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domingo, 29 de maio de 2011

Recorrente


Poema em dó menor


Para que te convidar para entrar
Se sequer bates à porta
De que adiantaria todo alvoroço
Rosas no cabelo
Saia rodada
Calcinhas na gaveta
Se me despes apenas com silêncio e indiferença

Para que te convidar a beber
Da minha saliva
Se sequer sentes sede
E de que adiantaria colocar um blues na vitrola
Vinho em taças
Cubanos equilibrando-se no fino cristal
Se teus olhos se mantêm altivos e ávidos por outras esquinas

Não, senhor, não entrarás mais em minha casa.
Para chegar até esse lugar é preciso atravessar uma rua
Dois rios, alguns vendavais, poças de sangue
Quiçá um continente inteiro
E dois ou três versos desperdiçados

Mas de que adiantaria
Se sequer sabes ler nas entrelinhas



Publiquei esse poema aqui há quase quatro anos, inspirada em um poeta (e seus poemas) irresistível. Era outubro de 2007. Como "a vida é um moinho", aqui está (ou jaz) ele (o poema) de volta, como se fosse um presságio. Acho que deveria agradecer ao poeta, pela inspiração.

sábado, 28 de maio de 2011

Depoimento


Conforme eu havia prometido ao Marcelo no post anterior, vão lá e deem uma conferida em Lições de Vida.

Beijos a todos e todas e visitem também o Bichinhos Precisam de Lar.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Um momento de ternura






Poucas coisas são tão ternas quanto um gato dormindo. Eu que tenho a sorte de ter três na minha vida, não resisti a esse momento do Otto, meu mais velhinho. Mas o caçula de adoção. Depois de alguns anos de abandono, dor e fome - a vizinha suspeita que ele perambulasse pela vizinhança há uns seis anos e já chegou taludinho o destino dele - e o nosso - mudou completamente. Ele já está bem idoso. Dorme muito. É um animal cheio de dignidade, paciente, educado, tem um senso de gratidão enorme. Como recebe amor em vez de agressões e maustratos tem revertido todo o seu medo anterior de gente (e de vassouras) em muito carinho, aumento de peso, e uns cheirinhos de nariz molhado que é uma dádiva receber. E tem umas particularidades: Otto não mia, coacha; em dois minutos de sono já começa a roncar; não come ração seca, não tem mais dentes que prestem na boca; embora tenha o dobro do tamanho, deixa o "irmão" dar umas mordidas na orelha dele sem revidar, para não criar problemas familiares em casa; e embora tenha uns cinco a seis quilos, num corpanzil felino, é o mais mansinho na hora de tomar banho. Só não gosta muito de cortar as unhas e coacha para reclamar. E tem um amigo que o chama de "Galega do Tchan". Mas ele é a cara do Otto!








PS.: Recado especialmente para Marcelo: vou te mandar o depoimento o mais breve possível. Desculpe-me a demora. Parabéns pelo trabalho iluminado que você e Cris e os demais amigos e protetores desenvolvem no Bichinhos precisam de lar.






Felicidade




Ela pode durar apenas um minuto do dia. Mas todos a querem por uma ciranda infinita dos ponteiros. Há quem pense que ela é contrária à dor da desilusão. Eu penso que ela é contrária ao esquecimento. Para ser feliz é preciso estar suficientemente distraído, mas nunca indiferente. A felicidade é amiga do tempo, irmã da esperança, mãe da alegria.


O Globo Repórter da semana passada deu mapa e endereço: a felicidade fica num pequeno lugar encravado entre a Índia e a China: o Butão. A revista Trip já tinha dado essa notícia em 2008, quando publicou que o então rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, nos idos de 1972, criou o indicador FIB (Felicidade Interna Bruta), em contraposição ao PIB, que só se preocupa com a questão econômica e acúmulo de riquezas. De lá para cá o país virou referência e notícia no mundo inteiro. Para jornalista, a felicidade pode até não ter seus caminhos trilhados no Butão, mas dar "furo" (notícia em primeira mão) sim.


Com a permissão do trocadilho, felicidade para o botão é a casa. E para o pé, o sapato; o pneu menos buracos. Para sertanejo, felicidade é tempos de chuva. Depois colheita. Para folião é carnaval. Para os amantes clandestinos, felicidade é dia de semana. Para político é ficha limpa. Ou melhor, ficha limpa é bom mesmo para eleitor, contribuinte, cidadão. Torcedor é goleada, ou em tempos de lanterninha, é escapar do rebaixamento. Para mulata felicidade é roda de samba. Para o artista é atenção. Para capitalista é acumular e comunista é dividir. Para Aristóteles, ser feliz ou ter felicidade era usar a razão de tal modo que se transformasse numa virtude. Mas de filosofia eu não entendo muito. De dádiva, só tenho as dúvidas.


Quando a gente é criança, felicidade é mais simples: um gibi, um cachorro-quente, bala de goma, sorvete de chiclete, uma bicicleta, um vídeo game novo. Férias na casa dos tios. Pai e mãe, barriga cheia. Carinho de avó e avô. Quando a gente é criança, felicidade nem é mais importante que tirar nota 10 na prova de matemática na recuperação. E, quando a gente é criança, pai e mãe ficam felizes se a gente não ficar em recuperação.


Mas depois que a gente cresce, felicidade vira um negócio complexo e relativo. Às vezes muito distante, sem pontes para o que se quer e o que se tem. Ou vice versa.


Felicidade pode ser também algo que não tem nada a ver com o que se tem. Um estado de espírito que renuncia prazeres e paixões efêmeros, necessidades criadas. Um encanto pela vida que se refugia em coisas simples: uma praça bem cuidada; da natureza que habita em nós e convive bem com os outros seres; a descoberta da poesia.




* Crônica publicada hoje no Novo Jornal

Estilhaços



Às vezes, a vida é como um espelho quebrado.

Pedacinhos de você se espalham.

Nenhum reflexo é completo.

Mas, ao mesmo tempo, é único e irreversível.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Querem alunos "ingnorantes"






A primeira vez que fiz a leitura de um texto de página inteira foi uma festa em casa. Parecia que tinha ganho medalha de ouro em olimpíada escolar. Meus pais já me estimulavam a ler desde muito antes da alfabetização formal. Compravam revistinhas em quadrinhos quando eu ainda sequer conhecia o alfabeto inteiro e, muitas vezes, recorria à imaginação e à leitura dos desenhos, porque as palavras ainda me eram um mistério. Empolgada com tanta animação, li e reli para minha professora, meus pais, tias, vizinhos, coleguinhas, o gato, o cachorro até que meu pai - percebendo que a repetição praticamente me fizera decorar as palavras que contavam a história do menino Fábio e sua ida à escola - me levou ao passo adiante: “Agora é para fazer a próxima leitura do livro. Essa você já sabe”.



Está rolando uma discussão recente sobre a adoção de um livro pelo MEC, "Por uma Vida Melhor", da Coleção Viver e Aprender, da editora Global que dispensa a conjugação de verbos e suas concordâncias textuais e contem frases como "nós pega o peixe". Em nota, o principal argumento do Ministério é de aquela obra reconhece e valoriza a linguagem dos diversos grupos sociais e variedades da língua portuguesa. E que o objetivo seria o de “combater o preconceito lingüístico”. Pois eu confesso agora publicamente meu preconceito com a palavra falada ou escrita de maneira errada. É de dar arrepios.


Um dos maiores patrimônios de um povo é sua língua. Quanto mais domínio se tem sobre o que se fala e como se fala, mais o sujeito é senhor de si, e mais possibilidades ele tem de desenvolver um pensamento crítico. Sair das estreitezas gramaticais e semânticas que podem limitar ou encerrar a comunicação deve ser condição precípua dentro da escola e fora dela. Eu posso até aceitar o argumento dos autores de que o livro defende a “forma popular” de se falar e, talvez, isso crie uma certa identidade ou familiaridade com os alunos. Mas isso não pode legitimar o erro e o descuido com a língua. Escola é lugar para se aprender. Logo, imagina-se que o aprendizado vai levar à evolução.



Falar e escrever errado são algo muito feio, limitador, complacente, equivocado e comodista. A língua formal – ou culta - não pode ser vista como um bicho papão ou como um algoz para as relações entre as pessoas e suas interlocuções.



Meu pai estava certo. Além do mistério, as palavras reservam surpresas, combinações de sons e sentidos, e uma dança inesgotável de movimentos que jamais cessam de nos estimular. Nunca mais fui a mesma após aquela primeira experiência. E jamais serei só uma, depois das leituras – espero que formais e respeitando a norma culta - que me acompanharão pelo resto da vida.






Texto publicado na coluna de hoje, no Novo Jornal.

domingo, 15 de maio de 2011

High five for first kiss (original)




O amor é lindo mesmo! E, com tanta naturalidade assim, é um presente de domingo!
Vi primeiro no Don't touch my moleschini, adorei e trouxe pro meu também. Voilá! Vamos amar como Bowie & Elliot!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Canto pra Oxalá (Domínio público)


Oni saurê
Aul axé
Oni saurê
Oberiomam
Onisa aurê
Aul axé baba
Onisa aurê
Oberioman
Onisa aurê

Baba saurê
Aul axé
Baba saurê
Oberioman
Baba saurê
Aul axé baba
Oberioman
Baba saurê
Saul axé
Man man man...







Fico arrepiada. Mexe muito comigo essa música. Ouvi a primeira vez na voz de Rita Ribeiro, no CD Tecnomacumba (2007). Bati um papo com ela para uma matéria de divulgação do álbum, no jornal onde trabalhava. Uma coisa que ela me disse nunca mais esqueci: da força que as músicas ligadas aos ancestrais negros e às suas religiões africanas (candomblé, umbanda) tinham e o que elas representavam na vida dela naquele momento. Uma figura bacana, simples, com voz acolhedora, louca para falar de música, de vida, de arte.




Hoje é um dia muito especial. Treze de maio é dia da Abolição da Escravatura. Dia dos pretos velhos. E também dia de Nossa Senhora de Fátima. Dia de fazer uma prece, de evocar boas energias, de agradecer o que já veio e o que ainda virá. Axé!





13 de maio

Hoje eu vou abrir as janelas e deixar o vento entrar.

Vanessa Da Mata - Te Amo




Essa senhora bailarina me emociona com o conhecimento do corpo e o talento para interpretar a canção e contar a história com o rosto, mãos, pés, coração. Muito bom!

sábado, 7 de maio de 2011

Duas homenagens à dona Dulce






Teve aquela vez que eu fui para casa num final de semana e coloquei um CD de poemas do Antônio Cícero para ouvir e, sem saber se você ía curtir, coloquei baixinho a terceira faixa. Uns quatro versos depois ouvi você da cozinha dizer: Porra! E vir correndo para a sala com o pano de prato, perguntando de quem era e já sentando no sofá para ouvir melhor.



Você fez a mesma coisa agora há pouco. Malu Magalhães cantando uma música linda e você como quem acaba de nascer e não sabe de nada, pergunta de quem é e exclama: "que música boa!", deixando o pano de prato de lado e a louça lá na pia.



Você não sabe que às vezes eu fico triste e profunda quando você me olha com seu olhar de silêncio de retrato em preto e branco e eu não tenho nada mais a fazer senão te olhar sem querer te atravessar. E ficamos assim por alguns segundos. Até alguém desistir de ver tanto e sem molduras.



Eu costumo dizer muito não para você. Mas é um não com ardor e cuidados, você precisa entender. Eu não devia fazer, mas às vezes é mais forte que eu. Então, quando eu abro uma barrinha de cereal sem que seja diet e você pergunta se é diet e eu digo um não maiúsculo e enfático com outras negativas internas e proibitivas na minha voz, é porque você não deve comer doces, não fique triste. E eu prometo que não vou comer muitos doces. Nem perto, nem longe de você. Nem fazer bolo de café. E vou achar algum tipo de sorvete diet o mais rápido possível para ver aquele seu jeitinho de felicidade.

Você é meu passaporte para nunca deixar de acreditar que o amor tem várias formas e cores. Foi através de você que aprendi a gostar de sopa, de detestar jerimum com todas as forças do meu coração e de compreender que gente não rima com perfeição. E tem também seu amor pelos gatos que eu só conheci quando a gente criou o Kiko e ele ficou doente e nunca mais miou e a gente morria de rir quando ela abria a boca e não saía som algum e você tentava advinhar o que ele queria. E, geralmente, acertava. O Kiko morreu velhinho com saudade de nuvem, meio pato, meio peixe, meio cego, surdo e já mudo faz tempo, lembra? Depois foi que eu vi que você tem mó jeito de gato: tem olho diáfano, caminha devagar, gosta de se enroscar e a mão é quente.

Eu já cresci mais que você e tem horas que não te alcanço. Eu já corri, caminhei, cai, rasguei, vi escombros, construi e destrocei sonhos, vi a lua desovar alegrias e tristezas, e, no entanto, a esperança não é só minha. Ela vem essencialmente de ti.

Amor em movimento *


Eu não me lembro do dia em que nos conhecemos. Ela me conta que foi numa quarta-feira chuvosa de abril e que eu cheguei algumas semanas antes do previsto. Ainda tinha muita coisa para ser resolvida ou planejada para minha estadia permanente em sua vida. Mas, o que percebo, desde então, é que ela já nasceu com o dom de me fazer sentir que sou sempre bem-vinda, mesmo com o início meio atropelado por uma bolsa estourada no meio de uma fila de banco.



Contrariando as regras da evolução, eu costumo dizer que mamãe é que é o melhor de mim. Claro que faz tempo que nos desvencilhamos daqueles laços de dependência física ou que precisava dela para apontar o lápis e me ajudar na lição de casa. Faz tempo que tomo decisões sem a obrigação de consulta-la ou de ter sua permissão.



Mas não há um só dia em que eu olhe para ela e não sinta uma forte onda de emoção. Às vezes é admiração por alguma coisa que ela diz ou faz e que, mais de três décadas depois, ainda me surpreende pelo frescor e pela notável tolerância ao novo, ao desconhecido, ao diferente que seus 67 anos só lhes têm aprimorado. Noutras vezes, a emoção vem com a agudeza do medo pela consciência da finitude. Já é saudade de coisas que ainda nem aconteceram e que eu espero que demorem muito para ocorrer. Talvez por isso eu não queira me acostumar nunca totalmente com seus gestos ou o som de sua voz afinada e limpa; de compreender a fundo o brilho dos seus olhos tristonhos que me afligem; parar de me irritar quando ela não ouve absolutamente nada do que eu falo, ou quando ela insiste para eu colocar batom ou quer que eu coma "mais um pouquinho" umas 20 vezes. Meu amor por ela não é estático ou definido. Ele está em constante movimento e a caminho de novas descobertas de como ser filha de Dulce.



Portanto, faltando cinco dias para que a imensa maioria dos filhos comemorem com suas mães o dia delas, falo aqui um pouco da minha, sendo assim a forma mais legítima de falar sobre maternidade. Porque minha biografia começou no seu ventre. E, mesmo quando quero me despir de suas palavras são seus ensinamentos que me vestem. Eu vivo às margens das lágrimas da minha mãe. Se ela chora, eu choro junto, nem preciso saber o porquê. Suas mãos são mágicas: já me curaram de dores de barriga; acalentaram-me de amores insolúveis; aliviaram-me de decepções, crises de identidade, vontades inúteis, desejos inconstantes. Minha mãe faz minha casa ter café, almoço e jantar.

* Publicado no Novo Jornal em 3 de maio de 2011.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Renato Braz - Anabela(Mario Gil / Paulo César Pinheiro)





Nos tempos da inocência...

Anos 1990. Zanze, Kênia, eu, nossos outros amigos do escritório de arquitetura e engenharia onde trabalhávamos sempre estávamos juntos a participar de eventos culturais e afins. Foi nessa época que Renato Braz aportou pelas bandas de cá. A primeira vez que o vi cantar e tocar acho que foi num projeto que enchia os domingos de graça, brisa, eventos culturais e gente bonita lá no pátio da TV Cabugi (agora InterTV). Acho que era o Domingo na Praça, que depois mudou de endereço e acabou acabando. Foi a primeira vez também que ouvi Anabela. Virou uma espécie de hit, de hino, sei lá. A música é muito envolvente. É triste também. Mas daquelas tristezas bonitas, que não envergonham ninguém, que servem como matéria prima de inspiração. Daí, outra vez, na casa dos meus amigos Nonato e Graça eu fui apresentada ao CD. Como é bom rememorar essas coisas. Anabela estava ainda mais bonita, com um belo solo de flauta doce no início.

Bom, uma de minhas amigas se apaixonou por ele. Pelo menos ela teve a coragem de admitir que estava apaixonada por aquele cantor de voz linda e de um carisma no palco capaz de fazer marmanjo chorar.


Anos depois, numa de suas inúmeras vindas para Natal, depois de ter feito amizado com o produtor Zé Dias e outras pessoas, o destino nos apresenta. E eu sou convidada para fazer a assessoria de imprensa para ele, já que tinha topado vir a Natal para fazer show de abertura de um evento da ONG Casa Renascer. Qual não foi minha surpresa que além de charmoso e grande artista, o cara era um amor de pessoa. Simples, tranquilo, sorridente. Quando o levei ao O Jornal de Hoje, ele e Bré (um de seus músicos e gente finíssima também) sentaram no chão da sala de entrevistas e fizeram uma pequena grande demonstração do seu talento, presenteando a velha casa que abriga aquele jornal com o melhor da música popular brasileira.


Minhas duas amigas já nem moravam mais aqui e vibraram com a notícia de que ele era realmente como imaginávamos. Talvez até melhor. Hoje acordei com a voz macia de Renato Braz ecoando dentro de mim e cantando Anabela. Encontrei várias versões no You Tube. E escolhi essa para compartilhar para quem ainda não conhece de tanta generosidade artística. E compartilhar também memórias e tempos bons, que é o que importa na vida.


Anabela (Mário Gil e Paulo César Pinheiro)


No porto de Vila Velha
Vi Anabela chegar
Olho de chama de vela
Cabelo de velejar
Pele de fruta cabocla
Com a boca de cambucá
Seios de agulha de bússola
Na trilha do meu olhar



Fui ancorando nela
Naquela ponta de mar


No pano do meu veleiro
Veio Anabela deitar
Vento eriçava o meu pelo
Queimava em mim seu olhar
Seu corpo de tempestade
Rodou meu corpo no ar
Com mãos de rodamoinho
Fez o meu barco afundar


Eu que pensei que fazia
Daquele ventre meu cais
Só percebi meu naufrágio
Quando era tarde demais
Vi Anabela partindo
Pra não voltar nunca mais


Ditirambo faz temporada na Casa da Ribeira

Divulgação/Ditirambo


Geralmente o espectador sai de casa num sábado à noite para assistir a uma peça teatral na qual personagens contam uma história. E quando essa história é a do próprio Teatro? Essa é uma das intenções do texto de Debacoabete, que foi sucesso de público nos anos 1990, e volta a ser montada pelo Grupo de Teatro Ditirambo, que comemora 10 anos de formação e faz temporada na Casa da Ribeira, durante os finais de semana de maio. Os ingressos podem ser comprados na bilheteria da Casa ou reserva pelo número 3211 7710.




Com assinatura do ator e diretor, César Amorim, Debacoabete é uma comédia que faz uma espécie de “metateatro”, já que dentro da história da personagem Bete, os cinco atores – que se revezam entre 30 personagens – vão contando a história do teatro, desde o coro, as tragédias gregas como Medeia e Jazão, Ulysses, Penélope, Cassandra, assim como também referências da Comédia Dellarte, Pantomima até chegar nos dias atuais. Mas não foi fácil convencer Amorim a liberar o texto. Segundo o diretor da remontagem e ator desde a formação do Ditirambo, Marcelo Chaves, ele não gostava muito da finalização original e foram precisas várias viagens ao Rio de Janeiro, onde César Amorim mora atualmente, trabalhando com teatro e televisão. “Conversamos muito, eu também ligava para ele quando estava aqui e conseguimos chegar a um final satisfatório”, sem revelar mais nada, claro, sobre quais foram as soluções que encontraram. Com um trabalho de direção cênico, Chaves explica que a concepção dos personagens por parte dos atores acaba sendo bastante democrática e num “processo coletivo de criação”. Eles também contaram com uma força, e experiência, do ator e diretor Henrique Fontes, que participou da primeira montagem.




São cerca de 30 personagens, divididos em cinco atores em cena: André Barreto, Adriana Borba, Márcia Lohss, Paulo Assunção e Ramona Lina. Além de contar com o trabalho de bastidores de: Débora Medeiros (iluminação); Johann Jean (sonoplastia); Ricardo Sanmartin8 e Fátima Rocha (figurinos) e Plínio Faro (adereços). Chaves também faz a produção e adereços do grupo. As três atrizes que compõem parte do elenco da peça são todas veteranas, com mais de 10 anos de palco. Já os atores, são praticamente estreantes e todos concordam que essa diversidade foi saudável no resultado final do trabalho que será mostrado para o público.




Ramona Lina, por exemplo, tem 11 anos de teatro. Ela faz seis personagens e, embora uns ou outros tenham mais texto, ela diz que não consegue ver nenhum como mais importante ou principal. “É uma peça com grande variação e personagens complexos entre eles. A esfinge, por exemplo, que eu faço, só mexe com o rosto e é difícil de trabalhar com tão poucos elementos”. Mas, pelo menos a julgar pelos ensaios, as dificuldades naturais do trabalho do ator, são rapidamente dribladas pelas gargalhadas que os próprios atores e diretor dão na boca de cena. “A gente se diverte muito fazendo”, admite ela. Uma outra veterana nos palcos de Natal é a atriz, Adriana Borba, que faz entre outros personagens, a professora Carmosita, responsável por “amarrar” o texto atual com a história do teatro: “É como se fosse o power-point da professora Carmosita, é ela quem puxa cada cena que vai sendo representada pelos atores e vai contando a história, ou as inúmeras histórias do teatro. Esse espetáculo é muito bacana porque pode agradar a vários públicos. Quem não conhece o teatro a fundo, pode ter um panorama dessa trajetória. E quem já gosta e entende de teatro vai ter momentos de referências teatrais. Eu acredito que a peça é uma grande homenagem ao teatro”, resume.




Márcia Lohss falou do processo de criação e das diferenças de direção cênica de Chaves com relação à sua experiência anterior: “Esse processo de montagem foi muito curioso para mim, porque eu tinha um jeito de trabalhar diferente do jeito do Marcelo (Chaves) e a gente acabou encontrando um jeito novo de fazer a coisa. E foi muito boa a energia que rolou tanto de quem já está na área há mais tempo, quanto para quem sentia o frescor do novo chegando”, diz. E ela arrisca dizer que esse novo espetáculo Debacoabete não é uma remontagem e sim uma “releitura”, já que contou com conversas, discussões e muita abertura para todo mundo criar e construir seus personagens.




O diretor Marcelo Chaves explica porque que no cartaz de divulgação ele diz que a peça é a “Comédia do Ano”: “É porque em Natal não se faz comédias, se faz shows de humor. E comédia é uma das formas de se apresentar o teatro. A gente se enquadra no besteirol, no nonsense, no texto lúdico e, claro, faz sátiras sobre grandes clássicos do teatro mundial”, encerra. Debacoabete volta a partir do dia 7 de maio, para uma temporada na Casa da Ribeira, durante todo aquele mês.





Debacoabete – peça teatral
Dia: finais de semana de maio
Hora: 21h, sábado e 20h, domingo
Local: Casa da Ribeira
Ingressos: R$ 30 inteira e R$ 15 meia





* Esse texto é uma reprodução da matéria publicada no O Jornal de Hoje, p.19 - Edição 30 de abril e 01 de maio, na ocasião da estreia, que foi no sábado passado, no TAM. Quem quiser divulgar, ir (a peça é muito boa), fazer matéria, é só apitar. Estamos à disposição, sou assessora do Grupo.




segunda-feira, 2 de maio de 2011

Particularidades




Agora, cada livro, parede, objetos, quadros, cortinas amarelas, pedaços de papel, canetas coloridas, azuis, pretas, chaveiro, calendário, porta-retrato, colar de pérolas falsas, travesseiro, bolsa, uma garrafa vazia de Stella Artois guardada como souvenir de comemoração de aniversário, um palhacinho reformado, uma boneca de feltro da guatemala, sapatos, três gatos e seus bigodes, uma lixeira vazia, dois livros a postos, o som da TV no outro cômodo da casa, jornais, pedaços de mim, dedos batendo nas teclas, um cheiro de lavanda no ar, transpiram substâncias que falam por si só.