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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mergulho em palavras sem margens



Quando comecei a folhear os primeiros versos alheios, passei a acreditar que a poesia fosse um mergulho profundo no sentido das palavras. E me maravilhava com a possibilidade de desvendar tantos cantos, histórias, sentimentos, ritmos e epopeias na economia de linhas. Um oceano dentro de um copo d’água. Poesia como ocasião para a vida, ou o contrário, já que tendemos à mesma perplexidade diante dos mistérios de uma e de outra. De lá para cá meu encantamento só aumentou diante da beleza que se sujeita a nascer perante a experiência poética, que eu julgo pertencer muito mais a mim enquanto leitora que ao poeta, esse crédulo pescador de metáforas.

Mergulhar nas Águas de Ada Lima é sem dúvida uma experiência poética. Um convite para os deslimites da palavra e o que ela pode nos trazer de misterioso e belo: Agora / que tudo é silêncio / adormeço / ouvindo / o barulho das ondas / o mar é / dentro de mim. Imagino a poeta e seu silêncio, recluso e necessário, se jogando nas pedras do pensamento, provocando ondulações que escorrem para a ponta dos dedos e, sem qualquer outra alternativa possível deságuam no papel. Tenho sede / de coisas inexistentes / que vivem nas pontas dos meus dedos / palpitantes / e suados / como alguém em derradeira agonia.

Um mergulho ora em palavras sem margens na primeira parte, que dá nome ao livro, ora nas confissões poéticas da segunda parte, memórias e outras invenções que nada têm a ver com exposição ou sentimentalismos. Estão mais para confissões capazes de dar alma às pedras e ouvido às flores, ao mesmo tempo em que nos leva a lembrar com ternura do banho de chuva que jorravam das bicas direto nas nossas cabeças, na infância do interior. Um poema / é o coração / a pulsar fora do corpo.


Ada possui a concisão de um nome que abre asas quando pronunciado. A infinitude em duas letras. Com a sua poesia é a mesma coisa. Aquela menina gauche que ensaiava poemas e inventava fonemas agora nos leva para águas mais profundas e nos faz ler versos com a mesma sonoridade íntima que nos entregamos às conchas coladas ao ouvido.



Prefácio do livro "Águas" de Ada Lima, Editora Flor do Sal


5 comentários:

Cacau disse...

Belo... Obrigada pela dica, já estará na minha lista!!!!

bjsss

Carito disse...

Belo prefácio! Parabéns! Infelizmente não vou poder ir ao lançamento, pois vou viajar amanhã. Mas já divulguei o lançamento lá no blog, e estarei lá em espírito! Estou ansioso para ler o livro! Beijos Sheyla, beijos Ada!

Carito disse...

Ei, acabei indo para o lançamento do livro de Ada! Viajei e ainda chequei em tempo... Foi você que não foi ou fomos em horas distintas? Senti sua falta...

Beijos, minha doce amiga!

Mme. S. disse...

Pois é, meu amigo querido. coisas da vida, como você já sabe ;-)
beijos, S.

Simone P. Cardoso disse...

Oi Flor,

Adorei a dica. Vou procurá-lo.
Gosto de conhecer novos escritores.

Beijcoas