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terça-feira, 8 de março de 2011

Vagamundo


Para experimentar o alívio da dor lancinante na fronte e por trás da nuca são necessários a aspirina e o descanso. Assim como entender que para que os acordes despertam os mais doces sentimentos ouvidos adentro, seria necessário antes o exercício da corda parada, o piano fechado, os olhos miúdos pela paz do silêncio. Por isso, até hoje, silencio quando um bem-te-vi gorjeia pedindo passagem para um bom dia de verão.

Mesmo que esse dia seja mais um entre tantos outros nessa travessia pelo deserto.

(E os teus olhos que me falam de paraíso apenas incidem o inferno dos meus, deitados à espera do pesadelo. Esse emblema da garganta seca e da pele murcha pelo cansaço da chuva que nunca chega, e que nunca mancha essa terra de índios dizimados)

Para que a curiosidade se descortine em descoberta, a dúvida chegou primeiro. Antes das nuvens desenharem respostas no céu, o vasto e ininterrupto azul se recusa a dar explicações. A ciência não salva o homem da imagem no espelho.

Só o sol redime a cantoria amiúde do galo. E ele sabe quando é hora de ciscar. Nada mais que isso poderá salva-lo.

(A imensidão traz coragem de seguir adiante ou revela o abandono) Só é um lugar dentro da alma.

Moram nestes versos decaídos certas estrofes que me pertencem e que jamais me libertarão dessa coisa que alguns dão nomes:

(Angústia. Solidão. Desânimo. Melancolia. Cansaço. Pedaços. Sede. Abismo)

Sou a ausência de nomes. Me valho da leitura dessa terra seca para redescobrir o pesadelo dos índios. Durmo o sono despedaçado dos abismos da noite. Tenho curiosidade pelo que já passou. Sou artífice de uma ciência que não tem espelho. (Só dúvidas). Não sou eu mesma nem os olhos do outro.

Nômade na minha própria casa. Esse deserto que me atravessa.



PS.: peço desculpas pela repetição do texto. tenho pavor da repetição desmesurada. mas hoje ele tem uma cor diferente. e é só.

6 comentários:

Danclads Lins de Andrade disse...

Sou leitor assíduo deste blogue - apesar de nunca ter tecido qualquer comentário - pois os textos são de excelente qualidade e de uma profundidade ímpar e atual.

Mas, este eu resolvi ousar comentá-lo, pois, de certa,forma é-me atual. Instigante, profundo, belo... Uma pérola, no meio do dia...

Aplaudo-te.

Ada Lima disse...

Bem que reconheci, Crêidija.

O que é bom, volta!

Bjos.

Mme. S. disse...

Ada, suas palavras me acolhem. As escritas e as faladas.

Danclads Lins de Andrade, sua ousadia me foi um presente. Um comentário tão gentil acerca dos meus desvãos, um abraço. Sinta-se abraçado. Obrigada.

Débora Oliveira disse...

Noosa, que coisas linda: "Sou a ausência de nomes. " Esse trecho saltou em "3D" pra mim! ;)

Quanto tempo eu não passava aqui!Saio satisfeita, sempre!
Beijoks

Maini disse...

... noites e abismos, as já tão distantes luas daquelas noites, luas que eram negras ou vermelhas... sim, e foi-se o vento daquelas pedras e matas... onde habitam-na agora? Foram-se, congelados em imprecisas memórias, exilados, banidos. Ausentes nomes distantes.

Mme. S. disse...

"Maini", mesmo imprecisas, as memórias são como uma redenção. E a ausência também pode ter outros nomes. Um cheiro grande, obrigada pela visita. Mi casa es su casa: hoje, naquelas noites antigas de luas vermelhas, no carnaval e sempre.