não atinei até agora por que é preciso andar tão
depressa.
Até há quem tenha cisma com a lesma porque ela
anda muito depressa.
Eu tenho.
A gente só chega ao fim quando o fim chega!
Então pra que atropelar?

(Manoel de Barros - Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo)



Meu segredo

Silêncio: ouço chegar o fogo.
Ofereço-lhe a minha casa e o meu zelo.

Lá fora o mundo chora
- essa dor é o meu segredo.

Namoro a flor que tocou o pássaro que tocou a noite que tocou o amor.


Marize Castro (Esperado Ouro)


MARIA DE MAGDALA

lambeu o sal
das minhas feridas
lavou os meus pés
me deu humanidade

eu queria amor

(Adriano de Sousa)

2 comentários:

Nivaldete disse...

esses poemas...
esplêndido banquete
para este começo de manhã
cheio
de tresvariadas fomes...

Carito disse...

Obrigado por me citar e me excitar, querida amiga! É uma honra pra mim essa minha poesia doida e doída por aqui, você sabe... Vamos marcar nosso chafé, né? Estou voltando à net aos poucos... Tomei um banho de mundo real tão surreal nessa viagem, que me distanciei um pouco do cyber-espaço, e patagonizante ando pelos cantos, aos prantos de saudades...