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segunda-feira, 4 de abril de 2011

"As coisas acontecem antes das coisas"

Lisa Garrigues


Para "T"

Naquele fim de tarde o moço tinha um olhar como se tivesse uma adaga riscando o brilho. Não era triste nem feliz. Só belo e de verdade, sentado àquela mesa de bar. Um pouco à toa, oferecendo gole pro santo, dançando ao vento, embalado pela doce inocência das lembranças que fazem ternas até o incêndio das ilusões.


Horas depois, trôpego, dava banana pra Deus. Renegando as canções de ninar que sua mãe nunca cantou. Naufragando as crenças no mar amarelado do ocaso do copo. Aceitando quase indiferente ao carinho da velha senhora dona do bar, que oferecia braços e garrafas como se fossem velhos amigos. Parentes até.


Quando a noite chegou o caminho de volta parecia impossível. E não pressentia mais a enorme beleza de suas mãos. Irmãs gêmeas da solidão. E pensava: decepcionar-se com os outros é sentença factível. Difícil é manter esperanças em si mesmo ou desenhar pontes no abismo.



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