Google+ Followers

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Carta ao leitor (2)





Para K,


A distância nunca foi problema para nós. Basta uma mensagem, uma ligação e o riso brota por entre as pedras dos quilômetros que nos separam. Mas, particularmente, hoje eu senti sua falta. "A vida é vã como a sombra que passa". É de Manuel Bandeira. Se bem que acho que pertence a todo mundo que soletra na alma palavras como tristeza, angústia, dor, incerteza.
Uma vez eu li em algum lugar que o deserto pode guardar a salvação. Sinceramente, eu não acredito em oásis há pelo menos uns 20 anos. Mas acredito na travessia. Às vezes é tudo que me resta: os pés, poeira, uma paisagem inóspita e nenhuma direção. Eu não sei se você está rindo ou chorando, porque você é fácil para as duas coisas. E, particularmente, prefiro te fazer sorrir. Mas, muitas vezes já dividimos o choro.


E além da vontade de te fazer rir, hoje eu gostaria de ver de novo aquele filme bobo com você "O amor não tira férias". Lembra daquele garoto que falou com o pai na locadora: "pai, você grava este para mim?". E a gente riu muito porque as crianças podem transgredir até o silêncio. E você gravou o filme para mim depois. E eu vi e revi umas mil vezes e agora já assisti umas outras três na TV.


Sabe aqueles dias em que você se questiona o que há de se fazer? Que nem a filosofia, as religiões, as viagens, a loteria ou a poesia são capazes de trazer as respostas? Tenho poucas coisas nos bolsos agora. Nem consigo me lembrar de piada alguma. A última que contei para alguém foi aquela arrojada da formiguinha e do elefante. Nem todo mundo conhece a arrojada.
Eu sei que você um tempo desses atravessou o deserto e sentiu o peso da permanência. Ouvi a sua ira, tentamos calcular a sua dor, encontrar a compaixão em si mesmo, dividimos um bule de chá de hortelã. Tentei chorar com você mas preferi contar a piada da formiguinha arrojada e te fazer rir. Eu quase consegui, admita. Mas era o deserto. E eu podia ao menos te dar a mão nesse jardim de ausências. Dividir a fome dos sonhos que nos foram roubados.


Hoje acordei com aquela receita de bolo de café na cabeça. Podia sentir o cheiro do bolo nascendo dentro do forno. Por um pequeno instante onírico era como se tivesse encontrado a receita para outras fomes, outras necessidades, outras dores. Tudo parecia tão simples. Eu levantaria, buscaria o caderninho de receitas, iria no armário, conferiria que todos os ingredientes estariam ali e te convidaria para mais uma tarde agradável, na qual observaríamos de mãos dadas nossos desertos. E dessa vez o chá seria de canela.


K, eu sei que eu já disse muitas vezes isso, mas sei também que você não se incomoda de ouvir de novo. Te amo.

PS.: Quando você vier para cá de férias, poderia me trazer mais cartões postais?




terça-feira, 26 de abril de 2011

Contemplação







Escuto o tempo. E descubro que dentro do silêncio cabem coisas que não ocupam espaços:

a) o abraço dos cílios na orla dos teus olhos;

b) que a pausa pode ser mais intensa que o aplauso;

c) que a beleza quase sempre pode ser fotografada pela memória. (Quando a beleza borra o papel, não foi digna dos instantes);

d) o meu um fica tão largado que, às vezes, me espalho em mil;

e) quando vejo o mar, seco as lágrimas e penduro a esperança na linha do horizonte.



Cartas ao leitor (1)




Cara Z,

Ainda é terça-feira aqui. Aí também. Mas deve estar mais frio. Gosto do frio. Fico cheia de paciência no frio. Estava pensando no quanto você me faz falta. Enquanto ficou fora por 12 anos era mais fácil lidar. Depois, a sua volta, os poucos meses e de novo sua partida me pegaram de sobressalto. Entre nós não há espaço para queixas. Não me tome como uma amiga queixosa ou lamuriosa. Para ser sincera entendo mais sua partida que sua volta. Mas, eu queria ter chorado na nossa despedida. Guardei o choro como quem guarda folhas de outono dentro das páginas dos livros. De vez em quando revisito sua ausência e choro algumas lágrimas. Não se preocupe, elas são tão discretas quanto você..

Mas vamos enfim deixar nossa despedida para trás e partir para o que está diante dos meus olhos agora: uma pilha de livros se amontoam em um dos lados da cama; meus tênis ainda estão molhados da chuva de ontem e descansam no pé da parede e comprei outro guarda-chuva que divide espaço com os outros objetos espalhados. É, outro guarda-chuva,. Isso mesmo que você leu. Perdi o outro. Perdi as contas. Nunca pretendi fazer coleção de coisa alguma. Afora os cartões postais, os espirros e alguns livros, não é aspiração colecionar guarda-chuvas.

Na próxima carta não seja tão econômica nos detalhes. Preciso saber mais sobre sua nova morada. A quantos metros do chão? Se tem varanda. Se você vai querer mesmo a receita daquela torta e quando vai me mandar cartões postais. Está bem, está bem se não tem muito tempo para mim. Só não suma por meses a fio. Você sabe que minha saudade não é pétrea. Pelo contrário é solar e folhetinesca.

É estranho, sinto sua falta porque nos entendemos enquanto piscamos o olho. E você sabe, já passamos daquela fase livresca e palavrosa de descrever em mil e um detalhes o que nos aflige para que encontremos correspondência no olhar. Obrigada. Acho que preciso agradecer não é? Não veja nossa amizade como uma dádiva e sim como um espiral de tolerância e respeito. Sinto falta do nosso olhar acolhedor um para a outra.

Diga a J, Y e S que as amo.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

...

O olhar se acostuma à escuridão.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mergulho em palavras sem margens



Quando comecei a folhear os primeiros versos alheios, passei a acreditar que a poesia fosse um mergulho profundo no sentido das palavras. E me maravilhava com a possibilidade de desvendar tantos cantos, histórias, sentimentos, ritmos e epopeias na economia de linhas. Um oceano dentro de um copo d’água. Poesia como ocasião para a vida, ou o contrário, já que tendemos à mesma perplexidade diante dos mistérios de uma e de outra. De lá para cá meu encantamento só aumentou diante da beleza que se sujeita a nascer perante a experiência poética, que eu julgo pertencer muito mais a mim enquanto leitora que ao poeta, esse crédulo pescador de metáforas.

Mergulhar nas Águas de Ada Lima é sem dúvida uma experiência poética. Um convite para os deslimites da palavra e o que ela pode nos trazer de misterioso e belo: Agora / que tudo é silêncio / adormeço / ouvindo / o barulho das ondas / o mar é / dentro de mim. Imagino a poeta e seu silêncio, recluso e necessário, se jogando nas pedras do pensamento, provocando ondulações que escorrem para a ponta dos dedos e, sem qualquer outra alternativa possível deságuam no papel. Tenho sede / de coisas inexistentes / que vivem nas pontas dos meus dedos / palpitantes / e suados / como alguém em derradeira agonia.

Um mergulho ora em palavras sem margens na primeira parte, que dá nome ao livro, ora nas confissões poéticas da segunda parte, memórias e outras invenções que nada têm a ver com exposição ou sentimentalismos. Estão mais para confissões capazes de dar alma às pedras e ouvido às flores, ao mesmo tempo em que nos leva a lembrar com ternura do banho de chuva que jorravam das bicas direto nas nossas cabeças, na infância do interior. Um poema / é o coração / a pulsar fora do corpo.


Ada possui a concisão de um nome que abre asas quando pronunciado. A infinitude em duas letras. Com a sua poesia é a mesma coisa. Aquela menina gauche que ensaiava poemas e inventava fonemas agora nos leva para águas mais profundas e nos faz ler versos com a mesma sonoridade íntima que nos entregamos às conchas coladas ao ouvido.



Prefácio do livro "Águas" de Ada Lima, Editora Flor do Sal


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Águas / Poesia / Ada Lima - Lançamento

Acho que tá pequeninha a visualização então segue a legenda: Edições Flor do Sal convidam para o lançamento do livro de poesia Águas, de Ada Lima Data: 13 de abril, 19h, na Siciliano do Midway Mall

"As coisas acontecem antes das coisas"

Lisa Garrigues


Para "T"

Naquele fim de tarde o moço tinha um olhar como se tivesse uma adaga riscando o brilho. Não era triste nem feliz. Só belo e de verdade, sentado àquela mesa de bar. Um pouco à toa, oferecendo gole pro santo, dançando ao vento, embalado pela doce inocência das lembranças que fazem ternas até o incêndio das ilusões.


Horas depois, trôpego, dava banana pra Deus. Renegando as canções de ninar que sua mãe nunca cantou. Naufragando as crenças no mar amarelado do ocaso do copo. Aceitando quase indiferente ao carinho da velha senhora dona do bar, que oferecia braços e garrafas como se fossem velhos amigos. Parentes até.


Quando a noite chegou o caminho de volta parecia impossível. E não pressentia mais a enorme beleza de suas mãos. Irmãs gêmeas da solidão. E pensava: decepcionar-se com os outros é sentença factível. Difícil é manter esperanças em si mesmo ou desenhar pontes no abismo.



Perguntas que eu gostaria de fazer...



dentro do ônibus:


Moça, o que você está ouvindo aí no seu mp4?

Meninas, por que vocês precisam gritar tanto?

Senhor, quer que eu segure sua bolsa de ferramentas?

Dá para sonhar embalada no chacoalhão do dinossauro de lata?

Na sua casa não tem lixeira?

Menino, você não tem avó não?

E se fosse a sua avó que estivesse de pé, enquanto você se aboleta no assento preferencial?

E quando você ficar velho?

Alguém aqui já leu "Diário da Guerra do Porco"? (Deveria)

É menino ou menina?

Desse lado ficarei exilada do sol ditador?

Motorista, o senhor é emissário da pressa?

Dá para notar que mesmo tendo destino certo, meu rosto está perdido?

Alguém aí tem inveja dos passarinhos?